Entrevista com o fã e coleccionador: Moacir Rodrigues de Sousa Junior

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Nasci em Setembro (mesmo mês em que Tex passou a ser publicado na Itália) de 1971 (mesmo ano em que o Ranger começou a ser publicado no Brasil, pela saudosa Editora Vecchi), no Nordeste do Brasil, no Estado do Maranhão, numa cidadezinha chamada Igarapé Grande (cerca de 11.000 habitantes).
Sou funcionário público municipal (no sector da Assistência Social), mas, de vez em quando, sou contratado como professor nas redes estaduais ou particulares, pois sou licenciado em Matemática e bacharelado em Teologia. Nas horas vagas sou escritor, blogueiro e pesquisador sobre temas sobrenaturais, místicos e teológicos, com ênfase em literaturas apocalípticas e enigmas numéricos e históricos. E, em meio a tudo isso, sempre encontro um tempo para ler ou reler (talvez pela centésima vez) uma aventura do Águia da Noite.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Começou por algumas revistas da Disney, depois conheci umas personagens da Marvel (Capitão América, Hulk, etc.), mas fiquei entusiasmado mesmo foi quando li o primeiro Tex.

Quando descobriu Tex?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Fiquei fascinado pelas histórias do destemido Ranger quando li “Terror no rio Sonora, #31, Ed. Vecchi”. Eu tinha entre 10 e 11 anos. Logo em seguida, chegou às minhas mãos a clássica “El Morisco” (na época da Vecchi: O Bruxo Mouro, O mistério das pedras venenosas e a Caverna do vale dos gigantes, os números 40, 41 e 42, respectivamente). Não havia nenhum jornaleiro em nossa região. As revistas eram raras, e quando surgia uma parecia que alguém tinha descoberto um diamante. Além dessa dificuldade havia ainda os problemas financeiros. Eu e outros amigos ficávamos à espera que algum amigo “rico” comprasse a revista em suas viagens às “cidades grandes” e compartilhasse com a gente depois. Em razão dessas dificuldades muitas vezes a gente inventava as próprias histórias de Tex, fazia os desenhos e ficava passando de mãos em mãos. Por essa época passei a gostar de desenhar também. De tanto “cobrir” os desenhos de Tex, aprendi a desenhar pessoas, cavalos, casas, etc. Eu e meus amigos inventamos algumas personagens de faroeste e criamos algumas histórias. Quando aparecia um Tex “novo”, era uma festa. Se a história era incompleta e ninguém sabia quando apareceria a continuação, a nossa imaginação corria solta, tentando imaginar a conclusão da aventura.

Porquê esta paixão por Tex?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Não é fácil explicar. Talvez seja aquele velho desejo por justiça que está enraizado no ser humano. Tex Willer é uma personagem que atrai por várias razões: A lealdade para com os amigos, o senso de justiça, um herói que não faz acepção de pessoas por causa da raça. As partes que sempre me emocionam nas histórias são aquelas em que o nosso herói é mostrado como o melhor amigo dos índios. Quando, para defender os direitos dos seus amigos peles-vermelhas, Águia da Noite está disposto até a lutar contra o governo dos Estados Unidos. E isso produz um grande e reverente respeito entre os índios. É exactamente essa reverência quase mística que os índios têm por Tex que me encanta. Uma das cenas inesquecíveis é um diálogo entre um caçador de recompensas e um dos seus aliados índios. Quando o caçador revela que a sua próxima caça é Tex, o índio (que sempre ajudava na caçada) imediatamente dá o aviso:
Nunca atravesse o caminho de Águia da Noite, e que seu sangue nunca toque suas mãos, porque teria vida muito breve.
O caçador fica espantado com a reacção do amigo índio. E este explica:
O nome de quem matar Águia da Noite passará pela boca de guerreiros navajos, mescaleiros, chricahuas e tontos e muitos outros: muitas mãos pegarão espingardas, facas e escudos de guerra. Muitos tambores cantarão… muitas nuvens de fumaça regarão o céu desde as terras altas dos navajos às montanhas de chiricahua… e não haverá mais paz até que o matador de Águia da Noite termine de berrar no pau de tortura, ou que sua cabeça plantada em buraco não estiver cheia de formigas vermelhas.
O caçador, pálido e assustado diz:
Sabia que Tex Willer era amigo dos índios, mas não a esse ponto.
Aí o índio arremata:
Ugh! Você meu irmão, mas se tocar Águia da Noite, você homem morto! (Trechos retirados da história “Em nome da lei”, número 108, Ed. Vecchi).

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Existem muitas diferenças. Algumas delas são: as histórias são muito realistas (com excepção daquelas envolvendo feitiçaria e coisa do tipo); os bandidos apresentados (especialmente os “respeitáveis cidadãos”) são muito parecidos com os da actualidade; as tramas que envolvem políticos (principalmente aquelas que envolvem Washington, políticos sujos tentando tirar os índios de suas terras, para se apossarem do ouro, etc.) também são muito actuais. É sempre emocionante quando uma história apresenta o típico “dono da cidade”, que se acha o dono do mundo, que oprime e persegue os mais pobres, mas que, de repente, encontra-se com o famoso punho de Tex (ou com os seus famosos colts 45).
Nos dias actuais (especialmente no Brasil), sempre que lemos na imprensa sobre um novo desvio de dinheiro público, uma nova fraude na educação ou saúde, lembramos do intrépido justiceiro chefe dos navajos e desejamos, no íntimo, que surja alguém desse tipo para colocar ordem e justiça em nossas cidades. Isso sem falar das vezes em que sonhamos nós mesmos nos transformando em Tex Willer e fazendo justiça. Lembro de um amigo que, sempre que vê uma injustiça sendo cometida em nossa cidade, exclama: Ah, se aparecesse um Tex por aqui para acabar com a raça desses canalhas!

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Pela minha mais recente contagem, tenho 403 revistas (de todas as séries publicadas no Brasil, porém nenhuma completa).  O número mais antigo que possuo é o número 7 (Drama na Pradaria, da edição brasileira publicada pela editora Vecchi).
Quanto à mais importante, na verdade, não é possível citar apenas uma. Permita-me apresentar pelo menos três:
1 – Apesar de não possuir a primeira revista de Tex que eu li (até porque era somente emprestada), tenho a mesma edição original dela: Terror no rio Sonora, número 31, Editora Vecchi, Novembro de 1979, 2.ª edição.
2 – Outra que também guardo com muito cuidado é o número 124 da Editora Vecchi, Mesa dos Esqueletos, 1.ª edição, Junho de 1981. Explico a razão: Foi a primeira revista de Tex que o meu falecido pai comprou para mim, em 1981, e ele faleceu no ano seguinte. Mas não possuo a mesma revista que ele comprou, apenas uma cópia da mesma edição.
3 – A Noite dos Assassinos, número 58, Editora Vecchi, Outubro de 1981, 2.ª edição. Como nos casos anteriores, infelizmente não possuo a mesma revista, mas somente uma cópia da mesma edição (faltando várias páginas no meio).

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Apesar do progresso ter chegado por aqui também, é incrível como em nossa pequena cidade temos TV a cabo, Internet, redes de telemóveis (no Brasil: celulares), mas nenhuma banca de jornais e revistas. Durante muitos anos a banca de jornais mais próxima ficava a 36 km, numa cidade vizinha. Era lá que comprávamos (quando podíamos) as nossas revistas de Tex. Funcionava desde os anos 70. Mas, há cinco ou seis anos, parou de vender revistas. Nossas opções agora são comprar pelos correios ou quando viajamos à capital (300 km). A minha colecção actualmente está recheada de edições novas (Editora Mythos) graças à bondade de um irmão que mora em São Paulo. Sempre que pode ele compra várias revistas e envia para mim. Os tempos são outros. Antigamente faltavam revistas, mas não leitores. Hoje, infelizmente, tenho bastante revistas, mas são poucos os que se interessam em lê-las. Agora, respondendo à pergunta inicial: Colecciono apenas os livros do Ranger, mas possuo (em VHS e DVD) o único filme de Tex.

