Falece aos 83 anos VICTOR DE LA FUENTE

Por José Carlos Francisco

O conceituado desenhador espanhol Victor De La Fuente (considerado por muitos como um dos melhores de todos os tempos a nível mundial) morreu sexta-feira passada, dia 2, aos 83 anos na localidade francesa de Le Mesnil Saint Denis, onde residia há quase 4 décadas, depois de largos anos de doença, conforme relatado pela Federación de Instituciones Profesionales del Cómic (Ficomic), organizadora do Salón del Cómic de Barcelona.

Da sua carreira profissional destacam-se trabalhos como “Los Gringos“, “La siberiana” e “Los Ángeles de acero“, além de ter realizado adaptações em quadradinhos da história da França e de conhecidas obras literárias.

Em 2006 recebeu o Gran Premio del Salón Internacional del Cómic de Barcelona, como reconhecimento de uma longa carreira artística. Também recebeu uma última e inesperada homenagem com a edição “Diario de guerra: Víctor de la Fuente“, um livro que recupera quatro histórias inéditas do mestre de traços profundos que também foi um dos grandes mestres que trabalharam em Tex, sendo inclusive o primeiro estrangeiro a ter essa honra.

Victor De La Fuente em Outubro de 2002 na exposição dedicada a si em Oviedo

Um grande de Espanha“. Foram estas as palavras com que Sergio Bonelli saudava a chegada do primeiro desenhador não nascido na Itália, que ilustrava um dos seus álbuns especiais de Tex, e que não era outro senão Víctor De La Fuente. E o certo é que vista a sua trajectória profissional, a eleição de Víctor era seguramente a mais lógica que se podia esperar.

Tex por Víctor De La FuentePedro Víctor de la Fuente Sánchez nasceu em 1927 na localidade asturiana de Ardisana de Llanes; irmão mais velho dos também desenhadores Ramón e José Luís – conhecido por Chiqui – começa muito jovem o seu trabalho no mundo da banda desenhada entrando nos anos 40 no estúdio  de  Adolfo  López Rubio. Em vez de se estabelecer na profissão, começa um périplo por países como Cuba,  Chile  e  Argentina, onde alterna o seu trabalho no campo da banda desenhada com o da publicidade. Nos anos 60 regressa a Espanha e começa a trabalhar  realizando  histórias  para mercados estrangeiros e através de agências. É então quando conhece Víctor Mora e com ele cria Sunday, a sua primeira obra de autoria reconhecida e com a qual começa a adquirir a notoriedade que a qualidade do seu trabalho merecia. Sunday, western com certo tom crepuscular que mais tarde continuaria o seu irmão Ramón, é o arranque da relação de De La Fuente com um género que domina na perfeição. A publicação em 1970 da revista Trinca por parte de uma editora dependente do Ministério da Informação permite a Víctor a criação da sua primeira obra como autor completo, Haxtur, história com aspecto de fantasia heróica, mas com um argumento críptico e uma simbologia no seu interior, que surpreendentemente consegue, no seu início, enganar a censura da época.

Haxtur,
trouxe para o seu autor o início de uma série de problemas com as autoridades espanholas que fizeram com que ele mudasse  o  seu  domicílio para França. Afortunadamente nem tudo foram problemas e Haxtur conseguiu também que Víctor  De La Fuente se convertesse num dos autores mundiais que maior atenção recebia por parte dos seus companheiros de profissão, graças sobretudo ao seu domínio do desenho, sua capacidade para dar forma ao movimento,  sua  habilidade  narrativa – onde dava uma lição sobre como utilizar os distintos tipos de planos – e a sua espectacular montagem – com a qual conseguia explorar a dimensão vertical da página, algo que praticamente só era explorado por Joe Kubert e por ele.

Uma vez, estabelecido em França, De La Fuente começa a criar uma série de obras que o mantêm em plano de evidência nas décadas seguintes; ao princípio com séries de guião próprio como Mathai-Dor – que havia ficado incompleta em Trinca – Amargo – nova aproximação ao género western – e Haggarth – continuação  da  linha  de fantasia heróica com conteúdo que havia iniciado com Haxtur.

Víctor Mora volta a cruzar-se no seu caminho e assim as suas colaborações prosseguem. Los Angeles de Acero e Le Sibereiane, centram boa parte do trabalho de Víctor De La Fuente durante os anos oitenta. Pouco antes, em 1979, havia começado a série  Los  Gringos com a qual volta ao género western e na qual colabora com o argumentista francês Jean-Michel Charlier até ao falecimento deste, dez anos mais tarde.

Fiamme sull’Arizona, é o título que leva o quinto Texone, editado em Junho de 1992. Como todos os trabalhos de Víctor De La Fuente em Tex, apresenta um argumento de Claudio Nizzi, em que Tex e Carson devem tentar por todos os meios ao seu alcance, evitar uma guerra com os Apaches. Sergio Bonelli explica-nos na introdução do álbum que para a ocasião, Nizzi construiu um argumento com apaches, mexicanos e deserto tentando adaptar-se às qualidades do desenhador  espanhol.  Parâmetros  muito similares são os que parecem ter guiado o argumentista na segunda história escrita para De La Fuente, La caravana della paura editada no Almanacco del West de 1995. Neste caso, Tex e Carson incorporam-se numa caravana que se vê assediada  por  um  guerreiro apache que se dedica a caçar alguns dos seus membros numa missão de vingança onde  nem  tudo  é como parece ao princípio. Trata-se de uma das melhores histórias escritas por Nizzi para Tex, sobretudo porque o seu trabalho melhora  com  o  diminuir de páginas que dispõe, evitando a proliferação de tempos mortos. Ademais apresenta-nos um argumento em que as personagens possuem uma profundidade sobre o ponto de vista moral, afastado das típicas histórias de bons e maus.

Arte de Victor De La FuenteVíctor
acaba incorporando-se no staff de desenhadores da série regular. O seu primeiro trabalho na série mensal Springfield  Calibro  58,  uma história em duas partes que começa na edição 441. Carson e Tex devem investigar o tráfico de armas que está a ocorrer com grupos Comanches, a quem estão a chegar armas procedentes de arsenais perdidos do exército confederado. A seguinte saga ilustrada por De La Fuente, é uma excepção, ao desenrolar-se em cenários urbanos, aos quais o desenhador adapta-se sem nenhum problema. Os números 456 e 457 trazem Al di Sopra della Legge, história desenrolada em San Francisco, local onde Tex e Carson deslocaram-se em auxílio da polícia local para desarticular uma sinistra organização que se dedica a impor a sua própria lei.

A relação entre Tex e Víctor De La Fuente, conclui-se com a história que traz por título La Colina della Morte, com os números 471  e  472,  editados nos primeiros meses do ano 2000. O argumento gira em torno das acções do duo protagonista para desmascarar uma trama de agentes para assuntos índios corruptos. Tex e Carson deverão inclusive deslocar-se a Washington acompanhando Joselito e outros  chefes  apaches.

O Tex de Víctor De La FuenteTanto  esta  história  como as anteriores mantém os parâmetros habituais dos argumentos de Nizzi. Víctor desenha sem  problemas as largas sequências dialogadas que povoam os tempos intermédios da narração que o argumentista tanto aprecia. Como Nizzi escreveu para o asturiano histórias desenroladas em exteriores, De La Fuente resolveu todas essas sequências povoadas de diálogos mediante o seu incrível talento para desenhar personagens a cavalo: Víctor era capaz de desenhar centenas  de  vinhetas  com Tex e Carson falando enquanto cavalgam sem repetir uma só vez o ângulo em que se visualiza a vinheta.

A esse nível haveria de deixar a principal  contribuição  do  trabalho de Víctor De La Fuente em Tex; o estilo.  Cada uma  das  suas páginas serve-nos para constatar o talento inato que possuía para o desenho de séries do oeste. Víctor em Tex continuou sendo um Mestre, conseguindo que nos deixássemos envolver por umas paisagens que, pese a economia de recursos que utilizava para desenhá-las, reconhecemos como se tivéssemos  vivido  sempre  ali. O que ele desenhava, nós podemos tocar com as mãos, é real. Por  tudo  isso  há, sem dúvida, muito do seu trabalho em Tex.

Texto de José Carlos Francisco, baseado no livro-catálogo “Tex Habla Español”.

30 Comentários

  1. Mais um mestre da BD que foi para as pradarias celestiais. Victor de la Fuente desenhou Tex com muito talento e, entre tantos trabalhos, a série Les Gringos, em cuja está o episódio “Viva Blueberry!“.

  2. Proprio due settimane fa c’era stato il “suo”esordio nella collana di Tex a colori

    ADIOS, VICTOR! 🙁

  3. Un altro maestro dell’immensa e perduta scuola latina che se ne va. 🙁
    Come Sommer, arrivò forse troppo tardi sulle pagine di Tex, anche se comunque realizzò un ottimo texone.

