TEX: o maior cowboy das Histórias aos Quadradinhos

* Por Edgar Indalecio Smaniotto

Tex e seus pards, por Claudio VillaO faroeste, como ficção de entretenimento, esteve presente com muita força em todo o mundo durante os anos 50, 60 e 70. Nessa época, impulsionado, em grande parte pelo cinema norte-americano, que buscava recontar de forma romântica a história daquele país, o faroeste deu-nos diversas obras-primas cinematográficas, literárias e quadrinísticas. Enquanto na literatura, talvez com a honrosa excepção da série Winnetou do alemão Karl May, foram os americanos quem mais se destacaram no género, principalmente graças à obra de  Elmore Leonard (Valdez vem aí; Hombre e Na mira da arma, para citar alguns de seus livros), e, assim, também foi no cinema, com filmes como  No Tempo das Diligências, Sangue de Heróis Rio Bravo de John Ford, passando por Meu Ódio Será Sua Herança de Sam Peckinpah,  até Dança com Lobos de Kevin Costner, ou o actual Os Indomáveis de James Mangold – apesar do cinema italiano ter investido no género, que imortalizaria Giuliano Gemma e o americano Clint Eastwood, como dois grandes interpretes de cowboys, o que nos deu grandes filmes.

Os amigos Tex, Ken Paker e Mágico Vento, por Adauto SilvaMas, são nas BDs (HQs no Brasil) de faroeste que os italianos se destacam tanto em qualidade como em quantidade: obras como Ken Parker só tem paralelo em qualidade com o francês Tenente Blueberry, sem falar em sagas como  História do Oeste de G. D’Antonio (no Brasil editado também como Epopeia Tri) e Personagens do Oeste de Rino Albertarelli, além de séries como Zagor e Mágico Vento, todas italianas.

Porém, é com TEX que os italianos se destacaram ao criar o cowboy mais famoso e vendido até hoje na Itália e no Brasil, e que sobreviveu mesmo quando o género faroeste teve seu maior declínio no final dos anos 1980 e durante toda a década de 1990. Tex ainda continua vendendo bem no actual mercado desses dois países, que, além da tradicional concorrência com super-heróis americanos, agora sofrem uma arrasadora invasão dos mangás japoneses.

Gianluigi BonelliTex chegou às bancas italianas pela primeira vez em 30 de Setembro de 1948, sob a pena de Gianluigi Bonelli e arte de Aurelio Galleppini, trazendo a aventura O Totem Misterioso, na qual Tex ajuda Tesah, filha de Urso Cinzento, Sakem dos Pawnees a recuperar um símbolo de Totem, roubado de seu pai pelo bandido Coffin, e, depois, a achar o próprio Totem, que esconde uma passagem para um suposto tesouro.  Esta história foi publicada na edição comemorativa dos 50 anos de Tex pela editora Opera Graphica.

Inicialmente, Tex era publicado na Itália em formato pequeno e horizontal, com 32 páginas e cerca de três quadradinhos por página.  Actualmente, o formato dos Fumetti (quadradinhos italianos) é de 3 tiras por páginas com três quadrinhos por tiras, seguindo rigorosamente este modelo, o que os torna prontamente reconhecidos. Mas, por outro lado, deixa pouca margem às inovações, para que artistas e roteristas trabalhem de forma inovadora, com novos tipos de enquadramento.

Primeira imagem de Tex no BrasilNo Brasil, Tex foi inicialmente publicado em uma revistinha com o nome de Júnior, formato horizontal de 16 cm de largura por 7 cm de altura, no formato de talão de cheques, como a italiana.  A primeira edição saiu em 25 de Fevereiro de 1951, trazendo o titulo As Aventuras de Texas Kid (como foi renomeado a personagem aqui no Brasil). A publicação perduraria até 1957.

