Tex – Patagónia, na análise de Hugo Pinto

Por Hugo Pinto [*]

TexPatagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda

Desde sempre que a série Tex me surpreendeu pelas suas características únicas. É que, se por um lado, Tex é o grande porta-estandarte da editora italiana Bonelli e um herói muito acarinhado pelos muitos fãs que tem em todo o mundo (e faço destaque ao próprio Clube Tex Português e ao fantástico blog que sustenta esse clube – Tex Willer Blog); por outro lado, é uma série que não chega a um verdadeiro público mainstream da banda desenhada. É extremamente bem sucedida mas, face a uma franja de mercado apenas. Nem toda a gente gosta… mas quem gosta, gosta muito! É fã acérrimo. Tex é, por isso, aquilo que costumamos apelidar de “série de culto”.
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Se me parece que, por vezes, Tex Willer é uma personagem demasiado unidimensional e, por esse motivo, bastante clássica nos valores e idiossincrasias que representa, a verdade é que isso também é facilmente justificável pela longa vida do personagem, a cavalgar planícies áridas desde 1948. E, em Patagónia, o fantástico trabalho do argumentista Mauro Boselli, traz-nos um Tex Willer que, mesmo preservando essa unidimensionalidade que referi acima, consegue, não obstante, pintar este Ranger do Texas com subtis pinceladas, que nos dão tonalidades mais cinzentas na postura da personagem. E isso é, sem dúvida, um dos muitos pontos a favor deste fantástico Patagónia.
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Em termos de história, esta é uma aventura única de Tex Willer e diferente daquilo que poderíamos estar à espera. Desta vez, Tex e o seu filho, Kit Willer, viajam dos Estados Unidos para as pampas argentinas, para servirem de intermediários entre o Governo argentino e as tribos indígenas locais. Tudo o que despoleta esta demanda é uma sequência de ataques mortíferos por parte dos índios e o consequente rapto de prisioneiros. À medida que a história se vai desenrolando, as reais razões desta missão dos Willer surgem dúbias. Por um lado, parece haver uma tentativa de negociação pacífica do Governo argentino – e esta, naturalmente, é a vontade de Tex – mas, por outro lado, uma facção do exército argentino parece querer resolver o assunto com o recurso à violência gratuita, manifestando vontade de dizimar as tribos de índios.
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Há uma vertente mais histórica nesta obra pois consegue transmitir-nos, com realismo, o genocídio das tribos de índios na Patagónia, levado a cabo pelo exército argentino, e como só através de muita determinação, espírito de sacrifício e incríveis perdas humanas, estas tribos de índios conseguiram ter uma palavra a dizer na história da Argentina. Tex Willer aparece aqui como um intermediário, um pêndulo de bom-senso e diplomacia que procura, de forma disciplinada, reunir consensos e cedências de parte a parte.
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Obviamente, um cowboy vindo do faroeste não é inicialmente bem-vindo. Nem junto dos oficiais argentinos – com exeção de Ricardo Mendonza, antigo companheiro de Tex e responsável pela sua chamada à Argentina – nem junto dos índios que olham de soslaio para o protagonista, por ter a pele branca. Eventualmente, Willer terá que conquistar a sua admiração através de alguns eventos, muito bem imaginados pelo argumentista Boselli.
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Uma coisa é certa: embora seja uma obra com bastantes momentos de ação, esta é uma história que demora bastante tempo a arrancar. As primeiras 40 páginas servem mais para que Boselli nos apresente a história, o tema, a demanda, os interesses em conflito. E isto não é necessariamente mau. É adulto. Leva-se a sério. Possivelmente, um jovem leitor ficará algo entediado com o ritmo lento da primeira parte da obra. No entanto, um adulto que procure uma história com cabeça, tronco e membros, apreciará a forma cuidada e rigorosa com que a narrativa está construída.
