Por Rui Cunha (texto) e Margarida Cunha (fotografias)
Na história americana, a cidade de Tombstone, no Arizona, tornou-se famosa, de um dia para o outro, por conta de um duelo que lá ocorreu no dia 26 de outubro de 1881 e que as lendas do Oeste chamaram “Duelo no O.K. Corral” e o tornaram famoso na mitologia do velho Oeste.
O duelo foi o resultado de um conflicto que já vinha de trás que opunha um bando de cowboys, pistoleiros e, na sua maioria, ladrões, a Wyatt Earp e seus irmãos Morgan e Virgil, homens da lei e “Doc” Holliday, ex-dentista, jogador de poker, tornado pistoleiro. O tiroteio, que durou aproximadamente 30 segundos, resultou na morte de três cowboys, Tom e Frank McLaury e Billy Clanton e ferimentos em Morgan, Virgil e “Doc” Holliday.
No entanto, o duelo não acabou com a luta entre os irmãos Earp e os cowboys. Algum tempo depois, com diferença de meses, Virgil seria vítima de uma emboscada sendo ferido gravemente e Morgan seria assassinado. Wyatt, agora Marshall do condado de Cochise, no Arizona, com a ajuda de alguns amigos e “Doc”Holliday”, fez justiça pelas suas próprias mãos, perseguiu e matou grande parte dos cowboys acabando com o bando.
O duelo, apesar da lenda que se criou à sua volta, só foi conhecido do grande publico americano por volta de 1931, quando Stuart Lake, escritor, fez referência a ele numa biografia que escreveu sobre Wyatt Earp nesse ano. A partir deste livro, muitas foram as formas que se tentaram encontrar para ilustrar e fazer chegar aos novos públicos o acontecimento. A literatura e o cinema foram os melhores veículos para isso e deles resultaram algumas das grandes obras literárias e cinematográficas de sempre, como “My Darling Clementine – A Paixão dos Fortes” de John Ford (1946), ou “Gunfight at the O.K. Corral – O Duelo de Fogo” de John Sturges (1957), ou mais recentemente “Tombstone – Tombstone” de George Pan Cosmatos (1993) ou ainda “Wyatt Earp – Wyatt Earp” de Lawrence Kasdan (1994), sendo este último uma espécie de biografia do homem da lei.
Até a chamada 9ª Arte, a Banda Desenhada, se rendeu ao acontecimento e através de um dos seus grandes heróis, o Tenente Blueberry, lhe rende uma discreta homenagem no livro “Blueberry – OK Corral” (Jean Giraud, 2003).
Mas o O.K. Corral não se ficou apenas pelo duelo e o que dele resultou, a imaginação de alguns autores continuou e expandiu o evento com outros protagonistas, como Tex Willer, famoso Ranger do Texas, criação italiana de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini.
Tex Willer foi criado pelos dois autores supracitados em 1948 e, com quase 80 anos de existência, continua a encantar a geração que o viu nascer, aquela que se seguiu, os que vieram a seguir e, já em pleno século XXI, as novas gerações. Renovando-se constantemente ao longo dos anos, quer em termos de histórias, quer em autores.
Em 2019, operou-se na SBE (Sergio Bonelli Editore) uma nova mudança: pela primeira vez, na sua existência, uma história de Tex foi inteiramente desenhada por uma mulher. A história chama-se “La Vendetta di Doc Holliday – A Vingança de “Doc” Holliday” e a sua desenhadora chama-se Laura Zuccheri.
Passaram-se anos sobre o famoso duelo do O.K. Corral, que opôs os irmãos Earp e “Doc” Holliday aos cowboys liderados por Ike Clanton. Pensa-se que o bando dos cowboys já não existe, embora Johnny Ringo, um dos líderes do grupo ainda esteja vivo. Na cidade de Trail’s End, no Novo México, três cowboys que haviam chegado à procura de “Doc” Holliday aparecem mortos. Tex e Kit Carson são enviados para tentar resolver o caso e descobrir o paradeiro do ex-dentista que, ao que tudo indica, foi quem os matou.
Trabalhando sobre um argumento de Mauro Boselli, Laura Zuccheri não poderia ter começado da melhor maneira. A antiga desenhadora da série “Júlia”, também da Editora Bonelli, apresenta um trabalho digno dos mais famosos e conhecidos desenhadores de Tex. A desenhadora consegue alguns bons momentos, principalmente na sequência em flashback do O.K. Corral e o que se seguiu (pág. 99 – 114), entre-cortada pela conversa dos dois Rangers com Johnny Ringo no saloon em que o seu desenho é como se fosse uma câmara a filmar, conseguindo um bom equilíbrio entre os momentos mais calmos e os momentos de acção da história.
A acção decorre em diversos locais, cidades e povoados, sempre bem ilustrados pela desenhadora, dinamizando a acção e preparando o leitor para os grandes momentos que começam a acontecer a partir do meio para a frente (pág.115 – em diante).
O argumento de Mauro Boselli é bem estruturado, apresentando-se inicialmente como um western, com direito a uma primeira cena de acção e mistério onde surge pela primeira vez o assassino. Tex e Carson seguem as pistas que vão surgindo e a história avança para uma espécie de “who dunit”, onde nunca se percebe quem é o assassino e assim se mantém até perto do final quando as revelações começam a surgir e o culpado é finalmente apanhado. Boselli consegue um bom “vol de face” quando Johnny Ringo é assassinado adensando ainda mais o mistério de quem anda a matar e porquê.
O final em aberto (com as duas mulheres a partirem em busca do tesouro que os cowboys acumularam fruto dos seus roubos e que apenas Johnny Ringo sabia onde estava), sugere uma possível continuação no futuro?
No geral, “A Vingança de “Doc” Holliday”, é mais uma boa aventura de Tex, nunca abandonando o género para que foi escrita, um bom argumento com toques de thriller policial e, principalmente, um bom trabalho da desenhadora, Laura Zuccheri.
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Excelente análise, Rui! É fascinante ver como uma personagem com quase 80 anos de história continua a reinventar-se sem perder a sua essência. O grande marco desta edição é, sem dúvida, a arte da Laura Zuccheri. Sendo a primeira mulher a desenhar uma história completa do Tex, ela não só traz uma sensibilidade visual fantástica — especialmente na transição cinematográfica dos flashbacks do O.K. Corral —, como prova que o universo do Ranger ganha imenso com a diversidade de novos autores. Parabéns pelo texto!
Parabéns pela excelente crítica, Rui Cunha! O argumento do Mauro Boselli em “A Vingança de Doc Holliday” é um verdadeiro presente para os fãs do bom western. Essa transição para uma estrutura de “who dunit” (com a reviravolta da morte do Johnny Ringo) mantém o leitor agarrado da primeira à última página. E esse final em aberto sobre o tesouro dos cowboys… deixa mesmo a pairar no ar o desejo de uma continuação.
Grande análise! É muito bom ver o Tex contextualizado ao lado de clássicos do cinema de John Ford e John Sturges. “A Vingança de Doc Holliday” é uma obra obrigatória, tanto pelo argumento policial bem amarrado do Boselli como pelo traço histórico e dinâmico da Laura Zuccheri. Obrigado ao Rui e à Margarida pelas palavras e fotografias que enriquecem sempre este espaço!
Bella analisi, pard Rui!
Da italiano e appassionato di Tex, è un orgoglio vedere l’arte di Laura Zuccheri e la sceneggiatura del maestro Boselli così apprezzate in Portogallo.
Il tratto della Zuccheri nella sequenza dell’O.K. Corral è cinematografico, degno dei grandi maestri della SBE.
Un caro saluto dall’Italia.