  4. Uma triste notícia, a do falecimento de Victor de la Fuente. Mais um grande mestre que desaparece, deixando mais pobre a Banda Desenhada em geral e o “western” em particular. Sempre foi um dos meus desenhadores favoritos e o seu trabalho em Tex, desde a primeira aventura, “O Arizona em Chamas” (que li há muitos anos, ainda na edição da Globo), contribuiu em larga escala para que eu me tornasse também um adepto fanático das façanhas do Ranger.
    Recordo as suas séries publicadas em Portugal, desde “Sunday” e “Trelawney” (episódios de guerra realizados para revistas inglesas) a “Anjos de Aço” e “Haxtur“. Li esta última no “Jacto”, quando ainda vivia em Angola e nunca perdi um número dessa revista por causa dela. Mais tarde, quando trabalhei na Agência Portuguesa de Revistas, tive oportunidade de traduzir uma das suas obras máximas, “Mathai-Dor“, e de apreciar em detalhe a magia do seu trabalho. Que grande artista, que mestre consumado, tanto no “western” como no género “fantasia heróica” e em muitos outros… Não há dúvida que a BD ficou mais pobre!
    E é desolador constatar que os expoentes máximos da BD de aventuras, os desenhadores que ainda nos faziam vibrar com a personalidade e a eficácia do seu traço realista, vão desaparecendo uns após outros, como foi o caso, recentemente, de Frank Frazetta e Al Williamsom. Restam-nos os seus trabalhos para continuarmos a admirar a sua arte e a cultuar a sua memória.

  5. Com certeza uma grande perca para os quadrinhos e especialmente para o mundo de Tex.

  6. Il suo tratto nel Texone era davvero bello, poi, penso per l’età, nella regolare non ha dato il meglio di se.

    RIP

  7. É uma grande perda para o mundo dos quadrinhos, uma das maiores dos últimos tempos. Talvez a maior delas. Descanse em paz.

  8. Estou muito triste hoje, com esta notícia sobre a morte do grandíssimo Victor, grande Artista que tive a honra de conhecer, quando colaborador do Staff di If em Genova, grande perda e a Nona Arte está bem mais triste agora, acreditem…

  9. Uma pena! Era um excelente desenhista. Desenhou uma das melhores aventuras do Tex: A Verdadeira Justiça – Tex 370 ao 372.

  10. Uma notícia muito triste para o mundo da BD e para os Texmaniacos. Os meus sentimentos à família e uma homenagem ao Mestre. Orlando Santos Sila

  11. Mi dispiace moltissimo, anche perché è il secondo disegnatore texiano che ci lascia nel giro di pochi mesi. 🙁 🙁 🙁

    De La Fuente è stato un grandissimo autore western, che ha dato il meglio di sé negli anni settanta con tre serie memorabili:

    – Sunday, un western crepuscolare e antimilitarista come andava di moda allora su testi di Victor Mora

    – Los Gringos, uno scatenato zapata-western su testi del grande Jean-Michel Charlier (l’autore di Blueberry)

    – Mortimer, una serie a metà tra il nero e l’erotico pubblicata in Italia nei tascabili della Ediperiodici e fortemente influenzata dagli Spaghetti-Western

  12. Triste notizia questa di De La Fuente.

    Quando scompaiono questi autori veramente grandi si ha la sincera sensazione della perdita di un amico di vecchia data , di un parente.

    Nella maggior parte dei casi non li abbiamo conosciuti personalmente, eppure ci sembra di averlo fatto, tanto ci hanno raccontato della loro personalità, del loro entusiasmo, della loro visione del mondo e della vita attraverso le linee tracciate sulla carta.

    Tutti i lettori debbono a loro tante emozioni, chi ha scelto di disegnare ha poi trovato in loto una guida giorno per giorno, pagina per pagina.

    Si potrebbero dire ancora tantissime cose ma forse non c’è neppure bisogno di dirle, specialmente se, come nel nostro caso, la passione per queste cose ci porta a fare gli stessi pensieri, le stesse considerazioni.

    Questa stagione ci ha portato via altri due maestri come Frank Frazetta e Al Williamson, anche loro hanno cambiato il modo di vedere il mondo a tante persone.

  13. Questa è davvero una brutta notizia. Conoscevo e apprezzavo il lavoro di questo straordinario autore. E’ stato uno dei primi a farmi apprezzare il fumetto d’autore quando l’ho scoperto sulle pagine di Metal Hurlant (insieme a Moebius e Gimenez) negli anni ’80. Un altro grande ci ha lasciato.

  14. Uma grande perda, sem sombras de dúvida.

    Eu sempre gostei muito do estilo e do traço de La Fuente, arrojado, interessante, estiloso, conferindo ao ranger e aos demais personagens ares de realidade plástica, isso sem falar nas paisagens e nas composições de cena…

    Repouse em paz, Victor. Teu trabalho não será esquecido pelos texmaníacos!

    ————————
    Gervásio Santana de Freitas

  15. Victor de La Fuente, descanse em paz!
    Seus desenhos são os meu preferidos no mundo de TEX.
    Adeus

  16. Uma enorme perda para o mundo dos quadrinhos. Victor de la Fuente era um dos melhores desenhistas de Tex (e um dos raros que eu comprava sempre que desenhava uma edição) e, para além disso, criou muitas obras de qualidade em sua longa e frutífera carreira.

    Deixará muitas saudades.

  17. Caro, caro Victor, amico fraterno, la ferale notizia l’ho appresa stamani da Castelli. Mai avrei immaginato, telefonandoti non più tardi di 10 giorni fa che il tuo “non sar bene” fosse così grave. Ti volevo parlare di Al Williamson, nostro comune amico, lui se ne è andato poco prima di te, ma tu non lo sapevi, e Helena mi ha pregato di non dirtelo:
    -…non sta troppo bene,meglio evitare…-
    Di te mi resta molto, gli incontri a Lucca, a Parigi, davanti al tuo tavolo da lavoro dove regalavi a me, uno dei pochi eletti, la tua creatività con una facilità disarmante. Hai “segnato” profondamente la mia professione.
    Prima Alfonso, ora tu, non ci saranno più incontri a tre, posso solo coccolare con gli occhi i vostri disegni alle mie pareti e lo splendido dipinto ad olio che mi hai voluto regalare.
    Ho una grande tristezza, addio Victor

  18. La Fuente morreu e deixou sua marca como um dos maiores desenhistas de HQ. Em Tex ele foi genial. Que Deus o tenha.

  19. Victor De La Fuente l’ho conosciuto sulle pagine di Tex e su un mio “vecchio” articolo (cfr. “Tex Horror“, 1998, Tesauro)cosè parloavo del suo stile:

    Altro autore spagnolo, dopo Blasco, che si confronta con l’impegnativo compito di realizzare le avventure di Tex. Il ranger di De La Fuente evidenzia uno sguardo fiero, quasi enigmatico, che non tradisce la minima emozione, ed è dotato, inoltre, di un fisico asciutto, nervoso, come quello di un ghepardo. La sua rappresentazione del West è dettagliata, precisa, realistica, eseguita con un tratto sottile e veloce. Gli ambienti, infuocati e arroventati (quasi come a voler bruciare le pagine), emanano tutto il loro fascino insondabile. Nelle sparatorie, invece, sembra di annusare l’odore acre della polvere da sparo. I personaggi, tra l’altro, sono dipinti con accurata ricerca psicologica, come possiamo notare dai volti di questi anonimi protagonisti, i quali, nella sofferenza e nel silenzio, hanno costruito l’America. Inoltre, l’autore evidenzia una peculiare capacità di tratteggiare i pellerossa, in particolare gli Apaches (che sono protagonisti di due dei suoi racconti: il quinto Texone e l’Almanacco del West 1995), i quali, nelle sue illustrazioni, conservano intatto tutto il loro fascino di uomini duri e ribelli (che, soprattutto, emanano il sapore di un mondo fiero e orgoglioso che purtroppo non c’è più) allenati alla durezza dell’ambiente in cui abitano“.

    Questo è il mio omaggio a questo grande artista.

    Até logo

  20. De La Fuente fez história! Vai realmente deixar saudades imensas como os grandes mestres que já nos deixaram, como Nicolò e Letteri… Um traço ímpar, maravilhoso, uma perda imensa.

  21. Um TEX de fisionomia séria e circunspecta em grandes planos e quadros fora da mesmice, esse é um de meus prediletos. Feito pelas mãos deste Mestre. Certas pessoas não deveriam morrer. Los Gringos e Sunday estão órfãos. Mas isso faz parte da vida. Graças a Deus sua obra permanecerá. Influenciou e influenciará muito outros desenhistas por este mundo afora. Sua passagem está marcada para sempre. Descanse em paz.

  22. Brilhante matéria sobre o grande mestre das HQs que, infelizmente, se foi… De La Fuente deixou sua marca indelével no mundo das BDs e jamais será esquecido, com certeza. Serviu de fonte de inspiração pra muitos outros artístas, incluisive eu. Que Deus o tenha em bom lugar e que o exemplo de garra e perseverança do velho mestre sirva de exemplos à todos nós.

  23. Fiquei sabendo agora da morte de Victor De La Fuente, estou muito triste, porque foi através de seu trabalho que me impulsionou mais ainda a fazer HQ, estudo seus desenhos até hoje, e agora mais ainda, porque o mestre de La Fuente deixa a vida para entrar na história. Adeus.

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