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Mais do que uma história de cowboys, esta é uma história de guerra. Entre soldados do regime argentino e os índios da Patagónia. E mesmo estando embebida de alguma moral relativamente ao erro de se ser preconceituoso, no que concerne a raças e culturas, também não é uma história demasiado moralista. Tenta ser até, bastante factual, na forma como narra os eventos. Se essa moral existe, é nos feitos e postura de Tex Willer, pelo seu exemplo de justiça, que a mesma é passada. Muito adulto, uma vez mais.
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Apreciável também é a tal dimensão menos unidimensional de Tex e das personagens que o rodeiam. Gostei particularmente de como Ricardo Mendonza e Solano conseguem ter várias camadas entre o bem e o mal. Entre o certo e o errado.
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Mas, se a história é bem documentada, original pelo cenário onde acontece, e com personagens interessantes, a arte ilustrativa de Pasquale Frisenda é uma autêntica obra de arte. Uma maravilha para os olhos ao saber utilizar, com tanta mestria, o preto e branco, para nos dar um mundo verdadeiramente bem executado, para onde somos convidados a entrar. A minúcia dos pormenores que Frisenda deposita nos seus desenhos é incrível e merece ser observada com um olhar igualmente minucioso. Assim, não raras vezes, dei por mim a perder largos momentos em muitas vinhetas incríveis e majestosas no tratamento gráfico.
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A caracterização das personagens é excelente, com uma boa panóplia de emoções, que o autor utiliza sabiamente para dotar as personagens de sentimentos verossímeis. Mas é na caracterização dos ambientes, sejam eles paisagens distantes, olhares sobre os grandiosos acampamentos índios, cenas de desenfreado combate ou de cavalos em impetuosas cavalgadas, que mais fiquei surpreendido e apaixonado pela sua arte. De facto, a maneira como Frisenda capta o momento é magnífica e tem algo de poético, até. E isso não é comum em banda desenhada. O seu traço fino, elegante e muito seguro de si mesmo, representa a qualidade gráfica que uma série de culto como Tex merece. A meu ver, era difícil fazer um melhor trabalho no cômputo da arte ilustrativa.
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Se há uma coisa que não gostei tanto, e que diz respeito à história, é o final algo abrupto da mesma. Chega a ser frustrante se tivermos em conta que a história demora tantas páginas a desenvolver – e isso é bom, pois permite explorar as personagens e preparar o leitor para a grande missão de Tex – mas depois, no final, resolve a história em duas páginas, de forma demasiado seca. Não sei se isso aconteceu por causa de alguma pressão da editora sobre os autores, que tivesse que ver com deadlines, mas é uma pena, pois é um final demasiado brusco. Não é um mau final, note-se. Mas é um final mal explorado. Um livro destes merecia um final mais épico e bem conseguido.
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Quanto à edição da Polvo, mesmo admitindo que considero que esta obra de qualidade superior merecia uma capa dura, tenho que reconhecer que é uma edição com muita qualidade por parte da editora portuguesa. O papel é muito bom, a capa, com generosas bandanas, é muito bonita, e o trabalho gráfico também apresenta uma elegância muito apreciável. A introdução da obra por José Carlos Francisco também acrescenta informação pertinente à obra.
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Em conclusão, é fácil perceber porque é que Patagónia é uma das obras mais aclamadas de Tex Willer. As ilustrações de Frisenda são verdadeiramente magníficas e dignas de serem analisadas ao detalhe, enquanto que a história, que nos é oferecida por Boselli, é muito bem encetada, sabendo munir a obra de uma boa trama, que se desenvolve num cenário diferente daquilo a que estamos mais habituados a ver nas histórias do famoso cowboy. Pela parte que me toca, não tenho dúvidas que, se não for mesmo a melhor, é uma das melhores obras de Tex e um ótimo portal para mergulhar nas aventuras desde famosíssimo herói. Imprescindível.
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NOTA FINAL (1/10)
9.2

