O adeus a Alfredo Castelli, destacado argumentista italiano

(26 de Junho de 1947 – 7 de Fevereiro de 2024)

Alfredo Castelli (26 de Junho de 1947 – 7 de Fevereiro de 2024)

Texto do Jornal de Notícias online de 07/02/2024
BD
F. Cleto e Pina

O mundo dos fumetti (designação italiana para as histórias aos quadradinhos) está mais pobre: Alfredo Castelli, o argumentista que tornou erudita a banda desenhada popular faleceu esta quarta-feira, contava 76 anos.

Natural de Milão, onde nasceu a 26 de Junho de 1947, Castelli iniciou a sua carreira de autor de BD com apenas 16 anos, quando criou a tira humorística, “Scheletrino”, que ele próprio escrevia e desenhava.

Nos anos seguintes desenvolveu actividades em diversas áreas, comprovando a versatilidade que viria a fazer dele uma das maiores figuras dos quadradinhos italianos: escreveu argumentos para várias editoras, incluindo a Disney italiana, criou com Paolo Sala, o “Comic Club 104” (1966), o primeiro fanzine italiano dedicado à BD, escreveu guiões de publicidade para a TV, meio para o qual assinou também o argumento da série “Cappuccetto a Pois” (1969) e foi dele a história do filme “Il tunnel sotto il mondo” (1969).

O ano seguinte encontra-o como co-fundador, com Pier Carpi, da revista “Horror”, multiplicando as colaborações com as principais editoras do seu país, nalgumas delas com criações próprias como “L’Ombra”, “Gli Aristocratici” ou “L’Omino Bufo”.

A sua vida mudaria em 1978, quando iniciou a colaboração com Sergio Bonelli, que lhe pediu argumentos para “Mister No” e “Zagor”. Dois anos depois, apresentava ao editor milanês o primeiro esboço daquela que seria a sua grande criação: Martin Mystère, o Detective do Impossível, arqueólogo, investigador e apresentador televisivo.

Embora seguisse o modelo tradicional com um trio de protagonistas, Mystère, o cérebro, Diana a bela e sensual noiva eterna (com quem Martin viria a casar muitos anos depois) e Java, a força bruta, um homem primitivo do Neandertal resgatado numa das aventuras, e Sergej Orloff e os Homens de Negro, os vilões de serviço recorrentes em muitas histórias Castelli dotou a sua criação, cujo visual foi entregue a Giancarlo Alessandrini, de uma característica que a viria a distinguir das outras séries populares da editora, como Tex ou Dylan Dog: passou para o protagonista o seu interesse pessoal pelos grandes mistérios da humanidade, dando um tom erudito à banda desenhada, sem que ela perdesse as suas características populares de entretenimento de massas. Dessa forma, pelas suas páginas passaram civilizações míticas como a Atlântida ou Mú, os mistérios associados a locais reais como o Triângulo das Bermudas, a Ilha da Páscoa ou Stonehenge, objectos lendários como a espada Excalibur, extraterrestres ou povos perdidos. Martin Mystère mudou a forma como os italianos olhavam para a sua banda desenhada, associando à aventura pura e dura, temáticas modernas e mais complexas, baseadas numa investigação cuidada e com o fundo de verdade possível, apresentando-as de forma aliciante e credível para conquistar os leitores e levá-los à procura de respostas com o protagonista, embora muitas vezes elas não estejam disponíveis, sendo mantida a aura de mistério que as envolve.

A estreia de Castelli no nosso país data de 1975, quando o “Jornal do Cuto” publicou duas aventuras de ”Os Aristocratas”. Quanto às aventuras de Martin Mystère, chegaram quase sempre aos quiosques do país através de edições brasileiras, os chamados “formatinhos”, por isso há muitos leitores portugueses que se tornaram admiradores do “Detective do Impossível”. Em anos recentes duas obras de Castelli tiveram edição nacional: a primeira, “O Destino da Atlântida” (Levoir, 2018), desenhada por Roberto Cardinale e Alfredo Orlandi, é uma aventura de M. Mystère que tem como ponto de partida os Açores; a segunda, “Apocalipse – A revelação de São João”, é uma ambiciosa reinterpretação gráfica do livro bíblico, desenhada por Corrado Roi.

No site da Sergio Bonelli Editore, na despedida ao homem que tantos fez sonhar, pode ler-se que o “legado artístico e intelectual de Alfredo Castelli é enorme e, portanto, naturalmente muito pesado. Se aqueles que tiveram a sorte de estar perto dele se lembram do seu entusiasmo narrativo e do seu perene bom humor, os muitos leitores que o conheceram apenas através das páginas impressas ficam com muitas histórias em quadrinhos e inúmeros ensaios e artigos. E estes permanecerão connosco para sempre.”

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F. Cleto e Pina

Bonelli Podcast: O Tex de Fabio Civitelli

Durante a mais recente edição do Festival Lucca Comics & Games, Fabio Civitelli concedeu uma entrevista em directo ao canal YouTube da Sergio Bonelli Editore. Propomo-la agora no  podcast oficial da editora milanesa, o Fumetti Bonelli.

Em 2023 Tex comemorou os 75 anos de cavalgadas pelas bancas italianas, e entre as histórias com que a Sergio Bonelli Editore comemorou a efeméride está também “La valle dell’ombra“, publicada no Tex Magazine speciale que foi publicado em Novembro. Trata-se de uma aventura que leva Tex aos limites da realidade, graças ao argumento de Mauro Boselli e aos desenhos de um “Dream Team” composto por Fabio Civitelli, Corrado Mastantuono, Maurizio Dotti, Michele Rubini, Stefano Andreucci, Alessandro Bocci e Claudio Villa.

Naturalmente, Fabio Civitelli também acompanhou as comemorações texianas no Festival Lucca Comics, onde o Tex Magazine estava inserido numa esplêndida Tex 75 Box. Além de partecipar em encontros autografar exemplares, o desenhador toscano também se disponibilizou para uma entrevista ao vivo para o canale YouTube da Sergio Bonelli Editore com Adriano Barone e Ilaria Mencarelli, na qual falou sobre as suas últimas façanhas texianas e da sua forma de trabalhar em geral.

O resultado é uma entrevista particularmente interessante, que vos propomos em seguida no Fumetti Bonelli, o podcast oficial da editora milanesa.

Jornal de Notícias de 4 de Fevereiro: Clube Tex Portugal a marcar a agenda no universo da banda desenhada em Portugal

Texto da secção Cultura de 04/02/2024
BD
F. Cleto e Pina

Muita banda desenhada para ver em festivais nos próximos meses

Circuito de eventos cada vez mais preenchido. Comic Con, em Matosinhos, concentra atenções, mas há também iniciativas na Maia, Lourinhã ou Bairrada

Sandro Scascitelli, desenhador de Tex, vai estar na Bairrada no final de Abril

Sinónimo do bom momento que a edição de banda desenhada vive atualmente, o primeiro semestre deste ano está recheado de eventos dedicados a esta arte. Como geralmente o segredo é alma do negócio e muitas vezes as confirmações surgem em cima das datas de realização, na maior parte dos casos ainda não são conhecidos os convidados, mas há algumas exceções.

As hostilidades abrem a 18 de Março, na Lourinhã, com a segunda edição do Louri’BD no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira. Parceria da autarquia com a editora Escorpião Azul, que lançará no evento “E depois do Abril”, de Filipe Duarte e André Mateus, será dedicado ao tema “Monstros”. O evento propõe-se dar especial destaque aos autores nacionais e contará com exposições, lançamentos, uma Feira do livro e uma programação dirigida às escolas. O seu ponto alto será no fim-de-semana de 22 a 24 de Março, coincidindo com a Comic Con Portugal, que se inicia a 21.

ABRIL FESTIVAIS MIL
O maior evento de cultura pop nacional, a comemorar 10 anos de existência, regressa às origens, mais precisamente à Exponor, em Matosinhos. Não tendo na banda desenhada o seu aspeto mais mediático nem sequer exposições de originais, a verdade é que em termos relativos este é o segmento com o cartaz mais forte, como é comprovado pelos autores estrangeiros já confirmados: Miguelanxo Prado, Juan Diaz Canales, Teresa Valero, Stan Sakai, Ryan Ottley, Frank Cho, Mike Grell, François Boucq e Jordi Lafebre, que cobrem um amplo espectro da banda desenhada franco-belga aos comics de super-heróis, e que os fãs poderão contactar nas conferências e sessões de autógrafos.

Avançando no calendário, a 13 de Abril é inaugurado o Ilustra BD, nas belas instalações do Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, onde haverá exposições, feira do livro e programação variada que se estenderá até 2 de Junho.

No final de Abril, mais exatamente de 25 a 28, o Coimbra BD regressa ao Convento de São Francisco, espaço que ocupou pela primeira vez no ano passado. Desenho ao vivo, cosplay e uma grande aposta na BD nacional são os principais vetores deste festival já na sua oitava edição.

PARA FÃS DOS WESTERNS
No mesmo fim-de-semana – a 27 e 28 de Abril -, o Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, será mais uma vez ponto de encontro dos admiradores de Tex, um western em publicação ininterrupta desde 1948.

