Almanaque Tex 30: O Preço da Honra

Almanaque Tex 30 - Testemunha de AcusaçãoArgumento de Claudio Nizzi, desenhos de Andrea Venturi e capa de Claudio Villa.
Com o título original Documento d’accusa, a história foi publicada em Itália nos nº 548 e 549 de Tex inédito e no Brasil pela Mythos Editora no Almanaque Tex nº 30.

O jovem apache Santos abate a sangue frio o General Marcus Leland, quando este passava em revista o exército instalado em Forte Defiance. Este crime é tão atroz como inacreditável e ninguém suspeitaria que um dos melhores batedores do exército pudesse cometer semelhante acto. Tex é chamado ao forte e para descobrir as razões que levaram Santos a este gesto, tem que mergulhar nas brumas de um passado doloroso. Uma história que o ranger vai contar a Carson e a Kit, uma viagem aos tempos de Natay, o pai de Santos.

Arte de VenturiCom esta aventura, Nizzi faz uma clara alusão a Apache Kid, onde G.L. Bonelli narrava a perseguição movida pelo exército a um guerreiro apache. Bonelli utilizou uma personagem verídica da História americana, narrando as injustiças de que foi alvo por parte de militares, tornando-se num foragido. Nizzi utiliza o mesmo meio, os mesmos alicerces e socorre-se de outro artifício, o flash-back. A aventura é narrada quase sempre no passado para melhor tentarmos compreender o futuro, cabendo a nós leitores estarmos na mesma posição de Carson e Kit Willer que nunca viveram os acontecimentos narrados por Tex. Também o protagonismo da aventura é agora amplamente assumido por Natay, remetendo-se Tex a um papel menos preponderante e seguramente mais impotente que na aventura escrita por Bonelli.

Tex de VenturiPor isso, não sem alguma razão, Nizzi dá o flanco expondo-se uma vez mais às múltiplas críticas dos mais conservadores. Se na aventura bonelliana Tex fazia tudo ou quase tudo para ajudar o amigo rebelde, desta vez deixa os militares imporem a lei, justa ou injusta, destinando Santos a um caminho desde logo traçado pelo seu acto. No entanto, a aventura tem outra leitura, a da perseguição movida a Natay, tornando-o no verdadeiro protagonista. A sua vida, os seus feitos, a sua personalidade, os seus códigos, tudo nos é contado em flash-back e facilmente aceitamos estar em presença de alguém cuja conduta se rege por princípios concretos e honrosos. Alguém que foi destinado a uma vida errante pelas injustiças de brancos ou pelas traições de quem com ele convivia, tornando-se num verdadeiro pesadelo para o exército, porque jurou lavar a sua honra. Tex pode não assumir a mesma espessura bonelliana, abstendo-se de uma intervenção tão acentuada, mas a verdade é que Nizzi consegue construir uma aventura dramática e apelativa no sentido em que expõe a nu contradições e sentimentos que permitiram muitas injustiças.

Tex por VenturiVenturi assume-se de aventura para aventura como um grande desenhador de Tex. Pelo facto de revelar aptidões próprias, mas também porque vai mergulhando na personagem dominando cada vez melhor a figura texiana. Venturi exprime-se espectacularmente nos vários cenários da aventura: nas paisagens do velho oeste, como o pueblo, os desfiladeiros ou Monument Valley, nas montanhas carregadas de neve ou em cenas de interior. Senhor de um traço elegante e muito seguro, Venturi constrói personagens rigorosas e marcantes, sendo de destacar a figura de Natay que assume fisicamente todo o retrato psicológico delineado por Nizzi. Só lamentamos que o seu ritmo de trabalho algo lento nos prive de trabalhos com mais regularidade.

Texto de Mário João Marques

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