Tex “A Mão do Morto”: Entrevistas exclusivas com os autores Mauro BOSELLI & Alfonso FONT

ALERTA: As entrevistas que se seguem com Mauro BOSELLI & Alfonso FONT revelam todas as surpresas da história “La mano del morto” (Tex italiano nº 593 a 595, de Março, Abril e Maio de 2010), e a sua lida antes da publicação da revista no Brasil e Portugal pode tirar toda a graça, emoção e suspense que se cria entre um capítulo e outro, e até mesmo com relação ao final da aventura.


Boselli e Font por Bira Dantas

Entrevistas conduzidas por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, Mário João Marques e Roberto Pagani na formulação das perguntas, de Bira Dantas nas caricaturas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino nas traduções e revisões.

MAURO BOSELLI

Mauro BoselliComo nasceu o projecto dessa aventura?
Mauro Boselli: Eu tinha esta ideia na gaveta há algum tempo. Dar uma explicação imaginária ao mistério não-resolvido da morte de Wild Bill, da qual sabe-se quem foi o assassino (enforcado) e da qual sabe-se que houve mandantes (Varnes e Brady, que nunca foram presos ou interrogados sobre o facto). A intenção de envolver Calamity Jane como vingadora surgiu já no início.

Na saga texiana as personagens históricas sempre foram usadas com parcimónia pelos roteiristas, desde G. L. Bonelli. Mas na história A Mão do Morto você usou de forma magistral várias delas, a começar pelos célebres Wild Bill, Buffalo Bill e Calamity Jane. Foi um episódio isolado ou, também a se pensar no Tex Gigante de 2009, no futuro você pescará com mais frequência na História?
Mauro Boselli: Tanto o Tex Gigante de 2010 quanto o de 2009, tão exóticos e históricos, partiram de uma solicitação precisa de Sergio Bonelli. Às vezes recorremos à História justamente para encontrar argumentos novos. Assim nasceram as recentes aventuras dos Jayhawkers ou dos Soldados Búfalo. O género faroeste É histórico! De todo modo, ao falar de personagens que realmente existiram ou de situações realmente acontecidas, é claro que devemos fazer isso com bom senso e não com muita frequência. Para nós, como dizia Ford, é sempre mais importante a Lenda!

Tex n. 593A presença de tantas personagens históricas não ofuscou o mito de Tex. O carisma do herói emerge em todas as situações e o próprio Carson – no fundo, também ele é uma personagem histórica – é um autêntico protagonista. A força moral de Tex e de seus amigos é arrasadora: sente-se na pele. É justa esta nossa impressão?
Mauro Boselli: Eu considero-a justa. O importante é não cair no didatismo e no tedioso. Tex deve ser o motor principal e resolutivo. Ele e seus pards.

A trama que você idealizou é bem complexa, e tem a virtude de ser desvendada de modo claro e de não deixar dúvida alguma. O final veio à sua mente no meio do caminho ou bastou seguir com naturalidade as acções de Tex e de seus pards para chegar a uma conclusão satisfatória?
Mauro Boselli: O final das minhas histórias nunca é totalmente decidido no início. Geralmente eu deixo que as personagens se movam sozinhas. Neste caso, elas investigaram…

Calamity JaneFale um pouco das duas personagens que, cada qual a seu modo, destacam-se no roteiro: Calamity Jane, que aqui vem como anjo vingador de alguém que amou, mas também Luke Harrigan, o bandido ao qual é concedida uma segunda chance.
Mauro Boselli: O que eu devo dizer? Calamity é um mito do Oeste. Quando jovem era até graciosa e depois se largou um pouco. Mas nós imprimimos a lenda. Intencionalmente ela só aparece no fim, como nas histórias épicas. Está, mas não se vê. Senão seria uma presença por demais limitante.

A figura do co-protagonista Luke Harrigan e a sua redenção estavam bem delineados na sua mente desde o início? Fica a impressão que você se afeiçoou ao simpático canalha 😉 no curso da obra, além das suas próprias intenções, e que a salvação dele deixou intuir um retorno futuro.
Mauro Boselli: Luke é mesmo uma daquelas personagens que nascem por circunstâncias fortuitas. Eu o descobri e conheci aos poucos, assim como aconteceu para Tex e Carson. Mas eu não pretendo fazer com que retorne. Ele não tem profundidade suficiente. É herói de uma história só.

Tex n. 594Kit Willer é considerado por alguns como uma personagem secundária. Mas nos seus roteiros o filho de Tex mostra um auto-controle explícito. O que lhe fascina nessa personagem, que você parece prezar muito?
Mauro Boselli: Eu digo sobretudo – com o risco de atrair críticas (às quais não ligo) – que os que detestam Kit Willer não são fãs de verdade de Tex. Ou são fãs incompletos. O aficionado por Tex tem que gostar de todos os quatro pards (e de Pat e de Montales e de Gros-Jean e de Mefisto e de Brandon e de Morisco… etc., sem exclusão!). Como verdadeiro fã de Tex, eu simplesmente uso Kit como ele merece. De volta aos fãs que odeiam Kit porque é jovem e esperto, creio que esses precisariam de uma bela sessão de análise.

