Fanzine “A Conquista do Oeste” – Maio/Novembro 2001 – Páginas 23 a 26 – Dell e Gold Key, os dois gigantes dos “Comic-books”

DELL E GOLD KEY, OS DOIS GIGANTES DOS “COMIC-BOOKS

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 23Na década de 30 os “comic-books” estavam ainda a dar os primeiros passos nos Estados Unidos da América. O início não foi fácil. Já que não havia histórias inéditas para as revistas e estas começaram a publicar o material que tinha aparecido nos jornais, não só em pranchas como em tiras, embora muitas vezes, como aliás aconteceria em Portugal, de uma forma nem sempre muito cuidada, obrigando sempre essas edições a alguns cortes de vinhetas ou supressão destas. O primeiro caso seria a revista “Popular Comics“, que se apresentava mais como uma antologia de aventuras publicadas em jornais, ainda que com melhores cores e melhor impressão. Na verdade uma das grandes maravilhas de todas estas revistas antigas é de hoje olharmos para elas e ficarmos deslumbrados com a qualidade de papel e cores, se considerarmos a altura em que as mesmas seriam impressas. O responsável por esta revista foi George Delacorte e a editora chamava-se Dell Publishing Company. Estávamos em 1936. Seguiram-se depois as revistas “The Funnies” nesse mesmo ano e “The Comics” no ano seguinte. O mercado encontrava-se aberto a novas iniciativas e a aceitação que as revistas começaram a ter, levou a que George fizesse um contrato com a Western Printing and Lithographing Co., para que esta empresa preparasse material original para as suas revistas.

Roy RogersUma das divisões da Western, em Poughkeepsie, em Nova Iorque, sob a direcção da Oskar Lebek, encarregou-se de imprimir as revistas. Iniciou-se assim, o longo relacionamento da Dell com a Western. Em pouco tempo, todo o material novo publicado pela Dell, era feito pela Western. Quando as revistas “Super Comics” e “Crackajack” apareceram em 1938, já apresentavam não só material inédito como novas personagens.

O mercado entretanto prosperava e já em 1940 íamos encontrar alguns “super-heróis” de sucesso: “Superman“, “Batman“, “Captains Marvel“, “The Flash“, “Hawkman“, etc.. Todas as revistas começavam a apresentar aventuras, na sua maior parte, de “super-heróis“. A Dell percebeu então que havia outro mercado a explorar, mais importante que este e destinado a um público infantil. Em vez dos “super-heróis” que eram já editados também por outras editoras, o que obrigaria a Dell a entrar em confronto com aquelas, nada benéfico para ninguém, era muito mais importante editar material cómico e infantil, incluindo os animais, campo ainda inexplorado. Surgem assim os “Funny Animal Comics“. Com um contrato com a Walt Disney, para que pudesse publicar as aventuras de “Pato Donald“, “Mickey” e outras personagens, estava o caminho aberto para o sucesso.

RawhideEm Outubro de 1940 aparece então a revista “Walt Disney’s Comics & Stories“. Foi o começo de uma longa e próspera carreira de todas as personagens de Walt Disney em Histórias aos Quadradinhos, publicadas em revista, o que até aí não tinha acontecido. Mas os primeiros números publicavam material dos jornais, só na revista “Four Color” e a partir do seu número 9, é que surgirão pela primeira vez aventuras inéditas. O escolhido será o “Pato Donald” com uma história da autoria de Carl Barks, genial desenhador. Chamava-se “Donald Duck Finds Pirate Gold“.

George Delacorte, numa procura constante de outras alternativas, para fugir ao género de “super-heróis“, tenta também conseguir os direitos para publicar as aventuras de “Bugs Bunny“, “Porky Pig“, etc. da Warner e “Tom & Jerry” da MGM, além das personagens de Walter Lantz, “Andy Panda” e “Woody Woodpecker“, figuras que tinham atingido grande sucesso no campo da Animação. Conseguiria todas elas, vindo a transformá-las em grandes sucessos com os “comic-books” com as suas aventuras. Não ficou por aí, continuou na sua busca contínua. Seguem-se “Felix, The Cat“, “Popeye” “Littíe Lulu“, “Henry“,etc..

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 24Em Dezembro de 1941 é a vez da revista “Animal Comics“, onde aparecerá pela primeira vez “Pogo” de Walt Kelly. Aqui dá-se o inverso, só mais tarde esta personagem passaria a ser apresentado nas páginas dos jornais, atingindo um grande êxito, não só junto dos seus leitores, como inclusive dos próprios intelectuais, pela sua qualidade didáctica. Embora evitasse publicar aventuras de “super-heróis“, a Dell não os esqueceu e também resolveria publicar algum material do género, ainda que sem sucesso. As personagens foram: “Phantasmo“, “Martan“, “Professor Supermind and Son” e poucos mais.

Evidentemente que a publicação de histórias já aparecidas em jornais, num formato de “comic-book“, obrigava sempre não só à supressão de vinhetas como a cortes de algumas, de modo a encaixarem naquele formato… Muitas barbaridades foram cometidas, não só nos Estados Unidos da América, como em muitos outros países, incluindo Portugal, ao destruírem material muito bom e que na maior parte das vezes, ficaria perdido para sempre, pois os jornais eram deitados fora, na maior parte das vezes, enquanto as revistas, sempre há um ou outro coleccionador que as conserva.

The Lone RangerNos anos 40, ainda que já existissem muitos filmes de “cow-boys“, mesmo mudos, o tema era quase desconhecido na 9ª. Arte, pelo menos em formato de “comic-books“. Em Setembro de 1940, uma outra editora resolve lançar a revista “Red Ryder Comics“. Não era a primeira vez que ele surgia numa edição do género, pois a própria Dell já tinha publicado as suas aventuras na revista “Crackajack Funnies“. O modo como ele seria retomado pela outra editora seria, ao princípio, muito discreta e quase sem que os leitores se apercebessem disso. A Dell resolve então fazer um novo lançamento, a partir do seu Nº. 6 (Abril de 1942) e a aposta foi ganha com 151 números publicados (1957). Dos N°s. l ao 46, “Red Ryder Comics” publicaria unicamente material dos jornais. Só a partir do Nº. 47 o material seria inédito, embora o seu autor, Fred Harman, tenha sempre desenhado as capas das revistas, pelo menos até ao Nº. 98.

Outra revista de “Western” que seria retomada pela Dell, foi a de “Gene Autry“, baseada na figura do famoso cantor “cow-boy” do cinema. Foi a Fawcett que o lançou nas Histórias aos Quadradinhos, em 1941. A partir do Nº. 11 (1943), a revista passou para a Dell, que unicamente publicaria mais um número com o seu título. Posteriormente, as suas aventuras seriam publicadas na revista “Four Color“, que acabaria em 1946. Mas nesse mesmo ano, o “cow-boy” voltou com a sua própria revista, recomeçando a partir do Nº. 1 e terminando 121 números depois, em 1959. A revista de maior sucesso da Dell seria “Four Color“, pois nela apareceriam sempre variadas personagens, que dariam os seus primeiros passos neste título, alcançando mais tarde ou não, título próprio, se o seu êxito se tivesse mantido até então. Mas nada mais fácil do que contar a história desta revista:
Em Setembro de 1939, a Dell lança uma revista sem nome e sem número, com aventuras de “Dick Tracy“, numa adaptação de tiras de jornais. No mesmo ano sairá outra com trabalhos de “Don Winslow“. Depois será a vez de “Myra North“. O quarto título, já com o número visível, apresentaria “Donald Duck” de Al Taliaferro, também material de jornais. Sempre sem título e até ao Nº. 19, a revista ia surgindo sempre com novas personagens, até que passa a indicar como seu título “Four Color“. Duraria até ao Nº. 25 (1942). Depois disso voltaria com o Nº. 1 e continuaria a sua trajectória até ao Nº. 102, desaparecendo de novo.
Voltaria pouco depois e continuaria de novo até ao N°. 1354 (1962), facto quase inédito no campo dos “comic-books“. Nas suas páginas apareceriam as mais variadas e fantásticas personagens, servindo à Dell como que um barómetro, para detectar se as personagens apresentadas teriam ou não sucesso. O número de revistas editadas por mês, muitas vezes aproximavam-se das seis.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 25De 1942 a 1948 a revista publicou as aventuras de “Bugs Bunny“, “Porky Pig“, “Donald Duck“, “Mickey Mouse“, “Popeye“, “Andy Panda“, “Roy Rogers“, “Felix, the Cat“, “Gene Autry“, “Little Lulu“, “The Lone Ranger“, “Woody Woodpecker“, “Tarzan” e muitos mais. Em Janeiro de 1948, a Dell lançou revistas próprias para as suas personagens, “Roy Rogers“, “Tarzan” e “The Lone Ranger“. Em Fevereiro é a vez de “Popeye” e “Little Lulu” . No período áureo das suas publicações, surgem ainda, com revistas próprias “Porky Pig“, “Uncle Scrooge“, “Donald Duck“, “Mickey Mouse“, “Bugs Bunny“, “Henry“, “Felix, the Cat“, “Woody Woodpecker“, etc.. Mas a revista continuaria a apresentar as personagens antigas, ainda que estas já possuíssem títulos próprios, ao mesmo tempo que publicava as aventuras de outras persona­gens, num nunca mais acabar de novas emoções para os seus leitores. É então que aparecem nos inícios dos anos 50, a maior variedade de “heróis” do Oeste:
“Buck Jones“, “Rex Allen“, “Johnny Mack Brown“, “Wild Bill Elliott“, “The Cisco Kid“, “Dale Evans“, “Tonto“, “Ben Bowie” e “Zane Grey’s Stories of The West“. E muitos títulos infantis, tais como, “Lassie“, “Rin Tin Tin“, “Goofy“, “Chip ‘N’ Dale“, “Tubby“, “Oswald The Rabbit“, etc.. Aventuras ainda com “Steve Canyon“, “Sergeant Preston“, “Turok“, “Son of Stone“, “Prince Valiant“, “Rusty Riley” e “Tom Corbett“.

Gene AutryDepois foi a vez de personagens baseadas em séries da TV: “Cheyenne“, “Gunsmoke“, “Zorro“, “Davy Crokett“, “Maverick“, “Annie Oakley“, “Fury“, “I Love Lucy“, “Sea Hunt“, “Buffalo Bill“, “Wyatt Earp“, etc., muitas delas personagens ligadas ao tema de “cow-boys“. Muitos filmes seriam adaptados para a Banda Desenhada pela Dell: “Ben-Hur”, “The Searchers“, “Moby Dick“, “Spartacus“, “The Horse Soldiers“, “The Comancheros“, “The Vikings“, “The Big Country“, “Helen of Troy”, “Drum Beat”, etc.. Ninguém parava a Dell e o sucesso era tal, que o número de vendas anual aproximava-se dos trezentos milhões de exemplares. Na altura em que seria publicado o livro do Dr. Wertham, “The Seduction of  The Innocent“, a Dell nem se aperceberia disso, já que nunca qualquer das suas revistas seria obrigada a ter o selo do “Comics Code” ou sujeitar-se a qualquer censura, quer do editor, quer dos autores quer da Comissão de Censura.

Cisco KidO código de ética adoptada pela editora internamente, considerava já qualquer remota possibilidade de tal vir a acontecer. A sua reputação, integridade e respeitabilidade assim o permitia. A partir dos anos 60, a Dell resolveria aumentar as suas revistas de 10 para 15 cêntimos, enquanto as outras editoras mantiveram o preço, ainda durante alguns meses e depois subiram-no para 12 cêntimos. Foi um rude golpe para a Dell, já que a partir de 1962 as suas vendas começariam a baixar para metade. Face a tal situação e mais uma vez, erradamente, a Dell resolveria cortar alguns títulos e criar outros internamente, ignorando o acordo que havia com a Western. Esta, descontente com tal situação, resolveu pura e simplesmente lançar os seus títulos no mercado, rescindindo o contrato existente com a Dell. Esta continua então a sua política anterior, ainda que com muito menor êxito. “Dr. Kildare“, “Ben Casey“, “Get Smart“, “Gentle Ben” e outras personagens, começam a dar os seus primeiros passos. Seguem-se “Nukla“, “Melvin Monster“, “Brain Boy“, “Toka“, “Kona“, “Naza“, etc.. O fim aproximava-se lentamente.

Bill Elliott

Moribunda, acabaria em fins de 1973. A editora mauter-se-ia, quem acabaria seria a parte dedicada aos “comic-books“, depois de 37 anos de actividade e mais de 800 títulos publicados. Mas se a Dell desapareceu, o mesmo já não aconteceria com a Western, já que ao dedicar-se à publicação dos seus títulos no mercado, uma nova perspectiva se aproximava desta. Com o selo da Gold Key, a Western resolveu continuar a publicar o material que até então tinha fornecido à Dell, mantendo muitos títulos e numerações canceladas por aquela e lançando outros com nova numeração: “Tom & Jerry“, “Bugs Bunny“, “Porky Pig“, “Popeye“, “Little Lulu” e outros, além de “Tarzan“, “The Lone Ranger“, “Turok, Son of Stone“, etc..

Entretanto vão surgindo outras séries de televisão, que acabarão igualmente adaptadas às Histórias aos Quadradinhos. Embora pagassem os direitos aos Estúdios de Animação e outros, a publicidade era gratuita, pois a própria série ao aparecer na TV, era já um veiculo comercial de grande impacto junto dos telespectadores, que por sua vez se iriam transformar em leitores. Aparecem então as revistas: “Pink Panther“, “Bonanza“, “Gunsmoke“, “Dark Shadows“, “The Munsters“, “Lost In Space“, “The Man From U.N.C.L.E.“, “The Twilight Zone“, “Daniel Boone“, “Star Trek” e outras adaptações de filmes. Em Outubro de 1962 a Western resolve lançar o seu primeiro “herói“, da autoria de Bob Fujitani. Chamava-se “Doctor Solar“. Ao mesmo tempo as capas das revistas modernizam-se, apresentam-se com melhor papel e uma nova linguagem narrativa, adaptando novos formatos de balões, modificando as vinhetas, que poderiam ou não ser quadradas, rectangulares, redondas ou com outro formato.

Fanzine “A Conquista do Oeste” - Página 26A segunda criação da Gold Key seria “Magnus Robot Fighter” de Russ Manning, em 1963. Depois é a vez de “Korak, Son of Tarzan” também de Russ Manning e “Migty Samson” de Frank Thorne, um ano depois. Em fins de 1965 a Gold Key resolve adaptar os livros de “Tarzan“, primeiro por Russ Manning e depois por Doug Wildey. Em 1967 “The Man From U.N.C.L.E.” vendiam mais exemplares que o “Spider-Man” da Marvel. Encontramos ainda novos títulos da Gold Key, como “Dagar The Invincible“, “Dr. Spektor“, “The Jungle Twins“, “Brothers of The Spear“, “Tragg” e outros. Seguem-se ainda “Mod Wheels“, “The Inspector“, “Daisy and Donald“, “Grimn’s Ghost Stories“, “WackyWitch“, “Yosemite Sam“, etc..

A década de 70 já não seria tão boa para a Gold Key, já que a concorrência da Marvel e da DC, a estava a afectar. Voltava a era dos “super-heróis” e as suas personagens já se vendiam pouco. A própria distribuição já se fazia com grandes dificuldades Pelo que a editora resolveria colocar em sacos, duas a três revistas, e pô-las à venda em grandes espaços comerciais. Em 1981, a Gold Key mudou o nome para Whitman, mas os problemas mantíveram-se. Em 1984 tudo acabaria.
Uma das grandes apostas da Dell/Gold Key seria, em relação às outras revistas, as suas capas, sempre fabulosas e de difícil imitação. Foram vários os artistas que as criaram: Hank Hartman e Ernest Nordli eram especialistas no género do western.
Morris Gollub executou muitas capas para as séries “Tarzan“, “Lassie“, “Champion” e outras. George Wilson ilustrou as capas de “Magnus“, “Turok“, “Doctor Solar” e outras.
Foram vários os desenhadores que criaram as histórias para estas editoras: Russ Manning, Jesse Marsh, Alex Toth, Warren Tufts, Carl Barks, Doug Wilder, John Buscema, Frank Bolle, Bob Fujitani, Alberto Giolitti, Tom Gill, Dan Spigle, Alden McWilliams, Albert Micale, José Delbo, Frank Thorne, Nat Edson e muitos outros.
Hoje, muitos destes nome estão já quase esquecidos, in­clusive o das duas editoras.

Zane Grey's

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