Entrevista com o fã e coleccionador: João Amaral (autor de banda desenhada)

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Caro João Amaral, bem-vindo ao blogue português de Tex. Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
João Amaral: Nasci em Lisboa a 14 de Novembro de 1966. Profissionalmente, sou actualmente ilustrador e autor de banda desenhada.

Para aqueles que ainda não estão bem identificados com a sua carreira profissional, gostaríamos que fizesse uma pequena apresentação própria e do caminho entretanto percorrido na sua carreira.
João Amaral:
O meu caminho é, no mínimo, estranho. Desde criança que sempre tive uma paixão muito grande pela banda desenhada. Apesar disso, os meus estudos direccionaram-se noutra área. Acabei por enveredar pelo curso de Organização e Gestão de Empresas, em parte, porque havia lá uma disciplina chamada marketing. No início foi isso que me fascinou, porque, na verdade, eu tinha consciência que nunca seria um gestor. Esqueci-me apenas que a abordagem ao marketing não era exactamente o que eu queria. Depois de ter alguns problemas de saúde, em parte motivados pelo facto de ter feito uma má escolha, acabei por mudar radicalmente e dediquei-me ao jornalismo, sobretudo numa área que constitui outra das minhas grandes paixões: o cinema. Foi também nessa altura que publiquei o meu primeiro livro de BD, A Voz dos Deuses (uma obra feita em parceria com Rui Carlos Cunha e adaptada do romance homónimo de João Aguiar). Depois, trabalhei em publicidade e, aos poucos fui preparando o meu caminho para conseguir realizar o meu sonho de infância: ser autor de banda desenhada.

Que leituras ou sugestões o levaram a envolver-se com o desenho? Ou essa sua paixão foi cultivada desde criança?
João Amaral:
Como disse anteriormente  essa paixão vem dos tempos de criança. E, foram de certa forma os westerns que produziram o clique. Lembro-me que na infância eu coleccionava o Tex Tone e um vizinho meu o Relâmpago. Comprávamos as revistas que até eram baratinhas e depois trocávamo-las para poder ler ambas as histórias. Daí, passei a descobrir outras coisas. Consegui que o meu pai me comprasse outra colecção que era o Condor, ia lendo O Falcão que esse meu vizinho comprava e, depois foi O Mundo de Aventuras e finalmente o Tintin. Aos poucos foi crescendo a minha admiração por desenhadores como o William Vance, o Hermann ou o Rosinski, entre outros e fui treinando, porque tinha na minha mira, um dia ser um profissional como eles…

E quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
João Amaral:
Pois como disse a paixão pela BD veio muito cedo, porque me permitia aliar o desenho à arte de contar histórias e tinha ainda uma vantagem sobre o cinema, porque não tinha que fazer orçamentos, pagar a actores, técnicos, etc. Bastava-me, na altura ter uma caneta, um papel e alguma imaginação. Em relação ao Tex, veio um bocadinho mais tarde. E quem me apresentou o Tex foi o Rui (que já entrevistaste aqui e que, como já disse, me ajudou  no argumento de A Voz dos Deuses). Tínhamos na altura ambos, uns 13 0u 14 anos e ele tinha já uma considerável colecção do Tex. Falou-me nisso várias vezes e eu comecei a pedir-lhe alguns livros emprestados. Aquilo entusiasmou-me e comecei a pedir ao meu pai que me comprasse também  essa revista com um herói, que ainda por cima apoiava a causa dos índios. Convém lembrar que eu quando brincava aos cowboys, assumia sempre a personagem de um herói ligado aos índios. Por isso, o primeiro Tex que adquiri foi o número trinta e tal da segunda edição da editora Vecchi.

Tex teve alguma influência no facto de você se ter tornado um desenhador?
João Amaral:
Não foi a única influência, mas também contribuiu muito para isso, até porque os textos do Gian Luigi Bonelli e os desenhos do Galleppini me faziam literalmente transportar para outro mundo. E eu gostava especialmente do Tex porque tinha aventuras que se estendiam muito em número de páginas e, muitas vezes, em vários números, o que permitia construir tramas realmente intensas e com várias reviravoltas na acção. Ainda me lembro hoje de ficar fascinado com Terror Na Selva, uma aventura em que entrava Mefisto e uma outra (que se iniciava com Em Nome da Lei) em que Tex, devido a uma maquinação muito bem urdida, esteve quase a um passo de ser enforcado. Considero mesmo que há aventuras de Tex que são de tal forma cinematográficas que nos transportam imediatamente para o local de acção. E, obviamente, são histórias com as quais vou aprendendo alguma coisa, nomeadamente a ver que soluções é que os argumentistas e desenhadores usam para desenvolver certas sequências.

