Entrevista com o fã e coleccionador: José Ramiro Maurício da Silva

junho 15, 2017

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
José Ramiro Maurício da Silva: Nasci em 15 de Março de 1970, na cidade de Viçosa, Estado de Alagoas, Nordeste do Brasil. Sou licenciado em História pela Universidade Federal de Alagoas – UFAL, mas exerço o cargo de Técnico Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho em Alagoas. Tenho dois filhos, Nara Virginia e Samuel; ela com doze anos e ele com dez. Nas horas vagas, sou ávido leitor de banda desenhada e de História Colonial do Brasil, além de também me aventurar a escrever e desenhar histórias com personagens de minha lavra e de meu filho Samuel, que já começou a ler Tex.


Quando nasceu o seu interesse pela banda desenhada?
José Ramiro Maurício da Silva: Ocorreu na minha infância, quando fui morar com meus avós em Rio Largo, onde havia uma banca de revistas. Foi então que descobri as personagens da Disney, da Hanna Barbera, do Maurício de Sousa, os heróis da DC e da Marvel e tantos outros publicados pelas editoras EBAL, Abril e RGE, e Tex, Zagor, Chacal e Chet, publicados pela Vecchi, nos mágicos anos setenta, oitenta e noventa. Com eles aprendi a desenhar e meu interesse pela leitura foi crescendo.

Quando descobriu Tex?
José Ramiro Maurício da Silva: Descobri Tex com um colega de escola na década de oitenta, quando ainda era publicado pela Editora Vecchi, juntamente com Zagor, Ken Parker, Chacal e Chet.

Porquê esta paixão por Tex?
José Ramiro Maurício da Silva: O que me atraiu em Tex, na parte técnica, foi as histórias bem amarradas e os belos desenhos e, principalmente, a preocupação com a ambientação histórica do mítico oeste americano. Quanto à personagem em si, acho que o facto dela sempre ser a mesmo, sem retoques, sem segredos, sem rodeios e, acima de tudo, sempre disposta a cumprir a justiça, doa a quem doer.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
José Ramiro Maurício da Silva: Creio que o diferencial de Tex é o facto dele não mudar nesses seus quase de 70 anos. Enquanto as outras personagens do universo de super-heróis mudam as suas características físicas e morais, as suas origens, os seus companheiros etc., Tex continua fiel aos seus primórdios. Outro ponto importante é a preocupação dos autores com o rigor histórico. Com Tex e outras personagens Bonelli aprendi muito sobre a cultura dos nativos americanos e outros povos, informações que nenhuma personagem de super-herói poderia me ensinar.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
José Ramiro Maurício da Silva: Hoje tenho bem menos revistas do que antes. Por diversas razões desfiz-me das minhas primeiras colecções. Tentei várias vezes voltar a coleccionar e desisti. Actualmente, colecciono a Edição Gigante Colorida e especial cronológica também colorida, além da Tex Grafic Novel e a Semestral Colorida. Além de Tex, colecciono Zagor e Zagor Especial e tenho algumas edições de Face Oculta. Entre edições físicas e digitais tenho em torno de 100 edições de Tex. A mais importante de Tex que eu tenho é o Tex Gigante desenhado pelo lendário Joe Kubert, uma das minhas história preferidas.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
José Ramiro Maurício da Silva: Colecciono apenas revistas. Livros, tenho apenas A História da minha Vida, publicada pela Mythos Editora. Tenho também o DVD original do filme Tex e o Senhor do Abismo, que adquiri recentemente.