Salta aos olhos que este roteiro é ambicioso: no tema, no desenvolvimento das personagens, no uso dos mitos do Oeste, no enquadramento dos vários rumos da aventura. Você acha que uma personagem com mais de 60 anos pode continuar a mostrar essa ambição?
Tex n. 595Mauro Boselli: Claro que sim. Se sabemos ou queremos fazer só as histórias de sempre, então mudamos de profissão. Às vezes é preciso ousar, não? Mesmo com o risco de descontentar a costumeira meia dúzia dos que não têm imaginação.

Os três volumes colocados à sua disposição permitiram alternar cenas agitadas e bastante dinâmicas a outras caracterizadas por um ritmo mais estendido e por um diálogo mais denso, necessários para resumir os acontecimentos. Houve alguma história anterior em que você sentiu a necessidade de mais páginas?
Mauro Boselli: Eu senti-me limitado em A Última Diligência, que era inicialmente prevista para três edições, e em Os Soldados Búfalo, que eu tive de comprimir em duas edições e meia. As outras histórias, bem ou mal, são como deviam ser.

ALFONSO FONT

Alfonso FontGeralmente as histórias assinadas Boselli & Font (e A Mão do Morto é mais uma confirmação) são cheias de coadjuvantes, personagens menores ou até mesmo simples figurantes cujo traço distintivo é a eficaz caracterização gráfica. Como você e Boselli compõem esse mosaico? Você tem liberdade na criação de todas as personagens ou as mais importantes são estudadas com o roteirista?
Alfonso Font: Geralmente Mauro prefere ter um estudo preliminar das personagens. Ele me envia uma descrição do carácter, a idade, e a participação no conjunto da história. Com isso, eu busco imaginar aquela personagem como alguém vivo, real, um ser humano que possa ter tais qualidades incluídas em suas características.

Wild Bill HickokA propósito de personagens importantes: a sua versão de Calamity Jane ficou óptima. A mulher aparece com o seu queixo pronunciado mas ao mesmo tempo – a parafrasear as palavra de Lupe (interpretada por Penelope Cruz) no filme Manolete – “a mais bela entre as feias”. Com base em que você e Boselli escolheram essa opção e como chegaram a defini-la graficamente?
Alfonso Font: Eu não gosto nem um pouco desses espectáculos bárbaros (n.t.: touradas) e não assisti a Manolete, não assistirei a Manolete e não me interesso pelo senhor Manolete. Esclarecida essa minha opinião, digo que Mauro tinha a ideia de uma Calamity Jane nada bonita, e eu estou com ele.

Carl MannA riqueza de ambientes e o esmero ao descrever os detalhes, das roupas às armas, é notável. Quanto trabalho preparatório foi necessário antes de você começar a trabalhar sobre o roteiro?
Alfonso Font: Uma história sem uma ambientação rica torna-se pouco crível, e eu tenho uma necessidade vital de fazer as minhas histórias o mais crível possível.

Quanto tempo você levou para desenhar esta aventura (visto que um trabalho tão longo constitui por si só uma verdadeira aventura)?
Alfonso Font: De doze a quinze páginas por mês. Então, dois anos?

Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou, e o que significa para si este trabalho de mais de 300 páginas?
Alfonso Font: Eu desenho quadradinhos há quarenta anos. Variar as dificuldades é um trabalho quotidiano. Às vezes o enquadramento para a boa compreensão da cena pode exigir mais, mas isso é só por pouco tempo.

Charlie RichDepois de quase 15 anos de colaboração profícua e ininterrupta, a sua parceria com Mauro Boselli foi (momentaneamente?) interrompida. Como se sente ao trabalhar com Pasquale Ruju? Que diferenças de estilo e de técnica você está a perceber?
Alfonso Font: Eu mal comecei. Fiz apenas as primeiras 20 páginas.

Para concluir, como é o seu relacionamento com Tex?
Alfonso Font: Há quantos anos eu vivo com ele? Doze, quinze? Ele é um amigo com uma ligação particular.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. …sempre na frente!!! Parabèns!!! Mesmo se eu nao gostei dos desenhos de Font… a història è òtima.

  2. Gostei bastante do Wild Bill desenhado por Font, lembra-me bastante o estilo do François Boucq (Bouncer). Não deixarei de comprar essa edição quando estiver disponível por cá!

    Agora, se para ser fã de Tex é preciso gostar de Kit Willer, El Morisco e Mefisto, tenho agora a certeza de que não o sou…

    Hunter (Pedro Bouça)

  3. Sou fã do trabalho de Alfonso e já vejo mais essa obra prima em minha coleção Texiniana.

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