Entrevista com o fã e coleccionador: Estêvão Freitas de Souza

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Estêvão Freitas de Souza e seus TEXourosPara começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Estêvão Souza: Sou natural de Franca, Estado de São Paulo, Brasil e nasci em 1970. Desde 1999 moro na cidade de São Paulo, onde trabalho numa administradora de fundos de investimento.

Quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Estêvão Souza: Com Tex, até onde vai a minha memória, o primeiro contacto foi em meados de 1976, naquela aventura dos tuaregs. Meus irmãos mais velhos já gostavam da personagem italiana e tinham várias revistas, tal como o meu padrinho. Um dia folheei uma das revistas e fiquei muito curioso, passei a “mexer” periodicamente na colecção deles. Ainda não era alfabetizado, entendia apenas algumas palavras soltas mas adorava histórias de bangue-bangue. Como não havia dinheiro para comprar todo mês, além de que o meu pai era muito severo com este tipo de gasto, às vezes meus irmãos conseguiam alguma emprestada.
A Biblioteca de Estêvão Freitas de SouzaNuma dessas, um amigo deles perguntou lá em casa se podia pegar de volta um dos Tex’s e eu falei: “Esse não, eu ainda não acabei de ler!”. Era “Pistoleiros de Laredo”, nº 75 da série normal. Foi um marco, ali consolidou-se a minha posição como leitor do nosso ranger. O amigo deles respeitou minha vontade.
Não me lembro de quando comecei a gostar de quadradinhos. Aliás, não me lembro de NÃO gostar. O ambiente na minha casa sempre foi muito favorável à leitura, muito incentivo. Não que meus pais quisessem que lêssemos quadradinhos, mas crianças e jovens acabam por experimentar esse veículo, dentre outros. Lembro-me, por exemplo, de folhear inúmeras vezes a edição do Cinquentenário Disney, lançado em Nov/73, que um dos meus irmãos havia comprado. Certa época, apareceram lá em casa vários álbuns do Tintim, emprestados desse mesmo amigo citado acima. É outra personagem que gostei à primeira vista e hoje possuo a colecção completa.

Tex's da 1ª ediçãoPorquê o Tex e não outra personagem?

Estêvão Souza: Humm… Tex é mais uma personagem que gosto mas ele realmente tem uma posição de destaque na minha colecção e no meu gosto. Nunca parei para pensar exactamente o porquê, mas acho que foi algo moldado com o tempo. Fui lendo e conhecendo muita coisa, várias ficaram pelo caminho e Tex continua, não perdi o gosto pelas histórias do ranger. E isso vale para incontáveis releituras que já fiz. Poucas são as revistas dele que li somente uma vez. É uma pena que hoje em dia o género western seja menos popular. Novidades periódicas só vejo em Tex. O cinema há muito deixou de apostar nos filmes, temos que nos contentar com os filmes antigos e lançamentos muito esporádicos. Isso também contribui para eu manter o vínculo com a personagem. Outro factor que teve bastante influência foi a popularidade do Forte Apache como brinquedo na década de 60 e 70.
Itens especiaisEu tinha várias miniaturas de cavalos, vacas, cowboys, fortes de madeira da marca Gulliver, etc.. Eu adorava esse brinquedo e meus irmãos também. Às vezes meus irmãos e eu juntávamos tudo que tínhamos e montávamos grandes fazendas num quintal de terra que havia nos fundos da nossa casa, era sensacional. Ali por 1969/70 meu irmão mais velho ganhou de presente uma fazenda miniatura chamada Ponderosa. Era incrível: havia os cowboys, cavalos e vacas de costume, patos, galinhas, as esposas dos cowboys, cercas para curral, casa grande da fazenda em madeira, casa de ferramentas (com miniaturas das ferramentas em plástico!) etc., algo inimaginável hoje em dia, não vejo mais brinquedos como aquele. Os cowboys eram pintados à mão, com boa riqueza de detalhes!!! Enfim, minha ligação com o género western é antiga.
Tintin é outra personagem que gosto bastante mas como não há álbuns novos e já reli várias vezes os existentes, hoje ele frequenta menos a cabeceira da minha cama.
Quando comecei a trabalhar, passei a ter algum dinheiro extra para quadradinhos. Acho que daqui a uns anos terei outras personagens de destaque na minha colecção. Martin Mystère, Júlia, Blake & Mortimer, Menino Maluquinho e alguns Disney, entre outros, são fortíssimos candidatos.