Qual o objecto Tex que mais gostaria de possuir?
José Ramiro Maurício da Silva: O objecto de Tex que mais gostaria de adquirir são os esboços (ou cópias) das histórias escritas por G.L. Bonelli. Da personagem, interesso-me pela faixa que ele usa na cabeça quando está usando a roupa de Águia da Noite, bem como o cinto cerimonial.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
José Ramiro Maurício da Silva: Histórias predilectas? São muitas. Das histórias clássicas escritas por G. L. Bonelli, gosto das que aparecem Mesfisto e Yama. Das escritas por G. Nolitta/Sergio Bonelli, sem dúvidas a minha favorita é El Muerto. Quanto às que foram escritas por Claudio Nizzi, além das história do Tigre Negro, uma que me agradou bastante, e que pretendo reler, é a Fuga de Anderville, sobre os bastidores da Guerra da Secessão. Já do Mauro Boselli, a minha predilecta é Os Sete Assassinos.
Meu argumentista predilecto de todos os tempos, sem dúvidas é o grande G.L. Bonelli, criador da personagem. Bonelli soube criar e dar consistência ao mito de Tex, fazendo-o interagir com as lendas do velho Oeste e mostrando os pormenores da história norte-americana do período e dando a direcção que os outros autores de Tex deveriam seguir para perpetuar o mito, principalmente ao Claudio Nizzi que revisitou o passado da personagem para criar novas histórias, introduzindo também novos vilões na saga. Actualmente, gosto muito das histórias criadas por Mauro Boselli.
Quantos aos desenhadores, meu predilecto é Claudio Villa, seguido por Ticci e Civitelli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
José Ramiro Maurício da Silva: O que mais gosto em Tex é o facto de poder ler as histórias estanques, ou seja, sem precisar saber o que houve nas anteriores. Cada história é auto explicável. Posso passar anos sem ler que sempre vou entender a personagem. Tex não muda de origem, não muda de família, não muda de status, etc. É sempre TEX.
O que menos me agrada é o facto de a saga da personagem já estar fechada. Não tem mais nada para ele conquistar. Já casou, já tem filho, já é chefe dos navajos, já é ranger, etc. Seria interessante se os autores criassem uma nova saga para as personagens, com uma nova cronologia e novas histórias do passado delas. Se houvesse uma nova série só com histórias do jovem Tex, no tempo em que ele era um anti-herói, histórias curtas e seriadas, como as comics norte-americanas, mais dinâmicas e voltadas para o público mais jovem. Ou então com o jovem Kit. Acho que já está na hora de ele seguir o seu destino, saindo de baixo das asas do pai famoso.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
José Ramiro Maurício da Silva: Acima de tudo, Tex é o que é pela qualidade das histórias e dos belos desenhos, sempre com novos nomes a abrilhantar a saga da personagem. Através das aventuras de Tex, pude acompanhar a evolução da arte de grandes ícones da banda desenhada, como Aurelio Galleppini,e Giovani Ticci, além de muitos outros.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
José Ramiro Maurício da Silva: Não. Infelizmente no meu estado não costuma ter encontro de coleccionadores. As novidades e notícias da personagem eu procuro ler nos sítios da Internet.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
José Ramiro Maurício da Silva: Creio que o futuro de Tex esteja um pouco nebuloso em virtude da crise criativa que passam os quadradinhos como um todo. Mas Tex é um dos poucos que tem se saído muito bem, justamente por não precisar de tantos malabarismos editoriais como o segmento de super-heróis. As colecções de histórias curtas e de novela gráfica já apontam outras direcções da personagem, apostando em novas linguagens de roteiros e apresentação gráfica.

Prezado pard José Ramiro Maurício da Silva agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.


P.S. - Além das fotos da colecção física de José Ramiro Maurício da Silva que ilustram acima a entrevista, publicamos de seguida uma foto de alguns trabalhos de José Ramiro Maurício da Silva. Alguns bem antigos, da década de noventa, outros mais actuais, principalmente da personagem em que está a trabalhar actualmente, baseado em episódios da nossa (Portugal e Brasil) história colonial.

Basicamente o projecto de José Ramiro Maurício da Silva visa apresentar a personagem INAIÊ na forma de história em quadrinhos. A intenção inicial na elaboração da personagem é abordar, com a linguagem dinâmica dos quadradinhos, o processo histórico da formação da sociedade colonial brasileira, misturando factos e personagens reais com a fantasia, itens indispensáveis a uma boa história de acção, cujas aventuras serão ambientadas no Brasil do século XVII, a partir da então Capitania de Pernambuco. A ideia da personagem e da história em quadrinhos de INAIÊ surgiu pela sua paixão tanto pela arte sequencial como pela história do Brasil Colonial.

INAIÊ (que em tupi-guarani significa gavião solitário, faz referência ao gavião-carijó, ave de rapina típica da América Latina e do nordeste brasileiro) é o nome indígena do mameluco Diogo Antônio Dias de Miranda, senhor de engenho do vale do rio Mundaú, que participa da guerra inicial contra os holandeses em Pernambuco.

Junto com o seu filho Samuel, José Ramiro Maurício da Silva também está a trabalhar numa personagem criada pelo Samuel, baseada no universo de super-heróis, o Punho de Aço (nada a ver com o Punho de Ferro da Marvel), do qual o filho cria o argumento e o pai desenvolve o roteiro e os desenhos. Ambos divertem-se bastante, fazendo isso.

Para finalizar, damos a conhecer uma matéria sobre os seus desenhos, matéria essa publicada no sítio Internet do Tribunal onde José Ramiro Maurício da Silva trabalha:

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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