Resgatando o passado: A primeira entrevista de Giovanni Ticci (Setembro de 1979)

Giovanni Ticci e a tridimensionalidade gráfica
Por Giancarlo Malagutti [1]

Resgatando o passado: A primeira entrevista de Giovanni Ticci (Setembro de 1979) – Página 1

Giovanni Ticci, nascido em Siena a 20 de Abril de 1940, chega à banda desenhada quase por acaso. “Em 1956″ – como o próprio declara – ″tinha um tio que vivia em Milão, no mesmo palácio em que habitava Rinaldo Dami. Mostrei-lhe alguns dos meus desenhos e ele convidou-me a visitá-lo, para eu conhecer o mundo da banda desenhada. Assim o fiz e, depois de um mês de provas, pediu-me para fazer parte do seu staff, no qual permaneci até ao final de 1957. Naquele período eu frequentava contemporaneamente cursos nocturnos para me tornar contabilista, mas por sorte a paixão pela banda desenhada levou a melhor e assim passei a ser desenhador“.

No período em que colabora com o Estúdio Dami, Giovanni Ticci realiza o lápis para “La pattuglia dei bufali” (“A patrulha dos búfalos“), das Edições Araldo, e várias séries, entre as quais «Battle Britton» e «Dick Daring» para a Fleetway Publications de Londres, que certamente desenvolveram no jovem autor propensão à perfeição e à dedicação no trabalho, porque como bem se sabe, o mercado exterior sempre foi mais selectivo. “Naturalmente” – precisa Ticci – “não é que as várias histórias ou episódios fossem desenhados integralmente por mim. No estúdio éramos uns 5 ou 6 (entre os quais Porciani, Trevisan, Calegari) e tentávamos aprender como se fazia banda desenhada; tratava-se, portanto, de um trabalho de equipa“.

No início de 1958 Ticci abandona o estúdio Dami e regressa a Siena onde retoma os estudos, mas após três meses, por mérito de Carlo Porciani, foi posto em contacto com Franco Bignotti, que o convence a levar a sério a ideia de fazer banda desenhada. Inicia assim a fazer os desenhos a lápis para este último e, de tal modo, a desenvolver os próprios dotes artísticos tendo, em primeiro lugar, a possibilidade de trabalhar em estreito contacto com um valente artista e, em segundo lugar, a de desenhar apenas a lápis e, portanto, aperfeiçoar dia após dia a técnica e o estudo do desenho sem ter de fazer pausas para o repasso da tinta-da-china.

Os primeiros trabalhos, «Kansas Kid» e «Dick Daring», ainda foram realizados para a Fleetway, que os encomendava ao estúdio Dami com o qual Bignotti colaborava. Em seguida o editor Bonelli confia à arte de Bignotti uma nova série, «Il ragazzo nel far west», com textos de Guido Nolitta, que depois deixará a série nas mãos de Giovanni Bonelli. Bignotti, depois de três ou quatro volumes em tiras, conforme era moda naquele tempo, passa os guiões ao jovem (por isso a mão de Ticci já é vista no primeiro álbum da série republicada), o qual realiza mais uma vez apenas o lápis, porque como o próprio admite, tendo feito anteriormente apenas desenhos a lápis, tinha pouca destreza com a tinta.

Tira de «Un Ragazzo nel Far West», lápis de Ticci e tinta-da-china de Bignoti

O editor no início não sabia desse facto, mas em seguida foram indicados dois desenhadores, com a sigla «Bignoticci». Naquele ano há um breve parêntesis dedicada à realização gráfica de um texto de Francesco Bernini, a história de um rapaz, ambientada no Japão medieval, publicada em cinco edições do mensal «Piccolo Sceriffo» da Editora Dardo.

Tomando como medida a longa saga do «Ragazzo nel far west» (série republicada na colecção Rodeo e concluída com um episódio realizado integralmente por Bignotti com textos de Decio Canzio), pode-se notar o caminho gráfico percorrido pelo desenhador. Nos primeiros álbuns ainda não se nota a mão do jovem autor que, embora hábil, ainda não possuía um estilo pessoal, devido sobretudo ao facto de ter trabalhado num estúdio onde cada indivíduo realizava uma pequena parte do trabalho, aquela onde se sentia melhor, acabando assim por especializar-se e às vezes por despersonalizar-se. O lápis de Ticci acaba portanto por ser coberto pelo estilo de Bignotti, sendo este último alguns anos mais velho e consequentemente mais experiente.

Mas conforme gradualmente as edições do «Ragazzo nel far west» prosseguem, Ticci torna-se cada vez mais um perfeccionista do desenho; a produção de edições no formato de talões de cheques com 32 ″striscias″ (tiras) dá-lhe a possibilidade de aplicar-se com calma, sem o frenesim que se apodera do artista quando tem de realizar volumes corposos onde existem muitas páginas para entregar num curto prazo ao editor.

No final de 1960, acontece um facto muito significativo na vida de Giovanni Ticci: o regresso à Itália de Alberto Giolitti, que já tinha conhecido anteriormente. Os dois desenhadores encontram-se em Roma, começando a trabalhar juntos em algumas séries, também elas para o mercado externo; porém desta vez trata-se dos Estados Unidos, meta sempre ambicionada por qualquer autor, tanto para os que escrevem como para os que desenham.

Um exemplo da convincente e eficaz ambientação da ficção científica na série «Judok» (textos de G. L. Bonelli)

Inicia assim a colaboração com «Gunsmoke», «Have Gunwill Travel» e «Tales of Wells Fargo», versões em banda desenhada de famosas séries televisivas para os álbuns da colecção Gold Key Comics da Western Publishing CO. de Nova Iorque, para além de algumas histórias para «Boris Karloff» e «Twilinght Zone», sempre para a mesma editora. Ticci a trabalhar com Giolitti deve por força das circunstâncias adaptar-se ao estilo que já era conhecido na América. A confirmação desse facto vê-se na já citada série do «Ragazzo nel far west», onde se nota uma notável mudança no desenho. Tal não é apenas devido à convivência com Giolitti, que certamente influenciou bastante o jovem Ticci, mas também à inata habilidade deste que, ajudado pelo autor mais experiente, consegue deitar cá para fora toda a sua capacidade com que é dotado. E pode-se mesmo dizer que o “aluno” superou o “mestre”.

Enquanto prossegue a série na companhia de Bignotti, em 1962 inicia com o amigo Giolitti a série «Turok», publicada em Itália pelos irmãos Spada. A vinheta alarga-se, as figuras dos personagens passam a ser mais cuidadas e a qualidade do desenho do desenhador de Siena melhora cada vez mais. Nota-se aqui e ali a influência de Dan Barry e de John Cullen Murphy, dois grandes autores americanos que inspiraram inúmeros desenhadores italianos e de muitos outros países. As cenas são dotadas de maior movimento e o enquadramento torna-se mais cinematográfico, que será cada vez mais uma característica de Ticci.

As duas fases principais do processo criativo de Giovanni Ticci: O desenho a lápis e aquele final já repassado com tinta-da-china

O rigor da descrição histórica tende a melhorar graças sobretudo ao cuidado no desenho dos detalhes, tais como armas, roupas e acessórios. Cada vez mais a personalidade do desenhador deixa a sua marca, e o arte-finalista Bignotti não pode deixar de aprimorá-la, e com uma certa complacência, visto que abandona o seu estilo próprio (que depois retoma quando finaliza os seus próprios desenhos a lápis) para começar a pintar mais finamente, seguindo muito fielmente os desenhos a lápis subjacentes.

Para além das figuras humanas, saltam imediatamente à vista o cuidado e a beleza de certas paisagens, cidades ou acampamentos índios, pradarias e sobretudo canyons, que Ticci realiza com toque magistral. Porém, não obstante a paixão pelos grandes espaços, os índios, os cavalos e tudo aquilo que faz parte do Oeste americano do século XIX, o desenhador deve produzir também séries de tipo diverso, entre as quais «Voyage to the botton of the sea», uma série de ficção científica na qual uma vez mais derrama toda a sua habilidade.

Vinhetas do álbum «King Kong» realizado juntamente com Alberto Giolitti

Até 1968 leva por diante esta enorme quantidade de trabalho, à qual se soma o volume «King Kong», traduzido e publicado em Itália pelos irmãos Spada, e republicado depois pela Cenisio, na onda do sucesso cinematográfico do filme homónimo. Também desenha «Sword for Hire» e «The Fiery Furnace», um par de histórias para a Fleetwey Publications. Em 1963 tinha iniciado, para as Edições Araldo, uma série de ficção científica muito bela, com textos do multifacetado G. L. Bonelli e intitulada «Judok», mas nem sequer consegue concluir o primeiro episódio, devido aos inúmeros empenhos.

Vinhetas de «Vendetta Indiana», a primeira aventura de Tex desenhada por Ticci, nas quais eram já evidentes o domínio dos meios expressivos e a forte carga dinâmica

Um dos primeiros rostos de Tex desenhados por Giovanni Ticci

A história foi depois republicada na colecção Rodeo (nº 8, Judok), mas completada por outro desenhador. A tudo isso adicione-se o facto de, em 1966, ter sido contactado pelo editor Sergio Bonelli para iniciar uma colaboração com Tex, para o qual realiza a história «Vendetta indiana», na qual, mesmo respeitando o seu próprio estilo, consegue um trabalho bastante homogéneo com relação aos precedentes desenhos de Galleppini. Daí em diante abandona aos poucos as produções antecedentes, terminando-as definitivamente em 1969 para dedicar-se exclusivamente a Tex, objectivo certamente muito cobiçado. As únicas excepções são uma história de guerra para o «Corriere dei Ragazzi» (L’aereo di Al-Agaila, nº 25 de Junho de 1970), à época revista muito cotada, e uma história do género fantástico sobre o Palio de Siena para a série «Twilight Zone» dos Gold Key Comics.

Nos últimos dez anos dedicados a Tex, Giovanni Ticci realiza dez aventuras, mais ou menos longas, publicadas em 24 volumes, segundo o hábito da editora de publicar aventuras não limitadas a um número fixo de páginas, para não pôr limites à inspiração criativa do escritor.

Os detalhes da arte de Giovanni Ticci em Tex

Essa produção pode parecer escassa em confronto com o trabalho dos outros colaboradores de Tex, mas examinando as vinhetas uma a uma e prestando a devida atenção, não se pode deixar de notar que cada vinheta é estudada e realizada com muito cuidado e cheia de detalhes, os quais exigem bastante tempo mas produzem um efeito final extremamente agradável. Nas suas páginas existem ares de epopeia de um filme western de grande qualidade, graças à precisão dos detalhes destinados a transmitir um sentido histórico e temporal àquele mundo matizado que foi o Oeste americano. Apesar das reduzidas dimensões da vinheta, o artista consegue passear a sua classe e criar uma tridimensionalidade que salta para além dos estreitos limites do quadradinho. Como faz com outras publicações, a editora poderia mandar realizar também para as edições de Tex vinhetas maiores, pelo menos do tamanho de duas vinhetas actuais para valorizar ao máximo a arte ambiental e paisagística. Cada vinheta de Ticci é realizada cuidadosamente: as cidades, as pradarias, os canyons são sempre muito realísticos e dotados de profundidade. Não por acaso Ticci é um dos artistas mais copiados por aqueles desenhadores que, dotados de pouca habilidade e escassa fantasia criativa, se inspiram fortemente no trabalho dos outros; assim, por vezes encontramos vinhetas inteiras recalcadas das suas, em outras publicações. Nós revimos a produção deste desenhador que se demonstrou um dos mais válidos desta geração italiana e que – no nosso entender – é tido talvez em fraca consideração, porque fazendo parte daquela lista de honestos profissionais que se dedicam a tempo inteiro e exclusivamente ao trabalho de série (naturalmente de boa qualidade), não têm tempo para andar à procura de glória em outros lugares, sobretudo nos periódicos considerados ″intelectuais″ e que seguem a moda do momento.

A tridimensionalidade da arte de Giovanni Ticci em Tex

A concluir este rápido perfil de Giovanni Ticci, cremos poder legitimamente exprimir um desejo e, ao mesmo tempo, fazer um convite à editora CEPIM para tomar em séria consideração a possibilidade de confiar a realização de um volume da afortunada colecção «Un uomo, un’avventura» a um desenhador como Ticci, que honrou com dignidade gráfica, talento criativo e seriedade profissional a banda desenhada italiana.

Giancarlo Malagutti

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[1] Material apresentado na imprensa italiana em Setembro de 1979; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 1979, Giancarlo Malagutti

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