As Leituras do Pedro – Tex: O Vingador/Justiça em Corpus Christi

As Leituras do Pedro*

Tex, o Vingador
Mauro Boselli (argumento)
Stefano Andreucci (desenho)

Tex: Justiça em Corpus Christi
Mauro Boselli (argumento)
Corrado Mastantuono (desenho)
A Seita
Portugal, Março/Abril de 2022
215 x 285 mm, 56 p., cor, capa dura
14,00 €

Solidificação

Em anos recentes, tem sido visível o esforço por parte da Sergio Bonelli Editore para diversificar a sua oferta em geral, e no que a Tex diz respeito, em particular.

Neste último caso, a par da introdução da cor em edições clássicas – criadas para o preto e branco… – tem havido histórias coloridas, formatos diferentes e – o que vos trago aqui hoje – o preenchimento das muitas lacunas do passado do ranger, que Gianluigi Bonelli no seu tempo apenas referiu episodicamente e de forma passageira.

Aliás, pouco mais se sabe da juventude do (agora) ranger do que o facto de ter nascido como fora-da-lei – o que rapidamente foi justificado pelas mortes causadas como justiça pelo assassinato dos pais.

É exactamente neste ponto que Mauro Boselli, actual curador da personagem, nos apresenta o ‘seu’ jovem Tex neste díptico que A Seita acaba de completar em português.

Do Texas ao México e de volta, apenas pontualmente com a parceria do seu irmão (pacifista…) Sam Willer e dos rangers Jim Callahan e Dan Bannion, Tex vai perseguir os assassinos da sua família, aproveitando de passagem para destruir negócios ilegais de alguns dos seus parceiros de carácter duvidoso.

A primeira pergunta que se impõe é: era necessário? Tex precisava de um passado esquadrinhado ao pormenor? A resposta é sim e não. Sim, porque a Bonelli precisa de continuar a vender o seu produto mais comercial e esta é uma forma de o conseguir, quer junto de novos leitores, quer apelando à nostalgia dos seus leitores tradicionais. E a resposta é não, porque o ‘mito’ Tex está suficientemente ancorado no imaginário de muitos, para necessitar destas extensões.

E é não, também, porque, para o bem e para o mal, esta história – como outras da mesma época – poderiam perfeitamente ser protagonizadas por uma personagem com outro nome, sem que houvesse necessidade de lhe alterar uma vírgula ou uma ruga. A temática é suficientemente universal e o protagonista suficientemente credível por si só, para ser necessária a muleta ‘Tex’.

Embora seja evidente que é essa muleta que dá a este díptico (outras) pernas para andar, alavancando as suas vendas.

Embora – novamente – o ‘jovem Tex’ seja diferente (ainda) do ‘Tex maduro’: mais impulsivo, mais rápido no gatilho, mais sujeito a falhar também. Mas um ‘antepassado’ credível e consistente do ranger que (re)conhecemos – e no qual estas vicissitudes juvenis o transformaram. É também um Tex mais solto, menos sujeito a hierarquias (do corpo dos rangers) ou a responsabilidades (enquanto chefe dos navajos) e por isso com uma liberdade extra – que a falta de parceiros regulares também beneficia.

Porque, quanto ao mais, este é um western tradicional, baseado num dos seus estereótipos mais repetidos, o desejo de vingança de um jovem que perdeu os pais. Mas é bem narrado sem dúvida – o que faz toda a diferença – e tira todo o proveito do formato alternativo – franco-belga – nele (bem) explorado. Curiosamente, para os que esperam uma história mais curta, por ter apenas 48 páginas, será uma boa surpresa descobrir que, fruto da planificação mais cerrada – com até 5 tiras por prancha e com a inclusão de vinhetas dentro de vinhetas – a leitura ‘renderá’ bem mais do que o esperado – mais a mais quando comparada com as que são traçadas na grelha original Bonelli de 3 (tiras) x 2 (vinhetas).

Isto, sem que se perca a oportunidade de desfrutar da bela arte de Stefano Andreucci (no primeiro volume) e de Corrado Mastantuono (no segundo), autores que se revelam à vontade num género sempre difícil como o western, nos exteriores poeirentos como nas exíguas povoações ou no interior das suas casas, no desenho dos (traiçoeiros) cavalos como no retrato proporcionado e dinâmico da figura humana, fazendo jus à fama da Bonelli no que à qualidade dos seus desenhadores diz respeito.

Para além do já referido, Boselli explora bem algumas sequências mudas – como a que abre O Vingador – variando assim o ritmo narrativo e dando a sensação ao leitor de que é ele que pauta a leitura. Depois, há o expectável neste tipo de banda desenhada: cavalgadas, tiroteios, algumas surpresas e a vitória do herói sobre os vilões.

Pode soar a pouco para alguns, mas cumpre integralmente – e com mérito – os seus propósitos.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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