Entrevista com os fãs e coleccionadores: Emanuel Neto e Pedro Dinis Pereira

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, falem um pouco de vocês. Onde e quando nasceram? O que fazem profissionalmente?
Pedro Dinis Pereira e Emanuel NetoEmanuel Neto: Chamo-me Emanuel Filipe Melato Neto, nasci a 25-12-1980 em Nisa e vivo em Portalegre. Sou professor de Inglês no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular nas escolas de 1º ciclo em Portalegre e arredores.
Pedro Dinis Pereira: Eu chamo-me Pedro Pereira, nasci também em 1980, em Portalegre. Fui criado nos arredores da cidade, numa aldeia de estranho nome – Urra – de onde só saí depois de terminar a minha formação em Engenharia Industrial e da Qualidade. Actualmente vivo e trabalho na Margem Sul, mas continuo com grandes ligações a Portalegre, onde regresso com grande regularidade.

Quando nasceu o vosso interesse pela Banda Desenhada?
Pedro Dinis Pereira e Emanuel Neto - Duelo - Foto 1Emanuel Neto: Acho que desde sempre me interessei pela banda desenhada. Lembro-me que quando era criança e que ainda não sabia ler mas já folheava inúmeros livros de banda desenhada que um familiar meu em Nisa tinha dentro de um enorme saco de plástico, nomeadamente “O Falcão”, “Zorro”, “Disney”, “Larry Yuma”, “Kuandor”. E a partir daí este tipo de literatura passou a acompanhar-me ao longo de toda a minha vida.
Pedro Dinis Pereira: Nasceu cedo, ainda em criança. Muito por influência do meu pai, ele sempre leu livrinhos de bolso – bandas desenhadas ou não – e eu por arrasto li muitos desses. Foi através dele que tomei contacto não só com o Tex, mas com outras colecções, como as saudosas “Condor” ou “Falcão“. Na altura gostava muito de ler as aventuras do “Agente secreto Z33”, “Major Alvega”, “Fantasma” entre outros. Mais tarde aproximei-me a outros estilos de BD, coisas da Marvel, DC e Dark Horse.

Quando descobriram Tex?
Pedro Dinis Pereira e Emanuel Neto - Duelo - Foto 2Emanuel Neto: Descobri Tex em 1987 quando um dia o meu pai me comprou um exemplar (nº 213 – O Dia Do Medo – Editora Globo). Foi uma surpresa bastante positiva porque se tratava de histórias mais elaboradas em termos de arte e argumento daquelas a que estava habituado, o que foi óptimo!
Pedro Dinis Pereira: Infelizmente não consigo precisar tão facilmente como o Emanuel, mas lembro-me que era ainda bastante puto e que a descoberta foi no meio de uns sacos com livros a granel que o meu pai trocava frequentemente com os amigos.

Porquê esta paixão por Tex?
Pedro Dinis Pereira e Emanuel Neto - Duelo - Foto 3Emanuel Neto: Eu sempre fui um grande fã de westerns, seja no cinema, TV ou literatura. Para mim, naquela altura, tudo o que estava relacionado com o Oeste Selvagem eu gostava.
Contudo, acho que Tex foi o meu ponto de viragem para consumir um tipo de BD mais sóbria, adulta, realista. E como essas características ainda hoje se mantêm continuo a gostar de Tex.
Pedro Dinis Pereira: Não me posso considerar um apaixonado como aqui o meu colega, mas a verdade é que sou grande fã de western e por isso mesmo este tipo de BD sempre me interessou. Hoje em dia não tenho infelizmente o tempo necessário para lhe dedicar o tempo que mereceria.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Emanuel NetoEmanuel Neto: Eu devo salientar que além de Tex sou também fã de Zagor e que tive o meu primeiro livro de Zagor mais ou menos na mesma altura que conheci Tex. Acho que quem gosta de BD western de certeza que gostará de Tex (e Zagor) porque tem todos os elementos necessários ao género: aventura, violência, acção e excelentes desenhadores.
Pedro Dinis Pereira: O que me levou a gostar deste herói foi sobretudo o facto de a acção decorrer no oeste selvagem, que me toca bastante sendo eu confesso fanático e coleccionador de filmes western-spaghetti.

