“Capitan Jack” (da Polvo Editora) na análise de Rui Cunha

Por Rui Cunha (texto) e Margarida Cunha (fotografias)


O Velho Oeste tal como nos foi dado a conhecer nos westerns que, na nossa infância, nos chegavam através da Sétima Arte, nos filmes de John Ford, Howard Hawks, John Sturges, Fred Zinneman, George Stevens, entre muitos outros, partiam quase sempre de pequenos episódios que, de alguma forma, resultavam em grandes acontecimentos que marcaram a época.

Quando o género entrou em declínio, no final da década de 60, uma outra Arte começava já a ganhar contornos, a Banda Desenhada ou Nona Arte como é conhecida actualmente, e a penetrar nas temáticas do Oeste. Em alguns países, como a Itália, o western já fora adoptado em 1948, pela mão dos conceituados Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini que criaram Tex Willer, um cowboy que, depois de muitas aventuras, por força das circunstâncias acabaria por se tornar um Ranger do Texas e seria adoptado pelos índios Navajo de quem se tornaria chefe com o nome de Águia da Noite.

Vem esta introdução a propósito do lançamento em Portugal de mais uma aventura desta personagem, lançamento esse que aconteceu no decorrer da 5ª Mostra do Clube Tex Portugal, na Anadia em Abril de 2018. “Capitan Jack”, assim se chama a aventura e trata-se do 5º volume da colecção “Tex Romance Gráfico” que, mais uma vez traz o selo da Polvo Editora de Rui Brito e foi apresentada com pompa e circunstância (onde só faltaram, com muita pena de quem lá esteve, os autores).

No sul do Oregon, a família de Foster, um ex-Ranger, é atacada e assassinada por índios Modocs, que depois de fugirem da reserva onde se encontravam se revoltaram contra os brancos devido às más condições de vida que lhes haviam sido dadas. Foster, no entanto, é deixado vivo e ferido para que se saiba quem foi o autor do ataque. O ex-Ranger, às portas da morte, pede ao seu amigo Tex Willer que o vingue matando o chefe dos Modocs, “Capitan Jack” e o seu lugar-tenente, Hooker Jim. Tex Willer e Kit Carson prometem levar a cabo a vingança do seu amigo.

Capitan Jack” foi editado em Itália como“Albo Speciale” (ou “Texone”), em Junho de 2016 e no Brasil seria editado na colecção “Tex Gigante” com o nº31 em Outubro do mesmo ano.

Na aliciante introdução da obra, por Pedro Bouça, é-nos dado um panorama geral do velho Oeste e de algumas guerras entre tribos índias e entre estas e os colonos e a cavalaria. Algumas dessas guerras são a base para esta aventura de Tex. Depois desta introdução, somos literalmente atirados para a aventura de um modo igualmente aliciante, fruto de um trabalho esmerado de ambos os autores.


Tito Faraci documentou-se largamente (aliás como acontece com todos os desenhadores e argumentistas de banda desenhada) e ter-se-á igualmente inspirado no filme “Cheyenne Autumn” (O Grande Combate, em Portugal e Crepúsculo de uma Raça, no Brasil), realizado por John Ford em 1964 (onde se conta a história dos  Cheyennes que, fartos das promessas incumpridas dos brancos, fogem da reserva onde se encontravam e partem para as suas terras ancestrais), para conceber este argumento, perfeito, de vingança e, ao mesmo tempo, redenção. Vingança que Tex leva a cabo para cumprir a promessa que fez ao seu velho amigo e ex-Ranger, John Foster na tentativa de capturar “Capitan Jack”, chefe dos Modocs e conseguir a paz entre os índios e os brancos. Redenção que é o que “Capitan Jack” tenta conseguir, apesar da fama que o precede (onde se compreende que afinal ele não é tão mau como a História o pintou) e da radicalização que os seus poucos Modocs são vítimas quando entra em cena “Hooker Jim”, o lugar-tenente de “Capitan Jack”, que quer assumir os destinos dos Modocs obrigando os brancos a devolver-lhes as terras e fazer desacreditar o chefe eleito, e é precisamente nesta última parte que se insere o argumento perfeito, porque quase perfeito seria a aventura terminar com o habitual “happ yend” e o chefe índio se redimir dos crimes que cometeu, mas tal não acontece! Assim o argumento torna-se perfeito porque contraria a habitual tendência para o final feliz e termina com Tex a cavalgar para fora do forte com a sensação da missão cumprida por um lado, mas, por outro lado, incompleta já que não conseguiu fazer “Capitan Jack” redimir-se dos seus crimes. É o final perfeito para uma aventura quase perfeita.

Se em termos de história, temos um argumento perfeito, já no que diz respeito à arte existem, na minha opinião, alguns entraves que limitam a aventura.


