Entrevista com o fã e coleccionador: José Oliveira

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? Quando começou o seu interesse pela Banda Desenhada?
José Oliveira: Sou José Oliveira e nasci numa aldeia perto da Figueira da Foz. A minha infância ainda foi numa altura em que quem queria brinquedos tinha que os construir.
As diversões mais populares para rapazes eram: a bola, o pião, o berlinde, a malha, o prego, o aro, carros de rolamentos, jogo das escondidas, jogo de cowboys, pesca, etc.
As diversões mais populares para raparigas eram: jogo da macaca, do elástico, da estátua, a boneca de palha, etc.

Naquela época, era fácil entrar em contacto com a banda desenhada porque ainda eram distribuídas grandes quantidades por todo o país. Por isso, era normal todas as crianças terem contacto com a BD. Eis algumas das minhas primeiras revistas de BD:

Os jovens de agora não fazem ideia da emoção que dava comprar mais uma revista de BD. Os momentos mais felizes dos jovens eram quando aparecia mais uma revista de BD no quiosque. Não havia cinema, TV, videogames, telemóveis, internet… A BD era a maior fonte de informação e de diversão. Foram os heróis da BD que moldaram a juventude durante gerações fornecendo instrução, educação, diversão e experiência de vida.

Diversão: Uma piada essencialmente visual

Diversão: Uma piada de comportamento

Informação: Muitos factos sobre o universo

Experiência de vida: Há pessoas que só acreditam nas suas ideias

Podemos aproveitar muitas coisas que aprendemos nas páginas da BD na nossa vida. Muitas vezes aproveitamos mesmo sem ter consciência disso. Por exemplo, neste último caso, provavelmente já encontrámos muitas pessoas com ideias erradas e que se negam a aceitar a verdade. Normalmente, é inútil tentar convencer alguém que não quer ser convencido. Essas pessoas podem ignorar-nos mas, felizmente, não podem ignorar a realidade. E, quanto mais tempo as pessoas ignorarem a realidade maior será o choque quando a realidade os colocar num beco sem saída – excepto uma saída para a verdade. Os gregos já diziam uma das grandes verdades da vida: só sei que nada sei! E eu digo: tudo o que eu sei está errado!
Aprendemos muito sobre a vida ao ver os erros das personagens da BD. Assim, aprendemos com os erros dos outros e evitamos cometer nós próprios esses erros. A BD não pode servir apenas para ocupar o tempo. Depois de ler uma revista de BD temos que poder dizer: sou melhor do que era antes.
Eis algumas das leis fundamentais que aprendemos na BD:
– O bem vence sempre o mal.
– Quando os fortes oprimem os fracos, os heróis defendem os oprimidos.
– Os heróis não matam.
– A prosperidade é conseguida com trabalho.

Apesar de nalgumas histórias de BD aparecerem pessoas que são mais animais selvagens que pessoas e, que são eliminados pelo herói como se fossem animais selvagens, também aprendemos melhor do que isso. Por exemplo, digamos que um assassino mata todos os nossos familiares. A opção óbvia para muitas pessoas é a vingança. Mas, uma pessoa evoluída não é inimiga de ninguém e sabe que o lugar para uma pessoa selvagem é na cadeia, tal como colocamos os animais selvagens no zoo para nossa protecção. Além disso, acontece muitas vezes que o problema é que o animal tem um espinho na pata… e basta tirar o espinho.
Imaginemos um agricultor… Quanto mais e melhor um agricultor trabalhar no pomar, mais e melhores serão os frutos para o agricultor e a sua família comerem e ainda sobra para venderem. Quanto mais e melhor trabalharmos para ter uma boa sociedade, mais paradisíaca será a sociedade para todos os cidadãos. Se o agricultor deixar de trabalhar, acabarão os frutos. Da mesma maneira, se deixarmos de trabalhar para a melhoria da sociedade, ficaremos cada vez mais longe do paraíso. A maior parte das crianças percebe isto. Mas, grande parte das pessoas prefere a opção mais fácil: viver no luxo sem trabalhar.
Por estas e por outras razões, os jovens lutavam contra todos os obstáculos para conseguir comprar mais uma revista de BD. Os maiores obstáculos eram os pais: alguns pais achavam que os filhos andavam só a perder tempo e dinheiro. Mas, nenhum obstáculo era intransponível. Uma das soluções mais populares era colocarem as revistas de BD dentro de um livro da escola e fingirem que estudavam. Para aumentar a quantidade de leitura ou aumentar a colecção, os jovens compravam livros usados em vários locais. Em vendedores ambulantes na rua, em feiras, em lojas onde o comércio também se fazia por troca, etc. Isto significa que muitas colecções foram formadas por livros muito usados e mesmo em mau estado.