Primeira tira de uma história de TexTex voltaria às bancas brasileiras em Fevereiro de 1971 pela editora Vecchi, agora no formatinho (inicialmente, no italiano, de 16 cm por 21 cm e, posteriormente, no formato no qual Tex é tradicionalmente publicado até hoje, 13,5 por 17,5 cm), e permanece sendo publicado sem interrupções, apesar dos altos e baixos do mercado de quadradinhos no Brasil.

Actualmente, Tex é um sucesso nas bancas brasileiras, e é sem dúvida a personagem com maior número de publicações que levam o seu nome – são ao todo nove séries e, por vezes, algumas minisséries. A seguir vou comentar as principais características de cada série.

As revistas de Tex no Brasil.

Revistas TexTex: revista mensal, actualmente no número 467, traz sempre histórias seriadas, quase sempre passando por dois ou três volumes. A edição actual traz Tex em uma aventura no México, para trazer de volta uma tribo de índios apaches a sua reserva, ao mesmo tempo em que enfrenta uma conspiração contra sua vida.

Tex Coleção: republicação de todas as histórias da personagem em ordem cronológica, actualmente no número 260.

Tex Edição Histórica: republicação de Tex Coleção, mas quase sempre com cerca de 250 a 300 páginas. Actualmente no nº. 75, Terra Prometida. Sempre com histórias completas.

Tex Almanaque: publicação de histórias completas e artigos sobre o mundo do faroeste. Actualmente no nº. 36.

Tex Ouro: publicação de histórias completas da personagem com tratamento especial, ou seja, capa e lombada dourada. Actualmente no nº. 38.

Grandes Clássicos de Tex: republicação de todas as principais histórias da personagem, o último número nas bancas trouxe a história Sangue Navajo – resenhada na parte deste texto em que falo dos navajos.

Tex Gigante: Os melhores profissionais dos quadradinhos mundiais são chamados para produzir esta série de Tex. Actualmente no nº. 22, que está para sair trazendo a história Seminoles (sobre os indígenas da Flórida).

Tex Anual: todo ano a publicação de uma história completa da personagem.

Tex de Férias: republicação das edições mais pedidas da personagem. Sempre em Julho.

Livro 50 anos de Tex Opera GraphicaTex Especial 60 Anos: Para comemorar os 60 anos de Tex, a Editora Mythos lançou uma edição especial colorida da personagem, no ano de 2008. Nesta edição, Tex recorda uma aventura que teve anos antes ao lado de sua esposa Lilyth, quando lutaram juntos contra um bando de apaches revoltosos. Edição especial com 128 páginas coloridas.

Tex também já teve três minisséries publicadas; um Tex de Capa dura (O Ídolo de Cristal); o livro Tex 50 anos pela Opera Graphica, história curta e colorida no especial Fumetti: o melhor dos quadrinhos italianos; cinco histórias curtas (uma colorida) e uma longa na série Tex e os Aventureiros, na qual eram publicados diversas personagens; Bonelli, álbum de figurinha; revista-póster e várias histórias coloridas. Também é bom lembrar que, em Abril de 1996, Tex recebeu no Brasil o Prémio HQ Mix, como a melhor revista de aventura e ficção.

Personagens.

Tex e seus pards

Tex Willer: é ranger (espécie de patrulheiro ou agente federal), líder de uma nação indígena e agente indígena de uma reserva. Em suas aventuras conta com a parceria de seus pards (como são chamados os amigos de Tex), que são:

Kit Carson: ex-batedor do exército, ranger e amigo de Tex. Se Tex teria cerca de 40 anos em seus quadradinhos, Kit teria uns 50 ou 55 anos, Tex sempre o chama de Coruja Velha devido a seu pessimismo. As constantes discussões entre os dois traz uma certa comicidade a muitas aventuras de Tex, afinal ambos falam um para o outro coisas que só a verdadeira amizade permite.

Jack Tigre: navajo da tribo de Tex, tem mais ou menos a mesma idade que o ranger, seu relacionamento com Tex é pouco mais distante do que aquele entre Tex e Kit, afinal, sendo Tex o chefe da tribo, Tigre o respeita também como tal e não apenas como amigo.

