Albo Speciale Tex n. 23 (Texone): Patagonia

Albo Speciale Tex n. 23Albo Speciale Tex nº 23 – “Patagonia”, de Junho de 2009.
Argumento de Mauro Boselli, desenhos e capa de Pasquale Frisenda. História inédita no Brasil e Portugal.

Depois de tantas e tão boas apreciações sobre esta aventura, rapidamente colocada no patamar superior do galarim das melhores aventuras texianas, cresceu em mim uma natural curiosidade na sua leitura, alicerçada no facto de também estrear outro desenhador na série. Pois bem, Patagonia é uma bela aventura, épica, histórica, muito bem documentada, com trabalho de casa e com uma grande prestação gráfica de Pasquale Frisenda. Uma aventura que tem muito daquilo que apreciamos, uma causa romântica, amizade, vingança, ódio, estratégia, honra, glória, grandes personagens.

Com Patagonia, Tex e Kit Willer viajam até às pampas argentinas, a pedido de Ricardo Mendonza, para ajudar o exército a penetrar nas terras índias e trazer à justiça um grupo acusado de sangrentos assassinatos e que mantêm vários prisioneiros em cativeiro. Mas as coisas acabam por se complicar quando um novo general assume o comando do exército argentino, determinado a conseguir o domínio dos índios pela guerra em prejuízo do diálogo e da diplomacia.

Patagonia

Com esta viagem até terras argentinas, Tex assume um cariz universalista, uma personagem humana que difunde os seus valores, a sua conduta e a sua ética onde estes mais se façam sentir, mesmo que isso represente levá-lo até ao outro extremo do continente americano. Ricardo Mendonza é alguém que o autor recupera no universo da série, alguém conhecido dos tempos em que o ranger lutou ao lado de Montales, alguém certamente merecedor da maior admiração por cultivar os mesmos ideais civilizacionais, alguém que está a viver a história do seu país, tal como em tempos Tex viveu a dos Estados Unidos. A luta do exército pela conquista das terras ocupadas desde sempre pelos índios, revela um certo manifesto pacifista e civilizacional que exalta o valor do diálogo e da compreensão pelas diferentes culturas e heranças históricas, contrapondo em permanente o valor de militares idealistas (tão bem caracterizado em Ricardo Mendonza) com aqueles mais sedentos da glória que o poder das armas possa proporcionar.

Arte de FrisendaTex vai viver uma aventura com uma dimensão política enorme, vai participar na história da própria Argentina, quando já havia participado na dos Estados Unidos. Existe assim uma colagem a factos já vividos, certamente com outros ambientes e personagens, mas forçosamente as mesmas causas e os mesmos motivos. A luta pela justiça em prol dos mais desfavorecidos, a luta por ideais e valores humanos, desta vez com o cenário do velho e poeirento oeste a ser substituído pelas pampas argentinas que o herói visita pela primeira vez. Se bem que rodeado por índios e gaúchos, a sua revolta perante o poder instituído, ou mesmo para com o militar que lhe pediu ajuda, revela um Tex maniqueísta, um Tex que apesar de já por diversas vezes ter estado contra a lei, vai confrontar-se com um poder fora do seu habitat natural sem atender a eventuais consequências. Uma atitude titânica, intensa, que revela uma moral inflexível e genuína, que revela um herói que toma a defesa de um campo sem atender às consequências da sua atitude, um herói que se sacrifica por um povo, suscitando um rol de emoções e sentimentos.

Arte de Pasquale FrisendaUm Tex rodeado de homens no seu puro e literal sentido, homens que lutam pelo que acreditam, mesmo em campos diferentes, homens como Julio, como Chonki, como Solano, como Mancuche, como Belmonte, como Recabarren, finalmente como Mendonza, que acaba por revelar-se numa personagem imensa e destinada a nunca mais ser esquecida. Uma aventura que também vem catapultar Kit Willer que, ao viver toda esta epopeia ao lado do pai, assume-se como um jovem em acumular de experiência, numa espécie de tirocínio ao lado de um mestre. Não é indiferente a vinda de Kit Willer com o pai, porque Boselli já demonstrou por diversas vezes a conta em que tem o filho do ranger, dotando-a de uma gradual importância, num percurso que se vai percorrendo ao longo de aventuras assumidas com maior ou menor protagonismo.

Patagonia!Em Patagonia não há falhas na caracterização de uma época e de um período histórico, não há falhas na construção das personagens, não há diálogos banais, não há cenas gratuitas. Patagonia é um épico mais lento e contido na primeira parte e emocionante nas páginas finais. Com Patagonia, Boselli comprova o caminho que pretende para a série, aventuras dramáticas e realistas que nunca descuram o rigor histórico, alternando com outras mais clássicas onde sobressaiam personagens marcantes e extremas que rivalizem com o ranger. Com Boselli, Tex volta a ser um herói de corpo inteiro, um herói que junta um pouco de tudo, os valores e as características bonellianas, os sentimentos e as dúvidas nolittianas, a espessura psicológica e dramática boselliana.

Tex (e Ricardo Mendonza) por FrisendaPatagonia também deve também muito da sua qualidade ao excelente trabalho do milanês Pasquale Frisenda (Ken Parker e Magico Vento), que tem aqui um trabalho apaixonante, um trabalho de uma entrega total, um trabalho que revela uma enorme diversidade de enquadramentos, imenso nas cenas das batalhas, profundo na descrição dos ambientes, expressivo com as personagens, e impecável na composição de Tex e Kit Willer. Frisenda nunca baixa os braços, denotando sempre por todas as páginas um cuidado extremo na composição de cada desenho e de cada prancha. Um trabalho que se assume na sua plenitude tanto na primeira parte da aventura, com menos acção, como na intensidade e na atmosfera dramática que perpassa por toda a segunda parte. Um autor que se mantém em boa hora no staff texiano, juntando-se a uma galeria de desenhadores que se vai engrandecendo cada vez mais.

Texto de Mário João Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *