Todo o processo de criação (iniciado em Itália) da capa (brasileira) de Tex Ouro #86

Por José Carlos Francisco

Quando muitos de nós vemos uma capa de Tex Edição Histórica ou mais recentemente de Tex Ouro nas bancas de todo o Brasil, não imaginamos por vezes o quão difícil e quantas horas de trabalho foram necessárias desde a ideia inicial da criação dessa capa até se chegar ao resultado final exposto nas bancas brasileiras ou nos alfarrabistas portugueses, tendo em conta que em Portugal já há cerca de dois anos que as revistas da Mythos não são distribuídas por cá…

Antes do falecimento do mítico editor Sergio Bonelli tudo começava com um esboço da imagem pretendida, determinado pelo próprio editor milanês, já que ao contrário do que muitos pensavam, o desenhador não tinha liberdade para fazer a capa que bem entendesse para a história, até porque na grande maioria das vezes, Claudio Villa não ia reler a história antiga.

Vinheta de Andrea Venturi que serviu de base para a capa de Tex Ouro 86

Por motivos vários, desde vetos do editor que não as considerava apropriadas ou por decisão do próprio desenhador que não ficava agradado com o seu trabalho, algumas capas chega(va)m a ter várias versões conforme já mostramos por diversas vezes aqui mesmo no blogue do Tex, mas damos a Claudio Villa a palavra para nos explicar o processo de criação ACTUAL de uma capa brasileira de Tex Edição Histórica e/ou de Tex Ouro:

Esboço inicial de Claudio Villa inspirado na vinheta de Andrea Venturi

“Se no passado tudo nascia na editora, onde Sergio Bonelli examinava pessoalmente a história em questão para procurar uma cena “de capa” entre as vinhetas desenhadas e depois elaborava um esboço veloz que me era enviado por fax, junto às cópias das páginas correspondentes (em geral, duas ou três), hoje em dia cabe-me a mim seleccionar a cena a eleger.
A partir daí, começo a trabalhar, preparando a cena “de capa”.
Em síntese, é preciso cuidar do enquadramento, da luz e do movimento das personagens: a capa deve contar sem revelar, deve ser legível e imediata, deve interessar e ser suficientemente dinâmica.
Às vezes, falta uma cena significativa e então ela é “construída” com os elementos extraídos da história.
Algumas vezes, para conseguir o melhor, cheguei a seis, sete esboços. É incrível de quantas maneiras se pode contar, em igualdade de situação, uma cena. E cada vez descobrir uma “temperatura” diferente, só deslocando o ponto de vista, a luz ou a disposição das personagens.“

Inclusive as cores da capa, são da responsabilidade de Claudio Villa:
“Eu dou uma “indicação” de cor: faço uma fotocópia em A4 a preto e branco e passo a colori-la com tintas líquidas, pintando-a como gostaria de vê-la impressa. Depois é o impressor que deve, com os seus instrumentos, aproximar-se daquilo que fiz…“

Ilustração final já com as cores de Claudio Villa

Mas falando desta “capa” (publicada a 15 de Janeiro de 2014 na edição nº 343 de Tex Nuova Ristampa) em específico  e que se tornou a capa brasileira de Tex Ouro #86 (Setembro de 2016), Claudio Villa confidencia-nos: “A ilustração que elegi para a capa de Tex Ouro #86 foi inspirada numa vinheta original, de Andrea Venturi, publicada na página nº 95 da edição (italiana) nº 513 da série principal de Tex.
No Brasil ela foi reduzida, já que o formato das capas brasileiras têm uma estrutura concepcional numa forma quadrangular o que me faz ter esse facto em conta e por isso a enquadratura principal dos mini-pósteres deve conter tudo aquilo que se deve ver no Brasil. Somente após é que alongo a ilustração para uma forma rectangular para que possa então ser publicado no formato bonelliano. Deste modo a capa no Brasil não sai prejudicada já que o seu alongamento para Itália apenas acresce para cima, para baixo e para os lados pormenores irrelevantes já que a enquadratura correcta é a inicial, a quadrada!
”

Póster Tex Nuova Ristampa 343

Realce-se ainda que as capas que, de início, eram para ser uma exclusividade de Tex Edição Histórica, ficaram então tão boas que a Sergio Bonelli Editore passou a publicá-las também na Itália, como mini-pósteres encartados em Tex Nuova Ristampa, tendo a Mythos Editora também as adoptado para outras séries brasileiras de Tex como é então o caso deste Tex Ouro.

A capa brasileira de Tex Ouro 86

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

SECRET ORIGINS: TEX CLASSIC 5

Por Saverio Ceri [1]

Quinto encontro dedicado à retrospectiva das capas de Tex Classic, colecção quinzenal italiana que republica, a cores, as aventuras do Ranger criado por G.L. Bonelli.

Com a sua camisa vermelha, Tex ocupa o centro da cena na quinta capa. Aquela camisa “não regulamentar”, que se usada numa das capas actuais, faria o mais fanático dos adeptos de Tex gritar em escândalo (hoje é problemático mudar as cores, Tex deve ter sempre camisas amarelas!), à época era normal vê-la em capas, já que essa roupagem texiana, destacava-se bem contra os fundos geralmente amarelados das primeiras capas no formato stricia (talão de cheques).

De facto, na época dos Albi d’oro, na redacção Bonelli não se preocupavam sequer que o protagonista devesse comparecer em todas as capas, muito menos que fosse imediatamente reconhecível. Somente mais tarde é que foram afinados alguns expedientes na composição de uma capa bonelliana, de modo a tornar mais visível, para o comprador, o protagonista, deixando-o sempre em evidência com um look imutável e pondo o logótipo no alto à esquerda, ao lado ou no limite, sob o título, uma situação sem precedentes relativamente às capas anteriores, mas também com as de quaisquer reimpressões vendidas nos quiosques italianos naquela época.

Tudo isto no tempo das striscias ainda não era aplicado, consequentemente não era incomum encontrar duas capas consecutivas que narravam uma cena muito semelhante, como por exemplo uma luta num bar, como neste caso.

Tex Classic #5 – Sangue sulla frontiera

Nesta nova colecção de republicações, o problema das aparências passa para segundo plano, ou melhor a Editora Bonelli preferiu, sempre que possível, manter inalterada a imagem original, tendo em conta que o protagonista da série é bastante intuitivo graças ao inconfundível logótipo que ocupa boa parte da capa. E assim sendo, que se use a camisa vermelha, como foi usada na capa original… ou quase, já que a endossada por Águia da Noite na capa do nono Albo d’oro (Outubro de 1952) é mais alaranjada do que vermelha. Capa a qual pode ser admirada em todo o seu esplendor e fascínio vintage, graças à imagem retirada do sítio internet www.collezionismofumetti.com. 

Albo D’oro Tex #9

A capa deste nono Albo d’oro, narra uma situação similar àquela do vigésimo quinto volume em tiras, datado de 13 de Março de 1949, mas… triplicada a dimensão da imagem, triplicados os adversários: três patifes prontos a porem as mãos no nosso protagonista, mas sempre menos perigoso do que enfrentar o único pistoleiro solitário da capa de L’estrella de Rio que pode ser vista de seguida:

Collana del Tex – Série I – nº 25 – “L’estrella de Rio”

Na realidade, graficamente, a imagem com a qual estamos a ocupar-nos agora é claramente inspirada em duas outras capas das striscias de Tex de 1949. A pose de Tex e do seu oponente mais próximo vêm directamente da capa da edição nº 39, que vemos abaixo. Em sequência, a versão à venda na época nos quiosques italianos e o desenho original de Galep antes da colorização na gráfica:

Collana del Tex – Série II – nº 39 – “Agguato al Passo di Tula”

Collana del Tex – Série II – nº 39 – “Agguato al Passo di Tula” – Arte original de Galep

A pose preocupada da garota do saloon, atrás de Tex é tirada da décima quinta striscia de Tex. Observe-se, no entanto, como em poucos anos se passa dos ombros nus das duas senhoras, das tiras de 1949, para os ombros estritamente cobertos da protagonista da capa de 1952. O selo da Garantia Moral ainda não aparece, mas já se intuí o advento iminente.

Voltando ao tema do “traje típico” do Ranger, num dos próximos apontamentos, também encontraremos espaço para conversar sobre a primeira aparição da mítica, institucional, camisa amarela.

Collana del Tex – Série I – nº 15 – “Uno contro cinque”

Saverio Ceri

Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rúbrica Secret Origins: Tex Classic

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 18/05/2017; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2017 Saverio Ceri

Os OITO esboços necessários para realizar a capa de Tex Willer n° 21 e ainda o lápis, a tinta-da-china e as cores originais de Maurizio Dotti

Mauro Boselli exibe orgulhosamente dois exemplares de Tex Willer nº 21 que contém uma história de sua autoria

Por vezes, para chegar à realização de uma capa, neste caso de Tex Willer (a série dedicada ao jovem Tex e que traz as aventuras de Tex quando ele ainda era um fora-da-lei!), o desenhador tem de recorrer a diversos esboços até chegar à ilustração pretendida e que se tornará a capa definitiva.

Tal aconteceu uma vez mais com a edição número 21 de Tex Willer, cuja capa, como todas até ao presente, é da autoria de Maurizio Dotti, com a particularidade de Dotti ter feito uma vez mais OITO esboços diferentes até dar-se por satisfeito, como poderemos ver de seguida, já que vamos dar conhecimento aos nossos leitores de todos os OITO esboços realizados por Maurizio Dotti, assim como também mostraremos a arte eleita arte-finalizada com tinta-da-china e também com as cores originais do próprio Dotti, concluindo com a capa tal como ela foi publicada, no passado dia 18 do mês de Julho, pela Sergio Bonelli Editore, com o título “I volontari della Florida“, a quarta parte de uma história escrita por Mauro Boselli e desenhada por Michele Rubini:

Primeiro esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Segundo esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Terceiro esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Quarto esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Quinto esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Sexto esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Sétimo esboço para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Oitavo esboço (o eleito) para a capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Arte a lápis da capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Arte final a tinta-da-china da capa de Tex Willer #21, da autoria de Maurizio Dotti

Ilustração para a capa de Tex Willer #21, com as cores originais de Maurizio Dotti

Capa de Tex Willer #21

(Para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas)

Mefisto, Tigre Negro e El Muerto: Arqui-inimigos de Tex na Arte de Marco Bianchini

Mefisto, Tigre Negro e El Muerto são três dos principais arqui-inimigos de Tex que Marco Bianchini, consagrado desenhador do staff de Tex, retratou recentemente e que vamos aqui divulgar para gáudio dos nossos leitores, acompanhado de uma breve apresentação de cada um desses três míticos e diabólicos personagens que estão por mérito próprio na galeria dos maiores inimigos de Tex Willer! Mas antes falemos um pouco do autor.

Marco Bianchini em Portugal, 2008

MARCO BIANCHINI nasceu a 19 de Junho de 1958 e é um dos mais antigos e mais conceituados desenhadores da Sergio Bonelli Editore, para onde entrou em 1985, tendo desenhado histórias de Mister No durante 20 anos até que foi promovido para o staff do Tex, tendo-se estreado na série italiana  em Outubro de 2008, ano em que inclusive foi, a par de Fabio Civitelli, uma das grandes estrelas presentes no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, mais precisamente no mês de Novembro abrilhantando o espaço da exposição dedicada aos “60 anos de Tex”.

BIANCHINI também trabalha, desde o final do século passado, para o mercado francês, onde criou (argumento e desenho) a personagem de Ficção Científica, Termite Bianca, publicada não só em França, mas também em Itália. Para além de tudo isto, MARCO BIANCHINI, dirige a Escola Internacional de Banda Desenhada de Florença!

O diabólico Mefisto na estupenda Arte de Marco Bianchini

Se é verdade que a grandeza de um herói se vê pela grandeza do seu pior inimigo, a longa e interminável luta de Tex Willer contra Mefisto assume necessariamente os contornos de uma luta entre titãs. Uma batalha que foi renovada várias vezes, no decurso dos mais de 70 anos de vida editorial do Ranger bonelliano. Quando o destino os reúne pela primeira vez, Tex é ainda um fora-da-lei, alistado, pelo seu valor, no serviço secreto dos Rangers; “um rapaz inteligente”, forçado a participar contra a sua vontade, na guerra que inflama a fronteira entre o Texas e o México. Uma dupla de espiões, em suma, prontos a matar se necessário fosse para continuar a fazer o seu jogo duplo. Várias histórias entre ambos caracterizam estes confrontos, numa das mais emocionantes séries de desafios já vividas por uma personagem e o seu principal inimigo em toda a história da banda desenhada mundial, numa verdadeira luta entre o Bem e o Mal.

