Giovanni Ticci: uma vida a desenhar

Por Italo Marucci*

Giovanni Ticci: uma vida a desenhar – Italo Marucci na revista nº 2 do Clube Tex Portugal

Ninguém melhor do que Giovanni Ticci sabe como interpretar a figura dos homens do Oeste, ninguém melhor do que ele sabe como inserir numa história a personagem de Tex Willer e dos outros protagonistas, encontrando a expressão certa, ajudado por uma grande experiência e cultura pessoal, em harmonia com os inúmeros estímulos visuais que derivam do conhecimento que tem da realidade da fronteira e de uma análise profunda dos ambientes que rodeiam Tex.

Desenhador extremamente atento e preciso, Giovanni Ticci tem como tema exclusivo da sua expressão artística o Oeste. Os seus desenhos adquirem um novo significado no âmbito da ilustração: contornos e formas destacam-se da folha branca, libertam-se e crescem visivelmente na imagem. Se bem observado, não se trata apenas de um regresso à ilustração moderna, sem transição, antes de uma nova descoberta da figuração que, de forma harmónica, nasce do traço. Deste modo, na obra gráfica de Giovanni Ticci a figura, entendida como forma humana, nunca é pré-estabelecida, não é fruto de um estilo, é uma forma que brota da experiência criativa. Porque nos quadradinhos de Ticci tudo é pensado, meditado, medido por um metro perfeito que guia a inspiração do artista.

Giovanni Ticci e Tex

Giovanni Ticci é desenhador e aquarelista com resultados expressivos de igual intensidade e felicidade. O estilo pessoal não revela nenhuma predileção por traços cruzados, os quais utiliza muito pouco. Os traços do rosto servem para evidenciar o caráter da personagem. Algumas vezes, a busca de tonalidades resulta numa luminosidade que suaviza o jogo dos claros-escuros.

A história da arte é, sobretudo, a história dos artistas. No que diz respeito aos artistas da banda desenhada, uma perniciosa e massiva campanha de nivelamento, empenhada em diminuí-los, objetivamente retirou-lhes esses dons naturais de intuição, de instinto, de impulso emotivo e de genialidade, próprios de muitos desenhadores italianos.

A busca gráfica de Giovanni Ticci é sempre tão alargada que pode ser continuamente percorrida e projetada para além da trajetória de uma aparente conquista definitiva, mesmo quando o traço se torna mais alegre e vivo e parece conter um grande número de soluções e de imagens. A verdadeira grandeza de um ilustrador, no desenho, deve ser procurada na arte-final, tão essencial. O desenho é a linguagem pessoal de Ticci: aqueles traços rápidos e fortes, os contornos enigmáticos dos rostos e dos corpos, as formas particulares das árvores e das rochas contam histórias de uma época. Os rostos marcados dos homens, os olhos, o arco da boca, são testemunhos que superam a interpretação do texto e nos oferecem ilustrações de extraordinário relevo e potência.

Nos dias de hoje, quando se assiste a uma gradual reabilitação da ilustração e da banda desenhada num ambiente favorável observa-se um tímido interesse de museus e galerias por esta forma artística. Ingres dizia que “o desenho é a honestidade da arte“: Giovanni Ticci nunca deixou de acreditar nesta premissa. A sua obra gráfica (nas páginas de Tex) deve ser considerada, não como um exercício que se encerra em si mesmo, mas como o núcleo de uma busca integrada, na qual a intuição gráfica torna-se no meio para uma narrativa por vezes complexa, mas sempre fluída, discursiva e agradável, onde a experimentação se transforma numa refinada expressão artística.

Giovanni Ticci: uma vida a desenhar Tex

* Texto do saudoso Italo Marucci publicado originalmente na Revista nº 2 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2015.

Um comentário

  1. Giovanni Ticci, simplesmente Genial, figura entre os Dez Melhores Desenhadores que “conhecí” nos meus 57 anos de vida.
    Se leio e coleciono Tex até hoje, Ticci é o responsável.
    Nei Campos.

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