As críticas do Marinho: “Attentato a Montales” (Tex italianos 721, 722, 723 e 724)

Attentato a Montales – Tex #721

Por Mário João Marques

Attentato a Montales

Argumento de Pasquale Ruju, desenhos de Stefano Biglia e capas de Claudio Villa.

História publicada em Itália nos nº 721 (“Attentato a Montales“), 722 (“Guatemala“), 723 (“La negra muerte“) e 724 (“Colpo di Stato“), de Novembro e Dezembro de 2020 & Janeiro e Fevereiro de 2021.

Surgido pela primeira vez na aventura L’Eroe del Messico, de Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini, o Montales cultivou desde então uma amizade e uma enorme empatia com Tex, dado que ambos têm a mesma forma de pensar, ambos defendem os mesmos ideais, uma justiça muito própria e mais de acordo com os anseios e as expectativas humanas.

Guatemala Tex – #722, La negra muerte – Tex #723 e Colpo di Stato – Tex #724

Inicialmente um revolucionário, a personagem transportava consigo o lado romântico do guerreiro patriota, representativa do mito da luta contra o poder prepotente instituído, acabando por resumir em si a própria forma de pensar do seu criador Gianluigi Bonelli. A verdade é que os acontecimentos posteriores vieram permitir a Montales passar de revolucionário a general e, atualmente, governador do estado de Chihuahua, mas o mexicano nunca esqueceu as suas raízes e nunca se habituou ao formalismo imposto pela sua nova condição de político, nem tão pouco esqueceu Tex, o gringo que um dia atravessou a fronteira e ajudou-o a organizar a sua luta e a sua causa. Ao longo da série e de muitas aventuras, esta amizade será solidificada e Tex nunca se coibirá de atravessar o Rio Grande para dar uma mão ao seu aliado, um dos raros homens que, chegado à política, nunca sujará as mãos e manterá bem vivos os seus ideais. Tal como agora, mas desta vez Tex vai ainda mais longe, acompanhando o governador mexicano à Guatemala, numa aventura que se desenrola nos bastidores da política, da diplomacia e nos meandros da geoestratégia comercial dos Estados Unidos no continente americano.

Attentato a Montales – Tex #721; Arte de Stefano Biglia

Centro da Civilização Maia, a Guatemala tornou-se independente de Espanha em 1821, tendo sido então formada uma federação que foi anexada ao Império Mexicano. Quando este desapareceu em 1823, a Guatemala constituiu as Províncias Unidas da América Central, juntamente com a Nicarágua, El Salvador, Honduras e Costa Rica, com a capital instalada na Cidade de Guatemala. Esta federação subsistiu até 1839, altura em que, resultado de revoltas populares lideradas pelo general conservador Rafael Carrera, o país separou-se dos seus estados vizinhos. A independência ocorre em 1847 e, a partir de 1871, inicia-se um período liberal, marcado a nível económico pelo investimento em grandes propriedades produtoras de café, o que vai motivar a cobiça de grandes latifundiários e a expansão de empresas norte-americanas no país, capazes de influenciar em seu proveito o poder político.

Attentato a Montales – Tex #721; Arte de Stefano Biglia

Este é o ambiente que Tex e Montales vão encontrar, um país liderado pelo Presidente Barrios, em pleno desenvolvimento económico. O preço a pagar por esta modernização é, no entanto, enorme e reflete-se na exploração das populações mais pobres, que constituem a mão-de-obra barata e disponível para o cultivo do café, um negócio lucrativo para quem possui extensas terras. Para tal, é preciso encontrar o devido suporte político, não só para fechar os olhos a esta prática, mas também para abrir caminho às exportações que o país (e as grandes companhias) necessitam para lucrar. Algo que repugna Kit Willer, incapaz de aceitar um sistema que representa a lei pura do mercado: adequar-se ou morrer à fome! No fundo, é como bem sublinha Aguilar, uma das personagens da aventura: “Estás a ver aquele touro? Um animal soberbo, não é verdade? Seleciono touros de raça na minha criação. São os meus filhotes. Vejo-os nascer, crio-os com amor e dou-lhes todo o carinho. No entanto, depois terão de morrer para eu encher os bolsos com um monte de pesos. É uma questão de negócios. Por isso, também não hesitarei em sacrificar todos os que forem necessários”.

Attentato a Montales – Tex #721; Arte de Stefano Biglia

E um dos que importa sacrificar para que outros possam encher os bolsos é precisamente Montales, cuja “absurda” inteligência e intransigência não agrada a muitos, sobretudo aos homens de negócios e aos políticos corruptos, para cujos interesses o governador constitui um sério obstáculo à sua vontade de expansão. E se as sucessivas tentativas forem sendo destinados ao insucesso, a verdade é que, chegados à Guatemala, surgirá outro adversário, a Morte Negra, um grupo de índios sem piedade que os grandes latifundiários vão utilizar para semear o terror e abater todos os que se opõem aos seus desígnios comerciais. Uma estratégia que, ao mesmo tempo, servirá outro objetivo, o de colocar no poder o general Quiroga, homem duro e privado de escrúpulos, mas que, em função do ambiente de terror instalado, conta com a adesão popular, que acredita ser o homem capaz de impor a lei e ordem.

Guatemala – Tex #722; Arte de Stefano Biglia

Depois do México, Cuba, Panamá, Equador e Bolívia, sem esquecer a Polinésia e a Patagónia, Tex ruma uma vez a um território situado a sul dos Estados Unidos, numa história que nos remete para os grandes clássicos da série, nomeadamente para um conjunto de aventuras de sabor tão épico quanto romântico e que têm em comum o facto de levarem o Ranger para paragens fora do território norte-americano. Aventuras como Il ritorno di Montales, quando Tex, tal como acontece agora, vai em auxílio do seu amigo mexicano Montales; Il veliero maledetto ou L’uragano, com parte das suas tramas a decorrer em ambientes marítimos; Il solitario del West, cuja ação leva Tex até ao Panamá, país situado no istmo que liga a América do Sul à América Central, onde se encontra a Guatemala; ou mesmo Athabasca Lake, quando Jim Brandon também é vítima de um complot político, como agora acontece com Montales.  E ao seu lado, um conjunto de personagens de corpo inteiro, a começar nos pards, mas também em Gregorio, um mestiço filho de um hispânico e de uma índia Quiche, que já tinha surgido em I ribelli di Cuba, terminando com o velho Montales, uma das personagens mais fascinantes da série.

Guatemala – Tex #722; Arte de Stefano Biglia

Estamos em presença de uma aventura longa e ambiciosa, pouco habitual em Pasquale Ruju, autor mais habituado a condensar as suas histórias em dois álbuns, ou mesmo em tramas mais concretas, como o caso de alguns dos álbuns cartonados que já teve ocasião de apresentar. Na sua génese, esta história deveria ocupar três álbuns, mas durante a sua elaboração Ruju teve que juntar-lhe mais 60 páginas. Na origem, está a impossibilidade da editora em publicar a história seguinte prevista para a série regular, com 220 páginas, e que preencheria na íntegra dois álbuns, devido ao facto da desenhadora Laura Zuccheri estar impossibilitada de a concluir por ter estado retida na Índia durante o confinamento de 2020. Em sua substituição, a SBE decidiu então transferir para a série regular Shaolin, de Antonio Zamberletti e Giuseppe Candita, inicialmente destinada a um Color, e que com as suas 160 páginas apenas ocupava o espaço de um álbum e meio.