Ficha técnica
Tex – Patagónia
Autores: Mauro Boselli e Pasquale Frisenda
Editora: Polvo
Páginas: 228, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Maio de 2015 (2ª Edição: Maio de 2018)
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[*] (Texto publicado originalmente no blogue “Vinhetas 2020, em 17 de Fevereiro de 2021)

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As críticas do Marinho: “Sulla cattiva strada” (Tex italianos 719 e 720)

Tex #720 – Sulla cattiva strada

Por Mário João Marques

Sulla cattiva strada

Argumento de Pasquale Ruju, desenhos de Alfonso Font e capas de Claudio Villa.

História publicada em Itália nos nº 719 (“Scontro finale“) e 720 (“Sulla cattiva strada“), de Setembro e Outubro de 2020.

Goldfield, Arizona, uma cidade calma e próspera que se desenvolveu devido às minas que a rodeiam. Tex e Carson chegam à cidade na pista de Larry Granger, um bandido procurado pelas autoridades, mas quando vêem Scott Granger acreditam estar defronte do fora da lei. Adoptados pelos antigos donos do maior posto comercial da cidade, Larry e Scott são, na realidade, irmãos e gémeos, mas muito diferentes. Larry tem um passado rico em rixas e pequenos furtos, acabando por abandonar o lar ainda adolescente e tornar-se num verdadeiro fora da lei, que vive de roubos e assaltos e que não hesita em abater todos aqueles que tentam opor-se-lhe. Em poucas palavras, um ladrão e um assassino. Pelo contrário, Scott nunca foi violento e é hoje um cidadão respeitado, casado e pai de uma criança. Permaneceu sempre ao lado dos pais, até deles herdar o posto comercial onde todos afluem. Em suma, um cidadão exemplar. Acossado pela perseguição movida pelos dois rangers, Larry regressa à cidade para literalmente “tomar o lugar” do irmão.

Podíamos identificar Scott e Larry como uma espécie de Abel e Caim, tal como em certa altura se alude na história, mas o relacionamento entre os irmãos Granger no argumento de Pasquale Ruju, surge-nos diferente daquele que nos foi narrado pelo drama bíblico, o primeiro assassinato entre homens, e que ocorreu devido aos ciúmes que Caim tinha por Abel, pelo facto de Deus ter reconhecido um presente que lhe foi oferecido pelo irmão e não ter dado muito valor ao seu. Pelo contrário, Larry sempre encontrou nos progenitores compreensão para as suas atitudes rebeldes e violentas, talvez porque, dessa forma, eventualmente conseguiriam atenuar a índole dramática do filho. Além disso, e tanto como as cenas iniciais nos permitem concluir, o relacionamento entre os dois irmãos não era de rivalidade nem alimentado pelo ciúme, sendo até possível identificar Scott como um aliado de Larry, mesmo que momentâneo e forçado pelas contingências, quando este opta pela fuga do lar. Ou seja, a acção de Larry não é movida por alguma animosidade pelo irmão, mas sim pelo seu próprio carácter complexo e problemático, que o vai transformar num perfeito bastardo sem coração, que não hesita em apontar a arma na direcção da sua família, como o futuro virá demonstrar, e disposto a tudo para salvar-se, característica que o leitor até testemunha logo numa das cenas iniciais, quando abandona o seu bando nas mãos de Tex e Carson, sabendo ser muito difícil enfrentar e derrotar os rangers.

Chegado à cidade, Larry assume-se como uma espécie de Proteus, a célebre personagem presente no imaginário do leitor como o homem dos múltiplos disfarces, contudo, sem necessitar de alguma máscara para assumir outra identidade, tal é a sua semelhança com o irmão Scott. Com este efeito surpresa dissipado, é no confronto, ou se quisermos, no contraste entre os dois gémeos, idênticos fisicamente, mas muito diferentes no carácter, que a trama de Ruju se vai sustentar, conseguindo o autor gerir, de forma hábil, a gestão de expectativas do leitor, ao que não é alheia a introdução da personagem de Montoya, um sádico que nutre um enorme prazer no sofrimento das suas vítimas e de cujo bando Larry tinha feito parte. Acompanhado por um par de cães ferozes, a recordar Lizard de Os sete assassinos, Montoya é mais uma daquelas personagens violentas, marcadas e atormentadas que Ruju tanto gosta de apresentar e desenvolver, o que contribui para adensar e apimentar uma trama que parecia delimitar-se às ruas Goldfield e às astucias e artimanhas de Larry.

No desenho desta aventura encontramos o veterano espanhol Alfonso Font, de novo com um trabalho de grande qualidade, apesar dos anos que, naturalmente, passam por todos. No entanto, Font parece insistir em fintar o destino, porque trabalha com um ritmo que muitos bem mais novos gostariam de atingir, e sempre com um nível acima da média. Podemos estar em presença de um traço talvez mais sintético, mas estilo, técnica, enquadramentos, expressividade das personagens e um perfeito domínio dos contrastes, tudo contribui para um trabalho globalmente homogéneo. Destaque para a cena da perseguição inicial de Tex e Carson, com a poeira das cavalgadas, o disparo das armas, o movimento de cavalos e cavaleiros, tudo roça a antologia. E onde outros desenhadores utilizam o pontilhado para conferir dinamismo e dimensão, Font opta por traços que, reunidos em conjunto, acabam por transmitir a mesma sensação ao leitor. O seu Tex, graficamente menos canónico que outros, é acima de tudo um herói perfeitamente reconhecível, presente no imaginário do leitor pelo seu olhar rasgado, os seus traços nervosos e bem definidos, ao lado de personagens representadas por Font de modo vincado e expressivo, perfeitamente capazes de emergirem ao longo de toda a aventura.

De elaboração clássica, esta é uma aventura escorreita e bem calibrada, onde o papel de Tex e Carson está manifestamente bem doseado e administrado e onde todos os actores sabem bem qual o papel a desempenhar na economia da narrativa. Uma daquelas aventuras que vem cimentar as características de Ruju na série: onde Boselli é épico, Ruju opta pela simplicidade do previsível, o que não é de somenos.

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Exclusivo Mundial: Os SEIS esboços necessários para realizar a capa de Tex Willer n° 25 e ainda o lápis, a tinta da china e as cores originais de Maurizio Dotti

Mauro Boselli exibe exemplares de Tex Willer #25 – Resa dei conti al White Horse

Por vezes, para chegar à realização de uma capa, neste caso de Tex Willer (a série dedicada ao jovem Tex e que traz as aventuras de Tex quando ele ainda era um fora-da-lei!), o capista tem de recorrer a diversos esboços até chegar à ilustração pretendida e que se tornará a capa definitiva.

Tal aconteceu uma vez mais com a edição número 25 de Tex Willer, cuja capa, como todas até ao presente, é da autoria de Maurizio Dotti, com a particularidade de Dotti ter feito seis esboços diferentes até dar-se por satisfeito, como poderemos ver de seguida, com a particularidade do esboço eleito ter sido precisamente o primeiro, já que vamos dar conhecimento aos nossos leitores, num rigoroso exclusivo mundial, de todos os seis esboços realizados por Maurizio Dotti, assim como da arte a lápis, da arte a tinta da china e da capa original pintada igualmente por Maurizio Dotti devido à gentileza do próprio Dotti que até hoje não tinha ainda divulgado estas fantásticas artes de sua autoria para a edição nº 25 de Tex Willer:

Primeiro esboço, o eleito, para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Segundo esboço para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Terceiro esboço para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Quarto esboço para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Quinto esboço para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Sexto esboço para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Arte a lápis para a capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Arte final a tinta da china da capa de Tex Willer #25, da autoria de Maurizio Dotti

Ilustração para a capa de Tex Willer #25, com as cores originais de Maurizio Dotti

Capa de Tex Willer #25 – Resa dei conti al White Horse

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As Leituras do Pedro: Almanaque Tex #52

As Leituras do Pedro*

Almanaque Tex #52
>Colheita sangrenta
Jacopo Rauch (argumento)
Alessandro Poli (desenho)
>Corrida pela vida
Giorgio Giusfredi (argumento)
Alfonso Font (desenho)
Histórias originalmente publicadas em Tex Magazine #5 (Itália, 2019)
Mythos Editora
Brasil, Fevereiro de 2020
135 x 180 mm, 110 p., pb, capa mole
R$ 13,90 / 4,00 €

Curtas

Se não nascida, pelo menos tornada popular em longos folhetins que se estendiam por semanas ou meses nos jornais, a banda desenhada, com o advento das revistas, ganhou relatos mais curtos. Hoje, encontramo-la por toda a parte naquelas duas dimensões – e noutras… – mas a verdade é que há universos em que à partida não contamos com relatos curtos – e como é relativo este adjectivo…

É o caso daquele em que se movimenta o ranger Tex Willer mas, também nele, não há regra sem excepção e este é um exemplo.

[Se ao longo dos muitos anos que Tex já conta, pontualmente surgiram aventuras mais curtas, em abono da verdade, na última década assistimos ao reforço desta realidade e a Color Tex (Tex Edição Colorida no Brasil) é mostruário disso, com as suas edições com quatro histórias de uma trintena de páginas cada.]

Disse acima que o adjectivo ‘curto’ era enganoso, e esta edição prova-o. Colheita sangrenta, que a abre, conta 78 pranchas, volume considerável em muitos outros panoramas editoriais, mas não quando falamos de Tex, cujas aventuras geralmente ultrapassa(va)m, no mínimo, a centena de pranchas, podendo aproximar-se mesmo do meio milhar.

Dessa história, realce para dois momentos fulcrais: o sacrifício humano logo nas primeiras páginas – pelo inusitado da situação em Tex e pelo método utilizado – e, depois, mais à frente, a perseguição num campo de milho – apropriação coerente de uma cena utilizada recorrentemente em diversos registos narrativos pela potencial que a vegetação alta e cerrada proporciona em termos de jogo do gato e do rato. Fora isso, esta pode ser encarada como uma aventura tradicional do ranger, a solo, embora com uma surpresa – previsível… – quase no final, que confirma uma regra cavalheiresca que Tex não transgride…

Quanto a Corrida pela vida, provoca uma dupla estranheza: pela sua curta (cá está, outra vez) dimensão – 32 páginas – e, principalmente, pela ausência do protagonista esperado, substituído aqui por Gros Jean e Dawn.

Confesso que não me ocorre – falta minha ou memória fraca? – nenhuma outra história d(o universo d)e Tex em que ele não esteja presente, com excepção de Maria Pilar, que até tem edição da Polvo, mas a verdade é que a dupla (canadiana…) escolhida faz todo o sentido, num relato que se desenrola integralmente na neve, durante numa corrida de trenós, em que os interesses e os fins, parecem justificar alguns meios.

Num caso e noutro, com a ajuda do traço mais duro e agreste de Poli e Font, os desvios à ‘normalidade’ texiana são sensíveis, mas sem serem abusivos, e permitem abordagens diferentes.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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Vídeo: Tex, 50 Anos de Publicação Ininterrupta no Brasil com Paulo Guanaes, João Marin, Ricardo Elesbão e Leonardo Fraga

Tex comemora neste mês de Fevereiro  50 anos de publicação ininterrupta no Brasil no formato de revista e 70 anos desde a primeira história publicada. Apesar de várias mudanças e dificuldades no mercado de banda desenhada, o Ranger segue sendo publicado (actualmente pela Mythos Editora) e seguido por uma legião de fãs, inclusive de Portugal, até porque Tex também começou a ser distribuído neste país europeu à beira mar plantado, precisamente em 1971.

Nesta ocasião especial Leonardo Fraga e Ricardo Elesbão, Gestores e Editores da Confraria Bonelli, entrevistaram dois dos mais ilustres sócios do Clube Tex Portugal: Paulo Guanaes, tradutor do Tex mensal desde 1971 e João Batista Marin, um dos principais coleccionadores brasileiros de Tex e que tem a sua colecção incluída no Rank Brasil, como sendo detentor do título de maior colecção de itens do personagem Tex.

Uma conversa muito agradável e muito enriquecedora, que se prolongou por quase 3 horas, onde se ficou a conhecer  Causos e Histórias de meio século de publicação ininterrupta do Ranger no Brasil e que podem ser vistos no vídeo que apresentamos de seguida:

Do esboço inicial à capa final de Tex Willer #28, passando pelos esboços alternativos, tinta da china e cores originais de Maurizio Dotti

Mauro Boselli exibe exemplares de Tex Willer #28 – Texas Rangers

No passado dia 18 de Fevereiro a Sergio Bonelli Editore publicou a edição número 28 de Tex Willer (a série dedicada ao jovem Tex e que traz as aventuras de Tex quando ele ainda era um fora-da-lei!), intitulada “Texas Rangers” que contém a quinta e última parte da saga de John Coffin, história escrita por Mauro Boselli e desenhada por Bruno Brindisi!