Qual o total de revistas de Tex que cada um de vocês tem na vossa colecção? E qual a mais importante para cada um?
Emanuel Neto: Quando comecei a coleccionar Tex ainda tive diversos exemplares mas tinha sempre o problema de nunca ter conseguido seguir na íntegra a continuação das histórias (“O Navio do Deserto” foi a única aventura que consegui ler totalmente). Isto devia-se à ausência de exemplares nos locais de venda porque infelizmente ainda acho que na localidade onde vivo este tipo de BD sempre foi muito pouco divulgada! Depois muitos desses livros foram-se danificando e tive de começar praticamente do zero.
No entanto, através do Sérgio Sousa e do site www.bdportugal.info consegui obter todos os livros de Tex e Zagor que queria. Por isso, neste momento tenho cerca de 25 livros de Tex e outros tantos de Zagor.
Pedro Dinis Pereira: É-me impossível apontar um número, a maior parte dos itens que tenho são velhas edições brasileiras em muito mau estado. Ficaram à guarda do meu pai, o que não lhes abonou muito para a sua boa saúde! Mas, tal como o Emanuel dizia, muitas das histórias nem sequer estão completas. Confesso que sempre achei isso frustrante neste tipo de edições. Guardo por isso com mais carinho as edições gigantes que tenho comprado nos últimos tempos.

Coleccionam apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Colecção Emanuel NetoEmanuel Neto: Colecciono apenas livros. A única coisa que tenho além disso é o DVD do filme do Tex.
Pedro Dinis Pereira: Idem.

Qual o objecto Tex que mais gostavam de possuir?
Emanuel Neto: Pessoalmente já tenho praticamente tudo o que queria da personagem, ou seja, diversos livros e o filme em DVD.
Pedro Dinis Pereira: Eu cá gostava ainda de arranjar a edição DVD brasileira do filme. Nem sabia da existência desta até se ter despoletado a onda de comentários no blogue, após resenha do Emanuel sobre o filme do Ranger.

Qual a vossa história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais apreciam? E o argumentista?
Emanuel Neto: Não tenho nenhum argumentista favorito. Os desenhadores que mais aprecio são Claudio Villa e Fabio Civitelli. Gosto muito também da arte de Gallieno Ferri (Zagor). Aliás, muitos dos livros que compro tenho sempre em conta quem é o desenhador da história.
Das minhas histórias preferidas destaco “O Navio do Deserto” (Tex Ouro nº 17), “Os Conspiradores” (Tex Ouro nº 6), “A Pirâmide Misteriosa” (Almanaque Tex nº 21) e “O Bruxo Mouro” (nº 40, 41, 42 – Vecchi).
Pedro Dinis Pereira e O Vale do TerrorPedro Dinis Pereira: Sempre gostei de “O Vale do Terror”. A seita de assassinos implacáveis e improváveis resultou num belo enredo. Talvez por isso aponte Nizzi e Magnus como a equipa perfeita. Mas no geral acho que os cargos têm estado bem entregues ao longo dos anos.

O que lhes agrada mais em Tex? E o que lhes agrada menos?
Emanuel Neto: O que me agrada mais é a dinâmica das histórias, a violência bem realista e os excelentes desenhadores acima mencionados. O lado mais negativo, para mim, é a grande ausência de personagens femininas ou de qualquer envolvimento das personagens principais com mulheres. Acho até que deveria haver alguns elementos de cariz sexual em Tex.
Pedro Dinis Pereira: O realismo é para mim o mais importante, não gostava de ver um Tex a resolver os problemas com doses industriais de chapadas na cara, digamos… num modo Trinitá. A vida no oeste era dura e violenta, ler os quadradinhos do Tex não nos deixa esquecê-lo!

Tex e Dinamite por GalepEm vossa opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Emanuel Neto: O país de origem da personagem (Itália) é o grande responsável por todo o carisma, embora o Brasil também tenha um papel muito importante. Pelo que sei, ainda hoje Tex é o maior ícone de BD na Itália e enquanto todo esse mundo estiver rodeado de bons profissionais, Tex será imbatível!
Pedro Dinis Pereira: Parece-me que os vários argumentistas que têm pegado no Ranger, são os grandes responsáveis pelo seu carácter icónico. O modo como têm desenvolvido a personagem deu-lhe uma longevidade improvável. Dou-lhes por isso os meus parabéns!

