Entrevista com o fã e coleccionador: Daniel Ianegitz Vieira

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Daniel Ianegitz Vieira: Nasci na cidade de São Paulo, no Brasil, em 1987. Actualmente resido no interior do Estado, em Sorocaba.
Sou Analista de Sistemas de informática porém no momento estou cursando mestrado voltado para casas inteligentes com recursos controlados inteiramente computadorizadas, para utilização inteligente de recursos energéticos. E após o domínio de uma casa o projecto passará para bairros inteligentes e cidades inteligentes. A demanda energética é uma preocupação do futuro e estou tentando fazer a minha parte propondo uma solução que no Brasil sequer engatinha (na Europa já estão avançados os estudos em várias localidades, principalmente na Itália).

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Daniel Ianegitz Vieira: Quando tinha 7 anos e estava aprendendo a ler a minha mãe me incentivava a todos os dias comprar uma revista aos quadradinhos. Eu comprava na época tudo o que tinha disponível de Turma da Mônica (que não eram pouca coisa, muitas eram quinzenais) e  alguns Disney. Eu nunca comprei nenhum Tex nessa época. Convenhamos que o traço sério e realista e as páginas em preto e branco não são chamativas para uma criança (e o enfoque da revista também não são as mesmas).
Passou o tempo, a crise financeira no Brasil ficou complicada (anos 90) e acabei por parar de comprar as revistas. Com o tempo as revistas antigas foram perdidas. Isso lá pelos meus 7 e 8 anos. Passei depois disso todo esse tempo sem comprar nada.
Recentemente, passeando em um shopping, foi-me ofertada uma assinatura de revistas Turma da Mônica e a paixão pela Banda Desenhada voltou e acabei retornando a comprar muitas revistas, todas as que lia na infância. Agora a nossa economia está estabilizada e crescente, ajudando também neste facto.

Quando descobriu Tex?
Daniel Ianegitz Vieira: Pois bem, no começo deste ano de 2013 eu estava em uma banca procurando algo Disney e Turma da Mônica que eu ainda não possuía. Como não encontrei nada de novidade, decidi então pular para a prateleira do lado e vi que tinham alguns Tex com adesivo (autocolante) em cima do preço original, com um valor bem atraente, embora fossem revistas meio antigas, páginas já amareladas.
Como nunca havia lido nenhum Tex, nem sequer havia folheado, acabei comprando, por cerca de 7 ou 8 reais, não me recordo, a revista mais grossa que tinha lá, sem sequer ler sobre o que se tratava a revista.
Essa revista ficou parada por um bom tempo, uns 15 dias, já que eu sempre tenho muitas revistas pendentes de leitura (compro mais do que tenho tempo de ler).
Um belo  final de semana que fui passar na casa dos meus pais eu levei algumas revistas mais grossas para ler lá. Eu peguei uma Disney BIG de 300 páginas, porém, como achei pouco ia pegar mais alguma revista, e logo abaixo estava a do Tex. Pensei, porque não dar uma chance para o Cowboy?
Levei para casa dos meus pais, li a Disney no sábado e no domingo, depois do almoço, peguei a do Cowboy para ver se eu apreciava.
Li a primeira página, a segunda, a terceira, fui até à capa traseira da revista, dei uma relida ali no resumo, voltei, li mais páginas, fui lendo, lendo, voltava no começo para rever alguma personagem que eu não estava me lembrando quem era, fui lendo, lendo, de uma só vez eu li 200 páginas. Não continuei porque estava no horário e eu tinha que voltar para minha casa em outra cidade.
Fiquei pensando naquela história o tempo todo, aquilo mexeu comigo, estava maravilhado por aquele enredo, as personagens, a arte.
No outro dia de manhã peguei a revista e de uma só vez terminei as 130 páginas restantes. Fiquei absolutamente abismado pela revista, a história, o ambiente, as personagens.
Onde isto tudo esteve toda a minha vida???
A resposta é simples: “Na prateleira ao lado“.
A revista era simplesmente Tex Ouro 45 – O Passado de Kit Carson.

Porquê esta paixão por Tex?
Daniel Ianegitz Vieira: Creio que devido à qualidade dos roteiros e dos desenhos. Cada história é como um filme, com uma trama sempre muito bem trabalhada. Nunca havia encontrado nada assim em Banda Desenhada, apenas em alguns filmes e livros.
E os desenhos são também um atractivo à parte, todos muito bem feitos e quase realistas.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Daniel Ianegitz Vieira: Ele é um ser humano comum que decidiu empreender seus esforços para ajudar a quem necessite de ajuda, seja quem for. E usa os meios que forem possíveis para atingir os seus objectivos, sempre pensando no próximo e nunca em benefício próprio.
Além disso ele aprendeu tudo com a vida e repassa todos os conhecimentos que sabe a quem estiver disposto a aprender.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Daniel Ianegitz Vieira: Não tenho muitas ainda, devido a conhecer a personagem há pouco mais de meio ano. Creio que de Tex tenho cerca de 300 revistas e das demais personagens Bonelli cerca de 200. Porém ainda não li mais que 25% do que possuo, por falta de tempo mesmo.
A revista mais importante creio que são todas, não me apego muito nas revistas, apenas nas histórias.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Daniel Ianegitz Vieira: Apenas as revistas, mas não me considero um coleccionador. Eu considero-me um leitor.
Gostaria apenas de ler todas as histórias da personagem, mas não me importo em ter todas as revistas. Se por exemplo eu já li alguma história de uma revista emprestada de alguém e encontrar a revista original que essa história foi lançada, seja ela rara ou não, eu não compraria, mesmo que fosse por um valor muito baixo. Eu apenas quero ler as histórias, seja da maneira que for (desde que seja física, não aprecio leitura digital).

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Daniel Ianegitz Vieira: Gostaria de possuir alguma miniatura se a encontrasse por um valor acessível.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Daniel Ianegitz Vieira: A história com certeza O Passado de Kit Carson. Foi a primeira que li, é a que encontrei o melhor enredo, os melhores desenhos e o melhor desenvolvimento. Ela também é uma das mais apreciadas na Itália e a segunda mais apreciada no Brasil, apenas atrás de El Muerto (já li essa história porém achei muito simples).
Os desenhadores eu respeito todos, embora o que eu mais goste seja o Galleppini, por ser o criador original. Ele também apresentou uma melhoria evidente ao longo dos anos.
Tenho uma enorme simpatia por Lettèri, devido a primeira história que li com ele nas pranchetas foi justamente a última que ele desenhou, e nem conseguiu terminar (O Veneno do Cobra). Acabei simpatizando e hoje é um dos que mais aprecio.
Claudio Villa faz um trabalho excelente e tem um dos traços mais bonitos, com certeza. Agora o desenhador que mais gosto de ler uma história é Marcello, embora, infelizmente, ele tenha desenhado poucas histórias. Também respeito muito Ticci e Civitelli.
Considero Mauro Boselli o melhor argumentista. Todas as suas histórias são muito completas e coesas, com um alto nível de complexidade. Também gosto muito do Bonelli Pai, por ser o criador, de seu herdeiro de sangue, Sergio Bonelli, e de seu herdeiro de caneta, Nizzi.
Fora do universo de Tex eu aprecio muito o trabalho de Berardi com Júlia. Um génio em escrever a cada mês tramas tão envolventes, no género investigativo, que aprecio muito.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Daniel Ianegitz Vieira: O que mais gosto são os momentos em que ele e seus amigos estão convivendo em momentos comuns, como em volta de uma fogueira, conversando antes de dormir, relembrando alguma história ou feito deles ou de alguma outra pessoa.
Isso lembra-me a minha infância, quando viajava para nossa fazenda no interior com o meu pai. A casa não tinha electricidade e a única diversão era ouvir as suas histórias, ou histórias do famoso “Pedro Malazarte” personagem conhecida no interior do nosso Estado, embora não se saiba se seja inventado ou se realmente existiu.
O que me desagrada um pouco em Tex é quando algumas vezes apenas ele resolve todos os problemas, engenha o plano, faz tudo sozinho e os seus companheiros se limitam apenas a segui-lo, como meros coadjuvantes. Prefiro quando todos tem importância na história, pois sozinho ninguém é nada.
Agora o que me desagradou bastante foi a comunidade online da personagem. Eu conheci há pouco tempo e fui procurar um local para discutir as histórias, os enredos, os desenhos, estava maravilhado com o novo universo. Quando encontrei a comunidade fiquei decepcionado. Praticamente não se discutem as histórias ou outros assuntos, o foco é apenas no tamanho da revista, já que na Itália ela é 2 centímetros maior que no Brasil ou em Portugal. Como se esses 2 centímetros mudassem o roteiro ou algo mais na história. Com o tempo relembraremos e contaremos para outras pessoas de óptimos enredos, histórias memoráveis, belos desenhos, e não de lindas páginas 2 centímetros maiores ou papel mais encorpado na capa.
Fico extremamente chateado com essa situação e algumas vezes perdi a cabeça (peço desculpas se atingi alguém, foi involuntariamente). Pensei em abandonar a comunidade mas ainda insisto e creio que isto vai mudar com o tempo, ou ao menos assim espero.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Daniel Ianegitz Vieira: Com certeza a padronização nos roteiros, desenhos e estilo de narrativa e publicação.
A centralização que a editora fez manteve a revista praticamente sem mudanças em 60 anos. Com isso quem leu a revista 30 anos atrás, se comprar uma recente, vai se deparar com a mesmo personagem, a mesma narrativa e o mesmo estilo.
Sem histórias paralelas e outros problemas criados quando se descentraliza a gerência de um título. Com isso o público se tornou muito fiel.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Daniel Ianegitz Vieira: Como conheço Tex há pouco tempo, somente um amigo que já conhecia e eu empresto as minhas revistas. Gostaria de participar de algum evento caso houvesse algum no meu Estado.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Daniel Ianegitz Vieira: Eu confio na editora que edita o título e creio que no futuro continuaremos com maravilhosas histórias no mesmo estilo que são publicadas há 60 anos.
Mas o mercado futuro eu já não sei se é muito promissor. As pessoas estão rumando para outros meios e abandonando um pouco revistas e livros físicos.
Talvez isso mude com o tempo, não dá para prever. Espero ler as revistas com novas histórias mensais por muitas décadas, e repassar o mesmo prazer para futuros filhos e netos.
A editora brasileira que o publica também faz um ótimo trabalho, embora não receba nenhum  reconhecimento por parte dos fãs da personagem.

Prezado pard Daniel Ianegitz Vieira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

6 Comentários

  1. Ótima entrevista, parabéns pard.
    Também prefiro apreciar a história junto aos desenhos ao invés de reclamar dos tamanhos das revistas.
    Em pouco tempo juntou uma bela quantidade de revistas hein, parabéns.

  2. Obrigado pard Grilo.
    Eu espero que um dia nós possamos somente discutir os maravilhosos enredos e personagens Bonelli.
    Quanto às revistas eu atualmente possuo um pouco mais do que na entrevista, adquiri cerca de mais 50.
    Porém como não estou conseguindo ler tudo estou comprando em ritmo desacelerado e tentando tirar o atraso da leitura.

  3. Acho que a maioria dos leitores que hoje leem e colecionam Tex (ou apenas leem), também na primeira “vista” resistem em não ler Tex… também foi assim comigo… já a uns 6 meses sabendo da sua existência foi que li Tex pela 1ª vez!! Na época ainda criança/adolescente não gostava do p&b… Mas Tex é assim mesmo, pois quando se ler não larga nunca mais.
    Também concordo com você em certas discussões bobas sobre a revista… O que valem mesmo são os enredos… e é justamente isso que faz de Tex o mais longevo cowboi de todos os tempos!!

    Abraço.

  4. Olá Daniel, bela entrevista, pard. Pra quem começou a comprar Tex ainda esse ano, tens bastante revistas. Escuta, se puder adquira uns exemplares do personagem Ken Parker, garanto que você vai curtir muito, é do mesmo criador de Julia, Giancarlo Berardi.

  5. Realmente Dionísio, muitas pessoas tem preconceito. Eu não me interessava quando criança até porque eu não era o público alvo, mas muitos amigos meus hoje em dia tem preconceito, um deles quando eu disse que estava comprando e lendo Tex perguntou se não era aquela revista pra velhos. Ahaha achei engraçado, fazer o que né. Mas já emprestei algumas Dylan Dog e ele gostou, logo logo estará curtindo Tex também.

    E pard Jário eu já conheço o Ken Parker e acho excelente, no mesmo nível de Júlia, só gosto mais da criminóloga porque curto investigação no estilo Agatha Christie.

  6. Muito legal a entrevista. Fiquei admirada com algumas coincidências com minha própria história com TEX. Faz pouco tempo que conheci as revistas do ranger e viciei totalmente. Quando criança, só lia Disney e Turma da Mônica, tanto que tenho pilhas e mais pilhas desses gibis guardados. Depois passei a conhecer HQs independentes e outros tipos de leituras, encontrei também meus livros de bolso de faroeste e, por fim, TEX. Impossível não gostar dessas histórias… agora estou tentando montar minha coleção.

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