La negra muerte – Tex #723; Arte de Stefano Biglia

Mesmo tratando-se de uma aventura de grande fôlego, a verdade é que na narração de Ruju não há lugar para grandes dissertações, com a ação a decorrer em ambientes exóticos, caracterizada por jogos de poder e alianças de circunstância capazes de tocar em pontos sensíveis como a corrupção nas altas instâncias políticas e económicas, a exploração de mão-de-obra escrava como um dos nefastos instrumentos do desenvolvimento, ou a concentração de muitos capitais nas mãos de um escasso grupo. Temas tão sensíveis como atuais, desenvolvidos numa história envolvente, bem arquitetada e onde existe uma efetiva e permanente boa gestão dos pards, merecendo aqui realçar algumas das características de outros autores, que Ruju não se coíbe de desenvolver. O Tex bonelliano que não se engana sobre os homens, quando, por exemplo, consegue trazer Jairo para o seu lado, personagem que se tornou num bandido por força de um conjunto de circunstâncias que o obrigaram a abandonar as suas terras e o seu sustento nas mãos dos grandes latifundiários. Tex não aprova as suas ações, nem tão pouco as julga, mas assume-se mesmo assim como seu defensor intransigente. Outro exemplo é a espessura boselliana de Kit, uma personagem que assume a sua própria independência, aqui caracterizado como um defensor dos mais pobres e oprimidos e contra qualquer forma de exploração humana, não deixando de acreditar num futuro melhor e ideal, próprio da sua aura de romântico e sonhador,que parece transparecer nas várias cenas em que observa o horizonte. Em suma, mesmo que outros excelentes trabalhos de Ruju ainda não tivessem convencido os mais céticos, a verdade é que esta aventura comprova em definitivo estarmos em presença de um autor de corpo inteiro, perfeitamente identificado com os mecanismos da série e habilitado na gestão das suas personagens, evidente na forma e no modo em como domina o binário presente na sua narração, pois chegados à Guatemala, o grupo divide-se, com Tex, Kit e Gregorio a embrenharem-se nas florestas contra a Morte Negra, enquanto Carson e Kit acompanham Montales no seu périplo diplomático.

La negra muerte – Tex #723; Arte de Stefano Biglia

Passando ao desenho, façamos, desde já, uma afirmação perentória: o genovês Stefano Biglia é com toda a certeza um dos melhores desenhadores da atual equipa de Tex! Estreou-se na série em 1994, quando colaborou com Renzo Calegari e Luigi Copello na aventura La Ballata di Zeke Colter e depois de trabalhos em Nick Raider, Magico Vento e Shanghai Devil, Biglia regressa com L’ultimo della lista, uma curta aventura publicada no Color Tex. Firma-se na série principal com I rangers di Lost Valley, aventura escrita por Mauro Boselli, onde vai desenvolver as suas excecionais qualidades, traduzidas num estilo que podemos apelidar de linha clara detalhada, patente no extremo e cuidado apurado com que reconstrói cenários e compõe personagens. Desta vez, a história de Ruju vem permitir a Biglia construir um conjunto de cenas verdadeiramente grandiosas e inolvidáveis, como são os casos do atentado a Montales a abrir a aventura, os posteriores ataques noturnos à sua residência e à propriedade de Aguilar, a travessia marítima no mar revolto do Atlântico, logo a abrir o segundo álbum, sem esquecer os diversos confrontos de Tex com os índios da Morte Negra. Em cada desenho, com o seu tempo próprio de maturação e gestação, fruto do detalhe minucioso, aquilo que transparece ao leitor é contagiante, apelativo e transbordante. Cada tijolo de qualquer edifício, cada folha de uma qualquer árvore, cada onda marítima, cada dedo de uma mão, cada casco ou cada pata de um cavalo, tudo é merecedor de um virtuosismo ímpar, próprio de um desenhador que em cada traço revela-nos o prazer com que trabalha e a paixão que efetivamente nutre pela personagem. O facto de Biglia ser chamado a estes trabalhos de grande fôlego na série principal, é perfeitamente demonstrativo do elevado grau de apreciação que merecidamente goza junto da editora e dos leitores. Chapeau!

La negra muerte – Tex #723; Arte de Stefano Biglia

Aqui chegados, “será que toda esta aventura valeu a pena? Será que as coisas vão mudar?”, pergunta Kit ao seu pai, no final de uma história que nos deixou sem fôlego. “Quien sabe?”, responde o nosso herói, revelando as dúvidas e incertezas de alguém que está ciente que a corrupção é como um vento forte que encontra sempre o seu caminho numa qualquer fenda ou num qualquer buraco. Se a Guatemala (e todos os territórios limítrofes) dos nossos dias mais não é que um espelho da conjuntura de finais do século XIX, a verdade é que, infelizmente, desde então pouco ou nada mudou, apesar dos inúmeros conflitos que, entretanto, marcaram este país centro-americano.

Montales e Tex na arte de Stefano Biglia

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. Grazie al Blog Portoghese di Tex per minuziosa recensione. Felice che il lavoro sia piaciuto. Un abbraccio virtuale agli amici del Portogallo!!
    Obrigado!

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