Fanzine “A Conquista do Oeste” – Maio/Novembro 2001 – Páginas 3 a 8 – 0 “WESTERN” NA BANDA DESENHADA PORTUGUESA

O ”WESTERN” NA BANDA DESENHADA PORTUGUESA

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 3As histórias de “cow-boys” em estilo realista, estiveram praticamente ausentes das revistas portuguesas até meados dos anos 30, mesmo entre as séries oriundas do estrangeiro. Como aconteceu lá fora, o Oeste americano, nas séries de feitura lusitana, estava limitado às peripécias caricaturais de façanhudos “cow-boys“, que provocavam apenas convulsões de riso, sem o palpitante arfar da emoção. Felizmente havia o cinema e os filmes de “Tom Mix” e “Buck Jones“…
Nomes de ilustres artistas estão ligados a essa paródica génese do “western” na BD portuguesa: Cottinelli Telmo com “A Grande Fita Americana” (ABC, 1920), António Cristino com “As Estupendas Façanhas do Cow-Boy  Façanhudo” (ABCzinho, 1926), Carlos Botelho com “Aventuras de Jim Boy” (ABCzinho, 1927) e João Barata com o “cow-boy” “Crista de Galo” (Pim-Pam-Pum, 1929).
Nos anos 30, foi a vez de “Tom Migas e o Seu Cavalo Caralinda” de Oscar Pinto Lobo (Senhor Doutor, 1934) e “Jim Kako, Rei dos Vaqueiros” de Arcindo Madeira (O Papagaio, 1934). Pela mesma altura, estreou-se entre nós a aventura “TinTin na América do Norte” (O Papagaio, 1936) – que não era um “western“, mas uma sátira ao capitalismo americano, principal motor da conquista do Oeste – cuja influência gráfica se nota noutra história publicada na mesma revista: “Arrepiado e Freitas, Cow-Boys” de Júlio Resende (1941). Também a “Família Patelhicas“, criação de Meço (O Papagaio, 1942), se viu envolvida com uma tribo de índios, tão ferozes que queriam chamuscar-lhes o pelo.
A transição para o estilo realista deu-se, ainda que algo timidamente, com “O Cavaleiro Misterioso“, desenhado por Fernando Bento no “Pim-Pam-Püm“, em 1941. Seria preciso esperar mais dois anos para ver surgir em “O Mosquito” um “western” fidedigno, com todos os elementos do género: cavalgadas na pradaria, combates entre brancos e índios, florestas em chamas, brigas no “saloon“, ataques a diligências, emboscadas de bandidos, perseguições, além de um ténue fio amoroso.

O autor dessa aventura, primorosamente desenhada e com um título sugestivo, “Falsa Acusação“, era um jovem estreante que, apesar das óbvias influências de Reg Perrott, estava destinado a fazer carreira, tanto em Portugal como no estrangeiro- Cabe, sem dúvida, a Vítor Péon a honra de ter sido o primeiro desenhador português a abordar com autenticidade e entusiasmo, um tema em que só os grandes mestres dão cartas. Porque na BD “western” é preciso aliar ao conhecimento do desenho, especialmente anatómico, a perfeita noção do ritmo e do movimento, como um operador de cinema que projectasse as suas imagens não numa tela, mas numa folha de papel. Depois de “Falsa Acusação“, Péon continuou a seguir a trilha do “western“, desenhando para “O Mosquito“, em 1944, “O Juramento de Dick Storn” e, para o “Pluto“, nos dois anos seguintes, com argumentos de Orlando Marques, “Três Balas“, “Traidor em Fuga” e dois “westerns” paródicos, “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota” e “Furacão e o Seu Cavalo Trovão“. “Três Balas“, uma aventura cheia de acção – inicialmente publicada a preto e branco e que ficou incompleta, pois o “Pluto” teve uma vida efémera – foi depois publicada, em versão mais curta, numa preciosa caderneta com estampas coloridas, que eram vendidas pela fábrica de rebuçados “A Oriental“: “Fred Bill, O Terror do Texas” (circa 1947).

O Rei da Campina

Outro desenhador realista digno de nota é António Barata, autor de “O Rei da Campina” (Faísca, 1944), um “western” nitidamente inspirado nas séries inglesas, com uma estrutura narrativa demasiado literária. Mas Barata saiu-se airosamente da tarefa, ilustrando com brio um argumento de Orlando Marques, experimentado novelista que em aventuras de “cow-boys” estava como peixe na água. Antes, também em o “Faísca“, Barata desenhara “O Gato do Diabo” (1943), num estilo ainda incipiente, decalcando sem pudor “The Lone Ranger” de Charles Flanders, processo que era, aliás, comum a vários colaboradores desta revista.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 4Em o “Faísca” vamos igualmente encontrar “Texas Bill, O Herói de 15 Anos” (1943), um trabalho de “Pina“, provavelmente também decalcado e “Rangers em Acção” (1944), cópia servil da série “The King of The Royal Mounted” de Jim Gary. Tentando fazer concorrência ao “Mosquito“, o “Faísca” recorreu a todos os expedientes. Apesar de possuir um lote de magníficos colaboradores, como António Barata, Orlando Marques, Rodrigues Neves e Carlos Cascais, faltava-lhe aquilo que “O Mosquito” tinha em abundância, ou seja, as séries inglesas e espanholas, magnificamente ilustradas e os dois maiores desenhadores realistas dessa geração: E. T. Coelho e Vítor Péon.
Os anos 40 seriam, aliás, férteis em histórias de “cow-boys” ilustradas por artistas portugueses de excelente craveira, que pouco a pouco se foram libertando dos condicionalismos dos “westerns” ingleses, sem balões e com legendas alinhadas debaixo das vinhetas. Pertence a Péon a primazia nesse domínio, pois soube recriar a genuína atmosfera do “western” da série B, doseando sabiamente todos os ingredientes que fizeram a glória do género e utilizando com acerto os balões.

Embora de qualidade desigual, as suas histórias de “cow-boys” merecem um lugar de destaque, pelo volume da produção e o impacto que tiveram junto dos leitores.
Continuando a aperfeiçoar a sua técnica, Péon passou de o “Pluto” — cuja colaboração artística quase inteiramente lhe pertence — para o “Diabrete“, onde realizou vários “westerns“: “Fred O’Neill em Acção” (1946), “Texas Moore” e “Billy Boger em A Revolta dos Navajos” (1947) e “Wapi, o Cão” (também em 1947), uma das suas melhores histórias desse período, cujo enredo se passava no Grande Norte, metendo acidentalmente em cena a Polícia Montada. Como desenhador e argumentitsa de Banda Desenhada, Péon atingiu em o “Diabrete” um dos seus pontos mais altos. Mas foi em “O Mosquito” — após breve passagem pelo “Camarada“, onde deu vida a um curioso “herói” mascarado, “Audaz, o Cow-Boy Justiceiro” (1949) — que produziu, nesse mesmo ano, um dos melhores “westerns” da sua carreira, “A Vingança do Jaguar“, cuja atmosfera exótica e barroca condiz bem com o temperamento vulcânico do artista. Seria Roussado Pinto, seu ex-companheiro de equipa no “Pluto“, a arrastá-lo numa nova aventura, a que ambos se entregaram cheios de entusiasmo. Aliado à febril imaginação de Roussado Pinto, o traço dinâmico e exuberante de Péon, por vezes tosco e apressado, mas sempre eficaz e apelativo, encheu as páginas do “Mundo de Aventuras” com histórias de todos os géneros, mostrando o seu inato talento para a Banda Desenhada de acção.

Tomahawk Tom

A essa época de ouro pertence o seu “herói” mais emblemático, “Tomahawk Tom“, cuja primeira aventura seria o prólogo de uma longa e aplaudida série – treze episódios de 1950 a 1975 -, em que o Roussado Pinto colaborou de início, com o pseudónimo de Edgar Caygill.
Saltando, sob o olhar dos seus criadores, das páginas onde tomou forma para o meio da pradaria, numa das mais originais apresentações de que há memória, “Tomahawk Tom” fascinou os leitores, à primeira vista, com o seu curioso traje franjado, à moda dos pioneiros, os seus mocassins índios, o seu fogoso “mustang” e o longo chicote que manejava com destreza. Uma combinação irresistível!… Pouco depois veio juntar-se-lhe um jovem vendedor de jornais chamado “Jackie“, o indispensável “sidekick“, que com o tempo se tornou um verdadeiro “cow-boy“, hábil com os “colts”, garboso na sela, bom conversador (como convém quando há outra companhia), de olho de lince e reflexos rápidos. Além disso, “Jackie” tem um passado e uma identidade facilmente reconheciveis, o que lhe dá um fundo mais humano que ao seu companheiro, joguete do destino mítico dos “heróis“, que surgiram do nada e não têm vida própria.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 5Outro jovem companheiro do Oeste, “Pirro“, criado pela mesma dupla, não passou discretamente do primeiro episódio: “Um Caso de Contrabando” (Mundo de Aventuras, 1953). Depois de uma tentativa frustrada, junto do King Features Syndicate, para internacionalizar “Tomahawk Tom“, Péon desenhou “O Bando da Cidade Perdida” (Colecção Audácia, 1953), que metia em cena uma mulher tão rápida no gatilho como o mais perigoso pistoleiro – singular paralelo com Sharon Stone em “Rápida e Mortal“, um filme dos anos 90.