Quando descobriu Tex?
José Oliveira: Quando eu era pequeno não havia Tex em Portugal. Assim, os meus heróis de BD preferidos começaram por ser os heróis ingleses, americanos e franceses. Nesse tempo, os livros mais parecidos com o Tex eram os Westerns ingleses e vinham na colecção Mundo de Aventuras e Falcão. Estas histórias tinham muita acção e pouco diálogo. Depois vieram os Westerns espanhóis das colecções Caravana Oeste, Façanhas do Oeste e Sioux. Estas histórias tinham muitas raparigas e muito drama humano. Depois vieram os Westerns italianos da colecção Histórias do Oeste. E, finalmente, o Tex.
Mas, quando chegou o Tex eu já não comprava BD porque estava muito ocupado na Universidade e, depois, fiquei ocupado com o meu trabalho de informática. Quando o meu primeiro filho nasceu eu estava a trabalhar em Braga e a minha esposa estava a trabalhar no Porto. Nessa altura decidi trabalhar por conta própria para ficar com horário livre. Durante os tempos mais livres decidi organizar a minha colecção de BD e fazer uma base de dados na internet. Só quando eu comecei a catalogar o Tex para o site BD Portugal é que comecei a ler o Tex. Li todos os livros de Tex que cataloguei e, descobri que tem histórias muito boas. Quem quiser, pode ver no site www.bdportugal.info as centenas de capas de revistas Tex que cataloguei.

Porquê esta paixão por Tex? Qual a sua história favorita?
José Oliveira: Que mais posso eu dizer sobre o Tex? Com tantos fãs a falar sobre o Tex, acho que já disseram tudo o que eu poderia dizer. Todas as pessoas são diferentes mas a paixão pelo Tex é muito semelhante em todas as pessoas. Os livros do Tex que mais me impressionaram foram os da colecção Tex Edição Gigante. Ter tantos desenhadores famosos nesta colecção dá definitivamente grande prestígio ao Tex.
Eu não faço colecção nem para ter todos os números nem para me gabar da minha colecção. Eu faço colecção para aprender e para me divertir. Podem ver alguns livros da minha colecção na foto mostrada aqui ao lado.
Em tantos anos de Tex, é um bocado difícil escolher uma história. Mas, todas as pessoas têm algumas histórias favoritas. Por exemplo, há uma muito boa sobre o namoro de Kit Willer. Essa história tem características que não costumam ocorrer frequentemente nas histórias de Tex: mulheres, romance e drama humano. Mas não me lembro qual é o livro, por isso, aqui vai outra: Tex Coleção #128 – O Misterioso Mister P. Nesta história, Tex persegue um bandido impossível de apanhar porque está sempre a mudar de aspecto.

Como vê o futuro do Ranger?
José Oliveira: O futuro será difícil. Principalmente porque a BD em geral está em decadência de vendas desde os últimos 50 anos. Já é uma grande façanha o Tex ter aguentado tantos anos. Infelizmente, é provável que o fim do Tex ainda chegue durante as nossas vidas. Para retardar o fim, a solução óbvia é introduzir assuntos mais ao gosto dos leitores actuais. Não estou a dizer nada de novo – isto já foi feito em muitas histórias. Mas o objectivo tem que ser tentar que cada nova história seja mais criativa que a anterior.
Se o editor fizer um concurso para os fãs escreverem uma história do Tex, ficará a saber o que os fãs querem. O editor pagará um prémio e ficará com centenas de ideias para histórias. Todos podem dar ideias para salvar o Tex. A maior parte das ideias não será suficientemente boa mas talvez se aproveite alguma coisa.
Apresento a seguir uma ideia para uma história com belas raparigas e ficção-científica. Quero apenas chamar a atenção para novas ideias, por isso, espero que ninguém fique escandalizado por eu profanar o terreno sagrado do Tex com uma história tão afastada do habitual.

Desenhos de G. Letteri e Dan Barry. Cenários do Discovery Channel. História e montagem Zé Oliveira.

Moral desta história: Tex vai onde for preciso para capturar os criminosos… mesmo até ao Inferno! E, que tal começar uma série de videogames com o Tex para competir com a série de videogames da Lara Croft?

E qual o futuro do site BD Portugal?
José Oliveira: Desde os meus 12 anos que eu comecei a catalogar BD para melhor organizar as minhas colecções. Primeiro com esferográfica, depois com uma máquina de escrever, depois com computador ZX Spectrum, depois com computador multi-utilizador Digital MV-8000 e depois na internet. Neste momento, já cataloguei 30.000 livros, gastando todos os meus tempos livres durante 10 anos. Qual é o balanço? Como é natural, algumas pessoas gostam outras não gostam. Algumas pessoas admiram a quantidade de informação, outras acham que não tem informação suficiente. A verdade é que o site não é suficientemente bom porque não é listado em metade dos sites/blogs de BD e não despertou a atenção dos media. Em 10 anos, apenas o canal infantil Panda Biggs é que teve a iniciativa de fazer uma pequena reportagem sobre o site BD Portugal. Portanto, acho que já fiz o bastante. Já copiei a base de dados do site BD Portugal para o site www.bazar0.com e, a partir de agora, toda a gente pode contribuir acrescentando mais informação na base de dados. Para minimizar sabotagens da informação, quem quiser contribuir será obrigado a registar-se.
Quando comecei a colocar a informação no site BD Portugal, várias pessoas começaram a pedir-me livros de BD. Então, comecei a vender os livros que tinha comprado para criar a base de dados e, isto resultou na criação de uma loja de BD. Durante 5 anos gastei o meu dinheiro em livros para criar a base de dados até encher todo o meu espaço disponível. Depois comecei a reduzir as minhas compras e a recuperar o dinheiro. Finalmente, depois de 10 anos, recebi o meu primeiro euro.
Eu fiz o melhor que pude mas, como é natural, algumas pessoas gostam da Loja de BD e outras não gostam. Algumas pessoas abençoam-me por lhes vender os livros que procuravam há anos e outras amaldiçoam-me por eu não ter os livros que elas querem – infelizmente, o armazém já está todo ocupado com os 30.000 livros que estão em stock e não dá para colocar os outros 30.000 que as pessoas pedem. Algumas pessoas pensam que eu classifico bem o estado de conservação dos livros, outras nunca estão satisfeitas com nada – até me culpam dos defeitos de tipografia. Algumas pessoas pensam que eu devo estar a transpirar dinheiro pelos cabelos porque vendo os livros muito caros. Mas, para mim, 1 euro por 10 anos de trabalho não me parece muito. É verdade que muitos dos livros em www.bdportugal.com estão caros mas, isso deve-se ao facto de eu os ter comprado já caros a outros vendedores. Mas, nem todos os livros estão caros. O site tem 30.000 livros à venda e acho que metade deles estão baratos. Os livros que as pessoas procuram mais são os mais raros e, esses sim, estão caros. Mas, acho que a melhor solução será transferir o stock de livros para o site www.bazar0.com onde toda a gente poderá vender os seus livros. Assim, já haverá mais quantidade à venda, mais variedade para escolher e, livros mais baratos. Além disso, o stock do site BD Portugal tem milhares de livros com defeitos que serão colocados à venda no site www.bazar0.com por um preço a partir de 1 cêntimo. Algumas pessoas preferem livros baratos mesmo que tenham defeitos…
Conclusão: os sites BD Portugal serão gradualmente desactivados durante os próximos meses.
A base de dados passará para outro site onde todas as pessoas poderão acrescentar informação.
O stock de livros passará para outro site onde todos poderão vender e comprar livros ou outras coisas que quiserem.
Agora os visitantes é que vão criar a base de dados.
E, os visitantes é que vão vender livros.
Já me posso reformar…
O novo site está a ser construído em www.bazar0.com e está em fase experimental. Poderá haver coisas que não funcionem e poderá haver períodos de tempo em que o site esteja desactivado. Para pagar o equipamento informático e o trabalho dos técnicos, serão usadas as receitas do site www.bdportugal.com. Portanto, o Zé Oliveira continuará sem receber dinheiro. A criação do novo site terá prioridade sobre as compras de livros para a loja de BD, por isso, poderá haver menos novidades na loja. Quanto mais receitas tivermos, mais depressa acabaremos o novo site em www.bazar0.com. Os visitantes podem contribuir para abreviar este processo. Mesmo que não possam contribuir com encomendas, podem fazer publicidade para as pessoas visitarem a base de dados em www.bdportugal.info e fazer publicidade para as pessoas comprarem em www.bdportugal.com. Como o site tem BD dos últimos 100 anos, qualquer pessoa entre 30 anos e 100 anos pode querer recordar os velhos tempos…

www.bdportugal.info – base de dados com 30.000 livros de BD.
www.bdportugal.com – loja com 30.000 livros de BD para venda.

[Zé Oliveira, www.bdportugal.info]

Prezado pard José Oliveira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. Não creio que Tex tenha um fim, sempre teremos pessoas de bom gosto e grandes colecionadores para manter o personagem. Sempre houve crise de quadrinhos no Brasil que às vezes agoniza, mas nunca vai ter fim.
    Boa entrevista…

  2. Já li muitas (e excelentes) entrevistas com fãs da BD no blogue do Tex, mas esta deve ser a mais original de todas. Não há dúvida de que o Zé Oliveira foi sincero e espontâneo nas suas respostas, além de fornecer preciosas novidades (sobretudo para os coleccionadores) sobre as transformações que está a operar no seu negócio com a criação de um novo site. Espero que tenha sucesso…

    Da sua interessantíssima entrevista, permito-me destacar esta frase: “A BD não pode servir apenas para ocupar o tempo. Depois de ler uma revista de BD temos que poder dizer: sou melhor do que era antes.” Nada mais certo, mas nunca vi tal conceito expresso de forma tão eloquente… mesmo tendo em conta que nem todas as revistas (ou histórias) de BD possuem o condão de motivar positivamente os leitores. Mas a frase (em sentido genérico) tem “substância” e merece ser sublinhada!

    Quanto à ideia para uma história de Tex a decorrer no futuro, foi muito bem “esgalhada”, com os desenhos de Letteri e de Dan Barry facilmente reconhecíveis – ainda me lembro da aventura de Flash Gordon em que aparece a rapariga, numa nave destruída pelos temíveis “Skorpis”! -, mas o que conta nesta apresentação são o argumento e o texto, que, mesmo num insólito cenário de ficção científica, poderão servir de ponto de partida para uma excelente aventura e despertar a criatividade de guionistas como Boselli, Faraci ou Manfredi (quem sabe?).

    Aliás, a iniciativa de um concurso entre os leitores em busca de novos temas não é inédita, mas poderá dar bons frutos se os editores tiverem espírito aberto às ideias apresentadas pelos concorrentes. O saldo será certamente positivo e o prémio (ou prémios) não passará de mero pretexto, se os temas escolhidos forem creditados, como é justo, aos seus autores.

    Recordo-me de uma experiência semelhante ensaiada, há muitos anos, nas revistas brasileiras “Calafrio” e “Mestres do Terror” (se não estou em erro), em que o grande desenhador luso-brasileiro Jayme Cortês ilustrou de forma magnífica vários temas propostos pelos leitores. E estes devem ter-se sentido extremamente satisfeitos por verem o seu nome estampado nas revistas, ao lado das respectivas histórias, embora fosse Cortez, com a sua experiência e o seu génio artístico, a desenvolvê-las gráfica e literariamente.

    Quanto à sugestão dos “videogames” de Tex, não me admira nada que essa ideia já ande a bailar na mente dos novos responsáveis da Bonelli editora… porque dantes, com Sergio Bonelli no comando, seria mais difícil, senão impossível concretizá-la, por causa do seu espírito muito conservador e avesso às novas tecnologias, como sabemos.
    Por isso, acredito que Tex, num futuro mais ou menos próximo, mesmo sem encontrar uma porta para outra dimensão, poderá ainda deparar-se com muitas (e boas) surpresas… para contentamento dos seus fãs!

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