Bonelli: Os desafios de uma gigante dos quadradinhos

Alvaro BarretoPor Alvaro Barreto

Neuvieme artNeuvieme art” é uma revista francesa de análise sobre as BD, publicada anualmente pela “Cité Internationale de la Bande Dessinée et de l’Image” . Em seu número 15, de Janeiro de 2009, há um dossier sobre as “novas formas de BD popular”, na qual, além das mangás japonesas e dos comic-books norte-americanos, a Bonelli Editore mereceu atenção. Matteo Stefanelli assina o artigo “L’école Bonelli, histoire et théorie d’un anti-modèle canonique”, no qual, em dez páginas, traz alguns dados importantes, lança um olhar crítico sobre informações já conhecidas e revela novas nuances sobre a famosa editora italiana.

O primeiro esforço do autor foi dimensionar a grandeza da Bonelli para um público que não a conhece. Os dados são impressionantes: 250 títulos por ano, 1 milhão de exemplares/mês vendidos na Itália e 1,6 milhões impressos, dos quais Tex lidera com 230 mil exemplares, seguido por Dylan Dog (170 mil). Um dos trunfos é a alta fidelização (apenas de 10% a 15% dos seus leitores são ocasionais). Stefanelli evidencia que a Bonelli criou um estilo editorial e narrativo característico da Itália, dissociado dos padrões internacionais e que, talvez por isso, não tenha encontrado muito sucesso fora do seu país, com excepções de Brasil e países periféricos da Europa (Turquia, Croácia, Suécia).

Sergio Bonelli EditoreDo ponto de vista narrativo, o estilo foi criado pelo patriarca Gian Luigi, calcado nos folhetins e no cinema, no qual prevalecem a aventura, o exotismo e a imaginação, com ênfase ao faroeste. No oeste bonelliano convivem, ao mesmo tempo, a aventura pura e a rígida divisão moral, sendo que, nesse caso, os homens são bons ou maus, independentemente da cor, o que rompeu com os modelos colonialistas de então e ajudou a refundar o faroeste clássico.

Do ponto de vista editorial, o modelo está calcado em revistas com muitas páginas (cerca de 110), ausência de publicidade e baixo preço (2,70 euros, em média), no formato de um caderno (16×21cm). Mas o mais característico é, inegavelmente, o preto e branco, que se sustentou no mundo da BD de grandes tiragens basicamente graças ao empenho do grupo Bonelli, visto que predomina internacionalmente o colorido como meio preferencial de difusão.

Fumetti Bonelli na revista Neuvieme artOutro pilar do modelo é a utilização do quiosque como espaço privilegiado para a venda. Segundo o autor, este não é um aspecto desprezível, pois há cerca de 40 mil pontos de venda na Itália, o que faz deste um espaço amplamente difundido no país e um símbolo de acesso aos bens culturais para amplas parcelas da população. Enfim, o locus das edições Bonelli são as bancas de revistas e o tipo de público que as frequentam.

Todas essas características fizeram da editora um sucesso estrondoso e impactante e a constituem como uma das maiores do mundo. No entanto, elas também são responsáveis pelos impasses e pelos desafios que enfrenta actualmente.

Mescla de personagens BonelliDe um lado, a fórmula editoral é um problema: a quantidade de páginas de cada revista torna o processo de produção muito mais lento, exige que muitos profissionais actuem ao mesmo tempo e implica custos mais elevados. De outro, o modelo narrativo bonelli envelheceu: a alta fidelização, que é tão importante, também revela o envelhecimento dos leitores da editora, que possuem faixa etária média de 40-60 anos. O público não se renova e os jovens não se sentem contemplados nas revistas clássicas da Bonelli, ainda que, nos anos 80-90, ao faroeste de Tex e à mistura de estilos de Zagor tenham sido incorporados variações (ficção-científica, terror, policial, vampirismo, ainda associados à aventura), com o lançamento de: Martin Mystere, Dylan Dog, Nick Raider, Nathan Never, Legs Weaver, Mágico Vento, Brendon e Dampyr. O modelo da série regular e infinita também não é mais o que atrai aos novos leitores, que preferem séries limitadas (minisséries) ou programadas, ao estilo das temporadas dos seriados de TV. Como resultado, as vendas caem, desde 1993, à razão de 5% a 8% ao ano.

A escola Bonelli na revista Neuvieme artNa mesma medida, a Bonelli enfrenta a perda da centralidade do quiosque como local de venda de BD e o processo de “livrarização”, o que implica edições mais requintadas e caras, tanto do ponto de vista narrativo quanto editorial, voltadas a um público mais elitizado cultural e economicamente, cujo grande exemplo mundial é a França.

Como a editora tem reagido a esses cenários? A estratégia tem sido dupla: não renunciar ao estilo que a consagrou e procurar manter o património construído ao longo do tempo; e promover mudanças gradativas, que a aproximam de novos mercados ou novas tendências. A Bonelli tem mantido as séries que ainda se sustentam em bancas (apesar do cancelamento de Mister No e Nick Raider), mas os novos lançamento têm sido séries limitadas (18 episódios), como Brad Barron (2005), Demian (2006) e Volto Nascosto (2008).

