Entrevista exclusiva: GIANLUCA & RAUL CESTARO

Entrevista exclusiva:
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GIANLUCA & RAUL CESTARO

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli e Mário João Marques na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Raul e Gianluca Cestaro na arte caricatural de Bira Dantas

Caros Gianluca e Raul, bem-vindos ao blogue português de Tex. Podemos começar com uma apresentação de vocês e do vosso caminho profissional?
Gianluca & Raul Cestaro: Somos dois irmãos gémeos que desde pequenos receberam uma espécie de intuição pelo desenho e pela linguagem dos quadradinhos em geral. Para nós, desenhar e encher uma folha branca foi uma coisa muito natural desde a infância, passou a ser uma coisa instintiva a necessidade de cobrir com traços de caneta, de lápis, de hidrocor, qualquer superfície branca que aparecesse. O desenho foi uma espécie de fogo sagrado, uma paixão autêntica muito fácil de seguir. Para nós, os dias inteiros em casa a desenhar foram fundamentais para adquirir aquela bagagem de prática, de exercícios, de conhecimento inicial do trabalho que são imprescindíveis para quem quer começar a pensar em transformar a paixão em um trabalho. Nesse ritmo, chegamos à idade de quinze anos e descobrimos que na nossa cidade morava um grande e muito estimado autor de BD, um dos mais representativos da então recente BD italiana, o gigante e saudoso Attilio Micheluzzi. Conseguimos arrancar dele a promessa de nos instruir naqueles que deveriam ser os nossos primeiros passos nesse mundo. Infelizmente os nossos encontros com ele foram muito poucos, em razão da sua morte repentina.
Mas a nossa paixão pelos quadradinhos e a determinação em conseguir um dia fazer esse trabalho permaneceram sempre firmes, e, com determinação e de forma paralela aos nossos estudos, começamos a frequentar as nossas primeiras mostras de BD, aqui na Itália, e a mostrar os nossos primeiros trabalhos a editores e outros profissionais do sector. A nossa primeira publicação saiu em um projecto de uma Editora de Nápoles, a nossa cidade, era uma revista de ficção científica. Em seguida aconteceu a nossa verdadeira estreia profissional numa história feita para celebrar os cem anos da BD, numa colaboração com Giancarlo Alessandrini, em 1996, para a Editora Lo Scarabeo de Turim. Quase ao mesmo tempo começou a nossa colaboração com a Editora Bonelli, na série Zona X. Depois do encerramento desse título, começamos a trabalhar com Nick Raider, a BD policial criada por Claudio Nizzi. Depois de fazer duas histórias, a Editora nos apresentou a proposta de fazer páginas de teste para Tex, e o resultado foi bom. Com isso, há vários anos desenhamos as aventuras do famosíssimo Ranger, e há pouco começou a nossa experiência com Dylan Dog, outra prestigiosa personagem da Sergio Bonelli Editore.

O que a BD representou na infância de vocês, principalmente a da Bonelli?
Gianluca & Raul Cestaro: Na nossa infância a BD Bonelli esteve presente somente com Tex Willer, que entrou em nossa casa desde o início, visto que o nosso pai sempre foi um leitor assíduo e pontual do Ranger. Na nossa infância nós líamos sobretudo as revistas Disney, em razão da pouca idade. Foi só na adolescência que realmente descobrimos Tex e outras personagens da Editora Bonelli, como Dylan Dog, Martin Mystère e muitos outros.

Quando começaram a pensar na BD como uma possível profissão?
Gianluca & Raul Cestaro: De um modo geral nós sempre pensamos em fazer um trabalho no campo dos quadradinhos ou mesmo da animação. De um modo mais específico, creio que pensamos na BD como nosso trabalho por volta dos 13 ou 14 anos, justamente quando, depois das primeiras leituras Disney, aos poucos descobrimos o material bonelliano, e iniciamos a aprofundar o conhecimento de personagens como Tex e Dylan Dog, bem como descobrimos a BD italiana em geral, a comprar muitas revistas que continham séries variadas que na época ainda saíam nos quiosques e que apresentavam, com muita variedade, o melhor da BD italiana e internacional. Foi nesse período, cheio de descobertas e de vontade de aprender as técnicas do desenho de quadradinhos, que iniciamos a pensar de modo sério num futuro profissional nesse mundo.

Quais são os desenhadores que vocês admiram e quais foram os vossos ídolos?
Gianluca & Raul Cestaro: Na fase de descoberta – ainda um pouco infantil mas cheia de entusiasmo – desse mundo, tivemos verdadeiros ídolos entre os desenhadores que marcaram a nossa primeira formação. No início do percurso, a nossa paixão e o nosso entusiasmo eram muito fortes, e por isso muitos desenhadores – que, na verdade, eram e são pessoas normais – aos nossos olhos eram ídolos, nomes como Giorgio Cavazzano e Massimo De Vita, os dois inigualáveis mestres Disney, até os desenhadores de estilo mais realista ou naturalista como Villa, Milazzo, Casertano, Ambrosini, até chegar à descoberta dos mais afirmados autores italianos como Pratt, Manara, Micheluzzi, Giardino, Serpieri, ladeados por autores estrangeiros, o primeiro e mais prestigioso dos quais tem o nome de Moebius. De um modo geral, os desenhadores que admiramos são muitos e de linhas as mais diversas, dos mestres sul-americanos aos óptimos desenhadores europeus e americanos. E agora, na era da Internet, sempre descobrimos muitos novos talentos que também nos estimulam no nosso trabalho. Por isso tudo, se tivéssemos que fazer uma lista, seria infinita.

A estreia profissional de vocês coincidiu com uma prestigiosa colaboração com Giancarlo Alessandrini: como foi aquela experiência e que emoções sentiram ao ver o vosso trabalho publicado?
Gianluca & Raul Cestaro: Trabalhar nesse projecto foi um bom motivo de satisfação, primeiro porque representava o nosso primeiro trabalho remunerado, e depois porque tivemos a bela oportunidade de actuar com um grande nome da BD italiana como Giancarlo Alessandrini e ainda tivemos o prazer de fazer a capa. E mais, foi um trabalho publicado aquando dos cem anos da BD, em 1996, na Feira dos Quadradinhos de Lucca, um dos salões de BD mais importantes do mundo. Por isso tudo, tivemos muita satisfação.

Em 1996 também começou o trabalho de vocês com a Sergio Bonelli Editore: como entraram em contacto com a Editora milanesa?
Gianluca & Raul Cestaro: No início de 1996 nós começamos a fazer umas páginas de teste para personagens da SBE, como Dylan Dog, Nathan Never, Nick Raider e Brendon, depois telefonamos para a Editora para marcar um encontro na sede em Milão com um dos editores, Antonio Serra, um dos criadores de Nathan Never. Nós apresentamos os nossos trabalhos a Serra, que ficou impressionado com a qualidade. Poucos meses depois recebemos uma ligação da Editora e fomos informados que o nosso trabalho havia sido apresentado em uma reunião e que o Editor havia gostado. Com isso, entramos para a equipa de Robinson Hart, uma das várias séries da colecção Zona X.

Durante esse vosso primeiro trabalho com Robinson Hart (de Luigi Mignacco), quais eram as referências gráficas de vocês? Quais desenhadores mais os influenciavam?
Gianluca & Raul Cestaro: Especificamente sobre aquele período, as nossas influências gráficas eram bem diferentes das que contribuíram para formar o nosso estilo actual. Na época ficávamos fascinados pelo traço da chamada linha clara francesa, em particular pelos autores italianos que seguiam uma escola claramente francesa. Assim, dentre os autores que mais olhávamos e que na época caracterizaram no nosso traço em Robinson Hart, estavam grandes desenhadores como Manara, Giardino, Piero Dall’Agnol, Marco Nizzoli e outros. Em suma, todos aqueles autores que tinham no traço limpo e refinado uma característica precisa. E, sobre o desenho em geral e algumas sugestões gráficas, para nós eram de grande inspiração os trabalhos de Villa e de Casertano.