Costumam encontrar-se com outros coleccionadores?
Emanuel Neto: Não. Infelizmente a maior parte dos meus amigos não gosta de ler e muitos nem conhecem a personagem. Além disso, ainda há muita gente que considera a BD como um género literário inferior ou até mesmo infantil, o que é uma estupidez!
Pedro Dinis Pereira: É bem verdade, esses estigmas continuam a existir! Penso que são juízos de pessoas pouco informadas. Efectivamente acho que a BD está subvalorizada pela generalidade da população portuguesa, e por arrasto as editoras inflacionam o custo dos livros. E como isto é tudo uma espiral, livrarias e papelarias de centros populacionais menos densos nem sequer fazem questão em ter muitos exemplares de BD disponíveis. Este fim-de-semana até fiquei espantado quando encontrei “O Profeta Indígena” numa papelaria da cidade. Já nem me lembrava aos anos que não comprava uma BD em Portalegre.

Por um punhado de dólaresTex teve algo a ver com a criação do vosso blogue “Por um punhado de euros”? Já agora, apresentem-nos o excelente blogue que nasceu como homenagem a todos os filmes western-spaghetti de produção europeia.
Emanuel Neto: A criação do blogue não teve nada a ver com Tex. O criador do blogue foi o Pedro e ele convidou-me para participar activamente. É óbvio que quando ele me pediu para escrever um comentário a um western-spaghetti, a minha primeira ideia foi o filme “Tex, o Pistoleiro”.
O blogue tem como objectivo divulgar este género cinematográfico tão peculiar, comentando-o de forma apaixonada mas sóbria.
Tex o PistoleiroPedro Dinis Pereira: Sim, basicamente é isso. Como grande adepto e coleccionador de filmes deste sub-género do cinema, senti a necessidade de deixar algum legado pessoal a quem queira saber mais alguma coisa sobre eles. O conceito esteve parado durante muito tempo, tinha algumas ideias na cabeça mas custou-me dar o pontapé de saída. Posso agradecer à minha namorada o “catalisador” necessário para ter avançado com o projecto. E depois de finalmente publicar a minha primeira resenha contactei o Emanuel, que é um velho conhecido dos tempos do liceu. Inicialmente tinha apenas na cabeça pedir-lhe algum feedback, mas de uma forma natural resolvi tentar convencê-lo a entrar para a equipa. Apesar da comum paixão pelo género, divergimos nas nossas preferências pessoais o que penso dar alguma pluralidade ao blogue. Estou muito satisfeito com aquilo que já alcançamos, espero agora que o blogue cresça naturalmente com o tempo. Sem pressões, nem ilusões. Não queremos o trono do Alex Cox!

Mantendo-nos no campo do cinema, qual a vossa opinião sobre o filme “Tex e il Signore degli Abissi”?
Tex e il signore degli abissiEmanuel Neto: A minha opinião sobre esse filme pode ser lida no blogue “Por um punhado de euros”, uma vez que essa crítica ao filme é da minha autoria.
Pedro Dinis Pereira: Quando pedi a primeira resenha ao Emanuel não pensei que se debruçasse desde logo sobre o “Tex e il Signore degli Abissi”, que até é um spaghetti fora de tempo, lembre-se que o filme saiu nos anos 1980, quando muitos já consideram o sub-género defunto. Mas apesar disso compreendo que o tenha feito, dada a paixão que tem pela personagem. Pessoalmente considero que se trata de uma bela adaptação e conta desde logo com um dos meus actores favoritos do cinema italiano, Giuliano Gemma. Contra o filme referiria apenas o artwork utilizado na promoção em alguns países, que atira o filme para o campo do Indiana Jones. O poster francês é um atentado à minha inteligência! Tenho pena que o projecto se tenha ficado por um único filme, existe muito material que poderia ter sido adaptado. Talvez as coisas tivessem corrido de outra forma se “Tex e il Signore degli Abissi” tivesse sido realizado em finais de 1960.

Para concluir, como vêem o futuro do Ranger?
Emanuel Neto: Parece-me que Tex continuará a dar cartas porque tem potencial para isso e porque é dirigido por pessoas competentes.
Pedro Dinis Pereira: Não me parece que o futuro divirja muito do que lemos até aqui. Nem acho que o deva fazer. Mantenha-se a aventura, intriga e muito tiroteio!

Prezados pards Emanuel Neto e Pedro Dinis Pereira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concederam.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

2 Comentários

  1. Entrevista muito interessante, sobre uma nova geração de coleccionadores que vai garantir a continuidade do Ranger!

    O nosso amigo José continua de parabéns!

    Quanto aos 2 coleccionadores… que continuem entusiasmados!

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