As críticas do Marinho: “Patagónia”, a edição PORTUGUESA com o selo da POLVO

As críticas do Marinho:

Patagónia“, a edição PORTUGUESA

com o selo da POLVO

"Patagónia", a edição PORTUGUESA com o selo da POLVO

Tex Gigante  – Patagónia
Mauro Boselli (argumento)
Pasquale Frisenda (desenhos e capa)
Editora Polvo (
Portugal, Maio de 2015)
245 x 185 mm, 228 p., pb, brochado com badanas
16,99 €

Distribuição nacional a partir de Junho, com possibilidades de compra directa a nível mundial através do editor Rui Brito: ruibritobad@gmail.com
Para os sócios do Clube Tex Portugal o preço promocional de 15 Euros ainda se mantém pelo que caro consócio, se ainda não adquiriu o seu “Patagónia” com o selo da Polvo, não perca a oportunidade de o fazer o quanto antes para poder continuar a beneficiar deste preço promocional de uma edição maravilhosa que deverá esgotar daqui a algum tempo.
Entretanto informa-se que o livro “Patagónia” estará à venda no Festival de Beja, evento que decorre de 29 de Maio a 14 de Junho.

Por Mário João Marques

Pasquale Frisenda e o editor Rui Brito com a edição nacional de Patagónia

Coincidindo com a vinda de Pasquale Frisenda à 2ª Mostra do Clube Tex Portugal e com a edição portuguesa de Patagónia (*), numa louvável aposta editorial da Polvo, reuniram-se as condições para uma releitura desta notável aventura que tantas e tão boas críticas tem vindo a coleccionar desde que, em 2009, foi lançada em Itália no nº 23 dos Texone. Nascida de uma ideia de Sergio Bonelli, que pretendia envolver Tex na guerra do deserto na Argentina e dessa forma relatar os dramáticos acontecimentos que conduziram à completa destruição da população indígena, esta história rapidamente alcançou o galarim das melhores aventuras de sempre de Tex Willer, tendo merecido ao longo destes anos novas edições, não só em Itália como um pouco por todo o mundo, incluindo agora Portugal, marcando assim a estreia de uma aventura de Tex Willer numa edição totalmente nacional.

Quais serão as razões para que esta aventura tenha alcançado tanto sucesso? Várias haverá, sobretudo porque o leitor identifica em Patagónia uma aventura bem escrita e superiormente desenhada, cujo argumento e ambientes fogem dos cânones tradicionais do western, alargando desta forma o âmbito dos seus habituais leitores. Patagónia é uma bela aventura, épica, histórica, muito bem documentada, com um notável argumento de Mauro Boselli servido por uma grande prestação gráfica de Pasquale Frisenda. Uma aventura que tem muito daquilo que apreciamos, uma causa romântica, amizade, vingança, ódio, estratégia, honra, glória e sobretudo grandes personagens, características que já a levaram a ser classificada como literatura desenhada, capaz de respirar, de levar à reflexão, de suscitar fortes sentimentos e emoções junto de todos os leitores.

Patagónia, de Boselli e Frisenda, no idioma lusitano

Tex e Kit Willer viajam até às pampas argentinas, a pedido do capitão Ricardo Mendonza, para ajudar o exército no seu objetivo de trazer à justiça um grupo de índios, chefiado por Mancuche, um rebelde acusado de cometer sangrentos assassinatos e que gradualmente vai impondo derrotas ao exército, podendo deste modo influenciar outras tribos também a seguirem o caminho da guerra. Ricardo Mendonza é um oficial de finos e éticos princípios, preferindo o diálogo e a diplomacia, mas tudo se complica quando um novo general assume o comando do exército argentino e parece determinado a conseguir o domínio dos índios pela guerra.

Perante uma aventura que decorre num ambiente e num contexto histórico muito preciso, importa assim determo-nos um pouco sobre os contornos dos acontecimentos deste período marcante da História da Argentina. O país torna-se independente de Espanha em 1816, vivendo uma época de excitação e onde sopravam ventos nacionalistas e expansionistas. A região civilizada concentrava-se na costa banhada pelo Oceano Atlântico, onde desembocava o Rio de la Plata, mas a sudoeste abria-se uma região fabulosa, uma enorme extensão de planícies férteis prontas a ser transformadas num imenso campo cultivado. Era a Pampa sem fim, um território extremo, mas que pertencia desde há tempos imemoráveis às tribos índias, araucanos, mapuches e ranquels. A atenção do poder político voltou-se então para estas paragens, levando a que os vários grupos indígenas que habitavam a Pampa se reunissem em redor de caciques, com o intuito de resistir à ofensiva dos brancos, deixando as tradicionais rivalidades e tornando endémica a acção de guerrilha. Aos golpes dos índios seguiram-se as represálias do exército regular que, desta forma, foi avançando sempre um pouco nas suas posições. À medida que a nova linha de fronteira avançava os soldados construíam trincheiras e postos avançados ligados entre si.

Patagónia, arte de Pasquale Frisenda

Nas costas destas fortificações estendiam-se imensas zonas de cultivo e pasto oferecidas a novos colonos e que no fundo tinham sido subtraídas aos índios. Mais do que as armas, a fome e as doenças ajudaram a dobrar muitos dos chefes rebeldes, pelo que tribos inteiras entregaram-se apenas porque precisavam de comer. Infelizmente, o projecto político e militar passava por submeter os índios de uma vez por todas, deportá-los dos territórios ainda em seu poder ou então simplesmente extingui-los. O lema tornou-se: “extinguir, submeter ou dispersar.” Era uma aberta proclamação de uma guerra racial, culminando na limpeza étnica dos territórios cobiçados Não necessariamente por esta ordem, a verdade é que estas opções foram todas tomadas, uma vez que, na concepção do jovem Estado Argentino, as tribos locais constituíam uma barreira contra a civilização e contra o uso das novas terras. O avanço das tropas teve o efeito de um rolo compressor, despojando gradualmente estas terras dos seus ancestrais habitantes.

É neste contexto que Tex e Kit viajam até à Argentina, onde vão viver uma aventura com uma dimensão política enorme, participando na própria História deste país, quando já haviam participado na dos Estados Unidos. Existe assim um reviver de factos e acontecimentos, certamente com outros ambientes e personagens, mas forçosamente as mesmas causas e os mesmos motivos. A luta pela justiça em prol dos mais desfavorecidos, a luta por ideais e valores humanos, desta vez com o cenário do velho e poeirento Oeste a ser substituído pelas pampas argentinas. Se bem que rodeado por índios e gaúchos, a revolta de Tex perante o poder militar instituído, o mesmo que inicialmente solicitou a sua ajuda, vem confirmar um herói que não hesita em colocar-se contra a lei e confrontar-se com um poder, mesmo fora do seu habitat natural, sem atender a eventuais consequências. Uma atitude titânica, intensa, que revela uma moral inflexível e genuína, que revela um herói que toma a defesa de um campo sem atender às consequências da sua atitude, um herói que se sacrifica por um povo, suscitando um rol de emoções e sentimentos. Um Tex rodeado de homens no seu puro e literal sentido, homens que lutam pelo que acreditam, mesmo que em campos opostos, homens como Júlio, como Chonki, como Solano, como Mancuche, como Belmonte, como Recabarren, finalmente como Mendonza, que acaba por revelar-se numa personagem imensa e destinada a nunca mais ser esquecida.

Arte original para a pág. 77 de Patagónia

Não se tratando da sua primeira viagem a sul do território dos Estados Unidos, uma vez que já havia participado numa expedição até à Colômbia e ao Panamá na aventura Il Solitario del West de Guido Nolitta e Giovanni Ticci, com esta viagem até terras argentinas Tex assume um cariz universalista, uma personagem humana que difunde os seus valores, a sua conduta e a sua ética onde estes mais se façam sentir, mesmo que isso signifique viajar até ao outro extremo do continente americano. Curiosamente, em ambas as aventuras Tex viaja com o filho Kit Willer, assim como acaba por haver uma traição entre amigos, se bem que em Patagónia é Tex que vai desobedecer a Mendonza.

Este repescar de algo do passado da série, este permanente colher de influências na própria série, é suficientemente inspirador para Boselli. Quando Patagónia foi escrito, esta característica talvez ainda não estivesse perfeitamente definida, mas hoje, decorridos estes anos, já temos amplas provas que esse é o caminho pretendido pelo autor. Porque Boselli tem a perfeita noção que é este legado de Tex, composto por tantas histórias, acontecimentos, ambientes e personagens, é este rico património que justifica mergulhar no passado da série. Por isso, para além de colher influências em temas e histórias, Boselli assume também recuperar algumas personagens. Ricardo Mendonza é um perfeito exemplo, uma vez que, tendo lutado ao lado de Montales no México, é alguém certamente merecedor da maior admiração por cultivar os mesmos ideais civilizacionais que Tex, desta vez encontrando-se a viver a história do seu próprio país da mesma forma que o Ranger viveu a dos Estados Unidos. A sua luta pelos direitos daqueles que ancestralmente sempre ocuparam as terras, revela um certo manifesto pacifista e civilizacional que exalta o valor do diálogo e da compreensão pelas diferentes culturas e heranças históricas, contrapondo permanentemente os militares idealistas (tão bem caracterizado em Ricardo Mendonza) com aqueles mais sedentos da glória que o poder das armas possa proporcionar. Só uma personagem com tão altos valores e com um carácter tão bem vincado conseguiria convencer Tex a viajar até aos confins do continente.

Edição portuguesa de Patagónia contém badanas ricas de conteúdos

Patagónia sublinha ainda uma outra característica do trabalho de Boselli na série: a gradual importância do papel de Kit Willer. Ao viver toda esta epopeia ao lado do pai, Kit Willer assume-se como um jovem em acumular de experiência, numa espécie de tirocínio ao lado de um mestre. Não é indiferente a vinda de Kit Willer com o pai, uma vez que, ao dividir de certa forma algum do protagonismo, Boselli demonstra a importância do filho de Tex na série, dotando-a de uma outra espessura, cimentando um percurso que se vai percorrendo ao longo de aventuras assumidas com maior ou menor protagonismo.

Em Patagónia não há falhas na caracterização de uma época e de um período histórico, não há falhas na construção das personagens, não há diálogos banais, não há cenas gratuitas. Patagónia é um épico mais lento e contido na primeira parte, dramático e emocionante nas páginas finais. Com Boselli, Tex volta a ser um herói de corpo inteiro, age como Tex, um herói capaz de congregar em si todas as principais características que outros autores, com maior ou menor enfase lhe conferiram, já que à espessura psicológica e dramática boselliana junta-se a inflexibilidade dos valores e da ética bonelliana, assim como os sentimentos e as dúvidas nolittianas.

Exemplares portugueses do Tex GIgante Patagónia

Muito do êxito da aventura se deve de igual forma à qualidade gráfica do desenho do milanês Pasquale Frisenda, suficientemente familiarizado com o western, depois da sua participação em séries como Ken Parker e Mágico Vento, assim como pela paixão que nutre por este género no cinema. O seu trabalho é apaixonante, de uma entrega total, revelador de uma enorme diversidade de enquadramentos, imenso nas cenas das batalhas, profundo na descrição dos ambientes, expressivo com as personagens e impecável na composição de Tex e Kit Willer. O trabalho de Frisenda denota um cuidado extremo na composição de cada desenho e de cada prancha. Um trabalho que se assume na sua plenitude tanto na primeira parte da aventura, com menos acção, como na intensidade e na atmosfera dramática que perpassa por toda a segunda parte. A sua composição das personagens merece também ser destacada, com o desenhador a construir uma galeria sem falhas e em momento algum o leitor as confunde ou tem dificuldades na sua identificação.

A belíisima arte da capa de Patagónia

Patagónia é uma aventura especial, destinada a ser recordada como uma das melhores de sempre na série, pelo que a edição portuguesa da Polvo assume contornos ainda mais importantes, marcando assim uma estreia absolutamente fantástica. É notório o esforço, o cuidado e o carinho que a Polvo imprimiu e que ficou bem patente na emoção de Rui Brito, quando da apresentação desta edição na 2ª Mostra do Clube Tex Portugal. Grafismo moderno e sóbrio, papel de grande qualidade, uma impressão que respeita fielmente toda a qualidade do traço e do detalhe de Frisenda (elogiada pelo próprio) e uma tradução para a língua de Camões e de Portugal irrepreensível por parte de José Carlos Francisco (que também assina um artigo de apresentação muito competente), são pontos fortes mais do que suficientes. A cereja no topo do bolo foi servida a todos os que puderam estar presentes no lançamento desta edição, uma vez que puderam conviver pessoalmente com Pasquale Frisenda, obtendo do desenhador uma dedicatória especial e inédita. Parabéns à Polvo, na pessoa do seu responsável Rui Brito, e a todos os que contribuíram para que a edição portuguesa de Patagónia se concretizasse, esperando que possa vir a ser apenas a primeira de muitas outras.

Cerimónia de apresentação de Patagónia, no Museu do Vinho Bairrada, integrado na 2ª Mostra do Clube Tex Portugal

(*) O termo Patagónia terá derivado do facto de Fernão de Magalhães, quando da sua expedição à região, ter avistado um enorme indígena que lhe lembrou o gigante Patagón (o pé-grande), personagem da novela de cavalaria “Primaleón”, de Francisco Vazquez, de 1512. Provavelmente os patagones seriam os tehuelches, que tinham uma altura média de 180 centímetros, em comparação com os 155 cm de média dos europeus daquela época.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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