As críticas do Marinho: Delta Queen – (Color Tex italiano #5)

Por Mário João Marques

Inicialmente de periodicidade anual, o Color Tex passou entretanto a semestral, alternando números com aventuras de 160 páginas, desenhadas geralmente por um autor do staff texiano, com outros números onde se publicam 4 pequenas histórias de 32 páginas cada, desenhadas por autores externos à equipa regular. Também o papel e a colorização são diferentes, já que as aventuras mais longas são publicadas no papel habitualmente utilizado pela Editora e com uma colorização mais uniforme, elementar e conservadora, alternando com números onde a colorização é mais viva e moderna e a impressão é feita em papel branco, brilhante e liso.

A verdade é que a Sergio Bonelli Editore parece ter aqui um desafio, a de não efectuar uma transição radical do preto e branco para a cor numa série com décadas, sem ferir os mais puristas e, em bom rigor, sem ir contra um dos fundamentos da série que, desde sempre, viu o preto e branco como uma das suas imagens de marca. A Editora já vinha publicando aventuras a cores em cada número centenário, mas foi com o estrondoso sucesso da publicação da colecção Tex Repubblica que algo começou a mudar. No fundo, há que atender aos novos tempos, a imperativos de mercado e aos novos desejos dos leitores. A editora tem vindo a fazer um esforço no sentido de se sintonizar com os novos tempos, pelo que esta alternância na colorização que tem vindo a ser feita entre os números do Color Tex parece ser uma boa estratégia, acabando por servir como um laboratório para a própria editora, permitindo-lhe assim colher a opinião dos leitores.


Feita esta breve introdução, foquemo-nos na aventura propriamente dita e que marca o regresso do grande Fabio Civitelli à série depois de “A Cavalgada do Morto”, aventura também escrita por Mauro Boselli. Resumidamente, Tex e os seus pards encontram-se a investigar o assassinato de um ranger o que os leva a embarcar no barco mais elegante e imponente de todo o Mississipi, o Delta Queen. Assim se inicia uma viagem fluvial onde quase todos parecem esconder as suas verdadeiras identidades e o perigo espreita por todo o lado. Realce para o facto do próprio Delta Queen realmente existir, um barco que navega nas águas do Mississipi desde 1927 e que parece ter servido de inspiração para a aventura de Boselli.


Ao contrário do que é habitual, desta vez Boselli opta por construir um argumento cuja acção se desenrola quase toda no mesmo cenário, o Delta Queen, assim como a lista de personagens intervenientes não é tão extensa como é apanágio no autor. Isso não invalida que Boselli consiga apresentar uma aventura perfeitamente gerida, mostrando mais uma vez a sua maturidade no domínio da planificação, o que lhe permite gerir com mestria os tempos da acção. Circunscrito a um ambiente perfeitamente definido, todos os elementos clássicos do género acabam por estar presentes, um bando de ladrões, mesas de jogo, saloon, tiroteios, mas sempre com o Delta Queen e as águas do Mississipi (elemento fluvial particularmente interessante) como pano de fundo e local privilegiado da acção.


Realce para o final, quando Tex promove, a bem dizer, Lucas (uma homenagem ao actor Paul Hogan e à sua personagem Crocodile Dundee) e Rick ao papel de proprietários do Delta Queen, renunciando entregá-los à justiça. Ambos tiveram episódios duvidosos no seu passado e de certa forma encontram-se em débito perante a lei. Com as suas acções presentes, Lucas e Rick acabam por ser resgatados desse passado, a que não é alheio o papel do Tex verdadeiramente bonelliano que Boselli aqui nos apresenta. Tex sempre teve uma interpretação muito própria da lei, o que, não raras vezes, o colocou contra juízes, tribunais e poderes instituídos, contra muitos homens que corruptamente não faziam cumprir a justiça, colocando-se sempre em defesa da honra e dos mais fracos. Depois da intervenção que Lucas e Rick tiveram e na ajuda prestada na investigação do homicídio, para Tex não haverá tribunal nem juiz que possa levar isso em linha de conta, pelo que mais do que a força das leis, importará mais a força da honra.


Civitelli regressa em força, o que não nos surpreende, uma vez que pelo seu profissionalismo, a sua permanente vontade em explorar novos caminhos e experimentar novas fronteiras gráficas, o resultado final será sempre de enormíssima qualidade. O desenhador aretino é desde há anos um dos valores seguros e firmes do desenho italiano e um verdadeiro embaixador da série. O seu desenho de elevada qualidade, o seu traço realista, elegante, o tratamento de ambientes tudo aqui é insuperável, mesmo levando em linha de conta o facto de Civitelli não ter utilizado com tanta frequência o seu célebre pontilhismo, adoptando fundos mais ligeiros e menos elaborados, devido à necessidade de posterior colorização.


Uma última palavra para a excelente capa de Villa, uma verdadeira pintura de um Tex em primeiro plano, actuante, perfeitamente enquadrado perante as águas do Mississipi iluminadas pelo luar e onde navega um luxuoso Delta Queen.

2 Comentários

  1. Primeiro dizer que o Marinho está cada vez melhor ao criticar as aventuras. E tem permanecido firme, constante, o que é mais difícil.
    Segundo bater palmas para o Civitelli, sempre perfeito nas imagens tão bem planejadas e executadas.

  2. Uma coisa que eu não sabia… Delta Queen terá desenhos de Civitelli… isso muda tudo… e uma vez que já deve estar incluso no contrato deste ano… bem que a Mythos podia remanejar a cronologia e publicar este antes do das Hqs curtas… Civitelli é Civitelli!!

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