As Leituras do Pedro – Julia: O eterno repouso

As Leituras do Pedro*

Julia: O Eterno Repouso
Giancarlo Berardi (argumento)
Sergio Toppi (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 3 de Maio de 2018
190 x 260 mm, 136 p., pb, capa dura
10,90 €.

Julia, finalmente

E ao quarto volume da Colecção Bonelli finalmente chegou Julia.
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Quem segue este blogue, sabe que já lhe dediquei muitos textos – quase quatro dezenas, na verdade! – por isso esta edição foi duplamente agradável para mim. Pela edição em si e, acessoriamente, porque tive a oportunidade de a traduzir – e dessa forma entrar mais profundamente na escrita de Berardi.
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Julia – como em tempos Ken Parker, que não por acaso tem criação e escrita do mesmo Giancarlo Berardi – é uma excepção (preferem um caso à parte?) – no universo Bonelli, desenvolvido com base em heróis fortes e infalíveis, determinados e sem dúvidas.
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Julia – como Ken Parker… – não é assim. Tem dúvidas e poucas certezas, falha por vezes, não é forte e muito menos infalível, embora a determinação seja uma das suas características. É antes de tudo humana e gosta de observar os outros, de – mais do que apanhar os criminosos – compreender as motivações, as questões, as razões que os levaram aos actos. Pessoais e sociais. Individuais e colectivas. Voluntárias e provocadas.

Mulher autónoma, embora por vezes dependente, professora universitária, consultora, enquanto criminóloga, da polícia da – fictícia – Garden City onde vive, solteira – enquanto a isso a Bonelli obrigar…? – o que não a impede de alguns relacionamentos pontuais, mais ou menos duradouros, Julia é protagonista mas não heroína, é principalmente humana.
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Como humanas – com generosas doses de crítica social – são as histórias que Berardi – com alguns (poucos) cúmplices na co-escrita – tem partilhado com os leitores desde há muitos anos para cá.
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Não sendo, possivelmente, esta a melhor história de Julia – qual será, afinal, entre as mais de duas centenas já publicadas? – é uma bela porta de entrada para um universo em constante construção e mudança ou não fosse todo ele baseado em factos reais e situações que reconhecemos do nosso próprio quotidiano globalizado.

Em O Eterno Repouso, tudo começa com o desaparecimento de um dos internos de um lar de idosos e uma macabra descoberta no jardim do mesmo lar. Em paralelo – com a inevitável confluência a que Berardi já nos habituou – conhecemos um casal em rota de colisão e um assaltante de pequena escala e pouca sorte.
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Os problemas – e algumas vantagens… – geralmente associados à velhice – a solidão, o esquecimento, o abandono, a perda de qualidades… – a dificuldade (directa e indirecta) dos relacionamentos – ainda mais quando os seus componentes estão em posição (de força) diferentes – e a pressão social, ganham aos poucos contornos de protagonismo e são estas temáticas que vão balizar mais uma história forte e fracturante de Julia, daquelas que não acabam quando se fecha a edição.
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Inevitavelmente – revejo os textos que já escrevi sobre esta colecção e lá está sempre este factor – tenho de falar do desenhador.
Esta história foi escolhida por causa dele, no caso o grande, enorme Sergio Toppi – autor do belíssimo Sharaz De – que não teve problema em colocar a sua arte ao serviço de uma série regular mensal, por isso com um apertado caderno (gráfico) de encargos. Toppi cumpre a sua função, adaptando o seu traço ao visual da série, com reforço na expressividade dos intervenientes, e brilha especialmente na (forte) sequência do pesadelo.
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Mais um sinal da importância da Bonelli em Itália onde, como Toppi, grandes nomes dos quadradinhos não têm hesitado – quando não mesmo pedido – em colocar a sua (grande) arte ao serviço de produções essencialmente populares…
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*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Toppi?!
    O que mais se pode acrescentar como comentário?

    Abraços,

    Sílvio Introvabili

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