Texone #26 – Le iene di Lamont

Por Sílvio Raimundo

Série/Número – Texone #26
Título–Le iene di Lamont
Argumentista – Claudio Nizzi
Desenhador/Capista – Ernesto Rudesindo Garcia Seijas
Letras – Monica Husler (Esposa de Giovanni Ticci)

Sinopse: Numa tarde de Verão o trem chega à estação de Lamont, no Montana, nele está a bela e jovem Katie Evans e à sua espera está Harry Strode, trazendo-lhe a triste notícia de que o seu Pai está morto, mas, não será esta a única noticia ruim que recairá sobre a jovem naquele dia. Contemporaneamente também está indo a Lamont, Tex e seus pards, no encalço de Hogan e Rucker, procurados por roubo a banco e tentativa de assassinato. O destino se encarregará de unir os caminhos dos quatro cavaleiros indómitos e a indefesa e deserdada mocinha.

Considerações – Álbum

Em 2011 houve duas publicações da série anual Speciale, a primeira em Julho com o #25 e a segunda em Novembro com o #26, tal facto ocorrera uma única vez antes, quando em 1996 foram publicados os Texoni de Magnus (Roberto Raviola) e Jordi Bernet.
Desta vez o editor Sergio Bonelli decidiu voltar a publicar dois álbuns no mesmo ano para não deixar roteiros escritos pelo Nizzi – que se aposentou – pendentes de publicação.
Outra coincidência que se repete também neste álbum diz respeito à nacionalidade do desenhador convidado. Com os álbuns #14 e #15 aconteceu de simultaneamente aparecer pela primeira vez, dois desenhadores não europeus na série dos Texoni, agora, com os #25 e #26 aparecem em sequência dois desenhadores argentinos.
Já no expediente podemos notar algumas mudanças estruturais administrativas da Editora em relação à última publicação. A substituir Sergio Bonelli como Director Responsável está  Graziano Frediani e Davide Bonelli que antes ocupava o cargo de responsável pelo marketing, agora assume a Directoria Geral.
O editorial ainda é escrito por Sergio Bonelli e há uma nota explicativa dizendo ser aquele o último que ele escrevera para esta série, e que como de costume no meio editorial, ele o tinha feito antecipadamente.

Considerações – Desenhos

Este álbum é por demais curioso, em verdade, até à sua publicação ele era meio que uma lenda urbana. Todos sabiam da sua existência, alguns privilegiados já tinham visto as suas pranchas originais na gaveta de Sergio Bonelli, mas, de facto, o motivo da sua não publicação não se sabia, porém, muito se especulava. Havia comentários na Itália de que o álbum não tinha ainda sido publicado devido à qualidade da história ser muito abaixo da média apresentada. De acordo com as palavras do próprio artista, tanto na entrevista do álbum quanto naquela concedida ao Jesus Nabor aqui mesmo no blogue do Tex, houve muitas revisões e páginas redesenhadas, chegando a um total de 11, isso por conta das muitas mulheres que nelas apareciam. Também Sergio Bonelli, chegando a chamar de um desenvolvimento perfeccionista, fala sobre as várias alterações do roteiro, feitas por Nizzi e propostas por ele próprio.
O artista argentino iniciou os trabalhos de desenhar o roteiro de Nizzi em 2000 e de acordo com o cronograma estabelecido pela SBE, o álbum deveria ir às bancas em 2003, no #17 da série, porém, a conclusão do trabalho só se deu um ano após a data estabelecida e assim, este que deveria ser o cartão de visitas Texiano de Seijas para nós leitores, ficou arquivado por longos sete anos e trabalhos concluídos bem depois vieram à luz antes:

Almanacco del West 2007 (No Brasil Almanaque Tex #33), Tex #571 – L’assedio degli Utes – Maio/08 (No Brasil Tex #474 – O assédio dos Utes – Abril/09), Tex #572 – Il fugiasco – Junho/08 (No Brasil Tex #475 – O fugitivo – Maio/09), Tex #598 – La prova del fuoco – Agosto/10 e Tex #599 – Um Ranger per nemico – Setembro/10 (No Brasil Almanaque Tex #43 – Agosto/11).

Ironicamente quis o destino que Sergio Bonelli não visse este álbum publicado e, no que diz respeito aos desenhos, ele é magistral. Com excepção da grande franja penteada da esquerda para direita, com a qual o jovem Kit foi concebido, os quatro pards foram muito bem definidos. Os ambientes, tanto os internos quanto os externos são desenhados com uma grande riqueza de detalhes e as cenas “rodadas” à noite são muito belas.
Como diferencial, neste trabalho posso citar a técnica da esponja humedecida no nanquim, utilizada por Seijas de modo a dar um efeito de sombra ténue.
Alguns momentos, mesmo sendo de grande tensão nervosa, foram desenhados de uma maneira um tanto cómica, como a briga do restaurante por conta do preconceito em relação a Jack Tigre, com especial atenção à terceira e quarta vinheta da página 51 e terceira da página 53, isso obviamente devemos a Nizzi, que tinha uma veia excelente para o humor, basta darmos uma espiada na trilogia de Leo Pulp. Também no tiroteio final da história, de uma forma mais branda, as quatro vinhetas das páginas 216 e 218 foram concebidas de uma forma usualmente voltada ao cartum, já isto é crédito ou débito apenas do Seijas.
Umas das influências citadas pelo artista argentino é o italiano Hugo Pratt, pai de Corto Maltese, cujo antagonista é o Rasputin, repare então quando estiver lendo este volume, o quanto há de semelhança entre este e o ladrão de bancos procurado por Tex, Rucker. Aproveite e repare também se você já não viu antes o “Doc” Nelson. Se você esqueceu onde foi, vá à página 16, lá está ele no auto-retrato do Seijas, só mudou o formato dos óculos.
Alguns pequenos deslizes há neste álbum, talvez, devido ao facto de ter que redesenhar tantas páginas, o artista pôde se dar ao luxo de esquecer alguns detalhes:

Em alguns momentos os bolsos da camisa de Tex têm costura dupla, em outros não, na primeira vinheta da página 121 a camisa de Tex não tem bolsos nem botões, na quarta vinheta da página 33, a tábua vertical da esquina da casa está incompleta, já na terceira vinheta da página 181 a casa reaparece na mesma posição, porém, dessa vez apresentando um lampião entre a janela esquerda e a porta e, sob a mesma janela, um banco. Antes estes objectos não estavam lá.

Mas afinal, o motivo das páginas redesenhadas seria mesmo mulheres desnecessárias ao roteiro? Boa pergunta e que possivelmente ficará sem resposta, mas, aquelas que foram permitidas ficar… Elas são lindas! A jovem Katie Evans foi desenhada de forma a nos mostrar a sua beleza estonteante, mas, também a sua fragilidade e ingenuidade e Seijas fez isso de uma forma que impressiona. Já a madrasta má, Vera Cain (sobrenome sugestivo) além de vil e dissimulada, é linda e voluptuosa e Seijas deu-lhe além dos olhos e dos cabelos claros, um busto cujo decote é difícil de não chamar a atenção. Interessante esse detalhe ter passado incólume pelo crivo de Sergio Bonelli.

Considerações – Roteiro

Para que um leitor sinta-se satisfeito com uma história da sua personagem preferida, é no mínimo necessário que o roteiro lhe surpreenda de alguma forma, tarefa um tanto difícil para um argumentista que está a escrever a vida de uma personagem já com mais de 60 anos ininterruptos de publicações. A tarefa de Nizzi foi desde sempre, de certa forma inglória, pois, ele substituiu “apenas” o Pai de Tex Willer nos roteiros, o que fez com que os leitores sempre os comparassem. Nizzi também teve a missão de fazer a transição temporal da personagem, de modo a adequá-la à actualidade, onde os leitores – mesmo os mais longevos – já não são mais tão ingénuos quanto no inicio e não se contentam com pouco, teve também que tornar a personagem Tex “politicamente correcta” sem bater tanto, sem fumar, enfim.

