As Leituras do Pedro: Tex Edição Gigante #31 – Capitão Jack

setembro 25, 2017

As Leituras do Pedro*

Tex Edição Gigante #31
Capitão Jack
Tito Faraci (argumento)
Enrique Breccia (desenho)
Mythos Editora
Brasil, Outubro de 2016
185 x 275 m, 242 p., pb, capa mole
R$ 24,80/9,00 €

Elogio da diferença

Aquilo que normalmente marca – ou marcava? – a diferença nos Tex Gigante – os Texoni italianos – é aquilo que – ironicamente… – mais críticas lhes levanta: a inovação gráfica que é permitida – e procurada – aos seus desenhadores.

Nomeadamente na sua génese – ou como no caso deste Capitão Jack – quando para eles eram convidados autores de renome, exteriores à editora Bonelli: Guido Buzzelli, Joe Kubert, Jordi Bernet, Magnus… são alguns (bons) exemplos.

Por isso – ou também por isso – o principal problema deste Capitão Jack – nomeadamente para o núcleo (mais) duro dos fãs de Tex – é a dificuldade evidente que o desenhador teve em ‘gerir’ as feições do protagonista, que habitualmente lhe (re)conhecemos, mas que neste livro o tornam muitas vezes (ir)reconhecível.


De quase gémeo de Alvar Mayor (na última vinheta da página 31 desta edição) até ao Tex mais tradicional – poucas vezes presente… -  são várias as feições que o ranger ostenta, quase sempre duras, por vezes a parecer tiradas a papel químico (ou a copy/paste), algumas vezes demasiado caricaturais… – problema que se estende a outras personagens menores e que destoa claramente da natureza e do tom da narrativa.


E, queira-se ou não, essa surge como uma das imagens de marca deste Tex de Enrique Breccia, argentino, veterano dos quadradinhos e mestre incontestado do preto e branco, como demonstra de forma brilhante, repetidamente, em muitas das mais de duzentas pranchas que este volume contém. Seja nos sucessivos flashbacks mais próximos do traço a lápis, seja nas cenas nocturnas, seja no uso de tramas para definir volumes e distâncias, seja nos cenários naturais ou naturalistas (e sem seres humanos…), seja nas cenas definidas a partir de fortes contrastes de preto e branco, seja na expressividade e riqueza de pormenores de muitos dos rostos dos figurantes.


A história de Tito Faraci, baseada difusamente numa personagem real que a determinado momento tentou que fossem respeitados os tratados estabelecidos para tentar parar o inexorável avanço branco nos territórios selvagens do Oeste, é duro, bastante realista, e com algumas (boas) inflexões e surpresas. E se apresenta, a par de Tex, outras personagens mais estereotipadas – o comandante inflexível e interesseiro, o jovem índio rebelde para quem a guerra aos brancos é a solução de todos os problemas… – tem quase como verdadeiro protagonista, o Capitão Jack que dá título ao volume, um chefe índio de personalidade densa e consistente, rico pelas incertezas e dúvidas que sente, espelhadas nas suas decisões e atitudes, sempre questionáveis, nem sempre as melhores, mas assumidas sempre acreditando que eram; ou seja, humano.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro (http://asleiturasdopedro.blogspot.com/).

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

6 Responses to “As Leituras do Pedro: Tex Edição Gigante #31 – Capitão Jack”

  1. Bem sei que todos os desenhadores têm o seu estilo próprio mas na minha opinião estes desenhos de Tex são muito maus!!

  2. Esse Texone, assim como o especial do Serpieri, foram um atentado ao personagem…

    Tex Willer é mais que isso, mais sombrio, mais elegante, mais sorridente, menos amargo, mais herói…

    Tudo vale no papel, mas se todos os fãs pudessem expressar suas opiniões elas seriam com certeza; devolvam nosso Tex Willer de verdade…

  3. As visões são diferentes e que bom que seja assim.
    Um dos méritos do Tex é ter um “modelo” de texto e de desenho, que se sustenta por mais que os autores variem. Talvez isto nos torne tão “conservadores” e zelosos do respeito ao padrão que conhecemos. Porém, o propósito do Texone é que novas leituras gráficas surjam. Assim, por ser diferente do que normalmente vejo em Tex, gostei muito do álbum do Breccia e, vejam só, gosto menos dos Texones feitos por desenhistas que já pertencem à equipe (embora o trabalho seja muito qualificado), pois sempre prefiro novos olhares nessa coleção e Galep, Ticci Civitelli são velhos e muito queridos conhecidos.

  4. Concordo com o Alvaro Barreto, gostei da interpretação corajosa imposta pelo Breccia.

  5. Nesse Texone vimos um Kit Carson caquético, um Tex Willer que variava os rostos e outras cositas mas

    Tudo pode no papel e na política brasileira, mas com Tex, não…

    Tex é nosso herói e inspira muitos em vida…

    Não destruam nosso Tex com essas obras de grandes desenhistas que querem se tornar diferentes…

    Niente

  6. De tanto que eu gosto dos desenhos de Breccia, não tinha visto por esse lado, mas de fato alguns desenhistas não conseguem acertar o semblante texiano!

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