As Leituras do Pedro: Júlia #1

As Leituras do Pedro*

Júlia nova série #1
Giancarlo Berardi e Lorenzo Calza (argumento)
Cristiano Spadoni (desenho)
Myhtos Editora
Brasil, Novembro de 2021
160 x 210 mm, 128 p., cor, capa cartão
R$ 29,90

Regresso de corpo inteiro

Esta edição, de certa forma marca, o regresso de Júlia (ex-J. Kendall…) ao Brasil.

Um regresso de corpo inteiro, apetece vincar, mas um regresso, sem quebras, na continuidade.

Na continuidade, porque, depois de 105 volumes com uma única história, e de volumes duplos até ao #154, num total de 199 inquéritos da criminóloga de Garden City, esta (nova) edição #1 arranca com a banda desenhada publicada na edição #200 original italiana. Sem quebras nem saltos cronológicos, portanto.

Mas é um regresso, também, porque o título – Júlia – volta a emular o italiano – embora eu o preferisse sem o acento no ‘u’ – tal como aconteceu nas primeiras 4 edições, há mais de 15 anos, quando a existência de uma revista de fotonovelas com o mesmo título obrigou a mudar para (o mais impessoal) J. Kendall.

Mas, mais importante – tão importante? – porque agora podemos acompanhar as investigações de Júlia no formato para que foram criadas, o formato ‘Bonelli’, como é habitual designá-lo. E – é forçoso sublinhar – impressas em papel offset, branco – melhor até que o usado nas edições italianas – o que evita os borrões que tantas vezes aconteceram no papel de jornal das edições em ‘formatinho’…

Este regresso de corpo inteiro, dá-se também a cores, seguindo a edição original, de que recupera o texto que então Giancarlo Berardi escreveu. Pessoalmente, prefiro Júlia – e a maioria das edições Bonelli – a preto e branco, mas esta é, com certeza, a forma certa de chamar a atenção dos leitores – os novos e os regulares – para a sua nova vida editorial, que regressa à periodicidade mensal. E uma questão simples de respeito pela forma original de publicação.

Falta, nesta edição, a habitual página interna de rosto, substituída naturalmente por um texto com a justificação da Mythos para todas estas mudanças, mas isso implicou a omissão dos autores de A Imagem Perdida, que só são identificados na vinheta final.

Em termos gráficos, preferia que não tivesse existido a linha raiada de amarelo e preto sob o nome da protagonista – e que se estende à lombada – mas suponho que ela existe para distinguir esta ‘nova série’, da reedição em formato italiano que a Mythos está a levar a cabo das primeiras aventuras da criminóloga.

Poderá – haverá com certeza – um senão: o (inevitável) aumento de preço. Se esta edição, por ser colorida, não serve de exemplo – assim como também não servem as reedições em curso, de tiragem limitada – acredito que a relação qualidade/preço será benéfica, embora perceba que muitos se irão queixar pelo aumento da relação aventura/preço…

Ultrapassada a questão da forma, passemos então ao conteúdo.

Ao longo dos anos, as histórias protagonizadas por Júlia têm mantido um assinalável nível qualitativo – como aliás é imagem de marca das séries da Sergio Bonelli Editore, ou seja sem grandes oscilações. Dizendo de outra forma, se raramente deslumbram, menos vezes ainda desiludem.

Para mim Júlia é uma das melhores séries da editora italiana, um conseguido misto de investigação policial e de análise psicológica, em doses equilibradas com um pouco de acção e algum intimismo, e com reforço dos condicionamentos sociais como justificação para muitos dos crimes.

A par disso, progressivamente, Berardi foi desenvolvendo a sua personagem, dando-lhe uma personalidade forte, apesar do seu ar frágil – emprestado de Audrey Hepburn – e das muitas dúvidas que a assolam, em especial no que toca a relacionamentos amorosos, e ao mesmo tempo criando em torno dela uma galeria não muito extensa, mas muito bem caracterizada, que aprendemos a conhecer e de quem, geralmente, sabemos o que esperar, criando assim uma grande cumplicidade com o leitor.

Desta forma, também este número 200 não foge à regra. A par da visita de Norma, irmã de Júlia, com o novo namorado, desenrola-se uma investigação em torno do assassinato de uma modelo de segunda linha. Apesar de cumprir os ‘canônes’ que ele próprio estabeleceu, Berardi consegue mais uma vez seduzir e estimular o leitor -. que geralmente anda à frente de Júlia pelo conhecimento prévio que vai tendo de algumas das situações expostas – e inovar ao incluir uma personagem cega que terá uma papel fundamental – e credível! – no desfecho.

Termino com uma curiosidade: a edição #200 italiana teve direito a uma capa variante, assinada por nada mais, nada menos do que… Vittorio Giardino, aqui reproduzida:

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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