Tex Férias: O Vale da Morte

Tex Férias - O Vale da MorteArgumento de Guido Nolitta, desenhos de Ferdinando Fusco e capa de Aurelio Galleppini. Com o título original Il deserto di Mojave, a história foi publicada em Itália nos nº 254 a 256 e no Brasil pela Mythos Editora no Tex Especial Férias nº 2.
 
Tex e Kit Willer estão de regresso à aldeia Navajo quando, ao atravessar o vale da morte, se deparam com uma caravana onde segue uma tribo de índios Shoshones. Tentando obter informações, pai e filho verificam que os índios foram recrutados para trabalharem na exploração do borax, um mineral utilizado em vários processos de fabricação.
 
De caminho para Las Vegas,  Tex continua intrigado e desconfiado do real destino dos índios e, já na cidade, acaba por encontrar um velho conhecido que lhe dá conta do que afinal acontece com os Shoshones. Estes são vítimas da impiedosa exploração por um grupo de mineradores gananciosos.
 
Arte de FuscoA aventura tem várias curiosidades, nada que realmente não tenha já acontecido na saga texiana, mas porque se trata de situações pouco exploradas. Desde logo, pela presença de Tex apenas ao lado do seu filho Kit. Nolitta constrói um argumento que tem por base a sólida relação entre pai e filho e uma certa pedagogia inerente.
Este lado pedagógico afirma-se, então, como uma segunda curiosidade da aventura. Tex surge em várias passagens como a voz do autor, apresentando e caracterizando factos históricos, mas também como figura referencial para o jovem Kit, ajudando este a identificar-se com as agruras do local. Repare-se, neste aspecto, no exemplo da cena em que, em pleno deserto, Kit tira o seu chapéu.
 
Fusco em O Vale da MorteNolitta aproveita ainda para situar a acção numa localidade real e fazer uso de factos históricos. Nesse sentido, sabemos que o vale da morte (death valley) é a maior depressão do hemisfério ocidental com recordes de temperaturas elevadas. A utilização da tribo Shoshone também não é dispicienda, uma vez que se trata de uma tribo habituada a estes rigores e que por ali foram sobrevivendo alimentando-se de raízes e pequenos animais. Tempo ainda para Nolitta falar da exploração do borax e da cidade de Las Vegas, a porta de entrada para o vale da morte.
 
Tex e Kit Willer por FuscoOutra curiosidade tem a ver com a inspiração e as mesmas premissas que G.L. Bonelli já havia utilizado em “A Noite dos Assassinos” (ver Edição Férias 1). Tal como na aventura escrita por seu pai, Nolitta apresenta o sofrimento de um povo nas mãos de brancos sem escrúpulos e com obscuros interesses, sempre de conluio com o agente índio. Mas se os Dakotas de Bonelli sofriam com o rigor do Inverno e a escassez de provisões, os Shoshones de Nolitta são explorados debaixo de um calor tórrido e mantidos em condições degradantes. Se com Bonelli os Dakotas definhavam e encontravam-se incapazes de usar a sua força física, com Nolitta os Shoshones adquirem a sua utilidade pelo uso dessa mesma força física. Apesar de algumas semelhanças e aparências, há toda uma oposição que só a exploração das tribos índias acaba por ser o fio condutor.
 
Tex de FuscoFusco, senhor de um traço único e original, sempre foi um dos mal amados desenhadores texianos. Mas a verdade é que o seu desenho não deixa ninguém indiferente, ou se ama ou se odeia. O seu traço é rectilíneo e algo rígido, certamente, mas é, ao mesmo tempo, um traço que se adapta a todo o tipo de aventura e a quase todos os cenários e ambientes. O seu Tex revela origens ticcianas, nomeadamente na expressividade do olhar, mas a sua composição procura um  cinismo sempre latente no ranger. Um cinismo penetrante, contagiante e até perturbador. Fusco deixou-me algo da paixão texiana e o seu traço inconfundível, apesar de decorridas décadas, permanece intocável.
 
Texto de Mário João Marques

2 Comentários

  1. Parabéns por mais esta bela resenha, Mário. Bem interessante, pra não dizer cômica, essa seqüência do chapéu.

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