Personagens BonelliEla não abandonou o quiosque como espaço privilegiado de vendas e não aderiu às livrarias, contudo criou produtos diferenciados para serem vendidos nas bancas, algo parecido com aqueles encontrados nas livrarias. O grande exemplo é “Tex Collezione Storica”, lançada em 2007. Nesse caso, além de um produto diferente do “modelo Bonelli”, uma espécie de graphic novel ou de álbum francês robustecido (300 páginas), em cores e tão distante do modelo P&B, a editora não enfrenta o desafio de modo isolado, pois tem como aliado a indústria jornalística, também ela em crise e a procura de novos caminhos. A colecção, um sucesso de vendas, busca um leitor e frequentador e consumidor de livrarias, mas lhe oferece o clássico dos clássicos.

A escola Bonelli na revista Neuvieme artVer pela primeira vez uma série regular de Tex em cores tem méritos: serve-se de uma personagem consagrada, cuja novidade do colorido não desagrada os leitores antigos e consegue atrair a atenção de novos leitores. Outro detalhe é que a série chega às bancas com um custo de produção muito amortizado, pois a editora baseia-se no seu património criativo, um amplo material produzido ao longo de 60 anos, capaz de sustentar uma colecção muito longa. O resultado é que, paradoxalmente, embora tenha menos vendas do que antes, os índices económicos da editora melhoraram: lucro 37% superior, em 2007, tendo chegado de 4,3 a 6 milhões de euros. Tudo isso sem adaptações para cinema/TV, pouco merchandising (como bonecos) e praticamente sem venda de direitos internacionais, tão comuns a outras majors.

Sergio BonelliEssas alternativas têm viabilizado a continuidade e o crescimento da Bonelli Editora. A questão é: durante quanto tempo elas podem funcionar em um mercado cada vez menos receptivo ao canónico e peculiar modelo editorial e narrativo da Editora? Sergio Bonelli, de um modo algo apocalíptico, mas não desprezível, dado o conhecimento que ele possui dos quadradinhos como empreendimento, não vislumbra uma longa duração. Isso não significa o fim da Bonelli como empresa publicadora de quadradinhos, como as experimentações actuais indicam, mas muito provavelmente a retracção ou o esgotamento do chamado “estilo Bonelli”, tão peculiar e característico de uma narrativa popular à italiana.

(Para aproveitar a extensão completa das fotos acima, clique nas mesmas)

5 Comentários

  1. Tex apenas vende 230 mil exemplares por mês? E pelo que entendi este numero diz respeito a todas as colecções que saem num mês. De facto é muito pouco para um país como a Itália, a somar também a perda de leitores nos últimos anos,percebe-se um pouco melhor o pessimismo demonstrado por Sérgio Bonelli. No entanto os lucros da editora contrariam este cenário, e a revolução iniciada em Tex, com a entrada de novos desenhadores e argumentistas, juntamente com exploração de novos mercados (Russia), poderão ser suficientes para manter a série por mais algumas décadas.
    Sérgio Sousa

  2. Esta é a análise mais lúcida que lí até hoje sobre o futuro do mundo Bonelli, e consequentemente sobre Tex Willer.
    AMoreira.

  3. Acho que os 230 mil exemplares por mês, se refere à coleção principal Sérgio e não a tudo que sai de Tex, mas o nosso amigo Zeca pode tirar essa sua dúvida, melhor do que eu.

    Abraços.

  4. De facto, pelo que sei, a série regular de Tex, na Itália, vende entre 220.000 e 230.000 cópias por mês. Depois há a acrescentar mais alguns milhares das reedições (Tex Tre Stelle, Tutto Tex, Tex Nuova Ristampa e Tex Stella D’oro) e sobretudo dos Almanaques, Gigantes e Maxis (todos estes anuais)… e se levarmos em conta no presente a colecção colorida de Tex que sai juntamente com o periódico La Repubblica, a conta mensal não deve andar muito longe do milhão de cópias…

  5. Muito esclarecedora essa análise.
    Parabéns ao blog por nos dar acesso à esse tipo de informação.
    Da minha parte espero que o estilo ‘bonelliano’ continue sempre e supere as adversidades com a abertura de novos mercados (citaram Rússia nos comentários) e alguma estratégia de marketing para angariar novos leitores, para, apesar de não ser o estilo mais vendido ou na tendência atual mundial, pelo menos que mantenha-se num patamar de sobrevivência, alegrando e educando os apreciadores da boa literatura, já que nem todos no mundo (os leitores) precisam “seguir o rebanho” do que a maioria está sendo influenciada a seguir nos modismos que na sua quase totalidade visam apenas a busca incessante pelo lucro máximo.

    Grande abraço

    Ezequiel

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