60 anos de Tex Willer no catálogo da 19ª Edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora – 2008

Texto do catálogo do FIBDA 2008
José Carlos Pereira Francisco

60 ANOS DE TEX WILLER

60 anos de Tex Willer no catálogo da 19ª Edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da AmadoraComemora-se em 2008 os sessenta anos de Tex Willer, personagem criada na Itália, pela dupla Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini e que teve a sua primeira aparição a 30 de Setembro de 1948, nas páginas da revista “Collana del Tex” e, de então até hoje, as suas aventuras sucederam-se, cheias de acção e movimento, num cenário sempre excitante, desfrutando assim vastos consensos no público e acabando por se tornar um sucesso no panorama da literatura popular aventureira, porque Tex foi uma ideia que no decurso do tempo tornou-se um mito, assim como mitos se tornaram também os seus autores.

Logo após a sua primeira aparição, na pele de fora-da-lei por ter sido vítima de uma atroz injustiça, evidencia-se de imediato em Tex uma concepção muito particular do bem e do mal: é um homem verdadeiro e leal que não suporta a opressão e a injustiça e que não rompe nunca pactos ou compromissos e que por isso conseguirá, em seguida, recuperar aquela dignidade que parecia estar perdida para sempre, tornando-se um Ranger do Texas e levando a cabo as mais impensadas e desesperadas missões, no decurso das quais trava amizade com Kit Carson, uma personagem completamente diferente da imagem real que todos conhecemos, que se tornará o quase inseparável companheiro de aventuras de Tex.

60  anos de Tex Willer no catálogo da 19ª Edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da AmadoraDesde os longínquos anos do início da sua longa saga até hoje, Tex e os seus parceiros nunca deixaram de demonstrar indiferença a todas as raças e cores perante a justiça: o honesto é defendido seja ele branco ou índio, mexicano ou negro, assim como o desonesto é combatido, qualquer que seja a classe social de onde provenha. E uma ulterior confirmação a tal anti-racismo encontra-se na vida familiar e privada de Tex, que casa com uma mulher que não pertence à sua raça, a bela Lilyth, filha do chefe dos Navajos, Flecha Vermelha, a qual lhe deu o filho Kit, que Tex cria com amor espartano e inicia na arte das armas. Adquire, entretanto, um nome índio, Águia da Noite, e aquando da morte do chefe Navajo sucede-lhe na pesada responsabilidade de guiar toda a nação Navajo.

A partir desse momento, a vida do protagonista mudará notavelmente: ele deverá não só manter a ordem entre os seus índios, mas também e sobretudo defendê-los das prepotências dos ávidos homens brancos.
Tex detém um invejável primado: esteve sempre presente no mercado italiano, durante 60 anos, e entre as inúmeras séries de banda desenhada existentes no presente, impõe-se à atenção de todos, seja pela longa duração, seja pela sua difusão. De facto, com o passar do tempo, enquanto as outras séries desapareciam, Tex superou cada crise, ultrapassou todas as críticas que lhe foram movidas, soube aumentar o número de leitores até criar um vasto público que quase identifica nesta série um género exclusivo, aquele do “fumetto” western autenticamente italiano.

Catálogo da 19ª Edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da AmadoraOs leitores de Tex encontram-se em cada extracto da população e, pode bem dizer-se, em cada classe social. Trata-se de um tipo de leitura evasiva, mas mais do que digna no que diz respeito ao perfil estilístico: os textos são simples, mas eficazes e correctos. Mas abarcar nestas linhas o como e o porquê da validade desta extraordinária personagem é tarefa demasiado árdua. Digamos só que Tex Willer abriu brechas nos corações de milhões de leitores, na Itália e em muitos outros países, inclusive no nosso Portugal, qual profissional sério, diligente e pontual, numa longa série de proezas que têm sempre precisas referências históricas e geográficas.

Hoje, depois de sessenta anos, Tex é não somente a personagem italiana de banda desenhada de maior longevidade e popularidade, mas também uma figura carismática da BD europeia, uma verdadeira e própria epopeia, uma espécie de universo auto-suficiente, tendo-se entretanto tornado até um significativo “alter-ego” para alguns dos seus fãs. É um raro exemplo de produção do imaginário que ainda condensa frescura e fascínio, não obstante os seus sessenta anos de existência, como facilmente se comprova pelo facto do álbum celebrativo da efeméride, com a história a cores “Sul sentiero dei ricordi”, escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Fabio Civitelli, ter-se esgotado num ápice por toda a Itália.
O Festival da Amadora, tem o privilégio a nível mundial de expor pela primeira vez, originais de Tex fora da Itália, já que em 60 anos de vida editorial, e apesar de inúmeras exposições, realizadas em variados países, dedicadas à personagem, tal nunca foi autorizado pelos responsáveis da editora italiana.