Começo por dizer que Enrique Breccia é, indiscutivelmente, um grande desenhador, o que fica comprovado logo nas primeiras páginas com o ataque à quinta de Foster (pág. 5 a pág.16) e também nas diversas sequências em “flashback” (pág.35-37; pág.44-51) ou no combate final nas “Lava Beds” entre as forças de cavalaria americana e a pequena força Modoc. A enorme sequência de acção é plenamente conseguida com a neblina que cobre aquele perigoso território a servir para Breccia desenhar alguns grandes momentos de acção como só a Nona Arte consegue transmitir. Muitos quadros subtilmente desenhados com as emoções das personagens à flor da pele a preencher o argumento de Faraci é aquilo que “Capitan Jack” nos traz. Mas então o que é que falha? Perguntar-se-ão alguns?


O que falha, na minha opinião, é a concepção dos rostos das personagens de Tex Willer e Kit Carson. Para um leitor como eu, que há mais de 40 anos lê as aventuras de Tex, é difícil aceitar que nesta aventura Tex surja com um rosto empedernido (sem uma ponta de emoção ou sensibilidade), parece que está zangado com o mundo, o que fica demonstrado logo na primeira aparição do Ranger nesta aventura (primeiro quadro da pág.17) e Kit parece uma máscara de Buffalo Bill, com o seu cabelo e barba longos (existem dois ou três quadros em que a sua expressão parece a de Mefisto!). Esta opção do desenhador terá, obviamente, a sua razão de ser. Por um lado, será a vontade de transmitir o seu cunho pessoal à personagem rompendo com a continuidade de tantos e tantos anos (Gian Luigi Bonelli e Aurelio “Galep” Galleppini sempre permitiram aos seus desenhadores a liberdade criativa), por outro lado, existe uma quebra na concepção das personagens que pode não ser bem entendida pelos leitores. Foi  que levou a que quando “Capitan Jack” foi editado no Brasil, em 2016, houvesse alguma polémica por parte dos leitores que não apreciaram a particularização do traço do desenhador, que fica igualmente patente na concepção da capa da obra: uma espécie de quadro pintado duma planície desértica com um lindo sol, um índio Modoc (talvez o próprio Capitan Jack ou Hooker Jim) em segundo plano no cimo duma rocha e os pards, Tex e Kit, em primeiro plano. Esteticamente bem conseguida mas limitada pelo traço de Enrique Breccia.


Quanto à edição propriamente dita, nada a dizer do trabalho da Editora Polvo de Rui Brito. Estamos perante mais uma obra, com 228 páginas, de qualidade acima da média nacional em todos os aspectos, desde a escolha do papel onde se faz a impressão (tem sido um cuidado a que as obras da colecção “Tex Romance Gráfico” e também o seu editor, nos habituaram), passando pela selecção das ilustrações e textos que preenchem as badanas da obra, até ao trabalho de tradução, legendagem e balonagem da obra, o produto final deixa-nos quase sem fôlego e com grande vontade de o devorar uma, duas três ou mais vezes!


Apenas uma pequena nota quanto à tradução em si: já o disse em outras ocasiões e mantenho que, apesar do cuidado posto nesse trabalho, pelo José Carlos Francisco, continuam a existir termos brasileiros que em nada enobrecem uma obra que se pretende que seja feita em português e lida em português. É verdade que já se percorreu um longo caminho, as traduções têm vindo a melhorar de obra para obra, mas ainda se tem que forçar o caminho mais um pouco. De qualquer maneira, tanto o Zé Carlos, como o Hugo Jesus como o Rui Brito estão, uma vez mais, de parabéns pelo trabalho que têm levado a cabo em prol de Tex e dos seus fãs e, apesar das limitações e dificuldades que se lhes deparam, tal como o Ranger e seus pards, nunca vacilam e isso vê-se no trabalho com que nos presenteiam quer através da Polvo quer através do Clube Tex Portugal, o que é muito bom!


O livro “Capitan Jack“ encontra-se à venda nas Bertrand’s e FNAC’s espalhadas pelo país.

Há também sempre a possibilidade de poder enviar um e-mail ao editor Rui Brito para adquirir directamente o livro à Polvo Editora. O seu e-mail é ruibritobad@gmail.com

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. A crítica está muito bem feita e esperamos mais do mesmo nível. Precisamos de análises dedicadas e aprofundadas como esta.
    Contudo, tenho duas discordâncias:
    a) o espírito da série em que a obra foi publicada pede releituras gráficas (ou leituras não usuais) de Tex. Logo, não acho procedente os comentários sobre o fato da representação das personagens fugir ao padrão. Pelo menos, é isto o que mais me atrai no Texone.
    b) soa preconceituoso (e já comentei isto antes) a opinião do autor sobre o “brasileiro” e o “português”. A começar pelo fato de não existir o idioma “brasileiro”, ainda mais quando há a insinuação de ser uma deformação do verdadeiro, “o português de Portugal”. Ambos são português, com suas diferenças oriundas de culturas diferentes. E os usos peculiares em cada lado do Atlântico contribuem para a pujança do idioma. Ainda que, para alguns, como parece ser o caso do autor da crítica, um soe melhor, mais puro ou mais autêntico do que o outro.

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