Estêvão Freitas de Souza e os Tex's coloridos e gigantes de Joe KubertO que Tex representa para si?
Estêvão Souza: Garantia de diversão, certamente. Uma tarde de sábado lendo Tex não tem preço.
Mas vou adiante, e digo que a personagem consegue manter um conjunto de valores interessantes: honestidade, lealdade aos amigos, senso de justiça, sensibilidade para ajudar os outros, apelo limitado ao dinheiro. São coisas que andam meio fora de moda, nossa sociedade parece que andou privilegiando em excesso a defesa única do próprio umbigo em detrimento da colectividade, além do a cúmulo infinito de dinheiro sem um propósito específico. Não que o Tex vá recuperar a sociedade, não é isso. Apenas digo que ele não cedeu nesses pontos e acabou mantendo seus valores intrínsecos, que já apareciam nos roteiros do Bonelli pai, e isso me agrada. Nesse ponto acho muito positiva a direcção e orientação do Sergio Bonelli.

EstanTEXQual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Estêvão Souza: Complicado… tenho as séries Normal, Coleção, Almanaque, Mini-séries, Colorida e Anual completas, com várias duplicatas, além de números avulsos da série Ouro e Gigante. Então, numa conta aproximada, umas 1.100 revistas. Não dá para falar na mais importante, mas tenho um carinho especial pelo álbum de figurinhas e pelo nº 82 da série normal, “Pat, o irlandês”. A capa dessa edição é muito bonita e daria um belo póster… fica a sugestão para a Mythos.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
Estêvão Souza: Só as revistas, actualmente. Mas já comprei de tudo no passado, inclusive os cigarros. Gostaria de encontrar o marcador de página e a figurinha que falta, mas são itens muito difíceis de encontrar. Coisas mais recentes, como as miniaturas de chumbo, não tenho interesse em coleccionar mas reconheço que são bem atraentes.

Pósteres de TexQual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Estêvão Souza: Novamente, não dá para falar na história favorita, mas um conjunto delas: série normal “A Batalha de Silver Bell” (3), “O Temível Coiote Negro” (39), “Os Apaches Atacam” (62-64), “Pat, o Irlandês” (82), “A Volta de Montales” (104-105). Além disso, várias histórias do início de Tex são bem boas: Mão Vermelha, Sindicato do Ópio, aquela onde Kit Willer aparece ainda criança e Tex torna-se amigo de Gros-Jean, o surgimento de Montales e Mefisto. São histórias de bastante acção e, mesmo com argumentos menos elaborados, muito divertidas, aventura pura!
Nunca fui de prestar atenção nos nomes dos ilustradores ou argumentistas. Alguns traços não me agradam muito, mas isso não faz com que eu deixe de ler ou goste menos da aventura. Prefiro não citar nomes nesse caso.

Estêvão Freitas de Souza e o álbum de cromos de TexO que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Estêvão Souza: Gosto de saber que Tex mantém um bom nível médio de suas histórias, fiel ao objectivo de proporcionar entretenimento dentro do seu género, com um herói de carácter bem definido – às vezes até excessivamente previsível. Recursos como erotismo e ficção científica, como o Ídolo de Cristal, são bem dosados, com a editora responsável mantendo um saudável equilíbrio mesmo após tantos anos publicando a personagem.
Já no quesito ‘não gosto’, após algumas décadas sendo publicada a revista, os amigos mais próximos de Tex (Carson, Tigre e Kit) puderam ser também bastante desenvolvidos. Entretanto, os argumentistas não os aproveitam e preferem mantê-los excessivamente como coadjuvantes. Claro que há excepções mas falo aqui da média das histórias. Tome-se, por exemplo, a história onde Tex é preso, série normal 106-109. Depois que nosso herói é preso, seus amigos partem para desatar os nós da história assumindo papeis acima daquilo que normalmente fazem. O resultado é um argumento bem encorpado e que, creio, agradou muitos fãs do Ranger. No Tex Anual de 2007 vemos também Jack Tigre assumir um papel com um pouco mais de destaque, libertando nossos amigos em determinada altura da história.

Colecção BDEm sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?
Estêvão Souza: A questão dos valores da personagem acima citada, o facto de ser ainda uma fonte de diversão com histórias inéditas de bom nível no género western, além de custo acessível para larga parcela da população brasileira.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Estêvão Souza: A editora original italiana não deverá ter problemas na sucessão dos argumentistas e desenhadores. Se o editor conseguir manter o controle sobre o estilo e principais características da personagem, sem modificá-los, creio que as revistas continuarão a serem vendidas por muito tempo ainda. Eu não tenho medo de não encontrar meu Tex mensal com histórias inéditas nas bancas, no futuro. Mas gostaria de ver seus amigos mais presentes como recursos de incremento das histórias.

EstanTEX'sOutras paixões

Prezado pard Estêvão Freitas de Souza, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das fotografias acima, clique nas mesmas)

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