Em 2000 começou uma curta colaboração com Nick Raider. Nas duas histórias do policial nova-iorquino o traço de vocês mostra uma qualidade apreciável, embora com um estilo que se baseia claramente nas lições de Claudio Villa. Vocês já pensavam que poderiam chegar a Tex ou basear-se no estilo de Villa foi apenas uma admiração pelo artista texiano?
Gianluca & Raul Cestaro: Nick Raider foi uma bela ocasião para tentarmos amadurecer como desenhadores. Depois das primeiras experiências caracterizadas pela linha clara muito limpa, rebuscada e refinada, Nick Raider representou o desafio para conseguirmos modificar o nosso estilo e tentar mostrar do modo mais eficaz possível as atmosferas policiais e noir de uma série ambientada em Nova York. Por isso tivemos que alterar o nosso traço para nos adaptarmos a cenários bem diferentes daqueles que havíamos feito até então. Na época Villa – desenhador sempre muito sólido e clássico – continuava a ser uma das nossas referências, sobretudo na criação de áreas escuras e de sombra, factores com os quais até pouco antes jamais havíamos trabalhado. A verdade é que, no período em que fazíamos as histórias de Nick Raider, jamais imaginávamos que pouco depois chegaríamos a uma personagem tão importante como Tex.

Começar a carreira texiana no sulco do estilo de Villa: como essa escolha foi recebida na redacção bonelliana? E o que disse Claudio Nizzi, autor da primeira história de vocês?
Gianluca & Raul Cestaro: Como dissemos, mesmo quando desenhávamos com um estilo limpo, Villa foi uma das nossas referências desde o início. Assim, quando, de surpresa, chegou o pedido da Editora para trabalharmos com Tex, foi bastante natural olhar também para o trabalho dele, junto com o de outros desenhadores. Nizzi foi autor de histórias memoráveis de Tex, junto com Villa, e por isso, dá para pensar que ele avaliava positivamente o facto de tomarmos por base também o trabalho de Villa, que há tempos já era o capista do Ranger e, de algum modo, o autor do rosto oficial de Tex.

Em seguida vocês abandonaram o estilo de Villa e chegaram a um traço mais sujo. Como amadureceu esse novo percurso artístico?
Gianluca & Raul Cestaro: Esse amadurecimento simplesmente foi filho do nosso percurso artístico natural, um percurso também caracterizado pelas nossas novas descobertas como leitores: no período em que acabamos de fazer a nossa primeira história de Tex, descobrimos, também graças aos conselhos de alguns colegas, as magistrais obras de artistas como D’Antonio e Calegari, os dois prestigiosos autores da História do Oeste, e também crescia em nós a influência de autores que buscavam representar um Oeste mais realista, grandes narradores do Oeste como Serpieri, Ticci, Milazzo, desenhadores que apreciávamos desde sempre mas que, naquele momento, começamos a observar com mais atenção. No mesmo período, a descoberta de artistas argentinos como Alberto e Enrique Breccia, Mandrafina, Bernet, Seijas, Zaffino, modificou a nossa percepção do trabalho e nos levou cada vez mais para um destacado – e às vezes violento – contraste de branco e preto. Em síntese, o que nos fez abandonar a influência do estilo de Villa em favor de um estilo cada vez mais pessoal e reconhecível, foi a grande lição do preto e branco dos mestres argentinos unida à descoberta das obras dos grandes mestres italianos citados.

Quais foram as maiores dificuldades, se houve, em trabalhar com uma personagem de fama internacional como Tex?
Gianluca & Raul Cestaro: Não tivemos dificuldades particulares. Como dissemos, Tex sempre fez parte da nossa vida, desde pequenos, por isso já o conhecíamos há muitos anos e começar a desenhar as suas aventuras não foi difícil. Foi como reencontrar um velho amigo. Claro que, de um modo geral, desenhar Tex não é simples, deve-se buscar uma documentação cuidadosa, conhecer bem os cavalos para poder desenhá-los de modo verossímil. É uma personagem cujas páginas não podem ser feitas às pressas, os leitores – justamente exigentes – são muito atentos ao modo como as armas são feitas, por exemplo, e devemos ser bastante cuidadosos nesses detalhes. Apesar disso, não tivemos dificuldades.