Kit Willer: filho de Tex, com mais ou menos uns 20 anos, é conhecido entre os índios como Falcão Pequeno, já que seu pai Tex tem o nome indígena de Águia da Noite e Kit Carson de Cabelos de Prata (por seus cabelos grisalhos). Kit viveu com os navajos e teve em Tigre seu principal preceptor, é quase tão rápido no gatilho quanto o pai.

Tex e amigos por Fred MacedoTex tem vários outros amigos secundários que aparecem em suas histórias, podemos destacar Gros-Jean, Jim Brandon, Montales, Pat o irlandês e El Morisco (o meu preferido). Mas, também, tem ferrenhos inimigos, o mais recorrente é o bruxo Mefisto, em uma galeria ampla de inimigos esquisitos: Yama (bruxo), O Mestre (alquimista), El Muerto, Proteus, Tigre Negro, Zhenda, etc., além dos tradicionais pistoleiros, criminosos do colarinho branco, índios, e outras personagens recorrentes em histórias de faroeste.

Temas:.

As temáticas das histórias de Tex também são bastante variadas, para dar uma amostra, seguem algumas microrresenhas de histórias da personagem:

Tex nos traços de Ivo MilazzoSangue no Colorado (Tex Gigante nº. 8), Tex e pards vão a uma vila de mineradores ajudá-los em sua luta contra uma companhia mineradora que quer as terras desses trabalhadores autónomos. Destaque para os desenhos de Ivo Milazzo, o mesmo de Ken Parker.

Pirâmide Misteriosa (Almanaque Tex nº. 21), Tex e Carson têm que ajudar seu amigo El Morisco (bruxo egípcio) a enfrentar um feiticeiro imortal que domina com mãos de ferro a região de Sierra del Hueso, utilizando-se de seus Ushebti (animais de argila que criam vida através de feitiçaria).

Tex e os vikingsA Ilha Misteriosa (Almanaque Tex nº. 16), Tex e Carson vão ao Canadá ajudar Jim Brandon e deparam-se com remanescente de uma expedição Viking que chegou à América 500 anos antes de Colombo..

Sangue no Pasto (Grandes Clássicos de Tex nº. 12), Tex e seus pards deparam-se com um criador de ovelhas que está para ser expulso das terras comunitárias que é usada por criadores de gado local. Tex compra as ovelhas do criador e as terras que, até então, eram do governo, somente para afrontar os criadores de gado. Após dar uma lição nos criadores de gado, acaba por vender as terras pelo dobro do preço.

Tex em duelo com Daniel Dumont o pistoleiro das cartas de tarôA Cidade de Ouro (Grandes Clássicos de Tex nº. 12), Tex e Tigre descobrem uma cidade habitada por antigos conquistadores espanhóis, e tem que enfrentar o tirano local.

O Pântano Negro (Almanaque Tex nº. 35), Tex, em uma aventura sem seus pards, enfrenta um pistoleiro que planeja suas acções com base nas cartas de tarô e busca vingança contra o homem que ajudou Tex a prendê-lo anos antes.

A Cidade Corrompida (Almanaque Tex nº. 34), em um único dia, Tex e Carson livram uma cidade inteira de um bando de corruptos que extorque dinheiro de comerciantes locais. Tiroteio e pancadaria quase incessantes.

O Comboio dos Apaches (Tex Especial de Férias nº. 6), Tex e Carson partem para libertar índios apaches que estão para ser deportados pelo governo americano. Para tanto, enfrentam o exército americano com tácticas de guerrilha.

Tex enfrenta dinossaurosAventura no Caribe (Tex e os Aventureiros nº. 1), Tex e Kit, em uma ilha do Caribe, têm de enfrentar perigosos dinossauros.

O Diabólico Mefisto (Grandes Clássicos de Tex nº. 9), Tex enfrenta seu maior inimigo, Mefisto, que usa magia para vingar-se do ranger, inclusive capturando e, através de hipnose, tornando Kit e Carson bandidos procurados.

O Ídolo de Cristal (Tex Coleção 252), quando índios Hualpais roubam um ídolo religioso dos navajos, ferindo o xamã navajo que cuidava dele, Tex e seus amigos partem para recuperar o ídolo.

Tex e pards assistem à morte de Santos sem poder fazer nadaO Preço da Honra e Força do Destino (Almanaque Tex nº. 30), história sobre o preconceito e a corrupção nas esferas militares americanas, que levam à morte de um jovem índio apache acusado injustamente de matar um homem branco (por acaso um traficante de armas). Mais tarde, seu filho busca vingança, matando o General que anos antes caçou, até a morte, seu pai e sua mãe. Estas histórias destacam-se, entre as da personagem, justamente pela falha de Tex em conseguir resolver a situação. Tex não consegue salvar Natay, o índio rebelde acusado injustamente, que é morto com sua esposa, também não consegue levar à justiça o oficial corrupto do exército, e, por fim, quando Santos (o filho de Natay) mata o corrupto general, Tex não consegue livrá-lo da forca.

O filme de Tex.

O Filme de TexTex e o Senhor do Abismo é a única filmagem de uma personagem da Bonelli Editora, sem falar nos dois filmes trash de Zagor, filmados na Turquia sem consentimento de direitos autorais, e do desenho animado (e totalmente contrário ao espírito das BDs da personagem) Martin Mystery.

O filme de Tex estreou em 1985 nos cinemas italianos, tendo uma arrecadação de aproximadamente 780 mil dólares, o filme seria o piloto de uma série de TV, que não teve continuidade. A história do filme é baseada na aventura publicada no Brasil, em três volumes, com os seguintes títulos: Tex nº. 40, O Bruxo Mouro; Tex nº. 41, O mistério das pedras venenosas; Tex nº. 42, A Caverna do vale dos Gigantes, história escrita por G. L. Bonelli e desenhada por Guglielmo Letteri.  A história foi republicada em Tex Coleção números 146, 147 e 148 e em Tex Edição Histórica,  57.

Na trama do filme, Tex, Tigre (na legenda do filme usou-se Tigla), e Carson vão investigar o desaparecimento de uma carga de espingardas na fronteira mexicana, mas, deparam-se com estranhas mortes, que deixam as pessoas “petrificadas” graças a uma misteriosa substância. Para resolver o caso, Tex pede ajuda a El Morisco (um bruxo egípcio que mora no México e ajuda Tex em diversas histórias em que o ranger se depara com factos fantásticos).

Por fim, descobre-se a trama de índios yaquis (descendentes dos astecas) que querem criar uma nação indígena separada do México.

Tex em movimentoAo que parece, a mistura entre faroeste e fantasia não agradou o grande público do género (ainda que seja comum aos leitores de BDs Bonelli como Zagor e Mágico Vento). O filme não fez grande sucesso e a série pretendida nunca saiu do papel. Na verdade, o filme é até muito bom, estando na média do género, inclusive os elementos fantásticos dão-lhe certo destaque em qualquer colecção de faroeste.

No Brasil, é muito difícil de ser encontrado – minha cópia é em VHS, já com a qualidade meio comprometida devido à pouca durabilidade desta tecnologia –, mas, quem quiser, pode adquirir cópias  em DVD no site TEXBr (lembrando que são gravações do original em VHS). Penso que já passou da hora da Mythos comprar os direitos do filme e publicá-lo, acompanhado da republicação da história original em quadradinhos. O filme mais a revista poderiam ser vendidos, com lucro, por volta de trinta reais (duvido que algum fã de Tex não os compraria), e seria um bom marketing para a revista, já que coleccionadores de filmes de faroeste poderiam passar a comprar a revista.

O Verdadeiro Tex Willer.

