A Opinião do Rui: Tex Edição de Ouro nº 83 – A Grande Invasão

Por Rui Cunha

Se bem que grande parte da Banda Desenhada que se faz hoje em dia seja original e parta da imaginação dos seus criadores (argumentista e desenhador), outra há que parte duma base existente, seja ela uma simples notícia ou um acontecimento histórico que, depois de cuidadosamente analisado e estudado, dá origem a um bom argumento que resulta num grande entretenimento chamado banda desenhada e que, regra geral, não desmerece nenhum dos seus autores, seja argumentista ou desenhador.

Tex Willer e o seu filho, Kit deslocam-se até à cidade de Wackett, no Texas para assistir ao funeral de um  velho amigo. O que levaria uma alta patente dos Rangers a estar presente no funeral daquele que, para os habitantes da pequena cidade, não passava de um zé-ninguém? Decidido a mudar a opinião da cidade sobre o morto, Tex resolve contar a história de como ele e outros, alguns anos antes, conseguiram impedir a grande invasão dos Comanches e salvar o Texas.


Começa assim “A Grande Invasão”, uma aventura de Tex, escrita por Mauro Boselli e desenhada por Carlo Raffaelle Marcello. Publicada em Itália em 2002, foi também a última história desenhada pelo autor, desde que passou a integrar o lote dos desenhadores eleitos pela Editora Bonelli em 1991, antes do seu falecimento em 2007. Das nove histórias de Tex que desenhou, desde “I Diavoli Neri” (Tex italiano nº 371 a 373),  sete delas partiram de argumentos escritos por Mauro Boselli e são consideradas verdadeiras obras-primas do universo Bonelliano. O desenho de Marcello tem um traço próprio que ajuda a que o leitor mergulhe na aventura e interaja com as personagens sem nunca perder a noção de aventura e o tom épico, uma característica bem patente em “A Grande Invasão”. Os argumentos de Boselli são sinónimo de qualidade e esta também está muito bem representada na história que aqui me trouxe.

Percebe-se também que Mauro Boselli nutre um especial fascínio pela história, em especial pela dos Estados Unidos e não hesita em agarrar no episódio da batalha do Álamo, ocorrido em 1836, na qual, pouco mais de uma centena de texanos, sitiados nas ruínas duma velha missão espanhola, auxiliados pelos tennessianos de Davy Crockett fizeram frente a mais de quatro mil mexicanos comandados pelo general Santa Anna para impedir que este anexasse o Texas, adaptando-o livremente para banda desenhada.


O argumento de Boselli colhe alguns destes elementos e adapta-os à sua vontade numa nova realidade (a invasão Comanche) com outros protagonistas (Tex, os colonos, os condenados, os próprios índios e seus chefes), estabelecendo até um paralelismo com os eventos verdadeiros, nos quais, segundo reza a história, alguns lugares-tenente do general Sam Houston, o comandante das forças militares do Texas, ao saber da situação do Álamo, quiseram ir em seu auxílio, mas Houston preferiu deixá-los sacrificar-se e assim conseguir reunir o número de tropas efectivas necessárias para enfrentar o exército mexicano (na aventura acontece o mesmo quando, depois de repelido o ataque dos índios a San Antonio, Carson e os Rangers querem ir à procura de Tex e o comandante proíbe-o de o fazer, alegando que Tex terá que se desembaraçar sozinho).

Toda a aventura, se excluirmos as primeiras ( onde após um momento de tensão, entre Tex e os habitantes de Wackett, no cemitério, tudo parece ficar esclarecido apesar da curiosidade do xerife e do seu ajudante em relação ao morto) e as últimas páginas, passa-se num longo “flashback” de mais de 300 páginas (a história tem um total de 330 páginas), o que, diga-se de passagem, não é nada fácil de escrever, quanto mais desenhar  (Marcello mostra bem, em vários quadrados, toda esta tensão inicial) e ainda, pelo meio, colocar um “flashback”dentro do “flashback”, no qual somos surpreendidos ao ver um Kit Carson ainda de cabelo preto (págs. 203-208), em plena acção.


As personagens, excluindo Tex, que incluem  um grupo dos condenados e dos soldados que os guardam, nas famílias de colonos (que Tex ajuda sair do território) são-nos apresentadas, independentemente das suas motivações pessoais ou outras, como tendo um objectivo comum que é a sua sobrevivência. Boselli consegue aqui (de resto, como em outras histórias por si assinadas), construir uma notável galeria de personagens (principalmente no seio do grupo de condenados onde a riqueza psicológica (ou não?) de cada um é esmiuçada quase até ao limite) a que o desenho de Marcello, carregado de simbolismo e sentimento, fazendo uma boa gestão das situações, dá um tratamento muito realista (principalmente nas sequências nocturnas), que reflecte muito do que era o velho Oeste, também nas sequências de acção, nomeadamente o ataque dos índios á caravana dos colonos e o ataque final ao Forte Quitman, a arte de Marcello consegue transmitir aquilo que no argumento de Boselli só poder ser (e deve ser) descrito como sendo uma verdadeira epopeia épica ao nível do melhor que Tex nos tem mostrado e que nos remete imediatamente para os antigos westerns que tantas e tantas vezes preencheram o nosso imaginário numa altura em que todos (e este vosso comentador também se inclui) queríamos ser uma espécie de cowboys para podermos combater os índios.

Nesta aventura surge, igualmente, como acontece em muitas outras, um dos pilares mais fortes do universo texiano: o senso de justiça a que o Ranger está obrigado por aquilo que ele representa: a lei e neste campo, é-lhe dada, mais uma vez, a oportunidade de aplicar essa mesma justiça ao confiar a sua vida (e igualmente a de outros) nas mãos de homens que estão a braços com essa mesma justiça e com a lei que ele próprio  representa dando-lhes uma oportunidade de redenção.

Uma última palavra para a capa que ilustra este “Tex Edição de Ouro nº 83”, onde vemos num primeiro plano uma cruz de madeira e uma pá numa sepultura e em segundo plano vemos Tex e Kit Willer, numa atitude de respeito, com as suas gabardinas a esvoaçar ao vento (é incrível a sensação de movimento que esta imagem transmite), que vemos junto ao chão e num céu em tons amarelados e rosa, simbolizando o final do dia, vemos alguns abutres a esvoaçar. É mais um trabalho de muita qualidade da autoria de Claudio Villa, o consagrado desenhador do Staff Bonelliano, autor das últimas centenas de capas da revista Tex.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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