A capa deste vigésimo oitavo número, tal como as vinte e sete anteriores e as que se seguirão nesta  colecção, é da autoria do conceituado desenhador Maurizio Dotti, capa essa que divulgamos hoje aqui no blogue do Tex acompanhada do esboço inicial, assim como de um segundo esboço alternativo, assim como da arte a lápis, da arte finalizada a tinta da china e da capa original pintada igualmente por Maurizio Dotti, devido à gentil cortesia do próprio Dotti:

Primeiro esboço para a capa de Tex Willer #28, da autoria de Maurizio Dotti

Segundo esboço, o eleito, para a capa de Tex Willer #28, da autoria de Maurizio Dotti

Arte a lápis para a capa de Tex Willer #28, da autoria de Maurizio Dotti

Arte final a tinta da china da capa de Tex Willer #28, da autoria de Maurizio Dotti

Ilustração para a capa de Tex Willer #28, com as cores originais de Maurizio Dotti

Capa de Tex Willer #28 – Texas Rangers

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Vídeo: Tex em San Francisco com… o Capitão “Barba Negra” Drake, na arte de Stefano Andreucci

Stefano Andreucci, que podemos já informar será o capista da revista nº 14 do Clube Tex Portugal, a publicar em Junho, está a desenhar uma história, de 220 páginas, de Tex para a série principal do Ranger, uma empreitada que demorará cerca de 2 anos a concluir mas pode-se desde já informar que será (mais) uma história icónica, escrita por Mauro Boselli, que trará o regresso do Capitão Barba Negra, mas para já e antes de falar do capitão Drake com maior profundidade, vamos dar a conhecer um magnífico vídeo, de 45 segundos, onde com uma bela melodia de fundo, o Stefano Andreucci nos mostra uma esplendorosa prancha, ainda a lápis, acabada de desenhar:

Mas falemos agora das anteriores aparições do capitão “Barba Negra” Drake (representado de seguida na fabulosa arte de Stefano Andreucci) e do porquê de ser uma das personagens mais carismáticas na longa saga de Tex…

Capitão “Barba Negra” Drake na arte de Stefano Andreucci

De Ulisses a Jim Hawkins, de Sinbad ao capitão Nemo, de Ahab a Corto Maltese, os mais grandiosos protagonistas de histórias de Aventuras tiveram que enfrentar, mais cedo ou mais tarde, uma viagem nas imensas extensões Oceânicas, com tudo que isso envolve: tempestades, abordagens, naufrágios, batalhas navais, caça à baleia… Tex não podia ser a excepção.

A ocasião ofereceu-lhe o Capitão “Barba Negra” Drake, que rapta Kit Willer e o aprisiona num velho veleiro (o “Black Shark”), pensando em abandoná-lo num atol do Pacífico. Homem do mar de carácter duro, contrabandista habituado a bater-se e a desembainhar o punhal sem pensar duas vezes, Barba Negra tudo somado, é um simpático pirata, provido de um seu código de honra. Por isso, em seguida, passará a fazer parte dos aliados de Águia da Noite.

QUEM É O CAPITÃO BARBA NEGRA

Capitão Barba Negra - HachetteTex abandona frequentemente terra firme, para zarpar, a bordo de veleiros, botes, pirogas e baleeiras em direcção a metas exóticas e remotas.
E é precisamente no coração do Oceano Pacífico que o Ranger se aventura para encontrar o seu filho Kit, embarcado (à força) como marinheiro no barco de um simpático patife: Capitão Barba Negra!

Onde está o meu filho?”, pergunta Tex com olhar fogoso, agarrando pelos colarinhos o aterrorizado Diamond Jim. O homem, que tem vários locais de tráfico de São Francisco, mandou raptar Kit Willer para vingar o próprio irmão, vítima de Águia da Noite há alguns anos atrás. Mas depressa arrepende-se. De facto, rapidamente, com um lampejo de horror nos olhos, revela que Pequeno Falcão foi apanhado e embarcado pelos homens do “Black Shark”, o barco de um certo Capitão Drake, dito Barba Negra.

Capitão Barba-NegraEssa pessoa recebeu uma pilha de dólares e a ordem de desembarcar o prisioneiro no meio do Pacífico, num atol esquecido por Deus, durante a sua viagem para as Ilhas Salomão.
Para ir no encalço do “Black Shark”, que já tinha levantado âncora, Tex contrata, por sua vez, um capitão de longo curso, Billy Bart, velho rival de Barba Negra, convencendo-o a desdobrar as velas do seu três-mastros. Bart descreve Drake com estas palavras: “É um maldito filho de um cão, mas a seu modo é um homem de palavra!

Capitão-Barba-NegraHomem duro, contrabandista habituado a bater-se e a desembainhar o punhal nas tabernas de portos de meio mundo, tem porém o seu código de honra. “Eu me comprometi em desembarcar-te o mais longe possível de “Frisco”, num lugar do qual tu tenhas escassas possibilidades de voltar.”, diz Barba Negra a Kit Willer, durante a navegação, “E que eu seja enforcado se não farei isso, embora eu te ache simpático. Eu mantenho sempre a minha palavra”. Pequeno Falcão refuta: “O que, neste caso, seguramente lhe vai custar a pele”. “Conversa!”, replica o Lobo do Mar. “Tu não tens a mínima ideia de quem seja o velho Drake!”. E Kit, de imediato: “E você não suspeita nem de longe quem seja o meu pai. Fará tudo para descobrir onde eu fui parar; se não conseguir não descansará enquanto não puser as mãos em todos os responsáveis pelo meu desaparecimento!”.
No final, travado por Tex, que o perseguiu por meio Pacífico, Barba Negra perde o “Blak Shark” mas salva a fatídica pele.

Capitão Barba Negra e TexQuando, anos depois, o Ranger e o capitão se revêem, este último está há algum tempo enclausurado entre os muros de Alcatraz, e ainda chora pela sorte do seu barco, que foi fazer companhia aos peixes no fundo do Oceano. “Um fim justo para uma banheira que só servia para contrabando e assaltos”, comenta Águia da Noite.

Capitão Barba Negra e o AlbatrozHabituado aos horizontes do mar aberto, Drake sofre como uma raposa na armadilha agora que é forçado a viver fechado numa penitenciária. Porém há um trunfo para jogar: sabe onde está escondido Tom Devlin, o chefe da polícia de São Francisco, acabado de ser vítima de uma conspiração efectuada por alguns dos seus próprios colegas. Drake pede a Tex a promessa de tirá-lo da prisão em troca da sua ajuda. Willer e Carson, por isso, fazem evadir Barba Negra de Alcatraz, e Drake, de novo livre revela que o Capitão Devlin está aprisionado na estiva de um navio chamado “Albatroz” que ruma para Vancover.

Capitão Barba Negra e Tom DevlinÁguia da Noite compreende ter agora de precisar do barbudo pirata e lhe assegura que convencerá Devlin a perdoar-lhe o resto da pena, se colaborar com a Lei. Os dois homens entreolham-se e compreendem em poucos instantes que precisam um do outro. Barba Negra ajuda Tex por conveniência. Mas fá-lo.

É ele mesmo a admirar-se, quando, no final, se encontra a jantar no restaurante com o policial que contribuiu para libertar.: “Pelo ventre de um tubarão, essa é boa! Um penduricalho de forca como eu sentado ao lado do chefe da polícia!”. Quase para salvar a face ou para não se desdizer a si mesmo, Drake não renuncia a apontar o dedo contra o ranger: “A nossa conta permanece em aberto, Willer! Um dia poderás me encontrar no teu caminho novamente!” E Tex: “Não te aconselho! Eu poderia arrancar essa barba e fazer uma vassoura com ela”. Mas, pouco depois, o encontro termina com um brinde: “À volta do Capitão Devlin e à regeneração de um velho pecador!”.

Vídeos: Entrevistas com Michele Rubini, Fabio Civitelli, Alessandro Piccinelli, Stefano Andreucci, Nicola Genzianella, Aldo Di Gennaro, Pasquale Del Vecchio, Stefano Biglia, Mario Rossi (Marò), Pasquale Ruju e Gianfranco Manfredi

Hoje no Tex Willer Blog damos a conhecer algumas vídeo-entrevistas realizadas (em italiano) muito recentemente com alguns dos principais desenhadores do staff oficial de Tex (Michele Rubini, Fabio Civitelli, Alessandro Piccinelli, Stefano Andreucci, Nicola Genzianella, Aldo Di Gennaro, Pasquale Del Vecchio, Stefano Biglia e Mario Rossi -Marò) e com prestigiados escritores do Ranger (Pasquale Ruju e Gianfranco Manfredi), entrevistas muito interessante da rubrica “3 Chiacchiere con…” com cerca de 60 minutos,  conduzidas pelo youtuber Manuel para o canal nerd 8 – BIT e que recomendamos a todos os fãs de Tex que compreendam o belo idioma italiano:

As Leituras do Pedro – Ken Parker #8: Hombres, Bestias y Héroes/ Butch, el implacable

As Leituras do Pedro*

Ken Parker #8: Hombres, Bestias y Héroes/ Butch, el implacable
Giancarlo Berardi (argumento)
Ivo Milazzo e Bruno Marrafa (desenho)
ECC Comics
Espanha, Março de 2018
140 x 210 mm, 200 p., pb, capa fina com badanas
ISBN: 978-84-17354-28-2
9,90 €

Títulos…

Em cada análise que faço aqui no blogue, por baixo do título da obra existe um (sub-)título com o qual pretendo resumir, apresentar o livro e/ou despertar a curiosidade de quem lê, mas sempre sem desvendar demasiado.

Desta vez, neste (rápido) regresso a Ken Parker, não consegui decidir que (sub-)título utilizar: Fim de ciclo? Curiosidade? Mestria narrativa? Ficam breves análises segundo as linhas orientadoras de cada um, já a seguir…

Fim de ciclo

Este volume duplo – da colecção Ken Parker que a ECC Comics está a lançar mensalmente em Espanha – abre com Hombres, Bestias y Héroes que marca o final do ciclo que Berardi dedicou à adolescente Pat O’Shane. Foi uma fase de transição, relativamente longa, por vezes com um excesso de rábulas burlescas, que fundamentalmente serviu de rito de passagem da adolescência para uma idade (pré-)adulta da jovem que Ken acompanhou e protegeu, da melhor forma que pôde, embora fosse visível a forma como se sentia desconfortável, preso e manietado na sua ânsia de liberdade.

Este conto final – que é também um retrato realista – por isso duro – de algumas realidades do velho Oeste, destaca-se pela forma púdica como é narrada a aproximação progressiva entre Pat e Nathan que permite a libertação emocional de Ken.

Curiosidade

Outro aspecto a destacar neste conto – embora por demais conhecido – é a curiosidade de nas suas páginas iniciais, na cena em que Ken Parker, num saloon, tenta encontrar homens que o acompanhem na condução do rebanho de Pat O’Shane, ter como cicerones os próprios Berardi e Milazzo, em divertidos exercícios de auto-depreciação. Ao mesmo tempo, entre os clientes vão-se reconhecendo Tex, Carson, Kit Willer e Jack Tigre, Larry Yuma, Red Dust, Cisco Kid e Pancho, Sargento Kirk, Lucky Luke ou Blueberry, numa bela homenagem e curioso reconhecimento do género e citação de alguns dos seus intervenientes de eleição, numa série que tanto se afastou do western tradicional em nome da sua humanização…

Mestria narrativa

Mas a principal razão para este texto – por isso este terceiro sub-título ficou para o fim – é o segundo relato que o livro contém – Butch, el implacable – no qual Giancarlo Berradi dá mostras de toda a sua mestria narrativa – num modelo (desculpem a rudeza do termo) que iria aplicar anos mais tarde igualmente em Julia.

Com o herói a entrar apenas por volta da página 30 (!), aproveita o largo intróito anterior para nos dar a conhecer Butch, um caçador de escalpes, bem como alguns passageiros de uma diligência. Fá-lo através da acção e dos diálogos, tentando que os juízos sobre cada um caibam apenas ao leitor mas, nessas curtas páginas, aborda emancipação feminina, racismo, preconceitos em relação aos índios, servindo tudo com um grau de violência- várias vezes visual – invulgar na época…

Se os caminhos da diligência referida, de Ken Parker e de Butch se vão cruzar, vítimas comuns de uma perseguição por índios, tenham cuidado com as ideias feitas (que vão formar antecipadamente) e esperem tudo deste relato menos um western clássico e estereotipado, porque Berardi – com evidente prazer – troca-nos as voltas de forma magistral, mostrando como quem vê caras não vê corações – desculpem a recurso fácil à sabedoria popular – e entre redenções e quedas, o ser humano é sempre capaz de nos (des)iludir.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

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