TEX SEM FRONTEIRAS: O Céu é o limite

Por G. G. Carsan*

TEX SEM FRONTEIRAS

“O Céu é o limite”

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Até onde pode ir a loucura de um coleccionador de Tex para estar o mais próximo possível do seu ídolo, amigo e irmão? Já pensou nisso? Então faça uma análise. Cada um ao seu modo, os coleccionadores têm feito loucuras para manter-se criança, para ter a sua porção mensal de estímulo da moral e justiça deste mundo. Alguns anos atrás fiz este boneco, 12cm, de biscuit, para enfeitar a minha biblio-tex. Era o começo.

Há um ano, entrei para o mundo do artesanato paraibano e passei a conviver com muitos mestres de variadas tipologias artesanais, aprendendo ainda mais a valorizar a cultura local e adaptando algumas ideias para a minha realidade. No fundo, vivemos fazendo isso a todo o momento. É uma necessidade humana que tentemos nos adequar a tudo que nos rodeia e adaptemos também o que nos interessa. Assim, ao ver o Mestre Zaia, um escultor renomado pelo Brasil afora – com passagem pelo Programa do Jô -, esculpindo na argila os bustos de visitantes de um Salão de Artesanato onde eu trabalhava, veio-me a imperiosa necessidade de também posar para aquele artista nato me transfigurar para o barro.

Na primeira oportunidade não deu certo, mas cheguei a conversar com ele sobre o assunto e ficamos de voltar à conversa mais adiante, quem sabe no seu ateliê – situado junto ao Farol do Cabo Branco, na Ponta do Seixas, em João Pessoa, no ponto mais oriental das Américas. Ir até o Mestre Zaia é viajar pela Paraíba e por aí. Ali, sob a copa frondosa de muitas árvores existem redes para o visitante relaxar e curtir as diversas esculturas feitas para ornamentar o local, bem como uma espécie de museu, onde diversas peças importantes ficam expostas. O serviço custa 2,00 Reais (moeda brasileira)por pessoa.

Foi somente no segundo evento que consegui posar para o artista. Primeiro marquei um horário possível, num dia possível, haja vista que o seu stand é sempre muito concorrido e ocorre uma aglomeração de pessoas para assisti-lo trabalhar. Eu estava a trabalho, coordenando o evento na parte da montagem e organização de alguns serviços como segurança, limpeza e cuidados com a estrutura. Vestia a roupa, ia lá e pouco depois voltava ao trabalho. Em 20 minutos ele faz um busto de 30 cm de altura, à perfeição, ao espelho de quem se senta à sua frente. E todos ficam admirados.

Vestido como Tex Willer, diante de muitos turistas que passavam, fiquei parado, imóvel, concentrado. Ele queria fazer não um busto, mas a minha figura completa. Disse que havia lido muitos Tex e fez-me várias perguntas. Começou pelas botas e na primeira vez foi até à cintura. Não podia fazer tudo de uma vez, pois o barro não ficaria firme, não suportaria o peso. Dois dias depois fez o tronco e os braços. Era muito estranho ver-me sem cabeça. Tive que esperar endurecer e somente na semana seguinte pude ver a figura completa, sem os detalhes, sem o chapéu. O evento terminou e combinamos de continuar no ateliê.

O pessoal passava e ficava perguntando quem era. A pergunta mais ouvida: É John Wayne?

A visita seguinte foi num evento que ele estava participando. Conseguimos avançar um pouco depois de duas tentativas sem sucesso. Ele muito ocupado ou com problemas pessoais para resolver. É, os artistas também têm problemas. Dessa vez levei o póster do Tex que veio junto com o Tex Coleção 300 para ele se ater nos mínimos detalhes. Nessa ocasião, pude dar alguns palpites, pedir para dar um retoque aqui, outro ali, uma arrumada no chapéu, a posição dos braços sobre as armas. E ainda assim, sempre sai algo diferente, mas que não influencia tanto no conjunto da ópera.

Depois de pronta, a escultura foi para o fogo a 800 graus para ganhar a esperada dureza e resistência. Somente aí pude ir ver e recebê-la, e pagá-la. Fizemos um acordo de cavalheiros, conforme havíamos combinado a priori. Digamos que paguei a metade do preço convencional comprometendo-me a divulgar e a convidá-lo para os eventos que realizo ou participo.

Chegando em casa, uns dias de namoro para ir acostumando com a fisionomia, as inevitáveis comparações e uma tomada de decisão difícil: deixar em barro como estava, pintar em alumínio ou bronze, pintar nas cores do nosso querido Tex. Uma semana de várias ideias e lá fui em busca das tintas nas tão conhecidas cores que me permitiriam finalizar a minha loucura.

Embora não seja um pintor, não me foi tão difícil. Pintando, descobri alguns problemazinhos que talvez pudessem ter sido evitados. Agora estava mais difícil. O barro estava duro. Talvez lixando desse para arrumar. Tolice! Uma escultura feita na hora, ao vivo, com tantos detalhes, dificilmente ficaria como um desenho, onde se faz, refaz, e se volta a fazer, principalmente sendo realizado por mestres como os nossos desenhadores texianos do pincel. Na verdade, aqueles detalhes são os que enriquecem o trabalho, como me foi observado por um amigo.

Uma vez pintada, a escultura fica junto de revistas, quadros, pósteres e banners na bibliotex, como mais um item de coleccionador e dando testemunho da continuidade da minha permanente loucura. A estátua tem 72 cm de altura e pesa entre 5 e 10 kg, ainda não fiz o peso oficial.

Agora posso ver-me 24 horas por dia vestido como Tex, facto que só acontece nos eventos, duas a três vezes por ano. Todos sabem o quanto é difícil vestir essa roupa. Muitos companheiros de aventuras já me disseram que não teriam coragem. O motivo é sempre o mesmo: a vergonha. Confesso-lhes que até vestir a roupa é fácil, pois é um facto como outro qualquer e a roupa em si pode passar despercebida. Agora vai colocando botas de cano alto, esporas, um coldre com dois revólveres de brinquedo e te sentirás um pouco, ou muito para alguns, fora de contexto. Como explicar para as pessoas leigas que vão te olhar e se perguntar o que está acontecendo? Muitos pensam que estou a gravar um filme. E coloca um lenço preto e depois um chapéu de abas largas. Caminha assim por aí. Experimenta ficar parado num local, exposto aos olhos do pessoal e às suas mais íntimas suposições. Afirmo que a vontade de divulgar a personagem, de mostrá-la para os leigos supera tudo isso. Acredito que vestido como Tex fico revestido por uma auréola de representatividade e repasso convicção sobre o que falo em palestras e encontros. E por outro lado, utilizo a legítima tarefa de chamar a atenção para o livro que publiquei.

Dito isso, agora vocês sabem tanto quanto eu e poderão do alto de vossas competências e sapiências, dar o seu veredicto. Para mim, há uma desculpa: a necessidade de apresentar novidades em cada evento texiano que participo leva-me a imaginar modelos de chamar a atenção. O que leva à admiração dos visitantes e infiéis é a grande variedade de objectos e volumes, principalmente os mais inesperados. A minha experiência com esses eventos diz que há três públicos diferentes: o dos coleccionadores que só têm olhos para os exemplares, principalmente os especiais; o dos coleccionadores que respiram os artistas convidados e os visitantes que ficam encantados com itens fora de linha. No meu caso, trabalho mais com a primeira e última opções. Em tempo, há aqueles que transitam bem nas três esferas. Felizmente, hoje há a onda do ‘cosplay’, que significa vestir-se como o seu herói favorito e participar de eventos de quadradinhos, de concursos, de performances, e isso tem facilitado nesse mister. No ano passado, arrebatei o 1º. lugar num concurso do 5º. HQPB, na categoria desfile.

Se para Tex não há fronteira capaz de pará-lo quando a lei e a ordem precisam se impor, parece natural que para um texiano de carne e osso também possa ser assim. De facto, nos últimos 15 anos, tem sido assim para mim, sempre atento à realidade do meu herói predilecto e procurando manter acesa a chama da minha juventude, sempre buscando beber na fonte da justiça, da lei, da igualdade, da irmandade, da solidariedade, da amizade.

E certamente somente quando morrerem é que muitos texianos largarão a sua condição de coleccionadores, de facto. Até lá, o céu será sempre o limite.

Pos scriptum: Ainda assim, muitos espíritos insaciáveis ou saudosistas poderão invadir as ‘bibliotex’ na calada da madrugada e folhear as amadas revistas e reler suas queridas aventuras.

Viva Tex!!!

* G.G.Carsan, 46 anos, paraibano, fã, coleccionador e divulgador, começou aos 7 anos a ler Tex e nunca mais parou. Realizou 5 exposições em João Pessoa, escreveu várias aventuras para Tex (algumas publicadas na Internet) e um livro sobre a personagem no Brasil. 

Escreve para o Portal TexBr e participa de chats e comunidades no Orkut. Fez matérias especiais para o HQ Maniacs e Universo HQ nas comemorações de 60 anos. Mantém a biblioteca aberta para visitantes.

5 Comentários

  1. Parabéns, G. G. Carsan! Nós estamos esperando o seu segundo livro sobre o Ranger mais temido do Oeste. Você é o nosso pard estátua viva de Tex. 😉
    Abraços texianos.

  2. FANTÁSTICA idéia, caro pard. Algo assim só poderia sair da cabeça de um grande texiano como você. E fica um ítem colecionável ESPECIALÍSSIMO. PARABÉNS pelo trabalho especial e incansável em divulgar o ranger mais destemido do oeste. E que venha logo o second book
    Abração.

  3. G.G.Carsan, você realmente é o maior divulgador do ranger mais amado do oeste. A bonelli e a Mythos, deveriam lhe agradecer todos os dias, pois você tem se empenhado demais em manter acesa a chama da aventura, sem pedir nada em troca. Abraços.

  4. Agradeço as mensagens e as falas dos amigos acima. Muita bondade de vocês.
    Espero que venham aqui vê-la e batermos um papo.
    Realmente, rapazes, é um grande barato curtir Tex e contar com grandes pards como vocês.
    Abraço,
    G.G.Carsan

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