Além de todos os pontos acima, existe hoje um diferencial muito grande em relação ao tempo passado e o presente naquilo que concerne ao contacto entre o argumentista e o leitor, que são as formas de se fazer ouvir que este último agora dispõe. A internet, os e-mails, as redes sociais estão disponíveis em tempo real e no minuto seguinte à leitura o leitor já pode expressar os seus pontos de vista e uma multidão de outros tantos poderá ler e opinar, anteriormente isso era impensável e o argumentista reinava absoluto, restando aos leitores conversarem com os seus iguais sobre determinadas histórias, isto quando existiam os seus iguais. 

De facto, a missão de Claudio Nizzi à frente de Tex nunca foi das mais fáceis, mas, o certo é que este africano de 74 anos está ao lado do Ranger desde 1983, ou seja, há 28 anos, tendo assinado o primeiro Texone, o primeiro Almanacco del West e contabilizando apenas as histórias publicadas pela SBE, foram 251 roteiros, isso não é pouco.

Em uma gama tão grande de histórias escritas por Nizzi, muitas foram fantásticas, outras nem tanto, mas um dos maiores vilões que Tex já enfrentou foi criado por ele e apareceu em três momentos diferentes da saga do Ranger, estou a falar do Tigre Negro, mas, infelizmente esta que é a penúltima história de Nizzi no mundo Texiano, é fraca. 

Enquanto Tex está descobrindo o quão preconceituosa é a cidade em relação aos nativos norte americanos, no Rancho Circle T Katie está descobrindo que lhe estão mentindo, sofre um assédio por parte do chefe dos vaqueiros, Billy Hoker com a conivência da sua madrasta e descobre, que apesar de tudo, ainda pode contar com a protecção do querido “Tio” Martin Elder. Para salvaguardar a deserdada Katie este a leva para a casa de Erik Jorgen, amigo de infância dela e ao sair de lá encontra Tex e seus Amigos. Aqui acontece um momento um tanto constrangedor, pois Martin lembra-se dos quatro Pards, mas estes não se recordam dele. Apesar disso há uma conversa entre eles no Saloon, onde Martin indirectamente pede ajuda para a sua sobrinha postiça. 

Nós nos acostumamos com Tex e seus Amigos protegendo quem quer que seja, mesmo que não se conheçam previamente e isso é muito natural, pois a regra diz que devemos nos ajudar mutuamente, independente da raça ou do credo, mas, é no mínimo estranho o encontro entre os Pards e a garota após a conversa com Martin, se é que podemos defini-lo como um encontro, já que durante todo o tempo em que estão no jardim da casa dos Jorgen, ela permanece a conversar com o seu amigo Erik e nem ao menos cumprimenta os seus novos guardiões. Katie é o fio condutor da trama, é em cima dela que a história se desenvolve, no entanto, ela simplesmente some dela e não reaparece até o seu final. Sendo uma personagem central, ela foi pouco aproveitada e perdeu-se uma oportunidade de se fazer uma grande história. Com isso, tivemos um roteiro insosso com idas e vidas sem sentido algum e com passagens no mínimo estranhas: 

Tigre sofre preconceito e isso culmina em uma briga ferrenha no restaurante Steak’s Paradise, o vice Xerife prende os Pards e obriga-os a pagar os prejuízos ao proprietário, Muller! Tex sabe que os ladrões, Hogan e Rucker, supostamente estão trabalhando no Circle T, isso lhe fora dito pelo próprio capataz do Rancho, mas, não faz absolutamente nada para investigar, até ser “convidado” para uma emboscada no rancho. O que nos leva a alguns bons quadradinhos de acção e a prisão de Harry Strode, mas, não nos alegremos, pois, ao contrário do que qualquer um poderia crer, ela não elucida nada do que deveria!

Durante toda a história os Pards ficam rodando sem rumo, especulando sobre o possível complô armado contra Katie, sem obter prova qualquer. Martin sofre um atentado e pelo menos três pessoas podem ser culpadas, mas, Tex vai ao Rancho e acusa Vera Cain sem nenhuma prova, o que o faz ser repreendido pelo Xerife Baxter, que finalmente voltou não se sabe de onde e nem o porquê da sua partida! 

O final da história finalmente chega e nos faz concluir que Tex é abençoado por uma sorte inimaginável. Novamente ele acusa a viúva de Evans sem provas, apenas com suposições e interroga-a sobre quem seria o culpado pelos disparos contra Martin, “no momento certo” aparece o vaqueiro Billy Hoker, para dizer que estava presente “no momento certo” do atentado e viu quem teria disparado e assim, tudo se resolve milagrosamente, sem que Tex tenha de facto feito qualquer acção que levasse criar uma situação de solução para os casos que se apresentam nesta história.

Pelo menos podemos contentar-nos com o facto de, em um julgamento com direito a Juiz, tribunal, banco de réus, acusação e defesa, a história se encerre com a justiça sendo feita. E com isso encerra-se também a participação de Claudio Nizzi no mundo dos Texoni (a sua última história, desenhada por Lucio Filippucci, será publicada na série normal), se justo ou não, não sabemos, mas, por tanto tempo a nós dedicados através do nosso Amigo de papel, resta-nos pelo menos lhe dizer um MUITO OBRIGADO

Tendo que abonar este álbum em uma escala de um a cinco winchesters e levando em conta que o roteiro tenha me desagradado tanto, o último Tex Gigante de Nizzi leva – infelizmente – apenas três Winchesters.

9 Comentários

  1. O Nizzi na realidade nunca decepcionou, não merece críticas tão absurdas que o levaram para aposentadoria, um Tex do jeito que os colecionadores autênticos apreciam, porém com a modernidade, alguns leitores talvez queiram um Tex voando ou jogando teia de aranha pelos pulsos.
    Exige-se muito do Nizzi e o faroeste dele é de primeirissima grandeza, agradeço cada edição escrita por ele que foi fundamental para o Tex e Bonelli.

  2. Olá Antonio!

    Não se pode agradar a todos, não é mesmo? Talvez se hoje nos despuséssemos a analisar tudo o que o G L Bonelli escreveu para o Tex, será que realmente tudo nos agradaria? Os tempos são outros, as nossas visões acerca de tudo tende a mudar. Mas, você acha mesmo que foram as críticas que levaram o Nizzi à aposentadoria? Será que se fosse mesmo isso ele já não teria se aposentado mais cedo? Eu creio que isso se deu por conta da idade e o cansaço.

    Forte abraço e boa leitura do Texone 26!

    Sílvio Introvabili

  3. Grande Amora!

    Tenho certeza de que vais gostar, os desenhos do Seijas estão maravilhosos em tamanho maior do que estamos acostumados.

    Abraços e boa leitura!

    Sílvio Introvabili

  4. A maioria dos grandes personagens do quadrinhos como Fantasma, Homem-Aranha, Batman, Superman, Mandrake e outros clássicos tiveram algumas poucas historias fora de série, se compararmos com Tex de G.L.Bonelli-Nizzi veremos centenas de grandes histórias, mesmo os roteiros mais fracos do Tex são bem superiores a qualquer hq mundial, no entanto, vejo com indignação tantas criticas nos ultimos anos, enaltecendo até o péssimo Ken Parker, críticas que nos fizeram perder o grande Nizzi, e daqui a pouco quem sabe Boselli…

  5. Grande Antonio!

    Gosto e ponto de vista realmente são bem diversos com relação a quem os expressa e, claro, têm que serem respeitados. Só para exemplificar, eu por exemplo acho o Ken Parker o melhor que há no mundo dos personagens de Faroeste, superior até mesmo a Tex. Mas, como falei, ponto de vista e gosto cada um tem o seu.

    Um forte abraço e ótimas leituras Texianas!

    Sílvio introvabili

  6. Você se daria melhor criticando o Ken Parker… tem que ressuscitá-lo e conseguir mais do que os 300 leitores de Ken Parker no Brasil, não podemos comparar Ken Parker com Tex, a diferença é absurda, Ken Parker saiu das bancas porque é ruim, Tex continua porque é o melhor, Nizzi é muito superior ao Berardi.
    O único erro do Sergio Bonelli na vida foi permitir um Tex com Berardi, que foi bem ruim… por ter pouquissimos leitores quem gosta do Ken Parker divulga que é melhor que o Tex, porém, a realidade é bem diferente…

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