TEX SEM FRONTEIRAS: As diferenças entre coleccionadores novos e antigos

Por G. G. Carsan*

TEX SEM FRONTEIRAS

“As diferenças entre coleccionadores novos e antigos”

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A história humana costuma dividir, separar, limitar e estudar o homem, as coisas, os ciclos e tudo o mais em fases, épocas e eras, para um melhor entendimento e assim facilitar o estudo e tornar menos cansativas as pesquisas e mais fascinantes as narrativas. E o homem tem a sua trajectória dividida em fases representadas por idades: bebé, criança, adolescente, adulto, idoso. E se entre uma e outra subsequente não tem muita diferença, entre indivíduos da fase adolescente e idoso, ou ainda de quem entra na adolescência e de quem sai da adulta, as diferenças são muitas e causam o que vamos trabalhar a seguir.

A grande maioria dos coleccionadores brasileiros de Tex está na faixa adulta avançada, aquela que já beira a fase idosa. Esta faixa contém os coleccionadores que viram o Brasil dos golpes militares e viveram a Ditadura, que conviveram com o desenvolvimento das regiões através das grandes rodovias e com o rock ‘n roll, que assistiram a chegada do computador e posteriormente a massificação da internet e dos telefones celulares.

Essa mesma geração aplaudiu os Trapalhões e o Chacrinha, enlouqueceu com o Tri-Campeonato de Futebol e jogou muita pelada nos campos de várzea, foi a loucura com Nelson Piquet e Airton Senna, moveu-se com as Diretas Já, não perdeu um capítulo de Gabriela e de O Bem Amado, riu muito com A Praça é Nossa e acompanhou Domingo no Parque e Qual é a Música, do Sílvio Santos. Essa geração queimou muitas calorias indo e vindo até uma banca de revistas em busca das suas revistas preferidas.

E hoje assiste no máximo ao noticiário e ao futebol – adora criticar a tudo e a todos -, não quer ouvir falar de BBB ou Faustão, os filmes são enfadonhos e repetitivos, Silvio Santos é a mesma coisa há décadas. Não tem quem aguente ouvir uma música de pagode ou de forró electrónico. Ficaram apenas as revistas de Tex, que muitos já deixaram ou estão a deixar. E por que?

É verdade que todos nós vamos cansando das coisas que já temos e com a maciça quantidade de ofertas diárias e o desejo de possuir o ‘novo’, perdemos totalmente o interesse pelas coisas do passado. Passamos a só ver o que está diante de nós e o novo precisa de espaço.

Esquecemos o que já fomos e do que gostamos, e pior, passamos a criticar tudo que é passado e também o que é novidade e não condiz com nossa faixa etária, e também àqueles que estão vivendo o seu momento. Em suma, tornamo-nos ‘velhos’. Somos conservadores de um lado, quando queremos impor as nossas convicções e intolerantes quando nos sentimos ameaçados por simples opiniões vindas de jovens sonhadores, como um dia fomos também.

Estes jovens sonhadores representam o novo em tudo, representam os senhores do amanhã, aqueles que ditarão as regras logo mais ali na próxima curva, e vão tentando impor-se com fervor – como fizemos tempos atrás – e com muitos sonhos lindos e visionários – muitos dos quais ruirão antes mesmo de tomarem forma, e querem a seu modo vivenciar as mesmas sensações que já vivemos nós ao nosso tempo de descobertas e de aventuras tão fantásticas quanto as do nosso grande herói de papel.

Assim, deparamo-nos com dois mundos bem distintos de coleccionadores texianos que convergem por linhas distintas para o mesmo objectivo, que é coleccionar e ter as formidáveis aventuras western por intermináveis anos. Assim, encontramos dois tipos de coleccionadores em que os mais antigos reclamam da qualidade das aventuras e os mais jovens reclamam do formato das revistas, os mais antigos são conservadores ao ponto de pedir a continuação do preto-e-branco e os mais jovens querem o colorido. Também ocorre dos mais antigos, acostumados a toda sorte de problemas, não se importarem com um atraso ou com algum problema técnico na edição, enquanto que os mais jovens enchem as redes sociais de reclamações. Percebe-se, ainda, a resignação dos mais antigos, antes tão presentes e que agora pouco participa dos debates que proliferaram com a internet.

Talvez a overdose de Tex – diversas colecções sendo publicadas – na última década tenha saturado estes bravos e longevos coleccionadores, talvez tenham compreendido que chegou o momento de parar. Talvez! Mas convém lembrar que o homem, enquanto vivo, precisa dar continuidade ao que sempre gostou para não sucumbir diante das neuras da idade, das lembranças do passado, das involuções corporais do passar dos anos. Precisamos nos manter firmes e fortes em nosso hobby, que tanto representou e ainda representa alegria, energia, vida e boas gargalhadas, além de amizades, viagens e novos conhecimentos. Enfim, a interacção  mantém-nos acesos.

Os coleccionadores antigos reclamam das diversas colecções publicadas. Bem, são colecções contendo repetecos direccionados para os novos leitores que vão surgindo, apaixonam-se pela personagem, tomam conhecimento de centenas de aventuras formidáveis anteriores e não teriam condições de conseguir, por exemplo, as mais de 500 revistas  da colecção Tex. As velhas gerações não necessitam de comprar aventuras que já tem noutras colecções. Portanto, não há o que reclamar. Se a Editora não publica essas aventuras antigas, perde os novos leitores. Eles precisam de incentivo, de subsídios e isso é feito até na Itália, onde a personagem é produzida.

Apesar de nem sempre concordar com tudo o que os jovens dizem e aprontam nos fóruns, percebo claramente que agora é a vez deles. Estão a descobrir um novo mundo com Tex, estão a opinar e sugerir o que querem comprar. Percebo que estão ávidos por boas surpresas e situações de adrenalina, e mais estudados e preparados do que nós em nosso mesmo período anterior, têm uma visão mais depurada de alguns conceitos e mais desfocadas de outros, mas é preciso que vivam o momento, exalem suas convicções e desejos, que errem e acertem, vivenciando uma existência e experiências tão próprias como quisemos e executamos para nós mesmos.

Felizmente, durante os encontros ocorridos em vários estados do Brasil, os texianos da nova e da velha-guarda misturam-se, interagem, tornam-se todos da mesma faixa etária. Portanto, é sempre importante que os antigos vejam os jovens como espelhos deles mesmos – e do que foram no passado, e os jovens tolerem os fios de cabelos brancos que espelham experiências que estão a viver, e, sobretudo, que ambos só têm a ganhar trocando ideias e costurando amizades. Aliás, G. L. Bonelli concebeu Tex para atender a todos, com Falcão Pequeno representando a juventude, Tex e Jack espelhando os adultos e Carson na vez dos idosos, ou quase.

Agora, por favor, um momento. Apaguem tudo o que foi escrito e lido acima. Esqueçam as teorias, as viagens na maionese, os subterfúgios. Abra uma revista Tex, antiga ou nova, e leia concentradamente, atenha-se ao enredo e aos quadradinhos, aprecie os desenhos. Verá que não importa a idade dos seus olhos e mente. Tex continua o mesmo, sem fronteiras e prazer/lazer garantidos.

* G.G.Carsan, 48 anos, paraibano, fã, coleccionador e divulgador, começou aos 7 anos a ler Tex e nunca mais parou. Realizou 6 exposições em João Pessoa, escreveu várias aventuras para Tex (algumas publicadas na Internet), palestras em vários Estados e platéias e dois livros sobre a personagem no Brasil.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

12 Comentários

  1. Saquem pards!!

    Fantástico como sempre, nosso TEX Brazuca, um grande divulgador e fã ardoroso deste ranger que vem angariando fãs, que independentemente do tempo, curtem estes pards pelo velho Oeste, e fora dele!!

    Excelente TEXto Gege!!

    E, que neste mês que chega ou no próximo (maio/13), os navios atraquem trazendo nossos TEC, pois estou doido para prosseguir minhas leituras de TEX.

  2. Aí tratamos de gerações distintas.

    De um lado, quem acompanhou a fase mais popular dos quadrinhos, produzida por profissionais capacitados e editoras num momento iluminado da arte, ponto em que a qualidade superava as limitações técnicas. Falo aqui da ausência de cores nos mais antigos, impressão, formatação nas medidas.

    Os mais jovens passam ao largo desse segmento. Não se vê mais colecionadores, mas consumidores eventuais de gibis e não só do produto físico, tendo em vista a facilidade da obtenção de scans…

    Acho que o novo leitor é mais superficial quanto ao enredo e sobretudo, pelo imediatismo. Falta o compromisso com a saga, acompanhar o personagem nas aventuras continuadas e mergulhar no seu histórico.

    A Bonelli é conservadora, meno male, mas a Marvel, DC, porca miséria… é um tal de reboots, minisséries, universos alternativos e pasmem, até inversão da sexualidade dos velhos heróis…

  3. Saudações, Gegê! Parabéns pelo texto! Não esqueça de incluí-lo no terceiro livro do Tex! Realmente, esse encontro de gerações pudemos vivenciar nos encontros texianos, principalmente na FestComix. Ah! 48 anos… seria crise da idade? Está se sentindo velho já?! Idade cronológica não conta, o que conta é o espírito! Tudo vale a pena se a alma não é pequena! Vida longa a Tex e ao Gegê, aquele que escreve por todos nós, texianos malucos e passionais!

  4. É isso aí gente, não vamos parar de colecionar Tex nem os novos nem os velhos, temos que nos unir para que Tex sempre possa existir e nos proporcionar momentos de alegria e conhecimento.

  5. Gostei, e muito. Talvez me encontre entre aqueles apaixonados pelo preto e branco… mas não desgosto das cores.
    TEX FOREVER.

  6. Nos dias de hoje a tecnologia assumiu o comando de quase tudo,mas não podemos jamais se entregar, temos que manter a união entre nós que somos fãs de Tex de verdade, velhos ou novos todos os colecionadores são importantes para a continuação do maior ícone dos quadrinhos de todos os tempos… e LONGA A VIDA AO TEX E SEUS PARDS!

