Entrevista com a fã e coleccionadora: Adriana Couto Pereira

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Adriana Couto Pereira: Sou paulista de São Bernardo do Campo, nasci em 15 de Abril de 1976. Sou bióloga e professora de anatomia humana no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Palmas.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Adriana Couto Pereira: O meu interesse por quadradinhos nasceu há muitos anos, quando a minha tia, que então não tinha filhos, levava para minha casa as suas revistas já lidas de Turma da Mônica e Tio Patinhas. Eu praticamente aprendi a ler nessas revistas e tenho até hoje algumas dos anos 80 guardadas com carinho.

Quando descobriu Tex?
Adriana Couto Pereira: O meu pai coleccionava Tex desde 1977. No início, eu não me interessava muito por aquelas revistas feias e sem cor. O roteiro era muito complicado para uma criança e, durante a adolescência, tudo o que os meus pais gostavam só podia ser chato, ridículo e idiota. Aí, adolescentes são um horror. 😀
Fui redescobrir o Tex em fins de 2003, durante a minha 1ª gravidez, e aí apaixonei-me para nunca mais o largar.

Porquê esta paixão por Tex?
Adriana Couto Pereira: Acho que o Tex tem uma liberdade que todo o mundo gostaria de ter, tanto física quanto mental. Ele é um arquétipo de mocinho e ao mesmo tempo tem acções que todos gostaríamos de poder fazer algum dia, como esmurrar abertamente alguém que disse/fez algo que nos desagrada.
Olhando além da questão de comportamento, acho que as ideias de igualdade e justiça que os roteiros oferecem são muito bem aceitas e fazem acreditar-nos de novo em heróis “de carne e osso”, que mesmo sem poderes especiais estão dispostos a ajudar o outro.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Adriana Couto Pereira: Ui, essa é difícil. Acho que é um conjunto de circunstâncias que fazem dele um herói único. Posso mencionar a dualidade entre o mocinho e a pessoa durona que faz justiça a qualquer preço; o velho oeste (que por si só é algo que não me interessa quase nada, só quando relacionado ao Tex); a fraternidade entre ele e os pards (as minhas histórias favoritas são aquelas onde todos trabalham juntos); os roteiros e desenhos absolutamente bem feitos, em sua maioria bem “amarrados” e coerentes, etc. Não consegui pensar em uma única coisa que o Tex tenha que ninguém mais tenha, acho que é um conjunto de características, mesmo.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Adriana Couto Pereira: Hahaha, mais uma difícil. Deixa eu ver… Estamos no número 494 da série regular, que tenho todos. Mais 40 Almanaques, 77 Tex Ed. Histórica, 23 Gigantes (não comprei as histórias reeditadas, apenas incorporei aqueles lançados pela Globo à numeração da Mythos, porque não gosto de comprar histórias repetidas. Ainda mais quando são tão caras), 11 Tex Anuais, 5 Tex Ouro, 6 Tex e os Aventureiros, 7 Especiais (3 mini-séries e o Especial 60 anos), 2 Grandes Clássicos de Tex, 4 Especiais lançados pela Globo (foram lançados 6, ainda faltam 2, acho), um Almanaque do Faroeste e um único italiano (144 – Mohaves). Isso tudo dá um total de… 715 revistas. Ah, tenho também o livro do “Ídolo de Cristal”. Ok, 716 fechou.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Adriana Couto Pereira: Coleccionaria outras coisas, mas aqui no Brasil não lançam praticamente nada e os brindes que vinham antigamente nas revistas, acho que o meu pai perdeu. Fora revistas, só tenho um quadro autografado e os livros do G. G. Carsan e do Civitelli.

Qual o objecto Tex que mais gostava de possuir?
Adriana Couto Pereira: Eu adoraria possuir o caderno. Também o bonequinho e a camiseta.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Adriana Couto Pereira: Eu adoro “Os Assassinos”, publicada em Tex Gigante 7, acho que é minha favorita. O Nizzi é um óptimo argumentista, ele tem uma imaginação gigantesca para escrever o tanto de histórias que já escreveu. Entre tantos óptimos desenhadores, acho que meu favorito é o Fusco.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Adriana Couto Pereira: Eu gosto mais das histórias ao “ar livre”, com índios, cavalos, búfalos, etc. O que eu menos gosto é a distribuição e a falta de propaganda. Isso irrita-me profundamente…

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Adriana Couto Pereira: O seu comportamento implacável mas extremamente justo, independente da cor da pele de seu interlocutor. E ele foi sempre assim, desde a origem. Acho isso muito benéfico.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Adriana Couto Pereira: Não. A única vez que estive com mais de um coleccionador na mesma sala foi durante o recente Fest Comix…

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Adriana Couto Pereira: Não sei bem como é o mercado italiano/europeu. Aqui no Brasil, vejo que se a editora não cuidar um pouco melhor dos títulos, com propaganda, promoções, divulgação, estaremos sempre com as vendas no limite para que os títulos não sejam cancelados. Acho isso uma pena, pois o Tex pode muito bem falar para as gerações novas de leitores, mas ninguém conhece e portanto ninguém ouve o que ele tem a dizer! Espero estar enganada, mas receio que o futuro editorial seja essa estagnação que temos hoje em dia.
Quanto à trajectória do herói, acho que ele vai continuar fazendo o que vem fazendo há tantos anos. Salvando pessoas, caçando coisas, o negócio da família hehehe! Acredito que ele acompanha muito bem os tempos e os roteiros vão constantemente se modernizando, o que é positivo. Só gostaria de ver um pouco mais de participação feminina nas histórias, pois toda essa misantropia não combina com ele!

Prezado pard Adriana Couto Pereira, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

11 Comentários

  1. Oi Adriana. Muito boa sua entrevista. Aliás, minha história favorita também é Os Assassinos… reli ela em dezembro passado novamente… realmente é uma história fascinante apesar dos clichês hehehe. Abs.

  2. Boa! Mulheres lendo também Tex, participando em festivais e palestras, colecionando fervorosamente as aventuras do nosso Ranger, é um (inequívoco) sinal da vitalidade de um herói que tem sabido resistir à erosão dos anos. E já lá vão 60!
    Mas concordo totalmente com a opinião da Adriana de que já é tempo de Tex ser um pouco menos misantropo.
    Quanto aos esforços que deviam ser feitos pelos editores, nomeadamente a Mythos, para angariar novo público entre os mais jovens, permito-me observar que só isso não chega. O gosto pela leitura e a paixão pelos quadrinhos adquirem-se naturalmente por contágio, desde muito cedo… pois, em geral, como sucedeu com ela, comigo e com tantos outros, as primeiras leituras são as que se fazem com livros e revistas oferecidos ou que se descobriram, por acaso, nalgum recanto da nossa casa, herança de pais, tios ou irmãos mais velhos. E em muitos lares de hoje, infelizmente, cada vez há menos revistas e livros que mereçam a pena ser lidos, incluindo naturalmente os de quadrinhos… daí que os garotos prefiram outro tipo de entretenimento (virtual), sem saberem que, na generalidade, ele em nada contribui para a sua cultura. Será muito difícil sensibilizar para a actividade literária (e ler quadrinhos também ajuda a desenvolver essa função) quem escreve e-mails e sms numa linguagem sintética e quase incompreensível!
    Saudações texianas à Adriana.

  3. Excelente entrevista, parabéns Adriana!!
    Também creio, que a grande difusão leitora se dá na troca entre as pessoas, sempre digo que, ler é um ato basicamente solitário, realizar e participar de feiras, fóruns, exposições e eventos ligados à temática é o caminho para a sociabilização leitora, a troca de ideias e do prazer de ler.
    Como professor (Ciências), utilizo das HQs e demais linguagens artísticas para trazer temas relativos à ‘disciplina/conteúdo curricular’, e também promovo feiras de trocas ou mesmo, como fiz o ano passado, doação, como fiz com vários “Mr. No” que utilizei para ilustrar os biomas brasileiros – eles (slun@s) produziram a partir das imagens a interpretação do bioma estudado, produzindo cartazes com a arte e as demais informações (promoção leitora e promoção do personagem) estudadas sobre o tema – com uma 5ª série do Ensino Fundamental e assim receberam o material: gibi para lerem e já deixei avisado que este ano, farei feiras onde poderão trocar por outros e pegar novos para lerem – atitude simples e eficaz.
    Agora, temos que colocar a editora em seu papel de ser responsável também, ter um marketing atuante voltado à participação em eventos próprios e de terceiros, com banners, promoções e vendas, e mesmo, no apoio de uma comitiva de fãs – produzir camisetas e por o logo institucional da empresa-, falta visão à Mythos e demais empresários do ramo, pensam pequeno como diz o amigo Tony Fernandes.

  4. Nooossa, a entrevista inteira! Que bacana, Zeca, muito obrigada pelo espaço! E quantas fotos, nossa, ficou muito legal mesmo!

    @Paulo Z., sim, a história tem uns tantos clichês, mas é tããão cativante que não dá pra parar de ler antes do final! ^^

    @Jorge Magalhães, verdade que o incentivo à leitura vem de casa. Mas veja a onda de mangás q assolou os adolescentes atualmente… bem q podia ser uma onda texiana, né? (ok, ia precisar de alguns elementos q praticamente não existem nas histórias do Ranger, mas deixa pra lá…) 😛 Enfim, um pouco mais de divulgação não seria nada mal…

    @Wilson Sacramento Também já pensei em usar Mister No e Tex como material paradidático, enquanto trabalhava com EF e EM. Mas agora fugiu do meu público alvo, o q é uma pena. De qualquer forma, estou escrevendo um artigo sobre uso de quadrinhos no ensino de ciências e biologia, e sua experiência me interessou muito! Se vc quiser falar mais a respeito, me escreva um email! (drianis @ gmail.com)

    E obrigada a todos pelos comentários!

  5. Olá Adriana, no caso da Anatomia, daria uma olhada em Júlia, vi algo com o doutor “legista” numa das aventuras dela, comecei a pouco – rsrs!!
    E CSI é excelente nesta área, tem alguns recortes que dá para usar das autópsias que ilustram muito – provavelmente já o sabe.
    Depois te mando um email e estou devendo uma postagem – meio que um relato de experiência no meu blog, passei alguma coisa no Fórum TEXBR lá no Mister No, creio -… ah, me cobra (estou reformando, construindo – minha bibliogibibonelliteca – e tudo junto, está uma doideira e foram-se as férias… rsrs!!)
    wilsondosacramento@gmail.com

    PS: Tomei a liberdade de partilhar o link desta entervista linda via Facebook, sou a favor de compartilharmos estas experiências e assim possibilitar que outros venham a conhecer TEX.

    PS II: Zeca, desconheço o mecanismo do “WordPress” mas no “Blogspot” temos um mecanismo onde podemos compartilhar a postagem nas redes sociais ou ainda por email – várias -, seria interessante o termo aqui neste fantástico espaço, dá uma olhada nas configurações deste blog para ver se há algo similar, blz?
    Abraços, Wilson

  6. Indispensável Drica! Você sempre aparece como estrela nos papéis que desempenha. Assim foi sua participação no Fest Comix, vinda de Miami, perdendo as malas pelo caminho, mas apontando radiante no festival.
    E agora é a bola da vez no Blog do Tex, o mais aclamado do mundo bonelliano.
    Poxa! Tu não és pouca coisa não, hem?!
    Mas verdade, uma texiana de carteirinha, daquelas que compra dois livros do Tex para doar um para o papai e não consegue desprender. kkkk
    Parabéns por tudo que vc disse, muita sabedoria concentrada! E continua firme e forte com o Tex.
    Obrigado pelo carinho com a nossa maioria de Bengalas-Boy.
    G.G.Carsan

  7. Ah, esqueci de dizer que a aventura Os Assassinos de Texone 7 está para mim como The Good, the Ugly and The Bad… clássicos! Parabéns pela escolha.
    Concordo abundantemente e permanentemente.
    G.G.Carsan

  8. Olá, mais uma vez, Adriana.
    Sim, é verdade que os jovens de hoje dão prioridade aos mangás, mas já reparou que a linguagem estética, visual e narrativa destes tem grandes afinidades com certos vídeo-jogos em que se faz a apologia de um tipo de sociedade baseada no culto da violência e da força, apelando aos desejos mais massificados de gerações com poucas esperanças de futuro?
    Numa trama mais estruturada como a de Tex e do seu mundo, esses conceitos diluem-se numa óptica moralista que tende a acentuar a dicotomia entre bons e maus e a restabelecer o equilíbrio social fundamentado na lei e na justiça, através da sólida integridade dos seus agentes, de que Tex e os seus pards são fiéis exemplos.
    Seria difícil transpor esse mundo peculiar e conservador, embora violento, mas com valores bem definidos e limites que derivam do seu próprio entrosamento histórico, para cenários caóticos e apocalípticos onde a face dos homens e das coisas está em permanente mutação. Os jovens do século XXI, cujo pensamento gira à velocidade da Internet, não aderem a personagens e a conceitos parados no tempo, nem a quadrinhos cuja estética realista está bem longe das alucinações surreais em que os mangás geralmente são pródigos… sem com isto querer depreciar o interesse temático e artístico de obras como “Akira” e “Mother Sara”, por exemplo, antes pelo contrário. Não há regras sem exceção!
    Mas concordo totalmente com a ideia de que Tex, em português, precisa de ser mais divulgado, o que, quanto a mim, já está ser (bem) feito através de alguns blogs, com destaque para o dos nossos amigos Zeca e Mário… o melhor do mundo!

  9. @Jorge Magalhães Eu realmente não havia pensado nisso, mas faz todo o sentido.

    @Gera, olha só, eu tb estou por aqui hehehe! E q bom que vc tb gosta de Os Assassinos! Realmente, um clássico.

    E só pra finalizar, meu papis leu o post e achou muito legal, ficou super orgulhoso! Só pediu para eu corrigir que ele começou a comprar em 1971, mais especificamente no número 7 da ed. Vecchi. Mas as revistas eram em um formato um pouco menor e ele TROCOU pelas 2as edições que foram lançadas mais pra frente para ficar TUDO DO MESMO TAMANHO! Nem perguntei o q ele fez com as raridades da Vecchi, mas como não estão comigo, devem ter ido para o lixo… 😯

    Preciso dizer q eu segurei as lagriminhas? Não, né… 🙁 Ok, ok, podia ter dormido sem essa.

    Bjos!

  10. Adriana li sua entrevista, e me identifiquei muito com você, gostei da parte que vc disse que não gostava das histórias por elas serem em preto e branco, também não gostava no começo delas justamente por esse mesmo motivo, mas agora agrada-me de tal maneira que não consigo imaginar minha vida sem elas.

    Espero mais resposta de vc, leia minha entrevista e poste um comentário, estou esperando.

    bjos

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