Tex “E venne il giorno” (E chegou o dia): Entrevistas exclusivas com os autores Mauro BOSELLI & Bruno BRINDISI

ALERTA: As entrevistas que se seguem com Mauro BOSELLI & Bruno BRINDISI revelam algumas surpresas da história “E venne il giorno” (Color Tex italiano nº 1, de Agosto de 2011), e a sua lida antes da publicação da revista no Brasil e Portugal pode tirar toda a graça, emoção e suspense que se cria com relação à aventura.
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Entrevistas conduzidas por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli e Roberto Pagani na formulação das perguntas, de Bira Dantas nas caricaturas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino nas traduções e revisões.

MAURO BOSELLI

A ideia inicial de E Chegou o Dia (ou seja, a suposta morte de Kit Carson) vem da época em que você trabalhava com G. L. Bonelli nos roteiros de Tex. O que os impediu, cerca de trinta anos atrás, de concretizar a ideia e transformá-la em roteiro? Temiam que pudesse ser considerada excessivamente diferente das clássicas aventuras texianas de então?
Mauro Boselli: G. L. Bonelli gostou do argumento, mas ele é quem deveria fazer o roteiro e creio que juntos não chegamos a um final satisfatório, por isso a história acabou no esquecimento, como muitas outras.

A importância de Carson na saga é fundamental: aqui o Camelo Velho parece ter partido desta terra e o facto trágico suscitou emoções variadas nos seus companheiros. Pode-se afirmar que você administrou a morte de Carson de maneira crível, ainda que os leitores já imaginavam que, de algum modo, Cabelos de Prata havia se salvado. É difícil administrar situações desse tipo?
Mauro Boselli: Alguém disse que Tex sofreu pouco em relação à morte da esposa contada por Bonelli e pela suposta morte do filho contada por Nizzi. Acrescento que esquece-se que já no período bonelliano clássico da saga, em duas ocasiões Tex presume que Carson esteja morto mas não demonstra sofrimento. A verdade é que são homens duros, a morte os acompanha e a eventualidade de partir desta para a melhor é um facto evidente e aceito. Tex não chora pela morte de um companheiro de armas (o que aconteceu muitas vezes) mas intimamente ele sofre, só que não mostra. Ele age. E depois, na minha história ele não está de todo convencido, como se pode perceber por vários indícios.

Você afirmou várias vezes que escreve os seus roteiros no braço, a seguir o instinto e a inspiração do momento. Houve algum vacilo, alguma hesitação ou diálogo que não o agradou ao escrever a cena principal da história, aquela em que Tex e seus pards vão ao túmulo do velho Ranger dado por morto?
Mauro Boselli: Raramente eu reescrevo um diálogo. Também nesse caso eu creio que veio-me de forma espontânea.

Para muitos leitores as páginas de introdução, com os jovens Tex e Carson, representaram um mergulho no passado que os levou às atmosferas dos primeiros números da série, também graças ao facto de que a cena não é narrada com o costumeiro expediente dos quatro pards em volta de uma fogueira a contar histórias do passado, mas é escrita em gravação directa. Esse expediente narrativo poderia voltar no futuro? Seria uma novidade ver os dois Rangers agir como antigamente, imprudentes e impulsivos.
Mauro Boselli: Sobre os dois Rangers jovens é uma boa ideia. Vou pensar seriamente nisso.

Como se vê no romance que você escreveu, Tex Willer, O Livro da Minha Vida (n.t.: título provisório da edição a sair no Brasil em 2012), o Ranger é um homem de sentimentos muito profundos, muito além do que podem pensar observadores superficiais. Nesta história E Chegou o Dia Tex mostra uma sensibilidade natural mas depois o pensamento seguinte é o de fazer justiça para o amigo desaparecido. Em sua opinião, porque persistem certos lugares-comuns sobre o Tex puro e duro?
Mauro Boselli: Mas Tex é REALMENTE assim. Só que no romance, narrado em primeira pessoa, ele se deixa andar um pouquinho (bem pouquinho) além.

Nesta – como em outras suas histórias – Tex mostra saber garantir a justiça, sempre. O que você pensa sobre eventuais situações em que Tex afirmasse não poder garantir a incolumidade das pessoas a ele confiadas?
Mauro Boselli: Acontece em casos raros, mas já aconteceu. Isso deixa a história mais dramática, mas deve ser uma excepção.

Pelo que se lê na internet, você assinará muitos dos Color Tex a serem publicados. Pode nos antecipar se serão histórias ditas normais ou se é sua intenção propor aventuras particulares que, por exemplo, abordem temáticas e sugestões raramente vistas nas páginas da série mensal, como o que aconteceu em E Chegou o Dia?
Mauro Boselli: Eu não serei o único autor e a escolha dos argumentos não depende de mim.

BRUNO BRINDISI

E Chegou o Dia é a sua terceira história de Tex, depois do óptimo Gigante Os Predadores do Deserto (2002) e de Muddy Creek (Alma Envenenada), publicada na série mensal dois anos depois (n.t.: no Brasil em 2005). Foi indolor essa passagem das atmosferas modernas dos vários episódios de Dylan Dog às ardentes temáticas de Tex, caracterizadas por espaços abertos, suor e pólvora?
Bruno Brindisi: Nunca é indolor, são necessárias no mínimo umas vinte páginas para pegar o jeito, sobretudo com relação aos cavalos, fazia seis anos que eu não os desenhava!

Você trabalhou com Tex em momentos diversos: quais foram as dificuldades – se é que houve – em voltar a desenhar um aventura do Ranger, depois de anos?
Bruno Brindisi: Eu fiz três histórias de Tex com destinos diversos, o Tex Gigante exigia uma dimensão maior, a minha história para a série mensal prosseguia o trabalho muito limpo de Monti, apesar de não ter-me sido solicitado imitar o seu estilo, e o Color Tex eu havia inclusive começado em linha clara, no estilo francês. Depois eu voltei ao início e acrescentei mais tinta preta quando optou-se por uma colorização mais tradicional.

Quando lhe foi proposto desenhar esse Color Tex? Você sabia desde o início que as suas páginas seriam publicadas a cores numa nova série?
Bruno Brindisi: Eu sabia e também recebi um prazo para entrega, ao contrário das outras ocasiões.

O seu traço muito claro adapta-se muito bem às cores: para a ocasião você adoptou artifícios particulares? Quanto e como as cores influenciaram o seu trabalho? Você ficou satisfeito com a colorização?
Bruno Brindisi: Como eu dizia, pensei numa colorização mais realística que aproveitasse todas as possibilidades do meio, mas a decisão foi diferente e ficou muito bom. Quanto a ter ficado satisfeito, a conversa é outra, provavelmente não ficaria nem se tivesse eu mesmo pintado as páginas sozinho, uma a uma, com aguarelas.

Foi por vontade própria ou por solicitação precisa de Boselli que você prestou atenção especial à representação gráfica da cena principal da história (expressividade, actuação das personagens)?
Bruno Brindisi: Fazer Tex actuar não é fácil, normalmente ele tem uma expressão que Sergio Leone definiria “com o chapéu e sem o chapéu” como Clint Eastwood! Obviamente ele não chora nem mesmo diante da sepultura de Carson, quando está furioso não pode fazer uma careta; em suma, é preciso dosar com atenção. Não sei se consegui, certamente eu e Mauro demos tudo de nós para tornar o mais emocionante possível a cena de adeus ao seu pard.

A aventura vai do passado ao presente da saga, e vários cenários e situações se alternam: você baseou-se em documentação própria ou Mauro Boselli enviou-lhe material de pesquisa?
Bruno Brindisi: Por segurança Mauro enviou-me os primeiros números da série, em que Tex e Carson aparecem mais jovens e também forneceu-me algumas fotos de referências para os cenários.

Com esta edição a cores você considera encerrada a sua participação em Tex? O que está a reservar aos seus leitores para o futuro próximo?
Bruno Brindisi: Encerrada? Eu espero que não! Sim, eu faço parte da equipa de Dylan Dog, mas muitas vezes sou solicitado a fazer outras coisas; por exemplo, neste momento estou a concluir uma história ambientada na Índia colonial, com texto de De Nardo, sempre para a Bonelli. Se Tex chamar, estarei sempre pronto para pegar em armas!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. Que bom que o Brindisi se dispõe a continuar com Tex.
    Quanto à suposta morte de Carson e esse livro que o Tex conta a vida dele são temas desnecessários, porém, manter a essencia do personagem, seguindo à risca o velho Bonelli, não vai angariar novos leitores, eu prefiro o Tex às antigas de Bonelli, Nolitta e Nizzi.

  2. Aguardo muito esse grande lançamento no Brasil. Tomara que a Mythos publique no formato italiano e em papel especial.

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