MISTER NO E OS SUSPIROS

Por Júlio Schneider*

MISTER NO E OS SUSPIROS

Para Júlio Schneider, de Sergio Bonelli

O trabalho do editor Bonelli eu conheço há mais de quarenta anos, desde que comecei a ler a fabulosa História do Oeste, publicada no Brasil a partir de 1970 com o mítico título de Epopéia-TRI (na ortografia da época a palavra ainda levava acento). O roteirista Sergio Bonelli eu comecei a apreciar logo depois, com Mister No. E o maior de todos, o homem Sergio Bonelli, começou a fazer parte da minha vida há vinte e cinco anos, quando criei coragem de entrar em contato e perguntar “é sério que você fala português?“.

Mais um pouco e o editor e roteirista também se tornou amigo e chefe, partilhando trabalhos editoriais da Mythos e da SBE. O maior e mais honroso dos encargos que recebi foi o de preparar relatos dos fatos, da situação econômica, histórica e geográfica do Brasil do início dos anos Setenta, inclusive o preço do cafezinho e descrições dos uniformes do exército e dos aviões da FAB (a Força Aérea Brasileira, da qual eu havia feito parte), para que a fantasia da última aventura vivida por Mister No respeitasse o contexto real. O pagamento pelo serviço? Ele me presenteou os roteiros originais da longa saga, com algumas anotações que ainda me arrepiam: “Atenção desenhista: ver os detalhes do uniforme nas descrições do Júlio“.

De Sergio Bonelli para o grande amigo e consultor Júlio Schneider

Na última vez que estivemos juntos eu levei um puxão de orelhas, porque não compareci ao almoço surpresa que Sergio havia preparado para festejarmos os meus 50 anos. Só que, por ser surpresa, ele não havia me avisado! A compensação veio no jantar, num restaurante de Milão em que só entrava quem tivesse feito reserva antecipada… mas ao bonachão editor as portas se abriam rapidinho. Um jantar fantástico, com um vinho que jamais tomarei igual na vida, e com uma sobremesa também especial: quando o garçom trouxe um carrinho com dezenas de iguarias de encher os olhos, Sergio mandou guardar tudo e pediu um pote de suspiros, iguais “aos que saboreava nos botecos de beira de estrada no Pantanal“!

Júlio Schneider e Sergio Bonelli num jantar fantástico

Dias depois batemos o último papo, na porta da Editora, eu tomaria o avião de volta para casa e ele pegaria a estrada, para o Festival de Lucca. Nós nos despedimos com um abraço e um até breve e, quando o vi se afastar, meu coração ficou apertado, não sei por quê, mas pensei… “Vaya con Diòs, amigo. Quando será que nos veremos novamente?“. E tirei a última foto, de Sergio indo embora…

A última foto, Sergio Bonelli partindo…

*Júlio Schneider (26/09/2011),
tradutor, redator e consultor editorial para as publicações Bonelli no Brasil.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

17 Comentários

  1. Vai fazer falta demais!! Pessoas como Sergio Bonneli ficam eternamente em nossos corações! Espero um dia encontrá-lo nas pradarias celestiais.

  2. JÚLIO…
    Se eu que não conheci pessoalmente o mestre Sérgio, até hoje não digeri o que aconteceu, imagina você, que passou tantos bons momentos ao lado desse grande homem!!!
    Força aí, e força a todos nós que ficamos privados da presença desse ser humano inigualável!!!

  3. Ótimas lembranças e é isto que nos liga as demais pessoas, a humildade de termos trilhado trechos de percursos lado a lado, mesmo que em algum momento, alguém siga caminhando para mais além, a imagem desta não se esvai na memória e do peito, as levamos e somos levados, sempre!!

    Parabéns por mais este relato que vai formando um mosaico ímpar de uma pessoa fantástica!

    Suspiros de gratidão e reconhecimento Brasil afora!!

