Entrevista exclusiva: FABIO CIVITELLI (autor convidado para o 17º Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu)

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Jorge Machado-Dias, Jorge Magalhães e Pedro Cleto na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (redactor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

O XVII Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, a realizar de 10 a 21 de Setembro próximo e cuja temática é o das  “Cidades na BD“, traz pela QUARTA vez Fabio Civitelli a Portugal, que deste modo, tornar-se-à o primeiro autor de nível internacional a ter sido convidado para estar presente nos quatro maiores eventos relacionados com a banda desenhada no nosso país, motivo mais que suficiente para esta nova entrevista do blogue português do Tex com o autor aretino que estará presente em Viseu nos dias 10 e 11 de Setembro, onde receberá inclusive o Prémio Anim’Arte 2010.

Para além da presença de Fabio Civitelli aquando do fim de semana inaugural do Salão, Viseu terá também uma nova exposição dedicada ao Tex:  “As cidades do Tex” e dela constarão 18 pranchas deste que é  um dos mais conceituados desenhadores do Ranger e que terão como pano de fundo, muitas das cidades onde Tex comparece ao longo da saga.

Caro Fabio, bem-vindo de volta ao blogue português de Tex. Depois dos grandes sucessos obtidos no País com as suas presenças (2007 em Moura, 2008 na Amadora e 2010 em Beja), você agora é o convidado de honra do 17° Salão Internacional de BD em Viseu, e torna-se assim o primeiro autor de nível internacional a ser convidado aos quatro maiores eventos que têm por objecto os quadradinhos em Portugal. O que isso significa para si?
Fabio Civitelli: Este novo convite é, para mim, motivo de grande satisfação. Significa que as minhas visitas anteriores foram do agrado do público dos texianos portugueses, que o meu trabalho é apreciado no vosso belo País e que, sobretudo, sou cada vez mais considerado o embaixador de Tex. Se as mostras, os debates, e as sessões de autógrafos significarão interesse, alegria e diversão aos leitores, eu ficarei muito feliz.

Em Viseu você receberá o prémio Anim’Arte 2010. Com que estado de ânimo o receberá? E já agora quais são as suas expectativas em relação ao Salão de Viseu?
Fabio Civitelli: Será uma grande honra receber esse apreciado reconhecimento, que considero sobretudo um prémio a Tex, do qual sou apenas um dos desenhadores. Tex é uma personagem que considero muito mais importante que os próprios artistas que a realizam e, sempre que um autor da equipa texiana obtém reconhecimentos, todos nos felicitamos, a começar por Sergio Bonelli, sempre impressionado positivamente com o afecto e a atenção que o Ranger suscita junto ao público português.

Os fãs portugueses de Tex são, de algum modo, diferentes dos outros que você conheceu? E em relação àqueles brasileiros?
Fabio Civitelli:
Os aficionados por Tex caracterizam-se por um amor total pela personagem, e isso acontece em todos os Países em que é publicado, mas é claro que nos Países latinos isso é percebido com mais destaque: tanto na Itália quanto em Portugal o público presente às mostras é mais quente e aficionado, mais curioso para ver as antestreias e desejoso de expressar as suas opiniões. E, nesse sentido, devo dizer que não vi diferenças particulares em relação ao público brasileiro, também esse muito simpático e expansivo.

Pode nos contar alguma história curiosa ou divertida que você viveu durante alguma de suas visitas a Portugal?
Fabio Civitelli: A minha participação na manifestação de Beja do ano passado foi caracterizada pela possibilidade de rever todos aqueles fãs que eu havia conhecido em Moura e na Amadora, mas a coisa mais divertida foi o encontro com o grande Hermann: quando cheguei ao hotel ele reconheceu-me de imediato (eu já o havia encontrado na Croácia) e, para meu grande espanto, ele pediu-me um desenho de Tex para um amigo belga. Incrível, eu não sabia que em Bruxelas Tex era conhecido, e muito menos o meu trabalho!

Em Beja nós o vimos desenhar Tex ao lado de Red Dust, que Hermann já havia desenhado na mesma folha. Enquanto você desenhava Tex veio-nos à mente que, se Jean Giraud estivesse presente àquele memorável almoço, talvez tivesse desenhado Blueberry. Seria sem dúvida outro desenho histórico e sem preço, não concorda? Os três cowboys europeus mais conhecidos no mundo da BD são personalidades distintas – talvez Red Dust mais próximo a Blueberry. Qual a sua opinião sobre esta diferença entre os três: o que distingue Tex, sempre limpo e barbeado (mesmo depois de alguns dias no deserto) de Dust e do tenente rebelde de Giraud, quase sempre sujos e com a barba quase sempre por fazer?
Fabio Civitelli:
Eu tenho uma recordação por demais agradável daquele almoço e, quando voltei para casa, o meu amigo José Carlos mandou-me uma cópia daquele desenho, que tenho afixada no meu estúdio. A bem pensar, é justo notar a diferença com Red Dust e, se queremos, também com Blueberry: esses representam um Oeste quem sabe mais realístico, mais sujo e poeirento, mas penso que isso seja, sobretudo, culpa do meu estilo, talvez por demais nítido e limpo. Se olharmos ao belíssimo Tex de Giovanni Ticci (que, além de meu amigo querido, considero o mestre de todos nós), essas diferenças são muito leves, e também nas suas páginas respira-se a verdadeira atmosfera do Velho Oeste. Claro que poder fazer um desenho com o grande Giraud seria a realização de um sonho!

Por ter estado mais de uma vez em Portugal, você conhece algum facto da nossa História? Gostaria de sugerir algum tema aos desenhadores portugueses?
Fabio Civitelli: Depois de visitar duas vezes o Brasil e ter visto os muitos sinais da colonização portuguesa na América do Sul, eu gostaria de ver algum episódio daquele período, da exploração aventurosa daquele imenso território. Daí poderia sair um belíssimo western sul-americano!

Alarguemos um pouco o horizonte da entrevista: pela qualidade, pelo nível e pelo reconhecimento de público e de crítica que atingiu, você sente-se um autor de Tex diferente (no sentido de superior) dos demais?
Fabio Civitelli: Nem um pouco! Como eu já disse, considero esses prémios mais dirigidos a Tex do que a mim. Mas certamente eu fico muito orgulhoso, assim como tenho orgulho de trabalhar com uma personagem tão importante, numa equipa prestigiosa que compreende alguns dos maiores autores italianos de todos os tempos! Quanto a mim, nos últimos dez anos eu busquei desenvolver um estilo mais pessoal e autónomo e, com isso, cada prémio conforta-me sobre o facto que esta minha busca seja apreciada e considerada como um valor agregado para a série (tanto que, como muitos devem saber, Sergio Bonelli fez-me a grande honra de chamar-me para realizar um Tex Gigante, chamado de Texone na Itália, que deve sair no próximo ano).

Há alguma história de Tex não assinada por si e que você apreciaria ter realizado?
Fabio Civitelli: Certamente O Passado de Carson, que eu considero uma verdadeira obra-prima. É uma pena que a minha colaboração com Mauro Boselli tenha começado há apenas dois anos (mas antes tarde do que nunca)!

Se lhe fosse proposto desenhar novamente uma aventura clássica de Tex, por exemplo, de autores como Galep ou Lettèri, como imagina que cumpriria a tarefa? E que história escolheria desses autores?
Fabio Civitelli: Desde jovem eu sou fascinado pela clássica história do extraterrestre (O Vale da Lua), que considero perfeita como texto e desenhos, com um Galep no esplendor da forma. Não creio que redesenhá-la levaria a particulares melhorias, mas entro no jogo e digo que é esta que eu gostaria de ilustrar: eu poderia trabalhar muito sobre os claros-escuros e sobre os efeitos especiais, claro que sem mostrar a criatura e a deixá-la sempre envolvida pelas sombras.

Se não fosse desenhador dedicado a Tex, que outra personagem lhe agradaria ter levado adiante por 25 anos?
Fabio Civitelli: Antes de Tex eu trabalhei por alguns anos com Mister No, uma personagem que amei demais e da qual eu era leitor há anos: se a publicação não tivesse sido encerrada, eu gostaria de desenhar uma história de vez em quando, como fiz em 1993 para o primeiro Almanaque da Aventura. Mas como trabalho continuado por tantos anos, Tex é o que eu sempre desejei, e por essa razão jamais tive o pensamento de dedicar-me de forma estável a outra BD.

Num certo momento da sua carreira você desenhou O Quarteto Fantástico e Homem-Aranha. Já pensou em reinterpretar, ao seu estilo, Dust ou Blueberry, ou qualquer outra personagem da BD que lhe agrada?
Fabio Civitelli: Como eu disse, Tex representa o trabalho que eu quero fazer com continuidade, e somente se surgisse a ocasião de realizar um Blueberry, eu poderia traí-lo momentaneamente, mas seria só uma escapadela, uma fraqueza momentânea!

Você tem a ambição de, um dia, criar uma personagem toda sua?
Fabio Civitelli: Certamente não. Eu espero apenas poder sempre trabalhar com bons roteiristas e fazer histórias cada vez melhores.

Na sua opinião o que é mais importante numa BD: o desenho ou o roteiro? E quais são, sempre na sua opinião, os ingredientes de base numa história aos quadradinhos?
Fabio Civitelli: Eu penso que os dois elementos têm a mesma dignidade e importância; mas também é verdade que uma bela história com desenhos medíocres (e agora falo como leitor de BD) é sempre preferível a uma história ruim desenhada bem. O sucesso de Tex nasceu das características da personagem e do tipo de histórias que Bonelli e seus herdeiros escreveram em todos esses anos: tivesse sido uma personagem banal com histórias banais, não teria bastado a arte de Galep a fazer dela tamanho sucesso. É claro que, para um desenhador, pode ser frustrante saber que, por melhor que possa trabalhar, jamais poderá salvar uma história ruim! Quanto à segunda parte da pergunta, não creio que se possa responder com poucas palavras, mesmo porque não existe uma fórmula matemática para produzir bons quadradinhos.

Você já pensou em usar a informática e, como alguns desenhadores, mirar a novas técnicas, ou este é um método que não lhe agrada? Em caso positivo, porque?
Fabio Civitelli: Eu sou absolutamente contra o uso do computador no desenho, mas isso é um ponto de vista estritamente pessoal. Eu gosto do carácter artesanal da BD, eu gosto de ver as páginas originais desenhadas à mão, e não impressões laser, eu gosto da leve imperfeição dos contrastes desenhados a pincel ou feitos com pontinhos, e também gosto que exista um mercado de desenhos originais que premeia o trabalho manual e artesanal (e, digamos, artístico).

Gostaríamos da saber algo mais sobre a sua técnica de desenho (belíssima, em nossa opinião): quando começa uma história, imaginamos que você deva documentar-se sobre os cenários, as armas, etc. Certo? As figuras humanas que desenha são totalmente criadas por si ou usa modelos como auxílio para certas posições do corpo, expressões ou outros detalhes?
Fabio Civitelli: Na verdade a minha técnica é bastante tradicional, tanto que eu uso quase exclusivamente o pincel e o nanquim para a arte-final, e deixo as hidrocores apenas para os pontinhos. Claramente tudo começa com a documentação, hoje bastante fácil com a internet, depois eu desenho a página a lápis – e recorro, para as poses mais difíceis, a fotografias e fotogramas de filmes western que capturo de DVDs com o PC. Também tenho álbuns nos quais colecciono as fotos para certos assuntos, como atirar com o revólver, com a espingarda, cavalgar, ou primeiros planos com belas sombras. Também busco não repetir as mesmas poses ou os mesmos sombreados, então sempre busco novas imagens para recortar. Mas também é importante não se deixar condicionar pelas fotografias, e sim usá-las apenas como ponto de partida.

Como você analisa a ponte entre a escola clássica e a moderna nos quadradinhos italianos? Você concorda que houve uma evolução contínua na BD popular e uma ruptura naquela de alguns autores?
Fabio Civitelli: Por sorte a BD chamada popular teve uma evolução no sentido de uma qualidade cada vez maior, favorecida também pela possibilidade que o editor hoje nos concede para dedicar mais tempo a cada página isolada. No caso de Tex, a presença contínua ou eventual de tantos mestres dos quadrinhos de autor representou uma rápida queda da barreira que parecia separar os dois géneros. De minha parte eu busco aplicar o mesmo empenho se desenho Mister No ou Tex e, se fosse chamado para realizar Blueberry, eu continuaria a trabalhar no máximo de minhas possibilidades, como sempre fiz.

Sabemos que a maior parte dos profissionais, depois de começar a trabalhar com BD, praticamente deixa de lado a leitura de quadradinhos. Você lê alguma personagem? Em caso positivo, qual o seu género preferido?
Fabio Civitelli: Eu comecei a amar os quadradinhos desde pequeno, como leitor, e sempre mantive o prazer da leitura. Eu penso que é importante, também como autor, continuar a acompanhar o mercado e as novas personagens. Pessoalmente, além de Tex eu leio com muita regularidade Dampyr, Dylan Dog, Martin Mystère, os Romances em Quadradinhos e quase todas as mini-séries. Há alguns anos eu comprava muitos comics americanos, mas agora a qualidade dos super-heróis parece-me fraca e leio somente autores de ponta como Mignola, Ross, Hitch e poucos mais. Quanto à BD franco-belga, além de Blueberry eu acompanho o trabalho de Hermann e (do brasileiro) Leo. O meu preferido é Tex, que leio desde os meus oito anos!

Fabio, agradecemos muitíssimo pelo tempo que nos dedicou mais uma vez. Se desejar aproveitar este espaço para deixar uma mensagem aos seus admiradores que comparecerão em Viseu, sinta-se em casa.
Fabio Civitelli: Espero encontrar muitos leitores, aos quais ficarei feliz em mostrar as páginas do meu Tex Gigante que estou a finalizar e que deve ser publicado em 2012, e os desenhos que fiz para o livro de ilustrações O Meu Tex e para a biografia texiana publicada na Itália na Primavera de 2011 para a Editora Mondadori. Espero que todo esse material em antestreia possa interessar ao público português (que a mim parece muito atento e também muito exigente!). Então, até breve. E viva Tex!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

13 Comentários

  1. Muito boa esta entrevista com Civitelli, sempre humilde e claro nas suas respostas, e reconhecendo em Ticci o seu mestre, realmente Ticci é um artista genial onde em suas aventuras se respira o verdadeiro velho oeste.
    Nei Campos!

  2. Raros são os autores de BD (e não só) que, nas suas intervenções públicas, aliam ao talento artístico a simpatia, a afabilidade e o poder de comunicação, reforçando a sintonia com os que lêem e apreciam as suas obras. Fabio Civitelli possui todas essas virtudes e ainda mais: a modéstia, a simplicidade, a lhaneza de trato, expressas em cada palavra, em cada atitude, em cada gesto. É, sem dúvida, um grande embaixador texiano e, acima de tudo, do seu belo país e da cultura que dele irradia, ainda hoje, para todo o mundo; e um artista a quem a saga de Tex e a BD western muito ficarão, para sempre, a dever.
    Um aplauso também para a caricatura de Bira Dantas, tão perfeita que merece nota 20!

  3. Bela matéria\entrevista. O mestre Civitelli é, sem dúvida, um grande profissional e achei fantástica a declaração dele onde eu e ele temos o mesmo ponto de vista sobre arte e roteiros.
    De fato, um roteiro medíocre, mesmo com um bom desenho, não
    segura uma publicação. O sucesso do nosso querido ranger se deve muito as boas histórias de seus escribas.
    Civitelli tem se mostrado um grande e simpático embaixador de Tex! Tá valendo, Zeca!

  4. Civitelli, é uma grande pessoa acima de tudo!!

    Um artista grandioso e humilde, que trata a tod@s muito bem, atendendo às vezes, umas loucuras de fãs, que vemos acontecer (eu estive e acompanhei um pouco disto na FestComix 2010 e Gibicon nº 0 – 2011) e sem perder o bom humor e acima de tudo, com grande jogo de cintura!!

    Parabéns pela matéria e um grande evento para @s pards, aí em Portugal!

  5. Uma aula de quadrinhos! Entrevista maravilhosa!!! Obrigado a todos que proporcionaram esta leitura e aprendizado. Obrigado, Civitelli!

  6. Eu sou fã de Civitelli. Gostaria muito de conhecê-lo e levá-lo na rádio onde trabalho. kkk
    Sou fã de tudo que ele faz em Tex.. vida longa ao Civitelli.
    Gostaria de um curta metragem do Civitelli. O sonho de Tex, seria legal… Abraço…

  7. Fantástica entrevista do mestre Civitelli, mostrando a inteligência, coerência e simpatia que lhe são características.
    Parabéns aos autores da mesma.
    Fantástica caricatura, parabéns.

  8. O Civitelli é um cavalheiro. Acredito que muitos dos que trabalham com Tex, se são colecionadores, incorporam tenazmente a índole do Ranger. O mesmo deve se dar com os roteiristas.
    Fabio reúne e externa facilmente três qualidades difíceis para uma pessoa do seu nível intelectual e artístico: espontaneidade, simplicidade e alegria.
    E sua alegria não é pouca, pois pode ser captada em cada fotografia, tanto nos lábios quanto nos olhos. E quando se sorri pelos olhos, projeta-se e espelha-se uma alma alegre.
    Posso citar Retorno a Culver City como a aventura que mais gosto das desenhada pelo Civitelli.
    Gostei da sua resposta que fala de um roteiro de faroeste no Brasil. Isso é muito badalado por aqui, mas não sai do campo das idéias. Quem sabe não está prestas a acontecer?
    Tenho muito orgulho de ter podido estar lado a lado com Ele, numa palestra, a seu convite, ouvindo e sendo ouvido, conseguindo a sua atenção. Inesquecível. E isso comprova a grandiosidade desse Mestre.

    G.G.Carsan

  9. Excelente entrevista! Mais um incentivo à presença em Viseu! Estarei lá e espero cumprimentar todos os amigos texianos que também forem e o grande mestre Civitelli!

  10. Sem dúvida nenhuma o meu desenhista preferido da nova geração. O mestre dos mestres, e mesmo não tendo a felicidade de conhece-lo pessoalmente, nas suas fotos ele irradia uma simplicidade e uma simpatia que até parece que já o conhecemos a muito tempo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *