Tex “I Rangers di Lost Valley”: Entrevistas exclusivas com os autores Mauro BOSELLI & Stefano BIGLIA

ALERTA: As entrevistas que se seguem com Mauro BOSELLI & Stefano BIGLIA revelam algumas surpresas da história “I Rangers di Lost Valley” (Tex italiano nº 668, 669 e 670, de Junho, Julho e Agosto de 2016), e a sua leitura antes da publicação da revista no Brasil e Portugal pode tirar toda a graça, emoção e suspense que se cria com relação à aventura.

Stefano Biglia & Mauro Boselli, por Bira Dantas

Entrevistas conduzidas por José Carlos Francisco, com a colaboração de Mário João Marques na formulação das perguntas, de Bira Dantas na caricatura e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino nas traduções e revisões.

MAURO BOSELLI

Mauro, para esta aventura Sergio Bonelli sugeriu-lhe apenas uma história centrada na figura de Ranald MacKenzie ou transmitiu-lhe alguma instrução especial?
Mauro Boselli: Sergio Bonelli tinha muito apreço por uma história sobre Ranald MacKenzie que focasse a fase em que ele foi atingido pela loucura. Ele disse-me isso e emprestou-me um livro sobre a personagem. Nada mais.

Na sua opinião, quem foi Ranald MacKenzie? Só um militar zeloso das suas responsabilidades ou alguém que conseguiu conjugar o dever profissional às suas inegáveis qualidades humanas?
Mauro Boselli: Para mim, apesar da sua alcunha de Justiceiro, MacKenzie foi uma personalidade com inegáveis qualidades humanas, como se prova pela estima (retribuída) que os soldados de cor tinham por ele, e também pelo senso de justiça com que procurou tratar as tribos indígenas derrotadas.

Ranald MacKenzie teve uma carreira militar cheia de episódios, sobretudo durante a Guerra Civil americana, quando foi descrito pelo general Ulysses Grant como o seu jovem oficial mais promissor. A opção, nessa história, pelo período final de sua carreira, vivido no Texas, foi pensada para melhor destacar as suas contradições e fraquezas?
Mauro Boselli: Bem, eu não podia contar a sua biografia inteira. Mas mesmo assim não foi simples.

Pelo que conta a História, a instabilidade mental de Ranald MacKenzie começou depois de uma queda. Porque é que nesta aventura preferiu substituir a queda por uma maldição indígena?
Mauro Boselli: Afinal de contas isto é uma BD! E depois, que a maldição seja mesmo a responsável pela loucura, não é declarado de forma explícita na história. Aliás, provavelmente não foi! Trata-se de uma simples coincidência. Mas a maldição de Mama-ti acrescenta cor e drama.

Você conseguiu encontrar o espaço para incluir Tex no meio de acontecimentos históricos, exaltando a figura do herói bonelliano, capaz de socorrer de forma heróica uma companhia de rangers. Na sua visão, quais são as principais dificuldades de um argumentista quando deve inserir um herói de BD no meio de episódios históricos?
Mauro Boselli: Tex não pode modificar os acontecimentos históricos, o que é uma pena. Mas tudo deve ser feito de modo a que ele não seja ultrapassado pelos acontecimentos, porque o Herói pertence ao Mito e não à História.

A narrativa dessa história não é linear, e acaba por saltar eventos e centrar a sua acção em épocas e ambientes diversos. Porquê essa opção?

Mauro Boselli: Por dever contar uma parte de vida real, eu não podia fazer de outro modo.

O trabalho de Biglia consegue transmitir com sucesso o que você pensou para essa aventura?
Mauro Boselli: Eu não consigo imaginar essa história senão desenhada por ele.


STEFANO BIGLIA

Stefano, quais foram as suas impressões sobre este seu primeiro grande trabalho com Tex?
Stefano Biglia: Um desejo que se realizou mas também uma prova de que, com as expectativas e a curiosidade que se criaram de imediato, exigiu-me empenho máximo. E uma bela história, dinâmica mas também muito comovente no seu final.

Você já conhecia a personagem de Ranald MacKenzie? Que documentação consultou?
Stefano Biglia: Não, eu nunca tinha ouvido falar dele. É uma personagem histórica muito conhecida nos Estados Unidos, mas aqui na Itália praticamente não foi tratada. Mauro forneceu-me material fotográfico e o resto eu acrescentei ao documentar-me na internet.

Quais foram as principais instruções que Boselli lhe forneceu para a elaboração dessa aventura, sobretudo para a composição de MacKenzie e dos factos históricos?
Stefano Biglia: Mauro deu-me muita confiança e liberdade. Os temas tratados não me eram desconhecidos (à parte os Soldados Búfalo e os batedores seminoles), mas ele foi bastante preciso com algumas indicações na fase inicial. A primeira foi a de elaborar enquadramentos bem próximos, para poder desenhar melhor as mímicas das personagens, e a segunda foi a de me fazer parar com a personagem de MacKenzie, porque eu estava a inspirar-me demasiado nas fotos, o que resultava num desenho semelhante mas frio, inexpressivo. Antes de iniciar a segunda parte da história, eu estudei novamente a personagem e corrigi os rostos feitos até aquele momento. Se resultou uma personagem tão fascinante e bem caracterizada, é também graças ao olhar atento de Mauro.

Percebe-se um cuidado extremo na composição de Tex, sobretudo nas suas poses, na sua postura, onde parece evidente a influência de Giovanni Ticci. É isso mesmo? Se sim, porque escolheu essa opção?
Stefano Biglia: Sim, é verdade e fico feliz que seja notado, porque desde pequeno é um traço que eu aprecio no desenho de Ticci. Quando Tex avança quase a oscilar mas sempre com elegância, ou quando está parado, em pé e relaxado mas com uma postura erecta, ombros erguidos, com o cinturão e os belos colts que pesam nos flancos. São coisas que tenho bem impressas na mente e que procurei reproduzir.

Quanto tempo você levou para concluir esse trabalho? Você impôs uma auto-disciplina ou trabalhou de acordo com a inspiração?
Stefano Biglia: Levei três anos exactos. Eu sou muito disciplinado no trabalho, tanto nos horários quanto nos prazos de entrega. Isso me é útil para respeitar os tempos de produção, mas também para estar preparado quando chega a inspiração.

Pode contar alguma curiosidade sobre este trabalho?
Stefano Biglia: Para mim o mais incomum foi que eu comecei as primeiras trinta páginas durante um passeio de três meses na Tailândia, com a minha esposa Valeria. Estou convicto de que, pelo entusiasmo que os tailandeses mostravam ao ver-me desenhar os cavalos, Tex faria sucesso também ali. Outra coisa curiosa é que, a certa altura dos trabalhos, eu tive que mudar o formato das páginas que desenhava, porque percebi que, pela quantidade e complexidade dos elementos a desenhar, o espaço era insuficiente. Com isso, eu recebi do próprio Mauro um atestado de desenhador de histórias épicas e de massa.

Depois desse magnífico trabalho, quais são os sentimentos que retêm e guarda consigo?
Stefano Biglia: Muito positivos. Em primeiro lugar porque a história foi muito bem recebida pelos leitores e pela crítica. Em segundo, porque graças a esse trabalho eu conheci muitas óptimas pessoas, leitores e não-leitores. E, também, porque eu sinto-me parte de uma equipa de trabalho excepcional, e são muitos a quem devo agradecer.


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