As críticas do Marinho: “Il Monaco Guerriero” (Tex italianos 724 e 725)

Il Monaco Guerriero – Tex #725

Por Mário João Marques

Il Monaco Guerriero

Argumento de Antonio Zamberletti, desenhos de Giuseppe Candita e capas de Claudio Villa.

História publicada em Itália nos nº 724 (“Colpo di Stato“) e 725 (“Il Monaco Guerriero“), de Fevereiro e Março de 2021.

Durante décadas, a banda desenhada utilizou a mesma receita da literatura e do cinema, apresentando as personagens orientais (sobretudos chineses) como inimigos privilegiados, fruto das suas origens misteriosas e do próprio caráter dos seus povos, fechados, arreigados a costumes milenares e incapazes de se abrirem à cultura ocidental.

Colpo di Stato – Tex #724

Também o mundo de Tex vai ser caracterizado por algumas aventuras que retratam este “perigo amarelo”, com personagens que chegaram aos Estados Unidos incluídas nas vagas de emigrantes chineses que mais se fizeram sentir a partir da descoberta de filões de ouro na Califórnia em 1849. Muitos foram os filhos do Império Celeste que chegaram ao Novo Mundo e ali se instalaram, enfrentando resistências e preconceitos, mesmo da parte do poder político e judicial. Convicta em encontrar um país rico e “iluminado pelos deuses”, esta vaga descobriu rapidamente que a realidade podia ser diferente, transformando-se o paraíso num verdadeiro inferno para muitos. Estes emigrantes passaram a viver separados dos brancos, trabalhando como operários, por exemplo e como aqui se retrata,na expansão do caminho-de-ferro, onde vão sofrer as agruras de um destino que se vai revelar mais duro que o previsto.

Esta presença de chineses na construção do caminho-de-ferro já tinha sido evidenciada por Claudio Nizzi nas origens do Tigre Negro, assim como por Mauro Boselli, que a ela vai aludir em Mondego Il killer. Agora, coube a vez a Antonio Zamberletti retratar esta dura realidade na personagem de Lai Chen, um monge Shaolin, também ele um emigrante chinês e operário na construção do caminho de ferro, onde vai ser acusado da morte de um dos seus engenheiros.

Não se trata de uma aventura inolvidável, mas é certamente uma aventura que cumpre e que Zamberletti aproveita para deixar as suas críticas sobre a emigração, sobre os migrantes, suas condições de vida e como são vistos e recebidos por uma sociedade egoísta, demasiado fútil e onde os seus próprios interesses contam sempre mais. Com este seu primeiro trabalho na série mensal do ranger, Zamberletti deixa a promessa de nos trazer outras aventuras onde se evidencie o seu olhar sobre alguns dos temas duros da nossa atualidade, mas com um maior aprofundamento.

Também Giuseppe Candita estreia-se na série mensal. Desenhador de Julia desde 2013, Candita apresenta um traço polido, mas competente, onde parece apenas faltar uma maior expressividade em Tex, sobretudo quando representado em primeiro plano, onde o ranger denota uma expressão distante e mesmo algo “triste”.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Vendo uma capa espetacular como essa do Tex 725, penso como ficaria no formato italiano que foi cancelado no Brasil.
    Uma pena a editora insistir somente no formatinho para o Tex mensal.
    Poderia soltar o formatinho e alguns meses depois lançar as edições no formato italiano.
    Evidente que a Julia e outros personagens no formato italiano não vendem mais que o Tex.

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