  7. Nel,
    apaixonados por Tex em preto e branco e agora em cores também. 😉
    Marcelo,
    os novos leitores texianos aliam os novos aparatos tecnológicos com as excelentes histórias do Ranger mais temido do Oeste.
    João,
    “Tex” jamais deixará de ser publicado, independente de crise econômica, novos hábitos dos consumidores e surgimento de outros gêneros de HQs.

  8. Amigo GG.
    Eu, 63 anos (estou entre os idosos), e para justificar a sua tese, NÃO CONCORDO (humildemente) com a maioria das suas conclusões sobre os fãs de Tex da minha idade, aliás, precisarias ter a minha idade para chegar a alguma conclusão sobre nós, os idosos, he, he, he.
    Vivi todas essas fases destacadas por você, na infância comprei Tex em formato de talão de cheque nas bancas de revistas (não gostava desse formato), já adulto comprei Tex nº 01, também nas bancas de revistas, e continuo comprando até hoje, mas evolui tecnologicamente e na questão das HQ também.
    Hoje compro os maravilhosos álbuns franceses (coloridos) de Blueberry, Bouncer, Thorgal, e tantas outras edições europeias maravilhosas, inclusive Tex em francês.
    No Brasil compro, além de Tex, Mágico Vento.
    É um ERRO, os mais jovens pensarem que os “idosos” pararam no tempo, pode haver casos, mas não é regra.
    Não me empolgo por Tex a cores, não por questões de saudosismo, mas por questões técnicas, pois as colorizações que saíram até agora são muito primárias, chapadas, longe do que o nosso Tex mereceria.
    Um grande e fraternal abraço

  9. Caro AMoreira, você é uma exceção, não tão rara, mas é, pois deixou o seu conforto niteroiano para ir a Sampa se deleitar conosco e com os artistas daquela vez.

    Eu me reporto mais ao comportamento em si do que ao fato de comprar as revistas. Dificilmente temos um bom entendimento entre as gerações. Os exemplos, maus exemplos digamos de passagem, estão em toda parte. Isso acaba se alastrando para os colecionadores.

    Os texianos que continuam comprando e se mexendo nos encontros e nas mídias, são, contigo, as exceções, mas nem sempre é assim.

    Eu que confabulo com muitos e encontro outros tantos nos eventos, ouço muito dizer exatamente que pararam de comprar porque cansaram, que não participam porque não gostam de internet e/ou porque tem muito garoto no meio, falando de coisa óbvia – naturalmente que são coisas óbvias para um velho lobo texiano, mas não para quem está começando. Então o meu post é justamente para que procuremos entender melhor os jovens que estão chegando cheios de vontade.

    Ademais, já vai um bom tempo que as cores vem se alastrando em Tex e acredito que brevemente restará apenas a edição normal – e talvez nem ela mais…
    Li um editorial do Sergio Bonelli de alguns anos atrás e ele já dizia da dificuldade de encontrar um desenhista para desenhar um Tex Gigante por dois motivos: 1 – o tempo de dois anos para desenhar; 2 – o fato de não ser a cores. Então se os desenhistas só querem coloridos, o futuro é color. E a própria Mythos já disse da dificuldade de encontrar gráfica que trabalhe com p/b.

    Abração a ti ai na vida parisiense e que esfrie logo para retornares para o lado de cá do Atlas.

    G.G.Carsan

  10. A editora Mythos tem republicado Tex que publicou há pouquíssimo tempo, ou seja a editora republica a mesma aventura diversas vezes.
    Um absurdo, os colecionadores coerentes, notam claramente, não ganhamos nada apenas bajulando o editor de Tex, tem muita coisa que foi publicada que nada acrescentaram para ninguém, como Tex Clássicos, Férias e Tex Ouro atual afora os equivocados lançamentos que fracassaram.

  11. Prezado Antonio Marcos Matias, texiano desde os tempos imemoriais, é verdade que existem muitas republicações, e aproveito para te dizer que na Itália estão nas bancas os Tex 326, o 505 e o 591 e o da vez 630. Os três primeiros são repetecos. Ora, se lá pode, aqui também pode. Se os editores publicam é porque tem público comprador.

    Eu não sou contra, pois me é facultada a decisão de comprar ou não.

    O único senão que é perfeitamente cabível, é que não se publique edição inédita numa coleção de repeteco, como já foi feito antes. Isso sim, obriga o colecionador a comprar uma revista que saiu na série que não coleciona, ou a colecionar só por causa de uma ou outra revista. Mas isso são, digamos assim: ossos do ofício.

    Ademais, prazerzão de tê-lo conosco e participe mais, pois nós, os dinossauros é que somos os responsáveis pela existência e publicação das revistas Tex e mesmo que os pontos de vista nem sempre se alinhem, somos os grandes guerreiros de Águia da Noite e, portanto, temos o direito de reclamar, de elogiar, de dar risadas e até de brincar um pouco.

  12. Olá.
    Tenho uma coleção antiga que pertenceu ao meu pai.
    Desejo saber se tem algum valor.
    São duas gavetonas cheias, rs.
    Obrigado

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