Tex Série Normal: Entre Duas Bandeiras

Entre Duas BandeirasArgumento de Gianluigi Bonelli, desenhos e capas de Aurelio Galleppini.
Com o título original Tra due bandiere
, a história foi publicada em Itália nos números 113 a  115 em 1970 e no Brasil, pela Editora Vecchi nos números 53 a 55.

Em quase todas as consultas efectuadas aos leitores, esta aventura destaca-se sempre por ser uma das mais apreciadas da série. Convenhamos que os leitores têm toda a razão. Não só pela qualidade do enredo, que revela um Gianluigi Bonelli no pleno da sua capacidade narrativa, como também nas qualidades gráficas de um Aurelio Galleppini que assina aqui um dos mais notáveis trabalhos da sua longa carreira.

Tudo começa em Abilene, quando Tex, na companhia de Carson e seu filho Kit, ao chegar ao saloon encontra Dick Dayton, um seu velho amigo do tempo da Guerra da Secessão. E é na companhia de outro velho amigo, o xerife Ben Trevor, que Tex e Dick vão narrar alguns episódios que viveram juntos em pleno conflito que opôs norte e sul, mas que sobretudo colocou em lados opostos da barricada velhos amigos.

Tex 53A Guerra da Secessão constitui um dos episódios mais marcantes da história dos Estados Unidos. O rápido desenvolvimento e expansão do país marcaram grandes e crescentes diferenças entre o Norte e o Sul. Enquanto o Norte se industrializava cada vez mais mercê das vagas de imigrantes, no sul expandiam-se as plantações que recorriam à mão-de-obra escrava. Quando em 1860 Abraham Lincoln (inimigo da escravatura) foi eleito presidente, o Estado da Carolina do Sul declarou a sua saída da União e até meados de 1861 outros dez Estados seguiram esse exemplo, formando em Montgomery e Richmond uma nova federação. Lincoln negou o reconhecimento e todas as negociações fracassaram, iniciando-se a Guerra da Secessão em Abril de 1861.

Tex 54Bonelli aproveita este infeliz episódio histórico para fazer em toda a aventura uma marcação cerrada à guerra, aos seus malefícios, a toda a realidade inerente aos conflitos. Através do relato de Tex e Dick, o leitor toma conhecimento da realidade de um país dividido entre um norte industrial, que de certa forma representava o ideal americano e um sul agrícola, fundamentado em ideias conservadoras. O autor parte para uma aventura épica protagonizada por dois homens de princípios e valores tão distantes naqueles anos. Tex e Dick são por assim dizer o instrumento ético de Bonelli, funcionando como um baluarte contra a barbárie dos homens, contra o ódio que opôs amigos e familiares, contra os actos sem regras e sem limites de uma guerra fratricida. E repare-se que Tex e Dick sendo sulistas vão estar nas fileiras do norte, o que não espanta, porque um dos valores texianos é estar do lado dos oprimidos e dos direitos. Assim sendo, Tex nunca poderia lutar ao lado de ideais sessionistas que defendiam a escravatura e a diferença entre os homens.

Tex 55Para Bonelli não importa estar de um lado contra o outro, o mais importante é defender aquilo que ele considerava ser justo, a defesa da integridade e dos valores humanos. Por todas as páginas, mais do que assumir um ou outro lado, importa desaprovar o conflito e realçar que todos os homens são iguais. Funcionando como instrumento ético do autor, Tex tem uma acção dinâmica, assume o risco e assume-se como um homem independente ideologicamente durante uma guerra que vai sendo narrada de batalha em batalha, num crescendo narrativo que tem o seu epílogo dramático na morte de Rod, um velho amigo de Tex e Dick, que acaba por realçar os malefícios de um conflito que dividiu todo um país, atrasando a sua modernidade.

Graficamente temos um Galep pujante, com um desenho pleno de vigor e dinamismo, um Galep maduro, no auge das suas capacidades. O autor alterna planos, sabe transmitir uma aura épica à aventura, descrevendo situações e personagens com grande realismo. O horror da guerra e das suas batalhas, os acampamentos militares, as explosões, as tropas, os homens perante a dura realidade do conflito, tudo passa pela mão de um Galep irrepreensível, de um Galep experiente, de um Galep que soube transmitir a dura crueldade de uma história infelizmente saída da História.

Texto de Mário João Marques

4 Comentários

  1. Mais outra brilhante crítica! Aprecio muito as ótimas críticas do Marinho!
    Tomara que agora elas sejam mais regulares e sempre bem conseguidas, como esta!

  2. Olá Felipe,
    Esta é uma das minhas histórias preferidas e a crítica já tinha sido feito desde há algum tempo.
    No entanto, infelizmente nos últimos tempos não tenho tido oportunidade para escrever sobre o que vou lendo. Prometo que isso em breve irá terminar.
    Agradeço muito as suas palavras.
    Um grande abraço
    Mário

  3. Excelente crítico literário o Mário Marques. Vou ficar atento às próximas postagens! Mais uma vez comprova-se que Tex é cultura, é história, é conhecimento… Gostei demais!!!

  4. Mário,

    Dizes que é uma história destacable mas… nem sei se algum dia já li esta história, e nem sei se algum dia já foi publicada em França, tenho grandes dúvidas ao ler o teu artigo.

    Vou investigar.

    Artigo interessante, como sempre, parabéns.

    Camilo

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