Você teve uma formação artística? De que tipo?
João Amaral: Não, embora tenha sempre sonhado um dia tornar-me um autor de BD, a verdade é que acabei por estudar noutras áreas. Na banda desenhada sou, digamos um auto-didacta e muito do que sei hoje, aprendi quando trabalhava em publicidade. Foi nessa altura que, por exemplo, frequentei um curso de arte digital em computador que vi de imediato que me podia oferecer possibilidades noutras áreas.

Quanto tempo leva para desenhar uma página? Segue horários? Como é o seu dia entre trabalho, leituras, informação, ócio, vida familiar?
João Amaral:
Isso depende do estilo que uso. Tenho páginas em que explorei o hiper-realismo que normalmente entre esboço e trabalho de cor me demoravam uma semana, a trabalhar de manhã à noite. Quando uso out-line preto, o trabalho de cor é mais rápido, mas mesmo assim uma prancha demora-me sensivelmente entre três a quatro dias de trabalho intenso. O meu dia é fundamentalmente passado nisso. Os amigos até brincam comigo, dizendo que saio duas vezes por dia da “caverna” para tomar café. Digamos que só à noite é que desligo um bocadinho e estou com a família. E, por vezes até as fins-de-semana são sacrificados em prol da arte. Nos poucos tempos livres que tenho, dedico-me fundamentalmente à leitura de banda desenhada, cinema e a ver algumas séries de televisão.

O que Tex representa para si?
João Amaral:
É uma série da qual gosto muito. E, será provavelmente para a História, um dos últimos westerns que se mantêm em continuidade. É indiscutivelmente um justiceiro que faz a sua própria lei, defendendo aqueles que, na realidade, provavelmente nunca tiveram quem os defendesse da forma que Tex o faz nas suas aventuras: ou seja, os índios. Esse é um dos aspectos que mais me atraem na personagem. E gosto muito também do humor do velho Kit. Há diálogos entre ele e Tex que são uma verdadeira pérola no que ao humor diz respeito.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
João Amaral:
A minha colecção é pequena, tanto mais que teve um interregno de vários anos, porque não encontrava as aventuras do ranger em lado nenhum. Digamos que tenho umas largas dezenas de revistas. É-me também difícil definir uma que seja mais importante para mim, pois há várias das quais gosto muito. Posso referir, por exemplo, que fiquei muito contente quando finalmente adquiri o Tex desenhado pelo Joe Kubert, uma vez que eram dois amores que se uniam. Por um lado, podia ler mais uma aventura de Tex, por outro ia matar a curiosidade de ver como é que um dos desenhadores que mais admiro tinha abordado este universo.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
João Amaral: Colecciono unicamente alguns livros.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
João Amaral:
As histórias que mais me marcaram já as referi anteriormente. Depois, há várias outras que me dão muito gozo ler, umas mais pelo trabalho dos artistas, outras porque o argumento está muito bem escrito. Os desenhadores de Tex que mais aprecio são indiscutivelmente o Fabio Civitelli e o Claudio Villa, mas também gosto muito do trabalho de Fusco e de Ticci. E, recentemente estou a descobrir o Bianchini, do qual também me estou a tornar fã. Em relação aos argumentistas a minha grande admiração vai indiscutivelmente para o Gian Luigi Bonelli. Ele conseguiu urdir histórias verdadeiramente fantásticas e conseguiu colocar o ranger em várias temáticas que vão desde o puro western ao terror. Tudo aquilo em que o Tex se tornou deve-se sobretudo à imaginação dele. Mas também gosto muito do trabalho de Nizzi, do Segura e do Boselli.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
João Amaral: Tex representa muitas vezes o tipo de herói que gostaríamos de ser. Daí a sua popularidade que ultrapassa gerações. Afinal, ele não tem medo de nada nem de ninguém. E está sempre pronto a lutar contra as injustiças que assolam o mundo ontem, como hoje. Esse é, de facto, um dos factores com o qual me sinto mais identificado. Em relação ao que me agrada menos, não há propriamente nada. Digamos apenas que só tenho pena de que, nas aventuras mais recentes o Jack Tigre não tenha aparecido tanto, como considero que devia aparecer, até porque ele é uma das personagens pela qual nutro uma enorme simpatia.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
João Amaral: Penso que já respondi um pouco a isso na pergunta anterior. E, nestes tempos de crise que vivemos os ideais do ranger contra as injustiças tornam-se ainda mais relevantes. Por isso, penso que os seus dias estão longe de chegar ao fim. É verdade que as suas aventuras se passam numa época histórica concreta, mas os seus ideais e o seu sentido de justiça continuam plenos de actualidade. E existem histórias que podemos considerar como verdadeiras metáforas sobre a actualidade. E é isso que julgo que torna Tex uma personagem com um invejável número de admiradores.

E como vê o futuro do ranger?
João Amaral: Se as boas ideias, histórias e desenhos continuarem a imperar, como tem acontecido até agora, vejo que terá uma vida ainda bastante longa.

Além de BD, que livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
João Amaral:
Os livros que mais tenho lido para além da BD, têm sido maioritariamente de ficção científica. Tenho mesmo uma grande admiração por escritores como Phillip K. Dick ou Philip Jose Farmer. Mas também tenho lido romances e livros históricos. No fundo, gosto de tudo o que me faça transportar a outros mundos, sejam eles quais forem. No cinema, também tenho uma predilecção especial pelo cinema fantástico, o cinema de animação e o western, sobretudo o bom western spaghetti.  Já na música, sou muito ecléctico e o meu gosto vai desde Wagner a Heavy-Metal, passando pelas grandes bandas de rock progressivo e sinfónico. E a música é muito importante para mim, uma vez que não me concebo a trabalhar sem estar a ouvir um CD.

Para concluir, o que nos pode dizer sobre os seus projectos futuros?
João Amaral:
Os meus projectos futuros passam obviamente pela banda desenhada. Saiu muito recentemente Cinzas da Revolta, um álbum desenhado por mim e que marca a estreia de Miguel Peres, um jovem que penso poder vir a tornar-se um excelente argumentista. Esse álbum tem a sua acção passada em plena Guerra Colonial, apesar de ser uma obra de ficção. Para além disso, tenho outros projectos, mas ainda é muito cedo para falar nisso.

E chegamos ao fim. Há alguma coisa que você gostaria de dizer? Algo que não lhe foi perguntado e que gostaria que nossos leitores soubessem?
João Amaral:
Desejo apenas uma longa vida a este blogue, da mesma forma que a desejo ao Tex, pois permite-nos, não só ter acesso a muita informação e curiosidades à volta do mundo de Tex que, de outra forma não conheceríamos, bem com o ver desenhos inéditos. Para além disso, para mim é sempre gratificante ver alguns pequenos filmes que o blogue vai introduzindo, com os grandes mestres a  trabalhar num desenho da personagem. Por fim, quero dizer que vale sempre a pena lutar por um sonho, mesmo quando ele, por vezes, implica o termos de fazer alguns sacrifícios e muitas vezes é constituído por avanços e recuos.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. O João Amaral é um dos artistas mais em destaque na “nova vaga” da BD portuguesa (embora já com uma longa e apreciável carreira) e um dos maiores apaixonados pelo “western” que conheço.
    Claro que as histórias de Tex não o podiam deixar indiferente… tanto mais que, a nível artístico, são do melhor que já se fez neste domínio. E não se pode negar a influência que o “western spaghetti” (um dos géneros preferidos do João) exerceu sobre criadores como Aurelio Galleppini, Gian Luigi Bonelli e Guido (Sergio Bonelli) Nolitta, que mais do que ninguém elevaram Tex ao estatuto de ícone da cultura de massas, assegurando-lhe uma longevidade e uma popularidade que são um fenómeno único no campo da BD “western“.
    Isto só para dizer que gostei bastante das declarações do João nesta entrevista, embora para mim não sejam novidade, pois já o conheço há muitos anos. E aqui lhe deixo um grande abraço e muitas felicitações pelo êxito que o seu mais recente trabalho, “Cinzas da Revolta“, está merecidamente a obter.

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