As Leituras do Pedro: Dragonero – El fin de Yastrad

As Leituras do Pedro*

Dragonero: El fin de Yastrad
Luca Enoch
e Stefano Vietti (argumento)
Gianluigi Gregorini e Giancarlo Olivares (desenho)
Panini
Espanha, 20 de Fevereiro de 2020
195 x 259 mm, 208 p., cor, capa dura
ISBN: 9788491674153
22,00 €.

Segredos

O que faz o sucesso – ou a falta dele? – de uma série? Porque razão Tex é publicado há mais de 70 anos e outros westerns (equiparáveis) ficaram pelo caminho, alguns dos quais até sem deixar memória? Ou o que levou a que Astérix se tornasse mais popular do que Humpá-pá? Ou, entrando no livro de hoje, o que faz de Dragonero um dos grandes sucessos actuais da Bonelli – dentro e fora de Itália?

Obviamente não existe uma resposta genérica nem há uma fórmula de sucesso garantido – ou então, cada nova criação bateria recordes de vendas. Mais do que isso, para cada um dos casos citados – e para dezenas, centenas de outros que poderia ter apontado – a resposta não é a mesma, embora possa haver nela(s) pontos em comum.

Debrucemo-nos então sobre Dragonero – para tentar perceber porque protagoniza um quinto dos volumes Bonellis já lançados em Espanha pela Panini, nos últimos dois anos.

Um dos pontos (mais) comuns a séries de sucesso, é uma história consistente, geralmente de cariz popular – se falámos de ‘sucesso de massas’ – que atrai e prende o leitor. Neste caso – como em tantas criações Bonelli, (quase) qualquer edição permite a aproximação do leitor não-iniciado, sem que o desconhecimento das referências ao universo em causa coloque em causa a fruição da leitura – embora ela seja potenciada pela leitura anterior de outros volumes da série.

Podendo ser classificada como uma narrativa de Espada & Feitiçaria – com matizes próprios e originais que vincam a diferença – Dragonero conta com uma galeria de personagens eficiente: um herói musculado, inteligente e bem-parecido, um companheiro de aventuras de grande força e cerebralmente menos dotado, que resolve as situações de maior aperto e provoca as situações de humor (pontuais) que atenuam a tensão, personagens femininas, bonitas a atraentes, (muitas vezes) de vestes generosamente parcas, adversários temíveis e malvados, humanos, ogres, elfos, dragões voadores, uma fauna fantástica…

Tudo reunido num mundo ficcional, em constante expansão, em que cada nova cidade ou região é apresentada de forma sumária mas convidativa ao leitor, possibilitando a variação dos enredos.

Tematicamente, se a aventura e a acção imperam, existem sempre doses variáveis de humor, romance, magia, (pseudo-?)ciência e suspense que doseiam o ritmo e a adrenalina e impelem o leitor a prosseguir página após página.

A tudo isto, há que acrescentar uma arte sempre competente, com frequência mais do que isso até, como sempre foi apanágio das edições Bonelli.

Se a ‘receita’ fica dada acima, vamos espreitar um pouco deste El fin de Yastrad que leva Ian, Gmor e Sera a uma nova localização do mundo de Erondar, onde aqueles que até aí eram procurados para curar os doentes, passam a acusados  (e julgados responsáveis) por uma temível epidemia que transforma os afectados em assassinos sem razão, tão só porque a nova doença parece ser causada por um fungo – o tipo de produto que os agora perseguidos utilizavam para o bem, numa demonstração de como é fácil motivar turbas e moldar vontades e atitudes.

Chamado de emergência, o trio de protagonistas dirige-se para aquele lugar para tentar salvar alguns amigos que Ian lá conta.

Numa bela demonstração de desenvolvimento narrativo, o volume abre com uma sequência muito forte e violenta, em boa parte muda, em que um grupo de soldados se vê face a face com os habitantes infectados de uma povoação seguindo-se, após um breve entreacto cómico entre Sera e Gmor, a explicação do sucedido para que o leitor possa caminhar um passo à frente dos heróis ao longo de boa parte do livro.

A partir daí, bem, deixo aos curiosos descobrirem, com a certeza de uma boa hora de leitura que, embora leve, será cativante e intensa, de mais uma bela edição de capa dura e papel de gramagem generosa da Panini espanhola.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

2 Comentários

  1. Prezado Pedro Cleto:
    Suas críticas sempre me surpreendem. De um lado, porque discordo delas. Fazes uma leitura relativa a elementos que não me chamam a atenção em uma HQ. De outro, porque essa diferença me é sempre surpreendente e me atrai para coisas que, em situações normais, eu não daria relevância. Com isso, peço que continues assim. Não faças o que eu faria.

  2. Gosto muito de Dragonero. No Brasil estamos começando a ler suas aventuras. Mas ainda acho um título frágil, que precisa da atenção da Mythos, e dos leitores, para não ser cancelado. A Mythos está sendo cautelosa, por publicar poucos números em 2020. Seria um teste, esperamos que passe neste teste.

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