Em 1956, antes de abalar para o estrangeiro, Péon publicou no “Valente” um “remake” de “A Flecha de Ouro“, de Reg Perrott, pálida cópia do original, mostrando como, entretanto, o seu estilo já absorvera outras influências. Nesse mesmo ano, surgiu no “Thriller”, revista inglesa que popularizou o formato de bolso, a história “Buffallo Bill And The Spectre of The Plains“, sem assinatura, mas obviamente da sua lavra. Instalado em Dundree, na Escócia, começou a colaborar em revistas de primeiro plano, como o “Beezer“, o “Dandy” e o “Beano“, anonimamente como a maioria dos artistas ingleses. Um dos seus primeiros trabalhos para a D. C. Thomson, a editora que o contratou, foi um “western“, “Buffallo Boy” (1958), publicado a cores no “Beezer“, uma revista de grande formato, embora continuasse, depois, a dispersar-se por múltiplos géneros, correspondendo à boa aceitação do seu estilo pelos leitores ingleses. O seu regresso ao “western” ocorreu nos anos 70, na onda nostálgica do “Jornal do Cuto” e do “Mundo de Aventuras“, que reeditaram vários episódios de “Tomahawk Tom“. A expensas próprias, lançou um álbum a cores com a aventura inédita “Tempestade no Dakota Sul” ou “O Regresso de Tomahawk Tom” (1975) e o “Vítor Péon Magazine“, que durou apenas três números.
Mas os ecos desse revivalismo não esmoreceram tão depressa: em 1988, a Editorial Futura reeditou o álbum “O Espírito de Manitú” e, mais recentemente, no início deste ano, os “Estudos da Aventura Gráfica” recuperaram “O Rapto de Jenny“, comemorando o 50º aniversário do nosso maior paladino do Oeste. Terá terminado aqui a longa vida de “Tomahawk Tom“?

Muitos outros desenhadores portugueses da “velha guarda” não resistiram também ao apelo do “western“, seguindo o exemplo dos seus confrades ibéricos, nomeadamente Blasco, Freixas e Cozzi. Quem não se recorda, entre os leitores dessa época, de histórias como “Nos Domínios do Sioux” – uma das melhores aventuras de “Cuto“, o grande “herói” de Jesus Blasco – “Primo Villa” e “A Máscara de Buffallo Bill” de Emílio Freixas, “O Tesouro do Comanche” de Puigmiquel, “Terramoto no Colorado” e “A Epopeia do Forte Arizona” de Cozzi, “Fora da Lei” de Iranzo, “Texas Kid” de White, “O Cobarde” de José Laffond e “Pistol Jim” de Carlos Freixas, publicadas em “O Mosquito” e no “Diabrete“?
É indesmentível a influência que o “western” espanhol, e sobretudo as virtualidades dos desenhadores do país vizinho, exerceram sobre os autores portugueses nos anos 40. Um dos exemplos mais marcantes é o de E. T. Coelho, o primeiro a absorver eficazmente os ensinamentos formais dessa nova escola e a apurar a fluidez, a harmonia e a liberdade de estilo, numa série de capas e ilustrações que acabariam por consagrá-lo como “o poeta da linha“, epíteto com que o crismou o grande Emílio Freixas. E essa liberdade foi também encontrá-la em temas como a África negra, com toda a sua deslumbrante fauna animal, e o “western“, com a sugestão de movimento e a euforia dos grandes espaços.