Tex representa o faroeste, um faroeste puro e duro, mas nele há um conjunto de valores como a amizade, a honra, a justiça, a luta por ideais. Como foi a abordagem de vocês a isso tudo?
Gianluca & Raul Cestaro: Tex encarna em tudo e por tudo o herói com bons sentimentos, então esses factores positivos são pontos fixos da personagem e da dinâmica de suas histórias. Tex é o justiceiro que todos nós gostaríamos de ter como amigo e como irmão mais velho, ele representa a coragem das próprias acções, em busca da vitória da justiça e sempre em nome dela. Antes de começarmos o trabalho, a nossa tarefa era entender plenamente o carácter da personagem, a essência dos valores positivos que ela quer transmitir.

Nas páginas de vocês respira-se o Oeste, é possível sentir um gosto, um prazer em desenhar aqueles ambientes. Isso seria devido a um gosto pessoal de vocês, à personagem, à ambientação, ao puro prazer que têm ao desenhar, ou a uma mistura disso tudo?
Gianluca & Raul Cestaro: É, dá para dizer que é uma mistura de todas essas coisas. Deve-se ao nosso gosto pessoal, à técnica que buscamos aperfeiçoar cada vez mais, e também ao prazer de elaborar cenários e paisagens que sempre tiveram um grande apelo no cinema, na pintura e, obviamente, nos quadradinhos, mas também em todas as representações visuais em geral.

Os leitores sentem um certo fascínio por vocês. Será que é pelo facto de que são irmãos e trabalham juntos sem que se percebam diferenças entre os dois?
Gianluca & Raul Cestaro: Bem, obrigado por essas palavras. Sim, também pode ser por essa motivação, mas de um modo geral nós esperamos que seja devido à busca que fazemos para conseguir atingir uma certa qualidade no nosso trabalho. Uma qualidade que, nas nossas intenções e esperanças, pretendemos seja alta, com o objectivo de satisfazer o mais possível o leitor, que é cada vez mais exigente, e com razão.

Como vocês administram o trabalho? Alternam a realização do lápis e da arte-final?
Gianluca & Raul Cestaro: Não, não usamos esse método, mas sabemos que é muito usado em duplas de desenhadores, e é algo comum no mercado da BD americana, por exemplo. Nós temos outro método. Cada um de nós tem ciúmes das próprias páginas e, de algum modo, gostamos de ser os únicos autores. Ambos preferimos fazer as páginas completas, lápis e arte-final, por isso um de nós faz as páginas ímpares e o outro as páginas pares. Sabemos que é um método pouco usual, mas até hoje nos demos bem com ele.

Qual é o ritmo de trabalho habitual de vocês? E quais os materiais que preferem usar para desenhar?
Gianluca & Raul Cestaro: Nós dedicamos muitas horas diárias ao trabalho, mas somos desenhadores bastante lentos, uma página não fica pronta antes de dois dias. Os instrumentos que usamos são borracha e lápis, um grafite 2H para os esboços e, para a arte-final, usamos hidrocores calibradas com pontas de várias espessuras (01, 02, 03, 05, 08, etc.) Para as áreas de preto, usamos um pincel de pêlo de marta número 1 e uma garrafinha normal de nanquim preto.

Para vocês, o que significa serem desenhadores de uma lenda dos quadradinhos como Tex?
Gianluca & Raul Cestaro: É ao mesmo tempo uma honra e uma responsabilidade. Ficamos muito honrados por desenhar uma das personagens mais longevas e de sucesso na história da BD mundial, e sentimos a responsabilidade de não poder decepcionar os numerosos leitores de Tex, aficionados e exigentes, mas também a responsabilidade ligada à consciência de desenhar a mesma personagem que foi ilustrada por grandes mestres da BD italiana e internacional, com o lógico temor de não estar à altura deles… mas isso, ao mesmo tempo, também é um estímulo para melhorar sempre.

Tex foi uma escolha ou uma imposição?
Gianluca & Raul Cestaro: Nem uma, nem outra. Foi sobretudo uma proposta. No período em que estávamos a desenhar a segunda história de Nick Raider recebemos a proposta de desenhar Tex, que aceitamos com entusiasmo. Mesmo porque para nós, começar a desenhar Tex foi quase como reencontrar um velho amigo que já conhecíamos bem, como dissemos antes.

O que vocês acham que Tex pode representar no mundo globalizado de hoje?
Gianluca & Raul Cestaro: Uma ocasião para dar mais importância a valores indiscutíveis como a amizade, a honestidade, a coragem a lealdade, a fraternidade, a defesa dos mais fracos, todos valores positivos que caracterizam Tex e que só fariam bem ao mundo actual.

O que lhes agrada mais e agrada menos em Tex?
Gianluca & Raul Cestaro: Tex encarna todas as melhores virtudes que um homem poderia ter, e que são justamente as que citamos antes. O que agrada menos, talvez seja uma certa impulsividade que o leva, sobretudo nas histórias do passado, a agredir fisicamente o coitado da vez sem que fosse estritamente necessário. Mas no fundo esse aspecto fanfarrão é que nos faz simpatizar com ele, e sabemos que se Tex age assim, tem uma boa razão para isso.

Se vocês pudessem sugerir mudanças narrativas, o que gostariam que fosse contado na saga de Tex?
Gianluca & Raul Cestaro: Gostaríamos que fossem contadas com mais frequência tramas que tragam à luz a Épica, aquela autêntica, ou que envolvam Tex de forma mais emotiva e directa no profundo, tipo histórias como Patagónia (Tex Gigante n° 23) ou A Prova de Fogo (Tex italiano n° 598/599, no Brasil Almanaque Tex n° 42), para citar só duas. Em resumo, histórias que falem de homens em luta pela própria liberdade, pela própria dignidade, pela própria vida… ou para vingar a vida perdida injustamente de quem mais amavam.

Em nível gráfico, nos próximos anos poderemos encontrar novos Cestaro?
Gianluca & Raul Cestaro: Novos talvez não, quem sabe diferentes. Sempre que começamos a desenhar uma nova história, há a vontade de produzir algo graficamente diverso do que fizemos antes, e isso deriva do facto de não estarmos totalmente satisfeitos com o resultado e pretendermos melhorar. Por isso, é possível que o estilo não pare aqui e que continue a sua evolução, que pode levar a algo de novo e, esperamos, melhor.

Vocês trabalharam com Nizzi e Faraci: como é o método de trabalho de cada um desses roteiristas?
Gianluca & Raul Cestaro: Os métodos dos dois não diferem muito, ambos são roteiristas detalhistas e atentos a fornecer dados e documentação suficientes para deixar a situação clara ao desenhador e evitar incongruências gráficas ou narrativas. Mas deixam-nos uma certa liberdade de decisão sobre enquadramentos que consideramos mais adequados às várias cenas.

Qual é o vosso sonho em âmbito texiano? Quem sabe desenhar um Tex Gigante? E fora de Tex, ou até mesmo da SBE, o que vocês gostariam de tentar?
Gianluca & Raul Cestaro: Sim, um sonho certamente seria desenhar um Tex Gigante, que para nós seria uma verdadeira honra, à luz de todos os mestres italianos e estrangeiros que, cada um com a sua arte, valorizaram essa série prestigiosa. Fora de Tex já tivemos a honra de trabalhar com outro monstro sagrado da Bonelli e da BD italiana: Dylan Dog, de quem, depois da recente prova na edição colorida Dylan Dog Color Fest, agora estamos a desenhar uma história que deverá sair na série mensal da personagem. Não poderíamos pretender coisa melhor. Fora da BD italiana, nós gostaríamos de tentar, se houvesse tempo, um trabalho para o mercado francês, quem sabe colorido, ou para o americano, com um género mais voltado ao noir e menos de super-herói. Mas por não termos muito tempo livre, também seria interessante trabalhar com as capas de uma série, italiana ou americana que seja.

Em que projectos texianos vocês estão a trabalhar?
Gianluca & Raul Cestaro: Por ora nenhum, visto que actualmente estamos a trabalhar com Dylan Dog. Quando estiver concluído, voltaremos a falar de Tex.

Além dos ganhos profissionais, o que Tex lhes deu?
Gianluca & Raul Cestaro: Talvez um pouco mais de notoriedade, mas creio que nos deu sobretudo a possibilidade de crescer artisticamente. É uma série que todos julgam difícil de desenhar e, por isso, é um estímulo, diríamos até um dever, para melhorar cada vez mais como desenhadores.

A BD bonelliana é principalmente em preto e branco: vocês gostariam de tentar alguma coisa colorida?
Gianluca & Raul Cestaro: Sim, temos essa vontade. Quando éramos mais jovens até tentamos, ao fazer algumas páginas ou ilustrações coloridas. Infelizmente o tempo é sempre tirano, mas uma das raras experiências recentes nesse sentido foi uma pequena ilustração, justamente de Tex, que fizemos para a capa do número 84 de Fumetto, revista sobre BD editada pela Associação Nacional Amigos da BD e da Ilustração.

A propósito de cores, como foi a experiência com a capa da edição Dylan Dog Color Fest n° 7? E que técnicas vocês usaram?
Gianluca & Raul Cestaro: Para essa capa as cores foram feitas pela óptima colorista Barbara Ciardo, enquanto o desenho nós fizemos a lápis, sem usar nanquim, mas com muitos meios-tons de cinza, de modo que interagisse com as cores para criar um efeito mais tridimensional e pictórico.

Como foi desenhar Dylan Dog? E, mais, vocês acham que fazer as capas pode ter uma sequência profissional?
Gianluca & Raul Cestaro: Desenhar Dylan Dog foi, acima de tudo, a realização de um pequeno sonho, visto que foi justamente a paixão por essa personagem que nos deu a convicção, no início da adolescência, de nos dedicarmos a desenhar quadradinhos de género realístico. Em segundo lugar, representou para nós uma nova discussão sobre a nossa capacidade e os nossos limites, visto que, depois de tantas páginas de Tex, não estávamos mais habituados a trabalhar com personagens e ambientes mais complexos como os da época actual. Não sabemos dizer se, depois da experiência com essa capa, podem nascer outras, mas reiteramos que gostaríamos de fazer isso de novo.

Além de BD, vocês lêem livros? E quais são as vossas preferências no cinema e na música?
Gianluca & Raul Cestaro: As preferências são várias, mas apaixona-nos de modo particular o género noir, tanto na literatura quanto no cinema, e aqui também temos um fraco pelo género thriller. Quanto à música, os nossos gostos também são variados, das composições italianas ao pop, do rock ao britpop ou a um certo tipo de jazz.

E chegamos ao fim. Gostariam de acrescentar alguma coisa?
Gianluca & Raul Cestaro: Queremos agradecer pela consideração e por sempre nos informarem sobre as novidades interessantes do blogue, e pela atenção e carinho que sempre demonstram pelo nosso trabalho. Agradecemos também a todos os leitores do blogue português e… longa vida a Tex!

Caríssimos Gianluca e Raul, em nome do blogue português de Tex, nós é que agradecemos imenso pela entrevista que gentilmente nos concederam.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

11 Comentários

  1. Maravilha de entrevista, amigo Zeca. Os irmãos Cestaro são dois monstros do staff atual de Tex e detonam em suas páginas, nos mostrando um western autêntico e visceral.

    Eu, como aspirante a desenhista gostei muito de conhecer os detalhes técnicos do trabalho dos dois irmãos.

    Mais uma vez, parabéns pela entrevista e parabéns aos irmãos Cestaro pelas obras primas entregues com tanto carinho a nós, leitores de Tex.

  2. Ótima entrevista. Não tinha idéia de como os irmãos Cestaro faziam seu trabalho e é impressionante a qualidade do mesmo. Parabéns a todos que realizaram esta entrevista.

  3. Magnífica entrevista, como sempre muito bem ilustrada e documentada, a começar pela caricatura do genial Bira Dantas, que consegue com um traço destro captar toda a expressividade dos seus modelos.
    Parabéns também aos irmãos Cestaro por terem conseguido adaptar-se tão bem ao exigente universo de Tex e do western em particular, partindo de géneros muito diferentes. Acho bastante curioso e inovador o método que adoptaram como dupla artística, alternando a realização das pranchas em vez de as fazerem em conjunto, o que implica uma perfeita identidade de estilos e de técnicas gráficas e narrativas.

  4. Eles são muito bons e sempre me fazem lembrar dos “nossos” gêmeos, o Moon e o Bá, que por sua vez têm estilos totalmente diferentes entre si. Mas, o mais interessante é que coincidentemente, estou lendo a história que eles fizeram para o DyD Color Fest #10 – I giorni oscuri, cuja arte é um primor.
    Sempre gostei muito do trabalho dos Cestaro e a entrevista foi muito legal!

    Abraços,

    Sílvio Introvabili

  5. Excelente entrevista caro Zeca. Os Cestaro são realmente muito bons e ilustram muito bem o seu mundo e trajetórias. E não se furtam de falar bastante.

    Tem me chamado a atenção nas entrevistas ou nas fichas como é profícuo o número de escolas e de autores de BD por todo território italiano. Geralmente o autor estudou na Escola de Belas Artes ou de Desenho da sua cidade (aqui no Brasil só nas grandes capitais). A exemplo dos Cestaro, morava um grande desenhista pertinho deles. Já noutro caso, a pequena Arezzo tem o Fabio Civitelli e o Rossano Rossi, que devem incentivar outros.

    Se pegarmos todos os desenhistas que trabalham para a Bonelli em suas diversas séries e juntarmos aos arte-finalistas e gráficos, teremos que a Itália é um celeiro de BDs e que quem nasce lá já tem meio caminho andado para lidar no caminho das aventuras de papel.

  6. Caro Zeca, a arte exuberante dos irmãos Cestaro certamente vale este belo perfil que você conduziu com maestria.

    Por essas “terras brasilianas” uma bela novidade que te repasso com muita alegria. Leia o que descobrimos por aqui, notícia alvissareira que saiu no blog Museu dos Gibis: A VOLTA DE KEN PARKER. O Wagner Augusto vai publicar a conclusão da SAGA! E ainda mando aqui uma pergunta: Fiquei sabendo que Berardi e Milazzo vão publicar na Itália um história curta, inédita e colorida do Ken?

    Segue o link da notícia sobre a volta do Ken no Brasil
    http://museudosgibis.blogspot.com.br/2013/08/ken-parker-esta-voltando_30.html

    • É verdade, pard Antonio Pastori. Ken Parker está para retornar na Itália. O próprio Berardi já o confirmou. Aguardemos porque vem seguramente aí coisa boa… 😉

  7. São os desenhistas que melhor representam o velho Oeste.
    Sou fã deles, pra mim Tex seria desenhado sempre por eles.

  8. Excelente entrevista, grande Zeca Willer e querido bengala brother de além mar. Sou fã do traço dessa dupla genial.
    É maravilhoso saber como a Itália, verdadeiro celeiro de bons desenhistas e argumentistas,sempre renova seu staff com jovens tão talentosos quanto estes. Prova cabal de que Tex, nosso querido ranger, terá vida longa.
    Sucesso aos manos artístas e parabéns a você pelo magnífico bate papo.
    Bom final de semana, cowboy!
    See you later!

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