CIVITELLI, FABIO
Texto sobre Fabio Civitelli e Giovanni TicciFabio Civitelli, que regressa a Portugal, depois de ter sido o autor estrangeiro homenageado no salão MouraBD2007, nasceu em Lucignano, na província de Arezzo, a 9 de Abril de 1955 e o seu nome está ligado há já muitos anos à personagem Tex Willer. O seu estilo é caracterizado por um grande cuidado nos mínimos detalhes e por um hábil uso do preto e branco e do extremo asseio do seu traço. A sua versão de Tex, uma das mais apreciadas pelos leitores da série Bonelli, respeita a tradição, mas é ao mesmo tempo moderna e cativante. Uma outra característica de relevo do desenhador, é a habilidade de reproduzir rostos de actores e actrizes famosos, que insere com uma certa frequência nas suas pranchas para interpretar várias personagens secundárias.

O primeiro trabalho de Civitelli no âmbito da banda desenhada ocorre em 1974: “Lady Dust” para o estúdio de Graziano Origa, publicado pela Edifumetto, que publicava predominantemente banda desenhada pornográfica. Para a Editora Universo desenhou em 1977 nas revistas Il Monello e L’Intrepido. Nesse período utiliza o pseudónimo Pablo de Almaviva, à causa do qual Sergio Bonelli o inculpa de ter retardado o seu ingresso na sua editora porque não conseguia saber quem era esse desenhador que tanto apreciava. 1979 é o ano da viragem na sua carreira: em Outubro é apresentado, embora quase casualmente a Sergio Bonelli, que o recruta de imediato. Inicialmente trabalha em “Mister No” para o qual realiza uma mão-cheia de histórias, mas a verdadeira afirmação acontece em 1984, quando é chamado a desenhar Tex, personagem na qual trabalha até hoje e em qual deixou o seu cunho. As suas primeiras páginas aparecem no ano seguinte, no número 293, intitulado “I due killer”, com argumento de Claudio Nizzi, o mesmo argumentista que escreveu a história comemorativa dos 60 anos de Tex, publicada no passado mês de Setembro, cuja honra de a desenhar, coube a Fabio Civitelli.

TICCI, GIOVANNI
Desenhos de Tex por Aurelio Galleppini, Fabio Civitelli e Giovanni TicciGiovanni Ticci que estará pela primeira vez em Portugal, nasceu em Siena em 1940, começando a sua carreira no mundo da banda desenhada somente com 16 anos, idade em que entrou no estúdio do desenhador Rinaldo Dami. Dois anos mais tarde colabora com Franco Bignotti em “Un ragazzo nel Far West”, primeiro trabalho escrito por Guido Nolitta – pseudónimo usado por Sergio Bonelli, no seu trabalho como argumentista -. “Judok”, série de ficção científica, encerrada em 1963 e escrita por Gianluigi Bonelli, provoca um dos seus primeiros êxitos e possibilita a sua entrada no restrito grupo de desenhadores de Tex. Desde então Ticci centrou a quase totalidade da sua produção nesta série, assim como no seu trabalho de ilustrador – quase sempre relativo ao mundo do Faroeste.

A principal qualidade de Giovanni Ticci é a de ser o único desenhador que conseguiu criar um modelo próprio dentro do conceito gráfico da personagem, aparte do de Galleppini. A diferenciá-lo do resto dos desenhadores que seguiram a esteira do criador da série, Ticci desde o primeiro momento foi impondo um estilo notoriamente diferencial, que com o passar do tempo, o seguiram alguns dos novos ilustradores da série; podemos inclusive dizer que o modelo derivado de Ticci é tão importante como o do próprio Galleppini. Ticci é hoje em dia o desenhador de referência da personagem e um dos maiores autores que deu o mundo da banda desenhada italiana.

Copyright: © 2008 FIBDA; José Carlos Pereira Francisco

Nota: O catálogo encontra-se à venda no FIBDA 2008, com o preço de 8,50 €

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