A nona edição da Mostra do Clube Tex Portugal irá, como habitualmente, propor uma exposição dedicada ao mítico ranger e conversas e sessões de autógrafos com os dois autores convidados, cujos nomes já são conhecidos: Fabio Civitelli, possivelmente o mais célebre desenhador de Tex após Aurelio Galleppini, o seu criador gráfico, e Sandro Scascitelli.

Fabio Civitelli, possivelmente o mais célebre desenhador de Tex após Aurelio Galleppini, vai estar na Bairrada

MAIA BD REGRESSA EM MAIO COM PROGRAMA REFORÇADO
Depois do sucesso da edição inaugural, em 2023, que comprovou a necessidade de um evento dedicado à BD no Norte do país, o Maia BD vai regressar a 24 e 25 de Maio. Este ano, a organização promete “ocupar todo o espaço do Fórum local com um número de exposições bem superior ao anterior, que se prolongarão no tempo para lá das datas do evento em si”. Está também previsto “um número maior de autores internacionais, a par de uma boa seleção de convidados nacionais, articulados à volta dos lançamentos a realizar nesse período”. O Maia BD é uma organização conjunta da autarquia local e da cooperativa editorial A Seita.

O semestre “aos quadradinhos” terminará com o XIX Festival Internacional de BD de Beja, como sempre da Casa da Cultura local que, de 7 a 22 de Junho acolherá um evento que, a par das exposições de originais, costuma primar pelo intenso convívio entre autores e visitantes no seu primeiro fim-de-semana. Para já, a organização só confirma dois nomes: Alix Garon e Antoine Cossé, mas entre portugueses e estrangeiros deverão ser mais de duas dezenas de convidados.

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F. Cleto e Pina

Jornal de Notícias, de 3 de Fevereiro, apresenta “Dylan Dog: Picada mortal” da Editora A Seita

Texto da secção Cultura/Sugestões de 03/02/2024
BD
F. Cleto e Pina

Dylan Dog: chegar ao céu, encontrar o inferno

Dylan Dog regressa às livrarias com novo livro de Alberto Ostini e Francesco Ripoli

Dylan Dog é uma criação de Tiziano Sclavi estreada em 1986

Hoje em dia, quando se fala de banda desenhada popular, de certa forma evocando um tempo em que ela se encontrava em generosas quantidades nos quiosques, há um nome que vem logo à mente, o de Sergio Bonelli e da editora italiana que leva o seu nome. Alicerçado no sucesso de Tex, um western puro e duro em publicação ininterrupta desde 1948, este editor milanês conseguiu criar um sistema editorial que permite alimentar, sem grandes oscilações de qualidade, ao nível gráfico e temático, as revistas de 100 páginas que mensalmente coloca à venda.

Entre outras séries – Martin Mystère, Julia, Dragonero… – que vale a pena conhecer, há uma que se destacou e chegou até a fazer concorrência à popularidade de Tex: Dylan Dog, uma criação de Tiziano Sclavi estreada em 1986. Ex-inspetor da Scotland Yard, também conhecido como Detetive do Pesadelo, pelo equilíbrio entre o real, o fantástico e o onírico que pontua as suas histórias, DD tem vindo a protagonizar a maior parte dos volumes da coleção Aleph, em que a editora A Seita apresenta aos leitores portugueses títulos da Sergio Bonelli Editore.

O mais recente é “Picada Mortal”, escrito por Alberto Ostini e Francesco Ripoli, que narram como o aparecimento de mais um cadáver de uma prostituta, horrivelmente desfigurada, a boiar num rio, irá levar Dylan até Southeaven, para investigar um assassino em série e recordar memórias, nem todas agradáveis, de umas férias da adolescência, passadas naquele local.

Será assim que reencontrará Tiffany, paixão dessa época e fará de tudo para evitar que ela seja mais uma vítima da dupla ameaça: o assassino em série e o vício da droga que a domina e a leva a prostituir-se.

Se até aqui nada parece soar muito original, “Picada mortal” tem dois trunfos que fazem dele uma leitura aconselhável. O primeiro, é o facto de longos excertos serem narrados em voz off pela própria Tiffany, antecipando, sem desvendar completamente, o que ainda está por acontecer, criando em simultâneo a curiosidade e a dúvida no leitor, o que o impele a continuar a leitura; o segundo é o desfecho, inesperado e chocante, bem ancorado na vida real.

Numa série em que se costumam cruzar referências das mais variadas origens, a originalidade é uma das explicações para o sucesso deste anti-herói.

“Dylan Dog – Picada mortal”
Ostini e Ripoli
A Seita
104 p., 14,99 €

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F. Cleto e Pina

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