O terrível Tigre Negro na magnífica Arte de Marco Bianchini

O Tigre Negro é um inimigo perfeitamente habilitado a enfrentar Tex, mas perante o qual o Ranger permanece sempre seguro de si, ciente que mais tarde ou mais cedo vai acabar por derrotar este adversário, como afinal sempre derrotou todos os outros. Com o Tigre Negro, Tex mergulha em temáticas pouco clássicas do género, demonstrando ser um herói adaptado a enfrentar qualquer situação, entre o real e o fantástico, entre as dúvidas e as certezas, com maior ou menor fanatismo.
Na sua génese esteve a vontade de Claudio Nizzi em criar um novo grande inimigo para Tex, alguém que os leitores pudessem reter na sua memória, tal como o fizeram com Mefisto e Yama, por exemplo, e dessa forma entrar para o galarim das personagens mais marcantes da série. Se o Tex bonelliano forte e seguro de si encontrou em Mefisto um adversário perfeitamente à sua altura, nada mais natural que o Tex de Nizzi também tivesse um adversário que pudesse enfrentar a contento o Ranger. 

Segundo o próprio Nizzi, alguém que ao mesmo tempo, tal como Mefisto, fosse capaz de exercer semelhante fascínio, fosse também hábil, astuto, pleno de truques e que pudesse impressionar pela sua força mental e pela sua inteligência. E assim nasceu o Tigre Negro, na verdade o príncipe de Sumarkan, um senhor respeitado na sua ilha, a Malésia, até ser deposto do seu trono pelos brancos, tornando-se então num pirata temido, até acabar como escravo nos Estados Unidos, no meio dos muitos que contribuíram para a construção e expansão do caminho-de-ferro. Personagem misteriosa por excelência, rapidamente coloca a sua inteligência sádica ao serviço do mal. Seja em Leadville, onde começam os confrontos com Tex, em Nova Orleães, onde o Tigre Negro constituiu uma rede de delinquentes, ou em São Francisco, onde o príncipe do mal lidera um lucrativo comércio do ópio, a verdade é que os leitores desde o início adoptaram este inimigo como uma das mais bem conseguidas personagens maléficas da série. Escondendo a sua verdadeira face sob uma máscara ou dissimulado em várias identidades, o Tigre Negro inicia um combate contra o governo norte-americano com o intuito de derrubar o poder do colonizador branco, qual personagem surgida das páginas de grandes clássicos da literatura de aventuras de Júlio Verne ou Emílio Salgari.

O maquiavélico El Muerto na deslumbrante Arte de Marco Bianchini

El Muerto é um personagem bem delineado, um dos mais marcantes vilões que Tex enfrentou, não tanto pelos seus actos, mas pela forma como se impõe ao Ranger quase até final. Um vilão movido por um insano (?) desejo de vingança, que nem as explicações do Ranger, no cemitério, conseguem demover. O que só contribui para acentuar o seu lado trágico e, surpreendentemente, para lhe dar consistência e credibilidade. A tensão acumulada ao longo das pranchas da única aventura que contou com a participação do vilão, aumenta ainda mais quando Tex e El Muerto finalmente se encontram cara a cara no cemitério que este escolheu para se desvendar e ao segredo que há anos carregava. De uma forma (invulgarmente) leal e correcta, posicionando-se no capítulo moral no patamar que (apenas) Tex costuma ocupar, o que reforça ainda mais o seu impacto. Só dessa forma, aliás, seria possível o longo flash-back, em que um e outro vão completando a história – e em que finalmente serão desvendadas as razões que motivavam o bandido.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Vídeo: TEXIANOS LIVE SHOW

TEXIANOS LIVE SHOW é uma nova iniciativa brasileira, apoiada pela Confraria Bonelli e que foi ao ar, na Internet mundial, ontem, dia 15 de Agosto e que resultou numa agradável conversa texiana a cinco durante quase duas horas e meia com a coordenação de Ge Ge Carsan (Autor sobre Tex).

Contou ainda com a participação de Ricardo Elesbão (Confraria Bonelli), Adriano Rainho (Canal The Rainho), Jesus Ferreira (Zona Franca Comics) e Jefferson Ribeiro (Canal Cangaceiro HQ), tendo como temas principais: Momento texiano – Compras, bancas, atrasos; Colecções – comprando tudo, parou alguma, esperando promoções; Previsões – Tex edição limitada e Tex Salvat; Segundo livro do Adriano Rainho – Meu Irmão Mais velho Tex Willer, como pode ver de seguida no vídeo que damos a conhecer aos leitores do Tex Willer Blog: