As Leituras do Pedro: J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga #69 – Atentado no Texas e #70 – O Grande Mar de Relva

As Leituras do Pedro*

J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga
#69 – Atentado no Texas
#70 – O Grande Mar de Relva

Giancarlo Berardi, Maurizio Montero (argumento)
Laura Zuccheri (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Agosto e Setembro de 2010)
135 x 178 mm, 132 p., pb, brochado, mensal, 4,00 €

Resumo
Julia Kendall desloca-se à pequena cidade de Wylmeth, no Texas, por motivos que só mais tarde nos serão relatados, sendo recebida com desconfiança e pouca hospitalidade pelos habitantes locais.
Começa assim mais uma delicada investigação da criminóloga, que a levará a enfrentar situações limite que nunca viveu.

Desenvolvimento
Há bandas desenhadas (filmes, romances) que recordamos não pelo todo, mas por uma ou outra cena marcante ou que, pelo menos, nos marcou especialmente. Pela cena em si, porque evocou alguma memória pessoal ou apenas porque naquele momento estávamos mais receptivos àquele acontecimento ou àquela mensagem.
Foi o quer aconteceu comigo em relação a este díptico de Julia.

Iniciando-se com o extenso (e quase mudo) mas pacífico relato da chegada da criminóloga a Wylmeth, no Texas, que ocupa mais de uma dezena das pranchas iniciais e que serve também para nos ambientarmos e nos apercebermos de algumas particularidades locais – a desconfiança para com os estranhos, a pouca hospitalidade… – a acção dispara depois, a partir da última vinheta da página 18 – e com ela a adrenalina do leitor – com a cena da (ameaça) de violação de Julia.

É uma sequência (de novo) longa (de novo quase muda), mas não gratuita nem desnecessária, em que a (extrema) exposição e a (extrema) violência (basta a situação em si…) não vão além do bom senso ou do bom gosto – por muito estranho que isto soe… – mas são suficientes para chocar o leitor, para mexer com os seus sentimentos, pela forma como sentimos o terror puro da (involuntária) protagonista. Até pela (incapacidade de) reacção de Julia após o seu agressor se retirar.

É uma sequência longa, sim, que serve acima de tudo para credibilizar Julia, enquanto personagem forte e humana, mas com todas as fragilidades das mulheres (dos seres humanos) comuns.

Uma cena que me marcou e pela qual recordo esta história, pese embora uma outra (longa) sequência, também muito bem conseguida, aquela que faz a transição entre as duas edições, na qual Julia e o xerife local ficam presos sobre os escombros da esquadra local e na qual a criminóloga revela também sentimentos bem humanos e reais. Uma sequência em que a realidade e as angústias (in)conscientes de Julia se combinam e se confundem, de forma particularmente feliz, até pelo traço impressionista utilizado nela por Laura Zuccheri.

São duas sequências chave, marcadas pela tensão, pela angústia, pelo medo, sendo estes sentimentos transmitidos através do uso de grandes planos dos rostos e pela constante mudança de enquadramentos, o que ajuda a potenciar o seu efeito ao longo do tempo (real) que as cenas duram).

Na base da narrativa, que apresenta como curiosidade desenrolar-se numa cidadezinha quase parada no tempo, que evoca cenários (e mesmo algumas sequências) de (autêntico) western, incluindo uma perseguição a cavalo (!) completamente alheios ao que é tradicional na série, está a descoberta de um assassínio, em cuja origem teria estado – aparentemente –o ódio racial.

Como habitualmente sólida e bem construída, a história irá ter diversas inflexões, revelar outras pistas e acabar por revelar tensões não ultrapassadas e relacionamentos não resolvidos como origem de tudo.

Por tudo isto, é um policial com tudo para prender o leitor que facilmente poderá ser levado por pistas falsas que tornam (ainda) mais conseguido o desfecho final, com algumas surpresas mas uma grande consistência.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias e na revista In’ – distribuída as sábados com o JN e o DN), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.

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