  4. Com um depoimento desse e sabendo quem foi e quem é Sergio Guido, fica difícil você não se emocionar. Perdemos Gale e Bonelli pai e tantos outros… mas confesso que com a partida do Sergio senti mais. Pois não há como negar que ao narrar suas historias ele narrava para cada um de nós. Hasta la vista amigo!

  5. A última foto foi de partir o coração, Julio. Tocante. E o texto ficou perfeito. Perdemos o guerreiro mas sua criação e sua obra o eternizarão.

  6. Meu amigo Júlio, você me fez chorar com este texto. Parabéns.

    E lembrei aqui que tenho mais uma coisa a agradecer ao Sergio: não fosse pelo trabalho dele, possivelmente nós dois não teríamos nos tornado amigos.

    Abraço

  7. Julio, seu relato emocionou mesmo. Me recordo de quando me contou sobre esse jantar com o SB, e agora revendo as fotos, bem… é melhor nem falar…

  8. Um relato emocionante! Essa foto, do amigo Sergio Bonelli se afastando, mostra bem o quanto era querido e amado por quem lhe tirou a foto. Uma homenagem sem paralelo, nunca vi semelhante demonstração de afecto. Obrigado pela partilha e por tornar um pouco mais quente estes momentos de tristeza de toda a família e amigos, bem como os fãs.

  9. Caro Julio

    Que texto bonito e apropriado. Tive o prazer de ver essa influência simples do Sergio Bonelli ao chegar aos restaurantes mais procurados da Itália. Sem precisar dizer nada as portas se abriam para ele, da mesma forma que as portas dos corações das pessoas com as quais ele entrava em contato também se abriam para ele.

    Lindas fotos, grandes lembranças.

  10. Se há imagens que têm um significado especial… esta foto ficará como uma delas, simbolizando a despedida de Sergio Bonelli, quase como se partisse, naquele dia e àquela hora, para a sua última jornada. Uma foto que retrata também a humildade e a pacatez de um homem influente, com um elevado estatuto social e profissional, mas que era o oposto disso; um homem igual a tantos outros, sem vaidades, que gostava de andar a pé, de saco na mão, era refractário a telemóveis e a computadores, e apreciava as coisas simples, os convívios e as boas recordações – como uns “suspiros” iguais “aos que saboreava nos botecos do Pantanal“, quando andara por lá, vestindo a pele de aventureiro e sonhando já com Mister No.
    Que inspiração a sua, Júlio, ao vê-lo partir assim, naquele dia, caminhando tranquilamente, entre a luz e a sombra, num passeio atravancado de carros, e ao fixar essa imagem, como se tivesse adivinhado que estava a eternizar um momento e uma cena muito especiais, dignos de um filme “à italiana”, dirigido por De Sica.

  11. Caramba Júlio… essa foto…
    Como disse a Maria Edi “quem está com um nó na garganta sou eu, agora!

    Arrepiou aqui.

    Sérgio vai fazer muita falta…
    Com certeza uma pessoa que queria ter tido a sorte de conhecer pessoalmente.
    Parabéns por essa dádiva de poder chamá-lo de amigo.

    Abração

  12. Julio, essa foto…
    … essa foto…
    quem está com um nó na garganta sou eu, agora.
    Feliz foi você, que teve esse contato estreito com um homem que, até hoje – e eu acho que até sempre – vai se perguntar até onde se estendia a influência de um personagem de papel e nanquim. Rezo para que ele esteja em paz, e com muita luz ao seu redor, coisa que é fácil, porque Sergio Bonelli era amado por todo e cada leitor de cada história saída da Via Buonarrotti. Até por lá, Sergio Bonelli!!

  13. Estou emocionado! Essa foto do Sergio indo embora nessa Itália afogando em um mar de carros, tão diferente da Itália de quando foram criados o TEX e Mister NO. Ciao ragazzo. Ciao!
    Para mim ficará sempre a recordação da preciosa ajuda para com a GIBICON. Grazie Sergio!

Responder a Willer Sousa Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado.