As Leituras do Pedro – Le Storie: ¡Matad a Caravaggio!

As Leituras do Pedro*

Le Storie: ¡Matad a Caravaggio!
Giuseppe de Nardo
(argumento)
Giampiero Casertano
(desenho)
Panini ComicsEspanha, 27 de Junho de 2019
195 x 259 mm, 144 p., cor, capa dura
ISBN: 9788491678946
17,00 €

A História pelos olhos de outros

Apesar de anterior à versão de Milo Manara – e de ter uma abordagem bastante díspar – foi-me impossível ler esta obra sem ter em mente aquela, que já conhecia dos dois volumes – O Pincel e a Espada e O Indulto – da versão portuguesa da Arte de Autor. O que, curiosamente, me fez valorizar ainda mais este Caravaggio de Giuseppe de Nardo e Giampiero Casertano.

Quero ser claro: não é propósito deste texto comparar as duas versões ponto a ponto, mas algumas comparações serão inevitáveis.

A primeira, evidente, passa por afirmar que o traço de Manara é mais virtuoso – embora ambos sirvam bem os respectivos argumentos e o tom escolhido. O que não invalida que Casertano – como Manara – trace um credível e bem sustentado retrato de época, com um traço realista, de expressões fortes e enquadramentos variados, onde, mais do que uma vez, enquadra muito bem algumas das obras de Caravaggio.

A grande diferença, entre as duas versões, está no protagonista. Enquanto Manara colocou o pintor milanês no centro da acção, De Nardo prefere contar a História – e apreciar a arte – através de um olhar diferente. O seu protagonista é um dos dois assassinos a soldo, contratados – por pessoas diferentes – para pôr fim aos dias de Michelangelo Merisi da Caravaggio, sobre cujos ombros pendia uma pena de morte por ter matado um adversário em duelo.

O protagonista desta ficção é então Pablo Domingo Serrano, antigo capitão da guarda, famoso pela sua capacidade de perseguir e capturar – ou matar – fugitivos e é pelos seus lábios – ou pelos daqueles com quem interage – pelo seu olhar e pelas suas deambulações pelos locais onde foi precedido por Caravaggio, que vamos conhecer a história deste – e a História que o rodeia e de que foi também protagonista. Os seus quadros, os seus feitos, o seu mau feitio, as contendas em que se envolveu, os castigos que sofreu ou lhe tentaram infligir, os sucessivos protectores ou detractores, vão-nos sendo apresentados como que em segunda mão, o que não significa menor credibilidade, coerência ou veracidade, apesar do narrador principal ser alguém a quem falta objectividade, embora as razões para isso vão mudando ao longo do relato.

Isso permite aos autores atenuar a carga histórica e também uma maior liberdade ficcional e a introdução de diversas cenas de acção, em boa parte devido aos confrontos que opõem Pablo Serrano e o francês Lagarde, outro caçador de recompensas, de cuja rivalidade e contas pendentes acabaremos por conhecer a origem, em paralelo com o relato principal.

No entanto, se isto permite aparentar um relato de cariz histórico a uma consistente banda desenhada de aventuras, o grande mérito de De Nardo é a forma como aos poucos leva o seu protagonista a passar de perseguidor a admirador, conseguindo, desta forma, fazer de ¡Matad a Caravaggio!, antes do mais, uma bela homenagem à arte e à sua influência sobre quem tem o privilégio de a apreciar, compreender e de se deixar tocar por ela.

Nota final

Uccidere Caravaggio!, primeiro número especial da colecção Le Storie, nesta edição espanhola – mais uma vez bem impressa, em bom papel e com uma sólida capa dura – conclui com um dossier em que Giuseppe de Nardo e Giampiero Casertano confessam a sua admiração pelo objecto da sua obra e narram na primeira pessoa como ela nasceu.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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