Tex “Faccia di Cuoio” (Cara de Couro) : Entrevistas exclusivas com os autores Mauro BOSELLI & Marco TORRICELLI

ALERTA: As entrevistas que se seguem com Mauro BOSELLI & Marco TORRICELLI revelam algumas surpresas da história Faccia di Cuoio” (Tex italiano nº 603, de Janeiro de 2011), e a sua lida antes da publicação da revista no Brasil e Portugal pode tirar toda a graça, emoção e suspense que se cria com relação à aventura.

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Entrevistas conduzidas por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli e Roberto Pagani na formulação das perguntas, de Bira Dantas nas caricaturas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino nas traduções e revisões.

MAURO BOSELLI

Esta trama é particular porque recorda, pelo ritmo e pelas contínuas reviravoltas, certas histórias do período em que eram publicadas em tiras. Seria apenas uma nossa impressão nostálgica de leitor?
Mauro Boselli: Creio que é uma impressão ditada exclusivamente pelo carácter nostálgico dos desenhos de Torricelli. Não há nenhuma abordagem pensada nesse sentido. É uma história normal, até demais.

A intriga apresenta um golpe de cena duplo, com vilões de várias gradações: Randy, por exemplo, parece um desafortunado que se mete em problemas porque não sabe regular com frieza a sua antipatia em relação a Dempsey. A evolução de Randy havia sido pensada ou, enquanto a história era escrita, a sua figura tomou um caminho próprio?
Mauro Boselli: Tudo previsto. Numa história curta não se faz alterações desse nível. Na verdade, mesmo se deixo a mão correr solta, eu JAMAIS altero de forma excessiva a natureza de uma personagem em relação às intenções originais.

Cara de Couro contém vários temas apreciados por G. L. Bonelli: os relatos obscuros em volta da fogueira do acampamento, os ricos que fazem o que bem entendem na cidade, as pausas no hotel de Tex e seus pards, o branco que é considerado um homem sagrado pelos peles-vermelhas, os crimes misteriosos que Tex investiga. Vêm à mente histórias dos anos 50 e 60 como O Homem dos Quatro Dedos, Old Pawnee Bill ou O Vale do Terror. Com esta aventura você quis agradar os leitores de velha data, a homenagear aquele período da história de Tex que está na base do enorme sucesso da personagem?
Mauro Boselli: Voltemos à primeira pergunta: é uma impressão influenciada pelo aspecto retrô dos desenhos de Torricelli. Se eu pretendesse efectivamente homenagear aquele período, escreveria uma história bem diferente! Os elementos citados simplesmente fazem parte da série.

À parte raras excepções, aos olhos dos leitores as histórias de Tex que começam e acabam numa só edição, por serem mais simples e lineares, tornam-se menos emocionantes se comparadas a outras que se desenvolvem em mais de um número. Visto que o seu estilo implica o uso de inúmeras personagens e com uma elaboração de tramas muito articuladas, quando monta um roteiro é um problema para você a quantidade limitada de páginas que tem à disposição nesses casos particulares? Quando desenvolve um argumento, você já sabe com segurança se será uma história longa ou curta?
Mauro Boselli: É evidente que sempre sei qual será o destino final. Mas não concordo que as histórias curtas devam sempre ser mais simples. Esta é na medida exacta.

Com referência apenas às histórias que você assinou nos últimos meses, nota-se que passou com desenvoltura das tramas policiais de Cara de Couro ao faroeste puro do Almanaque, de aventuras em que a História predomina (A Mão do Morto e Os Rebeldes de Cuba) a outras caracterizadas por ideias decididamente aventurosas em que a fantasia galopa a rédeas soltas, como por exemplo o número 600 (n° 500, no Brasil). Transparece cada vez mais a sua vontade de sempre diferenciar os episódios de Tex. É você mesmo quem sente a necessidade de sempre variar a abordagem para não entediar os leitores ou também deve seguir exigências específicas da redacção? Em comparação com a época dos clássicos de G. L. Bonelli, os episódios fantásticos praticamente desapareceram.
Mauro Boselli: Deveria ser NORMAL para um autor buscar variar a receita, não? Eu mesmo não me divertiria em servir sempre a mesma sopa. Sobre os episódios fantásticos… bem, os tempos mudaram, mas eu gosto demais deles. E, cedo ou tarde, os leitores voltarão a ver alguns.

MARCO TORRICELLI

Para muitos leitores de Tex a sua história Cara de Couro é um verdadeiro mergulho no passado. Nenhum entre as dezenas de desenhadores que trabalharam na série havia se inspirado de forma tão clara no criador gráfico da personagem, aquele Aurelio Galleppini que já faz parte da lenda da BD popular italiana. Pode nos explicar as razões da sua escolha? Foi uma homenagem pensada à arte de Galep ou você sentiu a necessidade de fazer os leitores voltarem às origens da série?
Marco Torricelli: Tex pode ser feito de várias maneiras, o importante é que inspire autoridade, carisma, força, inteligência e sabedoria. Ou seja, as qualidades do herói mas com algo mais, típico das personagens bonellianas: a humanidade. O rosto de Tex que mais expressa esses conceitos é, na minha opinião, aquele desenhado por Galleppini. Para a minha escolha talvez tenha contribuído também a lembrança afectiva pelo grande artista que, nas poucas vezes em que nos encontramos em seu estúdio, eu o via, como ele dizia, envolver as figuras com o pincel. Do mesmo modo como fazia o rosto de Tex, cuja mandíbula não era traçada com uma única linha que seguia até o queixo, para continuar do outro lado até a testa, mas que surgia da sombra tracejada com sabedoria sob o queixo, para que o rosto assumisse consistência e volume. “É carne, não madeira“, ele me dizia. Esse é o conceito do seu realismo. Eu busquei ser fiel ao que pude aprender com ele, e que sempre achei correcto. Então, mesmo se eu pudesse criar outros rostos possíveis, para mim Tex é o de Galep.

Quando amadureceu a ideia de fazer essa homenagem ao Tex de Galep? E antes de começar a ilustrar o roteiro de Boselli, você conversou sobre isso com ele ou não?
Marco Torricelli: Se pode-se falar de homenagem, também teria a ver com Giovanni Luigi Bonelli, vista a colaboração de Mauro Boselli com ele, mas não pensávamos nisso. Simplesmente eu pedi uma história curta para habituar-me à personagem, e é possível que Boselli tenha demorado para imaginar um argumento adequado às 110 páginas, mas ele o fez.

Na sua opinião, quais seriam as maiores dificuldades para um desenhador ao encarar a lição de Galleppini: o rosto de Tex ou, quem sabe, o costume de seguir o modelo de Ticci?
Marco Torricelli: Eu creio que os desenhadores bonellianos em geral não tenham grandes dificuldades. Mas Tex é um ícone dos quadradinhos e, ao desenhá-lo, cada ilustrador busca um caminho próprio. Eu sei que no futuro veremos novos e interessantes rostos do ranger, pois os novos talentos da Editora estão a crescer e trarão novas ideias.

Quais foram os comentários da redacção no momento em que receberam as suas primeiras páginas?
Marco Torricelli: Mais que a redacção, quem telefonou-me foi Sergio Bonelli, que as apreciou e encorajou-me.

Você já havia ilustrado alguns roteiros de Boselli publicados nas séries de Zagor e Dampyr, histórias fantasy ou de terror que a crítica geralmente coloca entre os seus melhores trabalhos. Mas Cara de Couro é uma história de faroeste, apesar de alguns toques de trama policial, na qual encontramos pastos, estouro da manda, cobóis, povoados, etc. Você sentiu-se à vontade com esses ambientes? Por que voltou a desenhar Zagor, apesar do bom resultado dessa sua primeira experiência texiana?
Marco Torricelli: Eu fiquei contente com o facto da história ter uma abordagem clássica, com gado longhorn e caubóis. Fotografias de época, Red River (Rio Vermelho) – o filme com John Wayne, Montgomery Clift e Walter Brennan – e os quadros de Frederic Remington, tudo isso acompanhou-me nas ambientações aventurosas sob os céus tempestuosos da pradaria. Eu sentia-me como tivesse voltado aos belos filmes de antigamente, todos aqueles a que assisti com o meu pai, que era um aficionado pelo faroeste. Eu voltei a Zagor para fazer o Zagorone, o Zagor Gigante.

A propósito, é iminente a publicação desse seu Zagor Gigante, a coroação da sua carreira na Sergio Bonelli Editore, que já conta vinte e cinco anos, com uma história intitulada O Castelo no Céu, na qual parece que o roteirista Moreno Burattini fez algo de acordo com o seu gosto pelo fantasy. Um evento que os inúmeros aficionados zagorianos esperam com impaciência. Mas quais serão os seus compromissos para o futuro próximo? Pode-se falar de um retorno seu a Tex ou a estreia em outras séries?
Marco Torricelli: Eu considero Moreno Burattini um génio, capaz de escrever qualquer coisa e com perfeição. Na aventura comemorativa dos cinquenta anos da personagem de Nolitta e Ferri, página após página ele mostra o trabalho dos escritores de aventura, a descrever dificuldades, introspecção, solidão e busca, com um final digno – exactamente – de um grande escritor. Eu já comecei uma nova história de Zagor com ele.

O seu traço tem um estilo mais europeu se comparado àquele da escola pictórica do Renascimento italiano como o de Galep; porém, em Cara de Couro parece que você sempre teve o estilo galleppiniano. Sabemos que você conheceu Galep: pode nos contar algum facto pitoresco?
Marco Torricelli: Para uma história do Velho Oeste eu pensei em usar um estilo quase de ilustrador, com cuidado para não fazer algo iconográfico. Eu não havia decidido imitar Galleppini, e o estilo que segui, mesmo que em parte siga as suas pegadas, não foi projectado. Neste ponto deve-se entrar na história da BD e até naquela de toda a Arte e de todas as artes em geral, de modo a obter uma longa nomenclatura de artistas ligados entre si por temas e técnicas, mas esse é um trabalho para críticos. Direi apenas que o estilo de Galep, muito difícil de imitar, amadurecido, entre outras experiências, daquelas obtidas a desenhar o Mandrake de Phil Davis, e do estilo barroco de Raymond – por sua vez amadurecido sobre Tim Tyler’s Luck de Lyman Young -, nasceu de traços, linhas quebradas, nervosas, e áreas de preto, nos quais cada elemento muda de forma contínua: um cavalo, um cenário, um chapéu, nunca são os mesmos. Isso também deve-se à técnica que ele usava para arte-finalizar traços a lápis bem leves – que às vezes ele apagava um pouco – de modo a lhe permitir um imediatismo absoluto e propositado. Aqui entrava a maestria: saber onde e como aplicar o pincel, sem exagerar nos detalhes. Como eu faço um traço a lápis preciso, uso uma linha quase contínua, subtil e limpa que, no caso de Cara de Couro, segue a lição galleppiniana só em algumas características. Além disso, cada história tem o seu carácter, luzes e sombras próprias. Assim, a única aproximação a Galep, do meu ponto de vista, está em ter buscado reproduzir a fisionomia do seu Tex, que é provavelmente o mais amado pelos leitores. Em Recco, pequena cidadezinha da Ligúria, durante uma mostra de Tex, Galleppini cumprimentava os convidados, sorridente e sereno. Entrou a alta e nobre figura de Antonio Canale (desenhador de Amok), com o impermeável e o boné na mão, um pouco mais jovem que Galep. Os dois mestres cumprimentaram-se felizes, fazia tempo que não se viam e começaram um diálogo muito simpático, com piadas e risadas. Canale, a rir, disse “É, eu gostaria de ter o dinheiro que você tem!“, e Galep, em resposta: “E eu a sua idade!“. Ainda vejo os dois à minha frente.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

5 Comentários

  1. Mais uma excelente entrevista com dois grandes autores da BD italiana, um já de créditos firmados, como Mauro Boselli, o outro a dar os primeiros passos na saga de Tex, com um estilo surpreendente que parece imitar o de Galleppini, mas que, de facto, segundo as suas próprias palavras, revela uma concepção introspectiva da personagem totalmente pessoal.
    Mais uma vez, temos uma entrevista em que os escritores/argumentistas são mais parcos de palavras (mas não de ideias) que os desenhadores, como se estes sentissem uma necessidade mais premente de explicar a sua arte, as linhas com que constroem as suas personagens, a técnica com que procuram despertar as emoções dos leitores. E Torricelli consegue-o, frisando que não é um mero seguidor de Galep, mas um admirador que soube absorver os seus conceitos e sobretudo a força intrínseca que se desprendia das criações do velho mestre.
    A bela ilustração final desta entrevista traduz isso mesmo: um desenhador que partilha o legado de outro artista, com a intenção de homenageá-lo e não de, simplesmente, imitar os seus traços.
    Com a sua abordagem clássica à figura de Tex e dos seus pards, Torricelli parece fadado para estabelecer a ponte entre um passado sempre vivo e um futuro em que a renovação já está à vista.

  2. Apesar de Sergio Bonelli já ter convidado Sergio Toppi para desenhar um Texone (Tex Gigante), o consagrado autor italiano até ao presente nunca chegou a desenhar uma história do Ranger.

  3. Muito massa. Se eu não soubesse que esse Tex era desenhado pelo Torricelli eu diria que Galep voltou as paginas de Tex!!!

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