Falcão NegroEm 1943, no dealbar da sua prestigiosa carreira, E. T. Coelho ilustrou uma longa novela de Raul Correia, “Aventuras de Jim West“, um dos maiores êxitos de “O Mosquito“. “Fred“, o filho do protagonista, mais tarde baptizado com o cognome de “Falcão Negro“, tornou-se o “herói” central de quatro aventuras em Banda Desenhada, desenroladas no primeiro quartel do Século XIX, numa região bela mas selvagem, onde pululavam tribos de índios hostis: “Falcão Negro – O Filho de Jim West“, “Tempestade no Forte Benton“, “As Vítimas do Sol” e “Terra Turbulenta“, que “O Mosquito” publicou entre 1946 e 1949. Sempre acompanhado pela saudade da mãe, que morrera, entretanto, o jovem “Falcão Negro“, hábil atirador e exímio cavaleiro, enfrenta a revolta dos “Crows“, a captura e o terível suplício do ramo encurvado, mas é salvo pêlos “Chippewas” e consegue juntar-se aos seus companheiros, o taciturno “Jim West” e o picaresco “Nat Pig“. Esperam-no, depois, novas cavalgadas e combates com outras tribos, como os “Sioux” e os “Choctaws” (a verosimilhança histórica e geográfica não era um dos fortes da série), a par de complicações com os bandidos brancos, que começavam a enxamear o território e eram ainda piores do que os índios. O maniqueísmo patente em “Falcão Negro“, que teve um prolongamento em Espanha – dois episódios estreados na 2ª. Série da revista “Chicos“, em 1954, um deles inédito em português, o outro publicado no “Cavaleiro Andante” – não invalida a sua real qualidade gráfica.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 6E. T. Coelho não se ficou por aí no tocante ao “western“. Com o dinamismo habitual e uma crescente preocupação pelos temas – visível numa história de grande beleza lírica como “Lobo Cinzento” (O Mosquito, 1948), autêntico hino à comunhão espiritual com a natureza, elegia do poder do espírito sobre a força física, apesar da violência dos combates e da quantidade de vítimas que ficaram a juncar o solo -, ilustrou ainda “O Grande Rifle Branco“, o seu primeiro “western“, publicado em “O Mosquito” em 1946, mas realizado dois anos antes para o “Chicos” – que demonstrava já notáveis aptidões para o género, na linha das ilustrações anteriores -, e “O Mensageiro” (1948), além de “Bodas Índias” (Chicos, 1954), história inédita em Portugal, “Davy Crockett” (1957), em versão francesa — publicada por cá no “Mundo de Aventuras” -, e várias histórias curtas realizadas igualmente para o “Vaillant“: “Le Réveillon de Candy Sand” (1957), “La Vengeance de Siwash Jack” (1959), “La Course de Fort Chadbourne” (1964) e “Un Loup Dans L’Ombre” (1964), na sua maioria inéditas entre nós.

Dois outros desenhadores portugueses da mesma geração, aparentemente pouco vocacionados para o “western“, mostraram a sua versatilidade em obras acima da média : Jayme Cortês com “O Vale da Morte” (O Mosquito, 1946) e José Garcês com “O Segredo das Águas do Rio” (O Mosquito, 1947), um dos mais perturbantes “westerns” dos anos 40, cujas sensualidade e sadismo latentes, encontramos noutras obras de juventude do seu autor, alguns anos mais novo que Coelho e Péon, mas já mais maduro na exposição, ainda que velada, de certos temas, como a violência e o sexo.

Fosse ou não por influência de “O Mosquito“, onde há muito esses temas estavam presentes – primeiro, de forma recalcada, nas séries inglesas, depois, com intensa volúpia, nas histórias de Jesus Blasco (Cuto, Anita Pequenita), Freixas e outros artistas espanhóis, a quem a ausência de Censura oficial permitiu abrir as portas -, o certo é que José Garcês espelharia um estilo diferente, mais infantil, no “western” que ilustrou a seguir, “Tonito Cow-Boy” (O Papagaio, 1948), embora o tema fosse curioso: um rapaz que sonha com aventuras no Oeste e acaba por vivê-las… em sonhos, como “Little Nemo” de Winsor McCay. Bastantes anos depois, Garcês deixou-se novamente aliciar pelo “western“, publicando no “Zorro“, duas aventuras de “Texas Jack” extraídas dos fascículos populares de saudosa memória, com sugestivas capas do superlativo Alfredo Morais: “A Filha de Garra de Urso” e “O Regresso de Falcão Branco“, ambas de 1964. A partir dos anos 70, mais inclinado para os temas histórico-didácticos, cessou em José Garcês a faceta aventurosa.

Lobo CinzentoA este prestigioso historial somam-se, ainda, as contribuições de alguns jovem colaboradores de “O Papagaio“: Jorge Araújo com “O Cow-Boy Justiceiro” (1946), José Ruy com “Os Cavaleiros do Vale Negro” (1948), um dos primeiros agumentos de Roussado Pinto, e Artur Correia com “O Rancho Assombrado” (1948), no estilo humorístico que haveria de celebrizá-lo. Do mesmo género, ainda mais disparatada, é a história de Jorge Brandeiro: “Manduca e Zé em Busca do Mano Joca” (O Papagaio, 1948). Também um dos mais prometedores artistas portugueses dessa geração, o inimitável Júlio Gil, realizou um “western” em jeito de paródia a dois célebres personagens do Oeste: “O Célebre Encontro de Texas-Jack Com Buffalo Bill“, publicado no “Camarada” em 1949. Numa das suas melhores criações, “O Ídolo“, primeira aventura de “Chico” – um “herói” que tinha algumas afinidades com “Cuto“, a começar pela diáspora -, já se respirava a atmosfera do Oeste americano, embora a intriga nos remetesse para outros contextos: o policial e o desporto, com uma oportuna alusão ao racismo, numa das mais memoráveis sequências da história.

Outro desenhador do “Camarada“, António Vaz Pereira, que se distinguiu pelo seu estilo poético, de linhas quase etéreas, passou também fugazmente pelo “western” com uma divertida lenda índia: “A Maçã de Ouro ou a Vingança de Aros” (1949). Em 1951, já na sua fase final, o “Diabrete” voltou a abrir as portas ao “western“, publicando dois originais portugueses: “Pioneiros do Far-West” de “Julius Frederick” e “O Cavaleiro Errante” de A. Manez, um correcto desenhador que colaborou intensamente no “grande camaradão“.
Entretanto José Félix, um prestigiado autor humorístico português, desenha uma pequena história de “cow-boys” no “Norte Infantil“, suplemento do jornal “O Norte” com o título de “O Cavaleiro Negro” (N°s. 62 a 71 – 20/12/52 a 28/2/53).
Os anos 50 viram acabar algumas revistas portuguesas, como “O Mosquito“, o “Diabrete“, o “Camarada” e o “Lusitas” e nascer outras, como o “Cavaleiro Andante”, o “Titã”, a “Flecha”, o “Valente”, o “Condor”, a “Colecção Audácia”, o “Tigre“, o “Falcão“, a “Fagulha“, etc.. Foi uma época verdadeiramente fértil para os leitores portugueses, que encontraram na dificuldade da escolha, um novo aliciante.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 7No horizonte mítico dos “heróis” do Oeste, “Tomahawk Tom” era um ídolo incontestado, fazendo séria concorrência a “Cisco Kid” e a outros aventureiros da mesma estirpe, pelo menos até se apagar a sua aura, em meados da década, por divergências surgidas entre Vítor Péon e a direcção do “Mundo de Aventuras“, com a consequente partida do artista para paragens mais favoráveis. Com o acentuado relevo da narrativa histórica, fortemente propagandística de certas virtudes épicas nacionais, o interesse dos nossos desenhadores pelo “western” decaiu bastante. As únicas novidades, durante esse período de vacas magras, foram a reincidência de José Ruy, num estilo mais apurado, com “O Ataque dos Índios” (O Mosquito – 2ª. Série, 1960) e as estreias de José Manuel Soares, assíduo colaborador da “Fagulha“, onde desenhou delicadas “heroínas“, com “Rasto de Fogo” (Spar, 1962) e de Baptista Mendes, cuja verdadeira vocação eram os feitos dos nossos antepassados, com “A Encruzilhada” (Pardal, 1961).

No campo humorístico, Carlos Roque, prestes a demandar também outros horizontes, pôs frente a frente o “Avô Cachucho“, o “Zé Carapau” e o cão “Mexilhão“, durante “O Cruzeiro do Caranguejo” (Camarada – 2ª. Série, 1963), com um bando de façanhudos mexicanos chefiados pelo “Coiote“. Quanto a Fernando Bento, um desenhador ambivalente, apesar de ter realizado no “Diabrete” e no “Pim-Pam-Pum” excelentes ilustrações para contos de temática “western“, só muito mais tarde regressaria ao género com “Perigo no Desfiladeiro” (1960), “O Cavaleiro Escarlate” (1961) e “Terras Malditas” (1962), histórias publicadas na fase final do “Cavaleiro Andante“.

A grande época do “western” na BD portuguesa tinha terminado. Foi então que se registou, como um caso isolado, a estreia de José Pires, um jovem desenhador particularmente dotado para os temas do Oeste, cujo imaginário acalentava, desde os tempos de “A Flecha de Ouro” e de outras aventuras publicadas em “O Mosquito“. Nostálgico do cinema americano dos anos 40 e 50, dos grandes “westerns” assinados por John Ford, Anthony Mann, Raoul Walsh, Henry Hathaway, Howard Hawks ou George Stevens, Pires desenhou para o “Cavaleiro Andante“, em 1961 e 1962, “O Último Prato de Tenton Gant” e “Fumo de Pólvora em Gallows Crossing“, a partir de contos que lera em “O Mosquito“, imprimindo a essas adaptações um cunho especificamente cinematográfico, com personagens inspirados, por puro gozo, em actores reais (Burt Lencaster, James Dean, Tony Curtis, Jack Palance e outros), método que ainda hoje lhe é peculiar e do qual consegue tirar excelentes efeitos.

O Segredo da Águas do Rio

Num dos “heróis” de “Homens do Oeste“, o seu terceiro “western“, publicado quase vinte anos depois no “Mundo de Aventuras”, reconhece-se a máscara de Gary Cooper e os outros comparsas também nos são familiares: Rick Nelson, Walter Brennan (com o nariz de “Jimmy McClure“, a voz da consciência de “Blueberry“) e a inquietante quadrilha de “Rio Bravo“. Encontramos aqui a tensão dramática e a atmosfera humana e psicológica, de certos “westerns” inesquecíveis. É toda a mitologia desse Oeste bravio, inconquistável, nascida no seio do cinema, do romance e dos “heróis” de papel, que José Pires recria, rendendo homenagem, num estilo já quase totalmente amadurecido, a Hawks, Giraud, Eastwood e Leone, expoentes de uma certa concepção do “western” clássico.

Em 1985, Pires iniciou no “TinTin” belga uma nova etapa da sua carreira, animando com o seu peculiar estilo gráfico, tributário da linha clara e do pontílhismo à Caprioli — mas sem imitar servilmente o estilo de ninguém, apesar da sua grande admiração por artistas como Salinas e Péon -, as aventuras de “Irigo“, personagem criado pelo argumentista Jean Dufaux e de que foram publicados sete episódios na citada revista.
Irigo” é um índio mestiço (que lembra, em certa medida, o personagem de Paul Newman em “Hombre“), apanhado entre duas culturas: a dos seus irmãos “Apaches“, sobre os quais tem já a superioridade do conhecimento, graças a uma leve crosta de civilização, e a dos brancos, que despreza. Ferido e humilhado por estes, irá vingar-se, depois de uma penosa travessia do deserto, ajudado por um homem com sentido de justiça. Terminada essa série, incompreensivelmente nunca publicada em álbum – e algumas curtas histórias sobre os “Apaches“, escritas por Bernard Despas (o seu novo parceiro) para o “Hello BD“, outro hebdomadário belga, que veio substituir o “TinTin” -, Pires dedicou-se aos assuntos históricos, em que revelou também grande mestria, só voltando ao “western” para dar forma ao sonho de um “herói” com os traços de Gary Cooper: “Shannon“, um nome de entoação clara e breve, como a voz fleumática do actor.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 8Depois de uma fugaz aparição no “TinTin“, integrado numa das últimas aventuras de “Irigo“, “Will Shannon” reapareceu, pela última vez, em “O Poço da Morte“, um “western” crepuscular publicado em álbum pela Futura (1989), em que a natureza, os “Apaches” e um grupo de indivíduos fugidos ao seu próprio destino, desempenham papel preponderante. Esse episódio seria, também, “o canto do cisne” do “western” na BD portuguesa.

Um jovem promissor, António Ruivo, apareceu em 1985 no “Mundo de Aventuras“, com um personagem, por coincidência, apelidado também de “Shannon“, mas, apesar do seu expressivo estilo gráfïco, essas esperanças não se concretizaram. Também Zenetto, profissional mais experiente, adaptou para BD um “western” de Edgar Caygill (Roussado Pinto), “O Homem Diabo” (Selecções do MA, 1981), e um conto de Jack London, “A Lei da Vida” (Almanaque O Mosquito, 1986), mas ficou-se por aí; e Fernando Costa, desenhador prolífico, ainda hoje em actividade, realizou “O Duelo” (Mundo de Aventuras, 1982). Mas maior revelação, no capítulo do “western“, dessa fornada de novos artistas, terá sido, talvez, Joa (pseudónimo de Joaquim de Oliveira), que, bem enquadrado nas premissas do género e saudoso de alguns “heróis” da sua infância como “Red Ryder” e “Buck Jones“, deu vida a duas interessantes séries: “O Vale dos Cavalos Selvagens” (1980) e “Os Cavaleiros da Pradaria” (1981), ambas publicadas no “Mundo de Aventuras“.

O Poço da Morte

Outro desenhador realista cheio de potencialidades, Vassalo Miranda, estreou-se no “westem” com “A Epopeia do Posto Laramie” (Mundo de Aventuras, 1983), “remake” de outra trepidante aventura, “A Epopeia de Forte Laramie“, do desenhador italiano Athos Cozzi, publicada em Espanha na revista “Chicos” e, entre nós, em “O Mosquito” e no “Cavaleiro Andante“.

WakantankaNos anos 80, porém, o único autor português que secundou José Pires no seu fervor pelo “western“, distinguindo-se tanto pela qualidade como pela produtividade, foi Augusto Trigo. Artista consumado, com um estilo meticuloso e perfeccionista, quase mimético em relação à natureza e com um dom especial para desenhar animais, brotaram do seu pincel páginas de grande beleza formal, espalhadas pelos três “westerns” que escrevi para ele: “A Sombra do Gavião” (Mundo de Aventuras, 1980), “Wakantanka – O Bisonte Negro” (Edinter, 1985) e “Wakantanka – O Povo Serpente” (Meribérica, 1988). Cenas de grande intensidade dramática, como a mulher do “sachem” a dar à luz no meio dos bisontes, a luta nocturna entre um mocho e um lince e a posterior transformação deste, quando é ferido, num possante puma, ou o encontro dos jovens guerreiros “Mandans” com uma serpente gigantesca, só poderiam ter sido recriadas por um artista da sua envergadura.

Herdeiros e continuadores da tradição aventurosa da BD clássica, com a qual fizeram uma ponte, enriquecendo-a com novos elementos técnicos e artísticos, José Pires e Augusto Trigo são hoje os únicos autores capazes de revitalizarem o “western” na BD portuguesa. Se eles e o publico assim o quiserem, como é óbvio…

JORGE MAGALHÃES

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, e/ou imprimí-las, clique nas mesmas)

NOTA:

O “Western” na BD PortuguesaRecentemente, este trabalho do autor, Jorge Magalhães, foi publicado em formato de revista pela Câmara Municipal de Moura, por ocasião do Moura BD – Salão Internacional de Banda Desenhada.

O “Western” na BD Portuguesa é mais um artigo profusamente ilustrado e com a qualidade garantida pelo nome do autor. Trata-se como se constata facilmente pelo texto inserido no blogue, de uma reedição, já que em 2000 (no ano em que o tema do Moura BD foi precisamente “O Western”), foi lançado um fanzine com o mesmo nome, embora com diferenças muito significativas em relação à publicação que agora os responsáveis do Salão de Moura lançaram.

Começando pelo texto (que foi revisto e actualizado, ao contrário do que publicamos neste artigo aqui no blogue); passando pela quantidade de ilustrações do artigo (que, na versão inicial, se limitavam a 10 exemplos) e terminando na qualidade da impressão (em 2000 tratavam-se de fotocópias a preto e branco, com muito má qualidade, que agora foram substituídas pela impressão em off-set, a cores e em papel couché!), as diferenças são abissais…

Esta recente edição pode ser adquirida ao preço de 12,5 € (acrescentando-se, os portes de correio) através do e-mail mourabd@iol.pt

Esta última versão d’OWestern” na BD Portuguesa, através do seu autor, Jorge Magalhães traz também referências à personagem Tex Willer e a Fabio Civitelli, devido à presença de “ambos” no MouraBD2007, pelo que consideramos este livro, um item interessante também na BiblioTEX de qualquer Texiano que se preze e por isso recomendamos a sua aquisição!

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