Entrevista com o fã e coleccionador: Fabio Razzo Galuppo

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Fabio Razzo Galuppo: O meu nome é Fabio Razzo Galuppo, nasci na capital de São Paulo, num hospital no bairro da Liberdade, próximo a estação do metrô São Joaquim em 10 de Novembro de 1973, aqui no Brasil. Por questões profissionais, passei algum tempo fora de São Paulo em algumas outras localizações do Brasil, mas a maior parte da minha vida e história acontecem aqui em São Paulo.
Sou Engenheiro de Software, outro nome para programador de computadores, onde actuo aproximadamente na área de tecnologia por quase duas décadas. Sou apaixonado por Ciência da Computação e Matemática, inclusive tenho Mestrado em Inteligência Artificial – assunto muito popular hoje em dia.

Quando nasceu o seu interesse pela banda desenhada?
Fabio Razzo Galuppo: O meu interesse pela banda desenhada (ou gibis, ou quadrinhos, como dizemos por aqui) começou entre a infância e a adolescência. Sempre admirei as histórias marcantes de Will Eisner e personagens como O Justiceiro e Conan. Provavelmente, o interesse deve ter nascido bem antes disso, pois sempre achei os desenhos uma forma de arte bela e na minha infância admirava as capas dos discos do Iron Maiden e do Marillion.

Quando descobriu Tex?
Fabio Razzo Galuppo: Descobri de um jeito bem simples, mais ou menos entre 2011 e 2013, acordei um dia e tive um lampejo:  “Quero ler um Tex!”.
Alguns anos antes, por volta de 2009 e 2010, estava passando com uma certa pressa pela famosa Avenida Paulista, e lá vi numa banca de jornal e revistas a capa de um Tex que me chamou atenção (Os Soldados-Búfalos), pois gosto muito dos filmes do tema, em especial: Tempo de Glória, Os Soldados Búfalos, O Álamo e Bravura Indómita.
Neste dia em que “descobri” Tex, acordei e “fui atrás” deste exemplar (Os Soldados-Búfalos) e notei que aquela revista não acabava ali, eu precisava das outras duas que continuavam e concluíam a história. (a saga Os Soldados-Búfalos foi lançado pela Mythos no Tex n. 472 e teve conclusão na número 474). Actualmente, esta é uma das minhas histórias favoritas do universo Tex! À medida que vou conhecendo os detalhes deste universo, não foi surpresa quando percebi que essa  história fora escrita pelo mestre Mauro Boselli e ilustrada magistralmente por Giovanni Ticci – ainda acho que ela merece um exemplar luxuoso, colorido e com capa dura.

Porquê esta paixão por Tex?
Fabio Razzo Galuppo: O universo de Tex é muito rico. O que me atrai são: as personagens, os diálogos (entre Willer e Carson), as frases icónicas (“Está querendo ir cavocar carvão nas fornalhas de Mr. Satanás?” – eu e o meu irmão passamos bons tempos falando esta e outras frases e rolamos de rir), as tramas, o lado histórico – misturando ficção e realidade, a capacidade dos italianos reproduzirem tão bem o Oeste da América e a arte que é belíssima.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Fabio Razzo Galuppo: Definitivamente, os valores, as virtudes e a intuição de Tex Willer são seus super poderes! Soma-se a isso seu espírito de liderança e a sua pontaria certeira com canhões e punhos.


Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Fabio Razzo Galuppo: A minha colecção tem em torno de 500 exemplares das diversas categorias da Mythos até às versões luxuosas (Mythos, Salvat e importados de Portugal e Estados Unidos). Ainda o mais importante para mim é a saga Os Soldados-Búfalos – seguida por Patagônia, O Cavaleiro Solitário, O Passado de Kit Carson, Conspiração contra Custer, Os Sete Assassinos, A Noite dos Assassinos e a história de Jethro! (Mythos, Tex nº 578 e 579).

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Fabio Razzo Galuppo: Apenas colecciono os livros, mas acho que poderei ter interesse por algum outro item no futuro.

Qual o objecto Tex que mais gostaria de possuir?
Fabio Razzo Galuppo: Toda a colecção de histórias do Tex (e algumas outras da casa Bonelli, como por exemplo: Dragonero – como ainda não domino a língua italiana me limito às revistas traduzidas para português ou inglês).

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Fabio Razzo Galuppo: Acredito que esta pergunta eu respondi anteriormente, e sendo apenas uma opção ela é: a saga Os Soldados-Búfalos. Sobre desenhador (ou desenhista) é muito difícil escolher entre Fabio Civitelli, Pasquale Frisenda, Giovanni Ticci, Aurelio Galleppini, Joe Kubert e tantos outros talentos. No entanto, para argumentista minha escolha definitiva é Mauro Boselli – com todo respeito e admiração a Gianluigi Bonelli e a Claudio Nizzi.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Fabio Razzo Galuppo: Em termos de conteúdo: O que menos me agrada é a fuga do contexto Western, por exemplo, pirâmides astecas e dinossauros. O que mais me agrada é a participação das figuras históricas (por exemplo: Custer ou Grant) e a profundidade temática de histórias como Jethro!
Em termos de distribuição: O que menos me agrada é Tex nos Estados Unidos não ter a mesma popularidade e reconhecimento merecido de países como o nosso Brasil, Portugal e Itália. O que mais me agrada é o Brasil ser o país que mais publica Tex fora a Itália.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Fabio Razzo Galuppo: Na minha opinião, os 70 anos forjaram uma identidade marcante aos personagens e o corpo de histórias elaboradas e desenhadas pelos diversos e talentosos artistas. Acredito também que o empenho e a determinação da Sergio Bonelli Editore contribuíram para Tex virar um ícone no mundo da ficção.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Fabio Razzo Galuppo: Ainda não, mas tenho interesse. Isso deverá começar a acontecer no Festival de Quadrinhos de Limeira.
Estou conhecendo este mundo de fãs e coleccionadores através do Tex Willer Blog (https://texwillerblog.com/) e do Clube Tex Portugal. Tudo isso começou quando assisti o canal Quadrinhos & Cia do Eduardo no YouTube (https://www.youtube.com/channel/UCKuSSaVMf9rkpwNbReoRKmQ) que também parece ser fã incondicional de Tex, e lá tive oportunidade de conhecer o blogue do Tex.


Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Fabio Razzo Galuppo: Espero ver o Tex e seus pards chegarem a 100 anos, e gostarei muito de ver de perto a comemoração centenária! Também espero algum dia ver e jogar um game no melhor estilo Red Dead Redemption com o Ranger e sua turma. Além disso, a Netflix ou a HBO produzir uma super série com o universo Tex e a History Channel ou a Discovery Channel fazer um super documentário… E acima de tudo ele ter o sucesso que merece ao redor do mundo!

Prezado pard Fabio Razzo Galuppo, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

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Pranchas de Tex INÉDITAS de R. M. Guéra, desenhador sérvio de Scalped e de GodDamned que está a desenhar Tex

O Coimbra BD 2018 – Mostra Nacional de Banda Desenhada que teve em Março a sua terceira edição, realizada tal como as anteriores na Casa Municipal da Cultura, encerrou as suas portas depois de  mais uma aposta firme da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) no panorama cultural português.

Pranchas de Tex INÉDITAS de R. M. Guéra, expostas no Coimbra BD-2018

O evento conimbricense, internacionalizou-se este ano pela primeira vez ao contar com a presença de dois consagrados desenhadores europeus: Walter Venturi e R. M.  Guéra, que com estas suas presenças vieram dignificar e ao mesmo tempo mostrar a maior consideração e maior relevo dado pelo Município de Coimbra a esta Festa Anual da Banda desenhada em Portugal, tendo a particularidade de este ano também ter aberto as portas ao maravilhoso mundo do Ranger,  já que Walter Venturi faz parte do staff oficial de desenhadores de Tex, mas havendo também a particularidade do desenhador sérvio estar no presente a desenhar uma história de Tex Willer, tendo inclusive exposto em Coimbra três pranchas inéditas dessa mesma história, numa antestreia mundial de grande impacto para o nosso país, pranchas essas que hoje damos a conhecer a todos os nossos leitores.

Walter Venturi e R. M. Guéra ABRILHANTARAM o Coimbra BD 2018

Rajko Milošević mais conhecido por R. M. Guéra, nasceu em Belgrado em 1959 e vive em Barcelona, Espanha, desde 1991. Estreou-se na indústria jugoslava da Nona Arte em 1982 com a série Elmer Jones, um western escrito por Dragan Savić. Mais tarde, em 1984, colaborou em Texas Riders. O trabalho de R. M. Guéra foi publicado em Espanha, França e Estados Unidos. O autor trabalhou também na série Scalped, da Vertigo Comics, com o escritor Jason Aaron, bem como em Le Lievre de Mars.


R. M. Guéra confirmou durante o evento conibricense estar a trabalhar uma história de Tex, a ser publicada num futuro cartonado a cores, história essa que está a ser escrita por Pasquale Ruju e que terá cores de Giulia Brusco (que já tinha colaborado com Guéra na recente série The Goddamned).  Será uma aventura de um Tex jovem, nos seus primeiros anos de Ranger e com ambientação ao redor do Rio Bravo e cujo título provisório é “Arma dourada“. Tem lançamento previsto para Fevereiro de 2020.

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As Leituras do Pedro – Julia: O eterno repouso

As Leituras do Pedro*

Julia: O Eterno Repouso
Giancarlo Berardi (argumento)
Sergio Toppi (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 3 de Maio de 2018
190 x 260 mm, 136 p., pb, capa dura
10,90 €.

Julia, finalmente

E ao quarto volume da Colecção Bonelli finalmente chegou Julia.
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Quem segue este blogue, sabe que já lhe dediquei muitos textos – quase quatro dezenas, na verdade! – por isso esta edição foi duplamente agradável para mim. Pela edição em si e, acessoriamente, porque tive a oportunidade de a traduzir – e dessa forma entrar mais profundamente na escrita de Berardi.
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Julia – como em tempos Ken Parker, que não por acaso tem criação e escrita do mesmo Giancarlo Berardi – é uma excepção (preferem um caso à parte?) – no universo Bonelli, desenvolvido com base em heróis fortes e infalíveis, determinados e sem dúvidas.
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Julia – como Ken Parker… – não é assim. Tem dúvidas e poucas certezas, falha por vezes, não é forte e muito menos infalível, embora a determinação seja uma das suas características. É antes de tudo humana e gosta de observar os outros, de – mais do que apanhar os criminosos – compreender as motivações, as questões, as razões que os levaram aos actos. Pessoais e sociais. Individuais e colectivas. Voluntárias e provocadas.

Mulher autónoma, embora por vezes dependente, professora universitária, consultora, enquanto criminóloga, da polícia da – fictícia – Garden City onde vive, solteira – enquanto a isso a Bonelli obrigar…? – o que não a impede de alguns relacionamentos pontuais, mais ou menos duradouros, Julia é protagonista mas não heroína, é principalmente humana.
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Como humanas – com generosas doses de crítica social – são as histórias que Berardi – com alguns (poucos) cúmplices na co-escrita – tem partilhado com os leitores desde há muitos anos para cá.
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Não sendo, possivelmente, esta a melhor história de Julia – qual será, afinal, entre as mais de duas centenas já publicadas? – é uma bela porta de entrada para um universo em constante construção e mudança ou não fosse todo ele baseado em factos reais e situações que reconhecemos do nosso próprio quotidiano globalizado.

Em O Eterno Repouso, tudo começa com o desaparecimento de um dos internos de um lar de idosos e uma macabra descoberta no jardim do mesmo lar. Em paralelo – com a inevitável confluência a que Berardi já nos habituou – conhecemos um casal em rota de colisão e um assaltante de pequena escala e pouca sorte.
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Os problemas – e algumas vantagens… – geralmente associados à velhice – a solidão, o esquecimento, o abandono, a perda de qualidades… – a dificuldade (directa e indirecta) dos relacionamentos – ainda mais quando os seus componentes estão em posição (de força) diferentes – e a pressão social, ganham aos poucos contornos de protagonismo e são estas temáticas que vão balizar mais uma história forte e fracturante de Julia, daquelas que não acabam quando se fecha a edição.
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Inevitavelmente – revejo os textos que já escrevi sobre esta colecção e lá está sempre este factor – tenho de falar do desenhador.
Esta história foi escolhida por causa dele, no caso o grande, enorme Sergio Toppi – autor do belíssimo Sharaz De – que não teve problema em colocar a sua arte ao serviço de uma série regular mensal, por isso com um apertado caderno (gráfico) de encargos. Toppi cumpre a sua função, adaptando o seu traço ao visual da série, com reforço na expressividade dos intervenientes, e brilha especialmente na (forte) sequência do pesadelo.
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Mais um sinal da importância da Bonelli em Itália onde, como Toppi, grandes nomes dos quadradinhos não têm hesitado – quando não mesmo pedido – em colocar a sua (grande) arte ao serviço de produções essencialmente populares…
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*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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