Jack, o verdadeiro TexDizem que toda a lenda tem um fundo de realidade.  A personagem Tex Willer também teria sido inspirada em um homem de verdade, um tal de Captain Jack, que segundo o articulista Rino Di Stefano, em texto publicado no Almanaque Tex nº. 20, teria inspirado Bonelli na composição de Tex.

Jack é considerado o mais temido e respeitado Texas Ranger que já existiu, Tex é também considerado, em suas histórias, como o mais temido ranger da corporação. Apesar de óptimo combatente, Jack, assim como Tex, não se impressionava pelos galões e formalismo militares.

Também tinha como parceiro um índio, o lipan Flacco, assim como Tex tem, em Jack Tigre, um navajo, um parceiro recorrente. Jack era considerado chefe dos índios lipans, assim como Tex o é, dos Navajos. Jack foi nomeado como agente indígena de uma reserva, assim como Tex. São muitas as similaridades entre as vidas aventurosas de Tex e Jack (guardadas as devidas proporções ao se comparar uma personagem real com uma fictícia), ainda assim, podemos dizer que, de certa forma, Tex realmente esteve presente na conquista do Oeste americano.

Os Navajos.

Tex é chefe da nação indígena dos navajos, recentemente popularizada no seriado Arquivo X (em Portugal: Ficheiros Secretos, onde um ancião navajo ajuda Mulder a decifrar códigos militares) e no filme Códigos de Guerra (sobre a participação destes indígenas na segunda guerra mundial).  Tex torna-se chefe dessa nação após a morte de Flecha Vermelha, pai de Lilyth, esposa de Tex, com quem ele se casou na clássica história Pacto de Sangue (Tex nº. 94).

Tex guia seus navajos em ataque ao forte DefianceNos quadradinhos, a liderança de Tex é contestada por uma de suas mais fervorosas inimigas, a Bruxa Zhenda, na história Sinistros Presságios (Tex Edição Histórica nº. 40), Zhenda tenta agrupar algumas tribos navajos em uma revolta contra a liderança de Tex, a fim de colocar seu filho Sagua no comando dos navajos. Por fim, Zhenda fracassa, sendo que a maioria dos navajos prefere seguir Tex na guerra civil que se aproxima, ainda que esta não venha a acontecer.

Mas é a história Sangue Navajo (Os Grandes Clássicos de Tex nº. 16) que busca retratar o papel de Tex como líder dos navajos. Nesta história, escrita por Gianluigi Bonelli, alguns jovens navajos são mortos futilmente por um rancheiro e um comerciante, que têm poderosos aliados políticos.  Quando Tex pede a prisão e julgamento destes homens, o comandante militar do Forte Defiance não só se recusa a fazer imperar a lei, que deveria ser igual para todos, como manda prender Tex (que escapa) e, depois, move uma guerra contra os índios navajos.

4 pards a cavalo, por Marco TorricelliTex, à frente dos navajos, empreende técnicas de guerrilha e terra arrasada para conter o exército americano, ao mesmo tempo em que ataca os dois ricos comerciantes que mataram os jovens navajos. Por fim, graças à ajuda de um jornalista e de Kit Carson, os dois assassinos acabam mortos e Tex consegue um tratado de paz com o exército americano.

Esta história não é de toda ficcional, no ano de 1860, Manuelito liderou seus navajos em um ataque contra o Forte Defiance, quase o destruindo (o que aconteceu na história de Tex). Entre 1860 e 1866, houve guerra entre os navajos e o exército dos Estados Unidos, que, sob o comando de Kit Carson (a personagem real, claro!), obteve vitória sobre os navajos, capturando oito mil deles e levando-os para uma nova reserva em Bosque Redondo no Novo México.

Carson inclusive queimou os pomares dos navajos e matou suas ovelhas, para obrigar a sua rendição e migração, no episódio conhecido como A Grande Caminhada. Mas, já em 1868, os navajos voltariam à sua antiga reserva graças ao superintendente A. B. Norton, que atestou a improdutividade da nova reserva. Desse ano em diante, não haveria mais hostilidade entre o governo americano e os navajos, segundo Dee Brown no clássico “Enterrei meu coração na curva do rio”, e talvez este tenha sido o motivo pelo qual Bonelli tenha escolhido os navajos como nação indígena para Tex, afinal, boa parte das aventuras de Tex passa-se nos últimos 30 anos do século XIX, e seria complicado nações, que resistiram por muito tempo, como os Apaches e os Sioux, terem um líder branco como chefe e, ainda por cima, ranger.

CHET: o Tex brasileiro.

No início da década de 1980, a editora Vecchi, que então publicava Tex, satisfeita com as vendas da revista da personagem, encomendou a Otacílio Barros a criação de um novo herói do faroeste intitulado CHET (que é, na verdade, TEX escrito ao contrário, trocando o X pelo CH), invenção do então vice-director executivo da editora, o Sr. Lotario Vecchi.

As histórias de CHET foram escritas e desenhadas pelos irmãos Wilde e Watson Portela, com histórias inicialmente publicadas na revista Ken Parker e, posteriormente, em revista própria, tendo sido publicadas 22 edições.

Chet, o Tex brasileiroEm depoimento dado a Gonçalo Júnior, para composição do artigo “Um Herói contra as adversidades”, publicado na edição comemorativa dos 50 anos de Tex pela editora Opera Graphica, Otacílio diz que “Chet tinha um pouco de oportunismo sim, mas não era uma cópia exacta de Tex e eu me preocupei com isso. Tanto que cheguei a sugerir que as personagens tivessem características diferentes”.

Uma destas características diferentes foi o relacionamento de Chet com as mulheres. Se Tex só teve uma esposa e, após sua morte, não se relacionou mais com outras mulheres, Chet não perdia a oportunidade de estar com uma bela mulher. Na edição nº. 19 de Chet, o herói desiste de sua carreira de agente federal para virar rancheiro e casar-se com a bela Virgínia, que, por acaso, é uma portadora de Necessidades Especiais, sendo uma cadeirante, na qual já se nota uma preocupação do roterista da revista com as minorias, normalmente não representadas nessas histórias.

Foram editadas ao todo 22 edições de Chet, que se encerraram no número 22 com a história Os Proscritos (edição de Setembro de 1982), na qual é anunciado, para Dezembro do mesmo ano, o número 23, com a história Vampiro de Muskegon, que, até onde sei, nunca foi publicada. Também foi lançado um número especial intitulado Desejo de Vingança (esta edição apresenta uma aventura completa, que foi publicada em capítulos na revista KEN PARKER).

As histórias eram muito bem escritas e, com 22 edições, esta revista sobreviveu mais que a maioria das BDs brasileiras, devendo seu cancelamento ter sido mais em decorrência da falência da editora Vecchi, que se iniciou já no segundo semestre de 1982 e tornou-se facto consumado no primeiro semestre de 1983.

Tex na Internet:.

Para maiores informações sobre Tex, recomendamos o site TexBr que traz resenhas, artigos e fórum sobre a personagem. Site muito bem feito, actualizado constantemente e rico em informações. Tudo sobre a pena do webmaster e editor Gervásio Santana de Freitas e seus colaboradores. Um dos melhores sites de quadradinhos da Internet brasileira.

Para contactar fãs de Tex em todo o Brasil, sugiro a lista Bonelli HQ, lista muito bem moderada por José Ricardo, que, além de cuidar para que não se tenham incómodas discussões fora do tema e spam, também faz sorteio de brindes e busca divulgar todos os lançamentos Bonelli no país. Para o novo leitor de Tex, que espero que seja você ao terminar de ler este texto, é uma óptima oportunidade para conversar sobre Tex.

Por fim, temos o blogue português Tex, com óptimas matérias, trazendo notícias internacionais sobre o ranger. O destaque são as traduções de artigos e entrevistas realizadas pelos webmasters do blogue. Excelente qualidade! Para aproveitar o máximo do blogue, é sempre bom fazer uma visita aos arquivos, que estão divididos por tema.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Edgar Indalecio Smaniotto* Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo, mestre em Ciências Sociais e doutorando do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UNESP – FFC Marília.  Resenhista do Jornal GRAPHIQ,  das revistas Scarium Magazine (http://www.scarium.com.br/) e  macroCOSMO.com e articulista da revista portuguesa BD Jornal.
Autor do livro: A FANTÁSTICA VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR: ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu, 2007.

9 Comentários

  1. Interessante que o primeiro desenho desta matéria, reproduz, ficticiamente é claro, uma foto de Tex e seus amigos datada de 1880.
    Curioso é que, enquanto Tex ainda estava envolvido com os facínoras do velho oeste e adjacências, já se jogava futebol no Brasil, já que fontes garantem que o Futebol chegou ao Brasil com marinheiros ingleses em 1872, no Rio de Janeiro.

    Outros dizem que foram os trabalhadores ingleses das fábricas de São Paulo que trouxeram o futebol para o Brasil.

    Recentes estudos nos mostraram que o futebol já era praticado no Brasil em diversos colégios nesta década.

    Em 1880 já se praticava o esporte no colégio São Luiz, em Itu; em 1886 se praticava no colégio Anchieta, no Rio de Janeiro.

    Os que torcem para ler uma aventura de Tex no Brasil, talvez pudessem coloca-lo assistindo a uma partida de futebol.

    AMoreira.

  2. Para aqueles fãs novatos que começaram a ler as histórias de Tex à pouco tempo, e ainda não conhecem perfeitamente o ambiente e o estilo próprio das suas aventuras (o que não é bem meu caso, visto que já fazem 4 belos anos que venho lendo todas as revistas texianas que me caem em mãos), essa matéria é uma autêntica “mão na roda” para se ficar por dentro dos detalhes desse fantástico universo de Tex Willer. Parabéns a todos por essa magnífica biografia da história do personagem.

  3. Prezado Claudio,

    Pode comprar o DVD do filme do Tex fazendo uma pesquisa no Google.

  4. Olá. Gosto muito de Tex e na procura por sites onde possa comprar duas edições faltantes, acabei encontrando este blog com um texto cujo autor tem meu sobrenome.
    Sendo meu parente ou não, um forte abraço.

  5. Tex é um tipo de revista perfeita, relata sobre o mundo do velho oeste.
    Sabem Tex é um gibi em 1 lugar de todos, sabem aqueles gibis da Monica assim? Pois é, aquele gibi é sem fundamento, além do “Cebolinha” falar errado, ensina criança a dizer assim com ‘l’ no lugar do ‘r’, já Tex não, Tex vem com as letras todas certas e fala sobre um mundo realista, a Monica não, apesar de quando criança colecionar eles, com o Cebolinha aprendia a falar errado, dai perdi a graça.
    Daí na banca peguei o do Tex, li e adorei, fala certo, não ‘elado’ como os da Monica, e é muito bom, as vezes os gibis da Monica trazem coisas boas, mas o tipo deles ser não é bom, e tem coisa que não é nada real, como eles falando com ETs, viajando até a Lua… aff, nada a ver, como já disse Tex sim ensina o certo, além de fora da lei é um justiceiro, e Ranger, e fala de um mundo real, não você viajando pelo universo, conversando com ETs, e falando errado.
    E também as revistas de Tex são de um gibi realista e mais grosso, tem por vezes até mais de 300 páginas, e no mínimo 100 páginas e dá gosto de ler, enquanto os da Monica só tem umas 10 paginas e acaba a história.
    É também por isso que admiro o trabalho da Mythos, por que ela faz coisas fantásticas.
    Desculpem pelo texto grande, fiquem com Deus.

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