TEX (e Ken Parker) de Ivo Milazzo em destaque no Diário As Beiras: 8 de Novembro de 2003

Texto do jornal Diário “As Beiras” de 8 de Novembro de 2003
João Miguel Lameiras

KEN PARKER: O HERÓI TRANQUILO DE BERARDI E MILAZZO

KEN PARKER, O HERÓI TRANQUILO DE BERARDI E MILAZZOKen Parker, um dos mais carismáticos cowboys da BD europeia, criação maior de Berardi e Milazzo, começa finalmente a ter em Portugal o destaque merecido, com uma presença simultânea nos quiosques e nas livrarias, o que permite aos leitores portugueses descobrir um Western ecológico e profundamente humano, na linha de séries que fizeram história como o “Buddy Longway”, de Derib.

Se a revista mensal que a Mythos dedica ao herói de Berardi e Milazzo já é presença habitual nos quiosques, ao lado das outras séries originárias da editora Bonelli, como “Tex”, “Martin Mistere”, ou “Dylan Dog”, Ken Parker vai chegar também às livrarias através das Edições Asa, num luxuoso álbum a cores, que recolhe um história de 100 páginas.

Criado em 1974, Ken Parker chegaria às bancas italianas com revista própria em 1977, numa arriscada (mas bem sucedida) aposta do editor Sergio Bonelli num western diferente do “Tex” que lhe deu fama e fortuna. Um Western mais intimista, mais próximo da natureza, protagonizado por pessoas vulgares, que vivem os seus dramas como qualquer mortal. Mais do que um cowboy, Parker é um caçador, na linha da personagem interpretado por Robert Redford no filme “Jeremiah Johnson”, de Sidney Polack (que passou em Portugal com o título “As Brancas Montanhas da Morte”) a quem aliás vai buscar os traços fisionómicos.

Num mercado como o italiano, em que as equipas criativas alternam bastante (séries como “Tex”, ou “Dylan Dog”, têm um argumentista mais ou menos fixos, enquanto os desenhadores vão rodando, de modo a permitir assegurar o ritmo de publicação mensal) Berardi e Milazzo constituem um caso à parte, assumindo Ken Parker como um projecto marcadamente pessoal, que traduz os gostos e as referências cinematográficas e literárias dos seus criadores, alimentadas numa infância e adolescência passadas em grande parte nos cinemas de Génova.

Arte de Ivo MilazzoOs leitores da revista “Selecções BD”, já tiveram oportunidade de apreciar o traço sintético e estilizado de Milazzo, em “As Crias”, uma bela história sem palavras, pintada a aguarela, publicada no nº 29 da revista (de Março de 2001), acompanhada por um texto introdutório de Carlos Gonçalves, que apresentava Ken Parker ao público português. Mas mesmo esses leitores que acham que já conhecem o herói de Berardi e Milazzo, vão ficar surpreendidos com “A Terra dos Heróis”, a notável história publicada no nº 12 da revista mensal do herói também conhecido por Rifle Comprido.

Para além de ser um notável exemplo de metalinguagem, através da forma como introduz o leitor no próprio processo criativo dos autores, esta história é um belíssima homenagem à terra dos sonhos para onde a BD e o cinema nos transportam e um sentido tributo aos heróis que o tempo esqueceu. Por esta aventura, que Berardi e Milazzo vivem ao lado do seu herói, transformados também eles em personagens de BD, passam actores e realizadores de cinema, como Charlie Chaplin, Eric Von Stroheim, John Wayne, John Ford, Peter Lorre, Humpfrey Bogart, Federico Felinni e Orson Welles, para além de inúmeros heróis de BD e do desenhador Alberto Breccia, mestre do claro/escuro, a quem o traço de Milazzo certamente muito deve.

Face à narrativa de contornos pirandellianos de “A Terra dos Heróis”, “Lily e o Caçador”, a história de Ken Parker que a Asa se prepara para lançar em álbum, é um modelo de linearidade e contenção, em que o drama de Ken Parker consiste em sobreviver numa natureza hostil, ajudado apenas por uma misteriosa cadela, a que deu o nome de Lily. Uma história simples, mas muito bem contada, onde não falta uma sequência onírica, que leva Ken Parker até Camelot, para reviver um sonho de infância. Graficamente, embora o formato grande faça o traço de Milazzo parecer algo tosco, na verdade trata-se de um desenho extremamente depurado, mas de grande força plástica e rigor de composição, com um enorme dinamismo, na linha de outro grande mestre italiano, Hugo Pratt.

Sangue no ColoradoE aqueles que se deixarem conquistar pelo traço personalizado de Milazzo, podem ainda encontrá-lo em “Sangue no Colorado” o Tex Gigante nº 8 que a Mythos mandou para as bancas há duas ou três semanas. Aqui, em vez de um texto de Berardi, Milazzo ilustra um argumento de Claudio Nizzi, em que Tex vem em auxílio de um amigo a quem um rico proprietário pretende roubar uma mina de cobre. E o desenhador prova aqui que está tão à vontade nas aventuras cheias de acção do ranger Tex, como a desenhar as aventuras mais intimistas do caçador Ken Parker.

(“Ken Parker nº 12: A Terra dos Heróis”, de Berardi e Milazzo, Mythos Editora, 138 pags, 2.50 €
“Ken Parker: Lily e o Caçador”, de Berardi e Milazzo, Edições Asa, 100 pags, preço a determinar
“Tex Gigante 8: Sangue no Colorado”, de Nizzi e Milazzo, Mythos Editora, 242 pags, 5.50 €)

Copyright: © 2003 Diário “As Beiras“; João Miguel Lameiras
(Para aproveitar a extensão completa da imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Eu trocaria o título de Herói tranquilo para Heroi Humanizado.
    Porque é assim que vejo K.P., um herói, que assim nós, simples seres humanos, carrega em sí todos os vícios e virtudes de nossa raça, só que em seu caso as virtudes, se sobrepõe aos vícios.
    AMoreira

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