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Como na minha época até as revistas eram difíceis de se conseguir, todas as que chegavam em minhas mãos tornavam-se verdadeiras preciosidades. Coisas como póster, bonecos e músicas de Tex não eram possíveis.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: História favorita? Bem, é difícil escolher. Certamente as três mencionadas anteriormente (Terror no rio Sonora, Mesa dos Esqueletos e A Noite dos Assassinos) são as minhas histórias favoritas. E não somente pelas razões emocionais que eu citei, mas tenho observado entre os leitores brasileiros que A Noite dos Assassinos é uma das preferidas deles. A Editora Mythos criou uma série especial (Edição Especial de Férias), para republicar as mais pedidas pelos leitores e foi inaugurada justamente com A Noite dos Assassinos. É uma excelente história, e tive muita sorte em tê-la lido na minha adolescência (uma das últimas compradas pelo meu pai). Porém, é claro que não posso deixar de citar “El Muerto”, “El Morisco (a saga das misteriosas pedras verdes), e a famosa saga do mescaleiro Lucero. Vejam como é difícil citar “a favorita”, pois eu teria que mencionar também todas as histórias que envolvem o velho Mefisto e seu digno filho Yama.
Desenhador mais apreciado? No passado é impossível não citar o grande Galep. Mas eu também sempre apreciei o Ticci (duas das histórias que eu citei anteriormente, ligadas à minha adolescência, foram desenhadas por ele). Na actualidade tem muita gente boa e fica difícil escolher o melhor. Mas vou destacar Villa, Civitelli e também o grande Jesús Blasco.
O argumentista mais apreciado? É preciso dividir em dois tempos: Bonelli (pai) no passado, e Nizzi, na actualidade. É claro que é impossível não citar Boselli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: O que me agrada mais é o sexto sentido do Ranger em conhecer as pessoas, e, principalmente, ao detectar o lado bom delas (quando há). Sempre que se depara com um bandido do tipo que tem problemas de consciência e parece procurar a redenção, Tex costuma detectar isso e procura meios de dar uma segunda chance ao facínora. É sempre emocionante quando antigos inimigos tornam-se amigos. Uma cena inesquecível é o final da história “O resgate de Devlin” (número 267, na edição brasileira). Tex e seu antigo inimigo capitão Drake (vulgo Barba Negra) estão jantando na mesma mesa, e ao lado de seus amigos. Tex faz algumas provocações ao Barba Negra, mas na última vinheta todos estão sorridentes e Tex brinda dizendo:”À regeneração de um velho pecador!
O que me agrada menos em Águia da Noite? Difícil dizer. Certamente ele tem seus pontos negativos, mas os positivos são tantos que não nos permitem lembrar dos contrários.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: São muitos os factores: argumentos e roteiros bem escritos, heróis cativantes (e vilões também), altos valores da Humanidade presentes nas personagens (honestidade, justiça, amizade, bravura, luta pela liberdade, respeito a todas as raças, etc.). Podemos destacar também o aspecto conservador e imutável. O Tex dos anos 70 continua o mesmo, com os mesmos valores morais, diferentemente de outras personagens dos quadradinhos que passam por várias metamorfoses (morrem, ressuscitam, mudam de lado, tornam-se rebeldes, mudam até de uniforme, etc.). Apesar das histórias melhorarem com o tempo, mais bem escritas, roteiros mais estruturados, Tex não muda. Seu senso de justiça, seus métodos para estabelecer a justiça onde não tem, seus conceitos em relação aos “bandidos de colarinho branco” e seu modo de tratar esses corruptos são os mesmos desde sempre.
Muitas séries da TV se estragaram com o passar dos anos porque mudaram tanto a personagem que ela ficou irreconhecível. Com Tex isso não acontece. Mesmo mudando de argumentista, ainda que cada um apresente um Tex pelo seu ponto de vista, os elementos básicos das histórias permanecem inalteráveis. E o carácter das personagens também. Quem leu Tex pela última vez nos anos 80 e voltou a ler recentemente, pode até ter estranhado os desenhos, mas logo vai reconhecer que seu herói e seus amigos continuam os mesmos.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Não, apenas compartilho revistas com uns quatro amigos em minha cidade (dois deles são texianos antigos e dois, os mais jovens do grupo, são leitores há pouco tempo). Mantenho contacto com coleccionadores de outras cidades apenas via Internet.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Moacir Rodrigues de Sousa Junior: Espero que tenha ainda uma longa cavalgada pela frente. Infelizmente existe um certo preconceito contra os quadradinhos italianos. A juventude hoje está muito viciada nos quadradinhos coloridos dos super heróis da Marvel e DC Comics, sem falar dos mangás japoneses. É raro encontrar (pelo menos no Brasil) jovens lendo Tex. Talvez se o Ranger fosse mais televisivo, isto é, se existissem séries na TV ou algum filme de vez em quando sobre ele, o interesse por suas histórias poderia ser despertado entre o público juvenil. É sabido que o brasileiro aprecia mais TV e cinema do que livros. Se uma personagem sai na TV ou no cinema e logo aparece um livro a respeito, esgota-se em pouco tempo. Como parece não existir nenhum projecto de Tex para a TV ou para a telona (desconheço qualquer interesse dos editores italianos a respeito), o futuro do Ranger parece ser nebuloso. Mas torço para estar errado.
Uma frase de Tex sempre me vem à mente quando me encontro diante de uma situação ou notícia triste: “Em breve surgirão auroras mais radiosas, irmão.” (O Grande Rei, versão da Ed. Vecchi) ou: “Jornadas mais radiosas surgirão em breve, irmão.” (versão da Ed. Mythos). Dedico esta frase a todos os texianos (especialmente àqueles que estão diante de algum fracasso ou sonho destruído).

Prezado pard Moacir Rodrigues de Sousa Junior, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

2 Comentários

  1. Caro Moacir no sabor da boa leitura da sua entrevista não me contive e fui logo respondendo.
    Mas eu fui ver nas minha revistas duplicadas e vi que tenho A Noite dos Assassinos completa, em bom estado e com todas as páginas e da 1ª edição. Entre no blog, deixe seu endereço que vou te doar essa revista que você tem grande apreço. As outras se eu as tiver da 1ª edição te mando também.
    Fica com Deus hombre.

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