VIAGEM AO TEMPLO DOS FUMETTI (A EDITORA BONELLI)

Por João Miguel Lameiras*

O mítico nº. 38 da rua Buonarroti.

Diz a tradição que, para um católico, uma viagem a Roma não fica completa se não se for ver o Papa. No meu caso, como grande fã de Banda Desenhada em geral e dos fumetti da Bonelli em particular, havia um local incontornável em Milão, para além da Catedral, do Teatro Scala, ou da Pinacoteca de Brera, que queria muito visitar: os escritórios da Sergio Bonelli Editore.

Graças a uma “cunha” do meu amigo José Carlos Francisco, que os italianos conhecem por Zeca, não foi nada difícil concretizar esse sonho, quando em Junho do ano passado, fui uma semana de férias a Milão, com um grupo de amigos. Foi assim, que quando a meio da manhã de 9 de Junho de 2016, toquei à campainha de um discreto prédio habitacional no nº 38 da Via Buonarroti, tinha à minha espera Giovanni Boninsegni, o simpático responsável de imprensa da Bonelli, que ia ser o meu guia nesta curta mas inesquecível viagem aos escritórios da editora Bonelli, que ocupam três andares desse prédio.

Com Mauro Boselli no seu gabinete.

A visita começou no primeiro piso, onde estão os editores de séries como Tex e Zagor e foi aí que encontrei Mauro Boselli rodeado de papéis por todo o lado, num caos mais ao menos organizado, dividido entre a revisão de provas e a leitura de um mail com páginas a lápis e a tinta de Raul Cestaro para uma próxima história do Tex. Para ajudar à confusão, chegou então Maurizio Dotti, que eu tinha conhecido meses antes na Anadia, por ocasião da 3ª Mostra do Clube Tex Portugal, que tinha passado pela editora para entregar em mão uma dezena de pranchas originais de uma história do Tex passada em Nova Iorque que estava a desenhar.

Pranchas de Raul Cestaro no computador de Boselli.

Giorgio Giusfredi, o assistente de Mauro Boselli.

Não perturbando mais quem trabalha, visitámos rapidamente o resto do andar e subimos ao andar de cima, onde ficava o escritório de Sergio Bonelli e fica agora o do seu filho Davide, que tive o prazer de conhecer pessoalmente. Esse segundo andar é um verdadeiro Museu, pois tirando as inúmeras estantes, não há um espaço de parede que não esteja ocupado por um desenho original de alguns dos maiores nomes da BD Mundial, desde os clássicos americanos, até aos maiores nomes da BD italiana, como Hugo Pratt, Guido Crepax, ou Sergio Toppi, que Sergio Bonelli editou na mítica colecção Un Uomo un’Avventura. E estes verdadeiros tesouros não estavam circunscritos às zonas comuns, ou às salas de reuniões, pois todos as salas tinham originais de BD emoldurados nas paredes, com a excepção da sala onde Sergio Bonelli tinha o seu gabinete, cujas paredes estavam decoradas com recordações das suas inúmeras viagens.

Dylan Dog Desenhado por Sergio Toppi.

Original da capa de Pasquale Frisenda.

Original de Crepax para série ‘Un Uomo un’Avventura’.

Original de Sergio Toppi.

Para de ter tido a honra de conhecer Michele Masiero, o director editorial da Bonelli e ser recebido pelo próprio Davide Bonelli, tive ainda o prazer de reencontrar o mais português dos desenhadores do Tex, o italiano Fabio Civitelli, que me autografou a magnífica edição de Il Segreto degli Anasazi, que Davide Bonelli me tinha oferecido.

Michele Masiero director editorial da Bonelli.

Fabio Civitelli autografando o meu livro com Davide Bonelli a ver.

Giovanni Boninsegni, Civitelli e Davide Bonelli.

Autógrafo de Civitelli.

Como já não dava tempo de visitar o terceiro piso, onde é feita a produção e a legendagem das histórias, a minha visita terminou no arquivo da editora, onde o meu anfitrião, Giovanni Boninsegni me ofereceu uma série de livros da editora, desde os três primeiros números da série UT, ilustrada pelo meu desenhador favorito da Bonelli, Corrado Roi, a uma série de números de Dylan Dog e Dampyr, até os três números da revista Tutto Tex dedicados ao passado de Kit Carson. Um espólio que só não foi maior porque o espaço disponível na mala não o permitia.

Um espaço dedicado ao Zagor.

Em suma, foi uma manhã que passou num instante e que foi o ponto mais alto da minha última viagem a Itália. Um momento inesquecível em que, graças ao respeito e ao carinho que todos, na Sergio Bonelli Editore têm pelo José Carlos Francisco, fui recebido quase com honras de chefe de estado.

* Texto de João Miguel Lameiras publicado originalmente na Revista nº 6 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2017.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. Que bela matéria. Apreciei tanto o texto, pessoal e delicioso, quanto as fotos. Parabéns pela publicação !

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